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Recebemos nesta tarde, em direto, o escritor Valério Romão. Valério, obrigada pela disponibilidade. Bem-vindo, boa tarde!
Obrigado eu.
Olá, boa tarde, viva Valério.
Boa tarde.
Valério, dizem que é um dos nomes maiores da nova geração de escritores portugueses, mas eu também li que é um outsider literário. Qual destas descrições é que prefere?
Tenho mesmo que escolher?
Sim. Não sei. Se calhar não.
É complicado. Esta coisa de ser um dos nomes maiores e da nova literatura e dos jovens escritores, eu continuo a ser considerado, malgré a minha já pravecta idade, um jovem escritor. Acho que o limite deve ser 45 anos, como no caso dos agricultores. Não me sinto, de facto, um jovem escritor no sentido em que as coisas mudaram muito desde que se começava a escrever aos 50, aos 60 anos. As pessoas agora, parece-nos, começam a escrever muito mais novas. Sinto-me um bocado um outsider no sentido em que não estou numa editora grande, mediática e com capacidade e músculo para impor a sua vontade no mercado. Nesse sentido, sim.
Mas ainda vamos precisando destas etiquetas às vezes, não é?
Sim, qualquer uma. As pessoas sentem-se bem, sentem-se confortáveis em rotular, pelo menos conseguem meter nas caixinhas e organizar o pensamento.
E considera-se um grande geek informático também?
É, eu trabalhei a maior parte da minha vida em informática, portanto, sim. Embora não tenha tirado o curso de Informática ou de Ciências da Informática, acabei por coincidência, por trabalhar. O meu último trabalho foi 10 anos como administrador de sistemas numa empresa de aparelhos auditivos e digamos que tenho alguma apetência e gosto pela coisa dos computadores, pelo que deu um jeito.
Eu estava aqui a pensar: há quem marque férias para descansar, mas o Valério, neste caso, marcava férias para escrever enquanto trabalhava como informático, não é?
É. É esse o grande drama do escritor, que apesar de ser a criatura que menos precisa de meios para exprimir a sua arte, uma folha, um computador, qualquer coisa serve, é ainda assim aquele que precisa de uma coisa essencial, que os outros também precisam, mas que dispõem talvez de outra forma, que é tempo. O drama do escritor é ter que comprar tempo para fazer aquilo. E depois é um trabalho sem qualquer ou com muito pouco retorno financeiro, portanto, só se mete nisso quem de fato não tem grandes luxos.
Falando desse retorno financeiro, neste momento, o Valério já consegue viver de forma tranquila da escrita ou é preciso ir fazendo isto ou aquilo relacionado com outras áreas para se conseguir sobreviver e ter a consciência tranquila e alguma tranquilidade para escrever também?
A resposta adequada a isto seria, de facto, uma grande risada, mas vou poupar-vos a isso. Nem consigo viver tranquilo, nem consigo viver da escrita. Eu, para além de escrever e de ganhar algum dinheiro com crônicas, com isso e com aquilo, também traduzo e faço outras mil coisas para conseguir chegar ao fim do mês. De facto, escrever não é, de todo, uma ocupação que dê algum sossego financeiro. Daí eu perceber muito bem a advertência da minha mãe quando me disse para não me meter nisso.
E isso atrapalha quem quer escrever? Isso é algo que é impossível de esquecer no momento em que se senta para começar a escrever alguma coisa? Tudo isso está presente ou no momento de escrever, até porque os temas não têm que ser necessariamente relacionados com aquilo que se está a viver. Parte-se para outra e tudo isso fica lá para trás.
Havendo algum conforto, já não digo financeiro, mas o suficiente para um sujeito não se preocupar nas próximas duas semanas com ser despojado de casa ou ficar com fome. Sim, quando o sujeito se senta para escrever, as coisas decorrem com alguma normalidade. Mas não se consegue escrever com fome, assim como não se consegue lavrar com fome, assim como não se consegue estar num computador, numa secretária, num banco com fome.
Vamos aqui falar dos livros. 2012, lançou o "Autismo", que faz parte de uma trilogia. É uma história que tem aqui algo muito pessoal. Foi algo que aconteceu naturalmente? Já era um desejo fazê-lo dessa forma, começar por aí?
Não, foi uma coincidência. Eu não escrevia há muito tempo e em final de 2011, comecei. Não, talvez em maio de 2011, comecei a escrever uma coisa que me parecia ser um conto e que depois quando acabei, senti que era o primeiro capítulo de um livro que tinha a ver com uma experiência muito pessoal, que é o fato de ter um filho autista. E resolvi apostar as minhas fichas nisso com a consciência de que teria que lutar com algumas coisas a nível de processos, que era nunca ter escrito um romance antes, em primeiro lugar, e com o facto de não querer de todo que se tornasse uma experiência ou que o resultado fosse diarístico. Queria que fosse um romance e não uma espécie de poema.
Mas tem muito de ficção este livro, o "Autismo"?
Eu diria que é meio a meio. Muitas experiências são reais, embora bastante descaracterizadas, outras não são e têm circunstâncias reais que gravitam à volta delas, mas estou contente com ele Porque consegui fazer um livro que me era muito pessoal, sem que o parecesse em demasia ou sem que fosse uma coisa pirosa e a puxar a lagriminha. E porque, de facto, ficou um romance e não um diário.
Um romance que percebeu-se que era um romance mais tarde, durante o processo. Já lhe perguntaram isto várias vezes. É um escritor, é um autor que fala e que escreve sobre a família. O tema da família está muito presente. Por que isso acontece? Tem que ver com o passado Valério Romão, com o presente? Tem que ver com aquilo que vê nas outras pessoas? Tem exatamente que ver com aquilo que se passa consigo? Por que este tema está tão presente? Ou estamos todos enganados e é outra coisa.
Não, até agora tem sido o tema fundamental da minha escrita. Mesmo que quisesse negá-lo, seria um bocado tonto fazê-lo. Eu acho que tem que ver com duas coisas. Primeiro, é um território riquíssimo, à volta do qual posso construir o universo que eu quiser, mesmo a nível surrealista. E depois, porque eu sou um bocado preguiçoso e detesto investigar. E a família é uma coisa que está ali à mão e é-me fácil encontrar histórias que veiculem essa realidade sem precisar de munir-me de compêndios astronômicos ou de pesquisar sobre barcos no século XVII. Detestaria ter que fazê-lo, pelo que este parece-me ser a saída mais fácil para o problema da preguiça.
Mas sempre com um lado mais duro nessa visão ou com um lado mais cru?
Um lado real, um lado lúcido. Não considero que seja nem cru, nem duro. Considero que é uma realidade ao lado das outras, para as quais as pessoas não olham tantas vezes porque porventura é menos agradável.
Exatamente. E, portanto, é mais romanceada.
Sim. Tolstói dizia que só lhe interessavam as famílias infelizes, porque cada uma era infeliz à sua maneira, enquanto as famílias felizes eram todas felizes da mesma forma.
Estamos a falar de assuntos como o Alzheimer, por exemplo.
Sim.
Ou até uma gravidez que corre mal mesmo antes de chegar ao fim. E portanto, são temáticas que às vezes não têm tanto espaço também porque são menos agradáveis.
Porque são menos agradáveis. E porque agora a literatura é pra passar o tempo e não para, de certa forma, servir de peça de engrenagem na tradição literária, seja ela dura, seja ela confortável. Agora, má parte da literatura é uma forma de entretenimento ao nível de Hollywood, com uns pozinhos que caracterizam a nossa realidade, vestida com a nossa realidade.
Portanto, não é algo que nos faz pensar, sobretudo, e conhecer algo que pode não ser a nossa realidade, é isso que também quer transmitir.
E sobretudo, deixar qualquer coisa que permita caracterizar com alguma acuidade o que estamos a viver agora, que daqui a 60 anos será inacessível, a não ser pela quantidade astronômica de dados que já temos guardados online. E pela literatura e pelas formas de arte.
Valério, que é também um especialista em dados. Trabalhou muito tempo com dados.
Sim, em informática.
Essa questão da preocupação remete também pra questões de segurança, direitos de autor, tudo isso. Também é algo que o preocupa enquanto autor ou nem por isso?
Não. Sou completamente a favor das coisas da pirataria e das pessoas sacarem as coisas da net e lerem, verem e ouvirem. Não me preocupa nada. Pode-se dizer, por eu vender tão pouco, não me preocupa. Mas depois chegamos ao paradoxo. Se eu vendesse muitíssimo, se calhar também não me preocupava. Portanto, não sei, acho que estou seguro em relação a esta posição.
Portanto, chegar às massas, e há sempre essa questão aqui presente, quando se fala de vender muito, de vender pouco, de viver ou não dos livros e da escrita. Chegar às massas não é um objetivo, por si só, do Valério Romão. Ou nunca foi um objetivo do Valério Romão?
Eu acho que não sou um escritor, tendo em conta a forma.
Facilmente pudesse lá chegar.
Naquilo que tenho escrito até agora, e temos que talvez fazer este parêntese. Eu acho que sou um escritor que a única forma que eu tenho, de certo modo, de ter mais algum dinheiro em termos de direitos de autor, seria ter muitas comunidades de leitores minoritárias em vários países. Não acho que seja um escritor que consiga entrar numa grande editora e de repente fazer do autismo um best-seller ou da Joana um best-seller.
Entretanto, este "Cair para Dentro" está a ser preparado uma tradução pra França, já está concluído, isso já está certo?
Não. O projeto está lá e vai acontecer, mas ainda não começou sequer.
Mas já não está zangado com os franceses, pois não?
Não, já não.
Portanto, viveu lá?
Dez anos.
Dez anos. E não correu muito bem.
Não. Na infância, raramente as coisas correm bem, a não ser que se tenha muita sorte. Mas de facto, a minha infância não foi nada divertida. É engraçado agora que o município de Clermont-Ferrand resolveu dar-me um prêmio, que eu ainda não percebi muito bem o que é, personalidade do ano literária, uma coisa assim. A terra onde eu nasci, querem que eu vá lá em março. Eu era pra ir em Macau em março, novamente, mas com esta coisa do coronavírus, provavelmente não vai acontecer.
Não é boa ideia, se calhar.
Não vai acontecer o festival literário, porque ajuntamentos nesta altura com o vírus talvez não seja de todo recomendado. Pelo que se calhar vou à França receber Que eles me querem dar, que eu ainda não percebi muito o que é.
Entretanto, em França já foi finalista também de um outro prêmio, pelo menos deste, do Prix Femina, com o "Autismo". Foi esse o livro. E é um prêmio que é entregue por um júri que é exclusivamente feminino.
Sim.
Isso tem pra si também algum significado diferente?
Tem, até porque diria que 80% das minhas personagens são mulheres e são, de fato, as personagens mais fortes do que uma mulher ou várias mulheres de um prêmio que tem uma forte componente, que tem esse pendor. É importante saber disso, porque de alguma forma é um trabalho que vejo reconhecido.
Esta questão, por exemplo, das questões de gênero, as desigualdades, tudo isso também é algo que muitas vezes acaba por mobilizar alguns escritores e quem está no mundo das artes. Estas são também matérias pras quais olha com muita atenção e que quando escreve não deixa de lado, por exemplo.
Não, não me interessa nada disso na minha escrita. Interessa-me no sentido em que podem fazer parte de uma componente, ou de um personagem, ou de uma situação, ou de uma realidade de um livro. Não sou de todo politizado.
Não será o ponto de partida pra algo.
Não me interessa. Interessam-me outras coisas. Interessa-me manter um bocado afastado da política, seja ela na componente do ativismo, seja ela na parte da política partidária.
Não utilizar a escrita pra fazer campanha, qualquer que seja.
Não, completamente ao lado.
Falando de Macau ainda, escreve também uma crônica semanal. Como é que surgiu esse convite?
Foi um desafio do Carlos Morais José, que eu conheci através do Paulo José Miranda, que tem alguns laços com Macau. E foi uma coisa que aconteceu naturalmente. Ou seja, ele queria mais cronistas portugueses no jornal, cronistas que fossem escritores, que tivessem liberdade criativa. E eu aceitei prontamente, porque me pareceu uma oportunidade muito importante para escrever aquilo que eu quisesse escrever.
Uhum! E qual é a próxima? Já sabe ou não?
Não. Eu normalmente só sei no mesmo dia.
E sobre o que normalmente escreve pra quem o está a ler em Macau? É o que lhe apetecer, obviamente, mas normalmente preocupa-se com o tipo de público macaense, neste caso, que irá ler, apesar de isto ser em português, neste jornal, no "Hoje Macau"?
Preocupo-me a nível condicionado. Ou seja, eu sei que a maior parte dos meus leitores provavelmente estão em Portugal porque leem o "Hoje Macau" online e leem a crônica online. Mas como eu tenho um grande carinho por Macau e pela cultura chinesa, e pelas pessoas que estão em Macau, e por esse sítio impossível e incrível que é Macau, e por toda a China, acabo por escrever muitas coisas também que têm a ver com Macau e com a China, embora de uma perspectiva bastante ignorante. Mas não consigo evitar, porque de fato é uma coisa que me fascina e acaba por sair.
O livro "Cair para Dentro" está também nomeado para o Prêmio Literário Casino da Póvoa, o prêmio do Festival Correntes de Escritas. O Valério Romão foi o nosso convidado de hoje. Valério, obrigada pela disponibilidade.
Muito obrigado.
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