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No meio da lagoa, de noite, a ver os olhos dos crocodilos e eu a tirar a água devagarinho a dizer para o meu filho: "Rema devagar para eles não abanar. Cuidado!"
Bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com João Gonçalo Fonseca, 54 anos, líder de viagem, homem de muitas aventuras. Já deu uma volta ao mundo de bicicleta em duas fases, uma primeira com a mulher e anos mais tarde com os filhos durante 22 meses. Hoje vive no calmo e pacífico Alentejo. João Gonçalo Fonseca, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo desta semana.
Obrigado.
Como é que tu te iniciaste nas viagens?
Não sei se há verdadeiramente um início nas viagens, porque as viagens começam. Eu não vejo assim um início. Embora há uma marca que eu tenho, que é quando fiz a minha primeira viagem de bicicleta com um amigo, que fui de Lisboa até Sagres e Sagres, Vila Real de Santo António.
Que idade é que tinhas?
Tinha 16 anos, nas férias do verão. Levámos uma tenda, dormíamos a campismo selvagem, comíamos umas sandes com atum e pronto, talvez terá sido aí. Mas eu acho que as viagens já nasceram comigo, porque eu sempre quis partir. Aliás, lembro-me curiosamente, quando foi 25 de Abril, o meu tio tinha emigrado para o Brasil e o meu pai pensou nessa altura em emigrar. Houve um rumor lá em casa que ele talvez emigrasse e eu à noite, tinha nove anos, eu quase que rezava para que ele fosse, porque eu queria ir. Ia para o Brasil. Lembro-me deste pormenor, o apetite já de querer ir.
Era por ser o Brasil ou por ser uma viagem?
Não, era por sair, era por ir. Não me lembro muito bem se seria por ser o Brasil, mas não me parece que seja por ser o Brasil, parece-me que seja pelo facto de sair.
Depois dessa viagem de bicicleta de Lisboa até Vila Real de Santo António com 16 anos.
Depois viajei muito à boleia. Viajava pela Europa à boleia cada vez que tinha-
Anos 80.
Anos 80. Nas férias do verão viajava à boleia por Portugal, andei em todas as províncias, e depois comecei a ir para França à boleia. Chegava as férias e saía daqui praticamente sem dinheiro. Lembro-me que saí uma vez, tinha 500 escudos no bolso. Isso era o quê?
Dois euros e meio? Conversão direta.
Era dois euros e meio. Tinha umas latas também de sardinha, era sempre a lata de sardinha e um bocado de pão. Ia até França à boleia, saía de Lisboa, dos Olivais à boleia, só parava em França, depois ia à procura de trabalho nas vindimas. Arranjava 15 dias nas vindimas, depois viajava à boleia pela Europa, França, Bélgica, Holanda, Alemanha. Dormia sempre na rua ou onde me convidavam e pronto, era a minha vida. Depois voltava outra vez para as aulas, até que em 1988 decidi que queria sair da Europa. Então decidi ir à Turquia à boleia, depois de arranjar um emprego nas vindimas, ganhar algum dinheiro, fui até à Turquia. Quando cheguei à Turquia, a Istambul.
Que idade é que tinhas?
Aí tinha 23 anos. Aí é que cheguei e arranjei dormida num hostel daqueles de mochileiros, no centro de Istambul. E quando entro na receção à noite, vi uma rapariga bonita na receção e perguntei de onde é que ela vinha. E ela disse: "Eu sou suíça". Perguntei em inglês: "Where do you come from?" "I'm from Switzerland". Depois eu perguntei: "É da parte francesa ou da parte alemã?" "Sou da parte francesa." "Então podemos falar em francês." E perguntei-lhe onde é que ela ia. Ela disse que ia para África. Eu disse: "Vou para o sul da Turquia, depois vou para África" e disse: "Se calhar ia contigo." "Está bem." E partimos dois dias depois e foi até hoje, hoje é a minha mulher.
Muito bem.
E então parei e andámos a viajar durante dois anos.
Nem fizeram aquele percurso normal, namorar, casar. Viram-se, partiram em viagem.
Partimos em viagem, pois é. Depois aconteceu tudo. Uma longa viagem. Viajámos durante dois anos, entre 1988 e 90.
Essa viagem levou-vos a que sítios?
Eu, no fundo, tinha escrito um postal, porque era em 88. Tinha escrito um postal aos meus pais a dizer: "Para a semana volto". Devia voltar para o segundo ano da universidade.
Nesse curso misterioso chamado Matemáticas Aplicadas.
Nesse curso chamado Matemáticas Aplicadas. E depois na minha cabeça tinha decidido que já não voltava. Só que não tinha coragem de dizer que não voltava. E então fui adiando. Entretanto era quase Natal e eu não dizia nada. E os meus pais naturalmente preocupados, eu devia voltar para o segundo ano, não acontecia nada, não vinha, Natal.
Mas telefonavas?
Não, não telefonei, não disse mais nada, zero. Eu nunca fui muito de telefonar. E então ali tinha escrito só um postal e depois não disse mais nada até dezembro. E na altura tinha acabado a guerra, Irão e Iraque, eles tinham estado oito anos em guerra e tinha acabado exatamente em 1988. E tínhamos conhecido uma alemã que tinha passado pelo Iraque e que disse: "O Iraque espetacular, estão a receber os turistas, já não vêm turistas há montes de tempo, supergir, dá para ir agora". E motivou-nos. Só que para ir ao Iraque nós precisávamos de uma carta da nossa embaixada a dizer que sim, senhor, autorizava, responsabilizava-se pelo cidadão João Gonçalo tal. E só com essa carta é que na embaixada do Iraque nos davam o visto. E quando eu vou à embaixada de Portugal pedir essa carta e ela viu o meu nome, ela disse: "O seu pai anda à sua procura, quer telefonar." E foi aí que eu telefonei: "Onde é que está?" E depois quando ele soube Porque eu estava vivo, ficou contente, mas depois perguntou-me onde eu estava, se estava em Ankara. "Então e quando é que voltas?" Eu disse: "Talvez para o ano". Aí é que foi um bocado o descalabro. Aqueles que estavam nos estudos era muito importante.
Tu ias ser o primeiro licenciado da família?
Não, a minha irmã mais velha, não sei se já tinha acabado. Nós somos cinco, eu sou do meio, ela quatro anos mais velha que eu, provavelmente ela já tinha acabado.
Porque era um objetivo muito marcado das famílias dos anos 80.
Era.
Ter o filho licenciado.
Era um bocado isso, os estudos, uma coisa muito importante.
E logo num curso difícil, Matemáticas Aplicadas.
No fundo, eu queria também estudar Informática e acho que só vi na altura um sítio onde se podia estudar Informática e eu não entrei. Era muito alto. Era um ramo, porque a Matemática Aplicada era aplicada à Informática, ou investigação operacional, então era um bocado esse ramo.
Muito bem. Então e partiste, na altura, tua companheira Valérie, companheira de viagem, que depois se tornou companheira de vida, em direção à África do Sul.
Não, sim, em direção à África. Em direção à África do Sul, mas não chegámos à África do Sul.
Foram até onde?
Fomos até as Cataratas Vitória, fronteira Zámbia, Zimbabué. Mas trabalhámos em Israel para ganhar algum dinheiro, nos moshav farhan, no deserto Neguev, colher pimentos e plantar melancias. Aquilo era tipo campo de concentração, era no meio do deserto, a sete quilómetros da Jordânia, cheio de arame farpado à volta. Havia vários kibutz, que as pessoas iam para lá, trabalhavam todos juntos, era um terreno para várias famílias e as pessoas que trabalhavam quatro horas não recebiam. E havia os moshavs, onde se recebia um bocadinho. Pagavam pouco, mas recebia-se alguma coisa. E cada família tinha três ou quatro trabalhadores. Nós éramos quatro, éramos dois casais. De manhã ele saía com o trator, nós íamos para o deserto. Estivemos lá dois meses e depois com esse dinheiro fomos para o Egito e daí apanhámos o avião para o Quénia, Tanzânia, Zámbia e República do Congo, Zaire, na altura.
Sempre a viajar e nunca a trabalhar aí.
Aí sempre à boleia, era sempre viajar à boleia, dormi sempre na rua ou em casa de pessoas. Acho que aí era a grande aventura. Viajávamos, como falámos um bocadinho antes, só com o fotocópia do mapa de um holandês que encontrei em Nairóbi. Ele tinha um mapa, eu pedi-lhe para tirar fotocópia, tirei fotocópia. Para me situar um bocado no mundo, que eu nem sabia muito bem onde é que andava. E depois seguimos. Na República do Congo, tivemos a nossa aventura de comprar uma piroga e descemos um rio, que era o rio Cassai, durante três semanas, com crocodilos, hipopótamos. Tivemos medo algumas vezes. Dormíamos em ilhas de areia e na segunda noite começámos a ouvir os hipopótamos dentro d'água e tivemos medo.
Dos hipopótamos?
Ouvir os hipopótamos dentro d'água. Tivemos medo dos hipopótamos. E aí nesse rio parávamos em aldeias onde havia pessoas, crianças, elas choravam, mas choravam de pânico, terror de nos ver.
Mas por quê? Porque nunca tinham visto um homem branco.
Sabiam que existia por causa da escola, mas não há estrada de acesso, o acesso era por rio só. Portanto, os miúdos viam-nos e fugiam, mas era mesmo terror. Eram os gritos, a chorarem, a chamar os adultos, depois vinham os adultos e nós íamos. Então era a aldeia toda a correr atrás de nós.
Estamos em que ano?
Isto em 1989. E depois íamos falar com o chefe da aldeia, então ficava eu e a Valérie à frente do chefe da aldeia. A aldeia toda olha para nós e havia o professor, que falava um bocado francês, então servia ele para intérprete. E depois dormíamos sempre dentro da casa do chefe, que ele não nos deixava montar a tenda fora, tinha sempre um quarto para os hóspedes. E foram três boas semanas de aventura.
Aí ainda não pensavam criar esse projeto chamado Volta ao Mundo de Bicicleta.
Não, isso veio mais tarde. Depois acabámos por chegar a Kinshasa, capital do Zaire, República do Congo, agora. E aí fui à Embaixada Portuguesa e lembro-me de dizer: "Olha, sou português, não têm uns jornais?". E ele falou com aquela cara: "Coito a sua mãe. Telefone para casa". Telefonei.
Telefonei para tua mãe.
Telefonei, estava ali e depois a chorar, foi lindo, aquelas emoções todas. E houve um belga que nos convenceu a ficar em Kinshasa. "Vocês estão fartos de viajar, fiquem agora aqui um bocado a descansar". E acabamos por ficar seis meses em Kinshasa, ainda dei explicações de Matemática à comunidade portuguesa. Havia um clube português com piscina e tudo. Nós estávamos naquela idade, 23 anos. Tinha 24 aí, já. 24, ela 23. Havia os jovens até aos 17, depois vinham para Portugal para estudar na universidade e havia os mais velhos, que eram os que tinham a minha idade agora, 40, 50. E nós estávamos ali uns 24, era ali no meio. E então dávamos um bocado com as pessoas mais velhas, depois passaram-nos um cartão branco, éramos os aventureiros, viajantes aventureiros, um cartão branco para ter acesso ao clube português.
E tu aí pensaste: "Bom, sou uma pessoa importante".
Não. Importante não.
Viajante à boleia para pessoa com cartão branco.
Não, cartão branco no sentido de não precisar de ser sócio do clube para entrar. Como estávamos lá temporariamente, era um cartão para ter acesso ao clube. Portanto, é um cartão branco assim, não de uma pessoa importante. Não te sentes importante. Sentes que tens alguma importância, mas isso faz parte do ser humano. Todo ser humano se sente em algum momento da vida alguma importância. Mas longe de ser importante ou de procurar ser importante.
Há aí um detalhe que eu gostava de explorar. Disseste que quando chegaste à Embaixada Portuguesa em Kinshasa, na antiga República Democrática-
Não, antigo Zaire.
No antigo Zaire, exatamente, agora República Democrática do Congo, pediste jornais portugueses. Por que pediste jornais portugueses?
Queria saber umas notícias de Portugal.
Lembras-te das notícias?
Não me lembro.
Não te lembras.
Não me lembro. Acho que o jornal também não sei se eu queria verdadeiramente saber as notícias ou se foi um bocado um pretexto de acesso.
Deme civilização.
Pode ter sido, sim, um bocadinho. Aquela idade, cabelo maior, barba, chinelo no pé.
João, como é que surge a ideia de dar uma volta ao mundo e em que contexto é que ela surge, em que época da tua vida?
Depois voltamos à Europa. Fizemos uma viagem entre 1980 e 90, dois anos de viagem. Apanhámos o avião para a Suíça, para Genebra, e depois eu decidi voltar à universidade. E para voltar da Suíça para Portugal, eu vinha com aquela: "Agora tenho esta viagem, dois anos, para voltar, como é que eu vou para Portugal? Não me apetece chegar muito rápido". E disse: "Bom, vamos de bicicleta". Fizemos a nossa primeira viagem de bicicleta juntos, foi em 1990, viemos da Suíça até Portugal de bicicleta. Para ir devagarinho, para ir me mentalizar: vou chegar, vou voltar, o que é que vou fazer? Vou estudar outra vez, ver os meus pais, ver as pessoas todas. Foi para ir me mentalizando que vinha chegar outra vez. Fizemos essa viagem, demorou um mês a chegarmos, depois separámo-nos. Ela foi para a Suíça, eu fiquei em Portugal. Estávamos muito apaixonados.
Suponho que ainda estejam.
Sim, embora a paixão é outro tema. A paixão, quanto tempo dura, não dura, etc. Ela foi para a Suíça, eu vim para Portugal, eu fiquei em Portugal, voltei e depois no Natal fui ao Boleia, à Suíça. Ela de repente apareceu-me no Carnaval ou na Páscoa, quando eu cheguei à casa dos meus pais, ela estava lá. E depois ela voltou e nós escrevíamos, telefonávamos, ela queria casar, então combinamos de casar por telefone. "Então e se casarmos?" "Pode ser, é boa ideia." "Então casamos onde?" "Queres casar?" "Sim, quero casar." "Então está bem, é onde? Casamos onde?" "Aqui em Portugal ou na Suíça?" "Casamos aqui na Suíça", dizia ela. "Está bem." "Os meus pais organizam aqui." "Então quando?" "28 de setembro." "Está bem, pronto, está agendado." Agendámos o casamento assim. Agendámos o casamento para 28 de setembro, casámos, ela veio para Portugal, eu acabei a universidade, entretanto dizíamos na brincadeira aos amigos que qualquer dia íamos para a China de bicicleta. Depois dizíamos isto a rir, num fim de semana, numa jantarada. Até que eu acabei o meu curso, comecei a trabalhar, fui professor, fui programador e ao fim de um ano, eu hoje em dia costumo dizer, eu vi uma fotografia minha na altura, como eu só tirava para o currículo, com gravata, e eu vi uma fotografia dessas recentemente. E eu olhei para aquela fotografia e disse: "Se eu fosse patrão e visse esta fotografia, eu nunca lhe dava emprego a este tipo".
Por quê?
Era um tipo triste, com cara de rangula na fotografia. Não era possível ninguém dar emprego àquela pessoa. Ainda bem, porque via que aquilo não era mesmo para mim. E ao fim de um ano decidimos: vindo de um emprego que não correu bem, que era para ficar lá e depois não fiquei, de um estágio, eu cheguei a casa e disse: "Vamos embora, vamos para a China de bicicleta", e começámos a preparar. A ideia já andava cá atrás, qualquer dia íamos fazer uma grande viagem, e nesse dia pusemos mãos à obra e decidimos: vamos começar a nossa volta ao mundo.
E quando é que partiram?
Partimos em 1996, depois como a minha mulher é suíça, era mais fácil ganhar dinheiro na Suíça, então fomos um ano para a Suíça trabalhar, em 95.
Sempre com a possibilidade assumida.
Aí já era com a decisão. Aí já era assumido.
Vamos trabalhar para ganhar dinheiro.
Acabou Portugal, acabou o apartamento em Lisboa. Tivemos cinco anos a viver em Lisboa juntos, acabou o apartamento em Lisboa, vamos ganhar dinheiro só com este objetivo de partir de viagem. Já era assumido, já tínhamos o plano, já tínhamos tudo. Planeámos a volta ao mundo em quatro anos, e era dois anos na Ásia, e depois era ir para Austrália e Nova Zelândia e dois anos nas Américas, América do Sul e América Central. Mas como os nossos planos saem sempre um bocado ao lado, ficámos quatro anos na Ásia.
A vida é traiçoeira.
Pois.
Foram vocês que quiseram ficar na Ásia ou foi a Ásia que quis que vocês ficassem lá?
Não, eu digo sempre que somos nós, porque eu assumo sempre isto como uma escolha. Poderia ser isso, mas hoje em dia assumo tudo. Tudo, não sei, porque se for um acidente, de repente não é uma escolha. Mas senão, todas as decisões são tudo escolha. Eu acho que assim somos responsáveis das nossas coisas. Foi uma escolha de prolongarmos sempre o tempo. Queríamos ficar seis meses na China, ficámos um ano. Queríamos ficar três meses no Nepal, ficámos um mês. Seis meses na Índia, ficámos um ano também. Portanto, prolongámos bastante a viagem.
E fizeram porquê?
Mas se calhar a Ásia também chamou por nós. Sobretudo por mim. Eu prolongava mais as estadias nos sítios. A Valérie empurrava mais e eu prolongava mais. Prolongava mais, tipo: "Já estamos aqui há muito tempo, vamos embora", eu: "Não, vamos ficar mais um bocadinho". Íamos ficando mais tempo.
Para concluir, saíram para uma viagem de volta ao mundo por quatro anos.
E ficámos quatro anos na Ásia.
E ficaram quatro anos na Ásia.
Fomos pela Rússia, Cazaquistão e depois China. China, atravessámos os Himalaias, que aí foi talvez a maior aventura em bicicleta. Fizemos uma estrada proibida, pedalamos 2500 km com uma altura média de 4000 m de altitude, passámos vários passes a 5000 m e a estrada era proibida para estrangeiros, então tínhamos que pedalar às 03:00. Púnhamos a tenda, depois pedalamos às 03:00, havia controle da polícia e então tentávamos binóculos a ver os polícias às 03:00 passar. E houve um momento que era um grande controle, numa cidade pequena no meio do Tibete, e estavamos ali 20 minutos, meia hora, a olhar para os polícias com os binóculos longe, que eles não saíam dali. Até que de repente eles atravessam a estrada todos, é agora, e a gente começa a pedalar por ali fora e os cães atrás de nós. E pedalávamos assim. E sempre a estrada terra e de pedra. Eu perdi 15 quilos. Tínhamos comprado rações militares, eram umas barras chinesas, então era pequeno-almoço e almoço, era ração militar, e à noite cozinhávamos qualquer coisa, tentávamos às vezes parar em algumas aldeias que passávamos e comprar uns legumes E foi uma parte bastante dura da viagem.
Estamos à conversa com João Gonçalo Fonseca, viajante português e líder de viagem. Já a seguir, "Álbum de viagem". Há algum objeto que tu tenhas trazido das tuas viagens que guardes com especial carinho, que é aquele objeto que tu mostras aos teus amigos, de uma grande conquista que tenhas conseguido numa viagem ou uma grande compra? Ou aquisição? Ou oferta?
Um grande objeto que eu tenha a pensar, não tenho. Não tenho um grande objeto por acaso. O único objeto que eu tenho agora em Estremoz, que guardo e que mostro, é a bicicleta mesmo, da primeira viagem, sobretudo da primeira.
Conservas essa bicicleta?
Essas tenho lá, porque essas são umas bicicletas ainda com os travões daqueles antigos em triângulo. Quando eu comprei as bicicletas, fui a uma loja e disse: "Olha, eu queria fazer mais ou menos 20 mil km, o que é que me aconselha?" Ela aconselhou-me aquilo e eu não percebia nada de bicicletas. Hoje em dia já percebo bastante mais. Portanto, essas bicicletas tenho lá e é a única, isso mostro. É essas que eu mostro. É o meu troféu, entre aspas, se quisermos, de viagens.
Não és viajante de ir comprar souvenirs.
Não sou. Não somos e também era sempre assim, carregar, estar a carregar as coisas. A pessoa está a viajar, ainda vais viajar mais um ano, então estás assim, como é que é? Vais carregar mais durante um ano isso? Então não carregas nada. E aqui nem me lembro de coisas, deve ter para lá coisas, mas nem sei muito bem. Portanto, não há assim um grande objeto.
Estamos à conversa com João Gonçalo Fonseca. Na segunda parte, vamos saber como é viajar de bicicleta pelo mundo com duas crianças. Até já. Segunda parte das conversas do fim do mundo desta semana, estamos à conversa com João Gonçalo Fonseca, líder de viagem, 54 anos. Já deu uma volta ao mundo, primeiro com a mulher e depois com os filhos. E é isso que vamos querer saber: como é que é viajar de bicicleta com duas crianças pequenas.
Pois, isso é um bocado diferente, realmente.
Antes de mais, uma pergunta de pai consciencioso: não é um bocadinho irresponsável?
Eu fazia já outra vez. Era já, direto. Houve um tempo que tive algum medo.
Que idade é que eles tinham, os teus filhos?
Tinham oito e 10 e acabaram com 10 e 12. E como qualquer pai, tu também és pai, sabes bem que toda a gente quer o melhor para os seus filhos. É um amor incondicional e nós queremos dar o melhor. Portanto, os primeiros meses foi: "Então, será que isto é bom para eles?"
Começaram onde?
Começámos em Estremoz, porque a gente vivia em Zurique. Entretanto, nós voltámos a Portugal, fomos para a Suíça, a minha mulher engravidou lá, tivemos lá os dois filhos, estivemos 11 anos na Suíça, em Zurique. E chegou o momento que eu disse: "Chega, não quero viver mais na Suíça, quero voltar para Portugal. E entre a Suíça e Portugal, vamos fazer uma viagem com os filhos". Eu sempre quis viajar com os filhos, mas nós tínhamos um certo medo. Será que isto é bom para os filhos? Será que não? Eu costumo dizer, eu autoconvenci-me que era bom para eles, porque eu queria ir. Mas perguntava um bocado aos pais na Suíça, perguntava: "E tu ias com os teus filhos?" E a maioria até iam, diziam que era preciso coragem. Então deixámos tudo na Suíça, vendemos o que tínhamos. Ganhámos um concurso, que também ganhámos o concurso que aí conseguimos juntar muito dinheiro, que havia um conjunto de 200 casas, que pertenciam a um banco e que trabalhava com uma empresa de marketing. A empresa de marketing disse que: "Vamos arranjar uma família para viver numa das casas", porque a construção não estava acabada, "e será a família marketing". E para concorrer, tínhamos que fazer um vídeo durante três minutos e o vídeo que nós gostarmos mais será a família que ganhará o concurso. E então dedicámo-nos ao vídeo a fundo, fizemos o vídeo de três minutos e ganhámos. Portanto, pudemos viver numa casa grátis durante um ano. Passámos de um pequeno apartamento para uma vivenda grande, com três casas de banho.
Sem pagar nada.
Sem pagar nada, foi uma maravilha. E então juntámos dinheiro para ir de viagem. Pronto, então decidimos ir de viagem.
Muito bem.
As crianças.
Estamos em que ano?
Estamos em 2014. Portanto, no fundo, não era acabar a nossa volta ao mundo, que tínhamos ficado pela Ásia quatro anos, então decidimos ir para as Américas, que era para acabar a nossa volta ao mundo com as crianças. E então vendemos tudo o que tínhamos na Suíça, não era muita coisa, mas o que tínhamos, o que não tínhamos. Fizemos tudo, viemos para Portugal com as bicicletas numa carrinha que eu tinha. Chegamos a Portugal, a Estremoz, inscrevemo-nos em escola doméstica, que se pode, e tem que se inscrever numa escola, então inscrevemo-nos em Estremoz. No dia da partida fomos à escola, temos uma fotografia com os professores e os alunos e todos à porta da escola e partimos em direção a Lisboa para apanhar o avião para o Brasil. O primeiro dia foi fabuloso, as crianças motivadas.
Primeiro dia de viagem é em Portugal.
Finalmente chegou o dia, uau, eis-nos! Pedalamos 20 km até ao Vimieiro. Maravilhoso. Acampamos no Vimieiro. Para montar as tendas, duas horas, eles todos a perguntar: "Pai, como é que é isto? Mãe, aquilo?" Montar a tenda, um monte de tempo. Quando fomos para as tendas, eu e a Valéria perguntávamos: "O que estamos aqui a fazer?"
Onde é que é a estrada para Estremoz?
Estavas tudo no conforto, de repente não tens nada. Bom, o primeiro dia eles motivados, segundo dia foi quase o pior. Eles começaram a pedalar, começou a ser duro, era assim: "Pai, pedalar para quê?" Eu disse: "Isto vai ser giro, vamos conhecer gente, vamos ver paisagens." "Onde? Não vês nada, isto é duro." Lá inventei um jogo de motivação, era contar as garrafas de plástico que encontrávamos à beira-estrada. Mas infelizmente havia muitas. Quem via a primeira garrafa dizia: "Uma, duas". E havia muitas, não dava pra contar. Então passamos para os sapatos. Andei a contar sapatos até ao Brasil, durante dois meses.
Quantos sapatos contaste?
Já não me lembro. Contei muitos e ganhou ele. Eu digo que o deixei ganhar, ele diz que não, ele não pode ouvir isto.
É o chamado dar ao sapato.
Foi.
E depois chegaram ao Brasil.
Chegámos ao Brasil, começámos a pedalar no Brasil.
Aterraram onde no Brasil?
Rio de Janeiro. Chegar ao Rio de Janeiro e começar a pedalar. Eu até disse à Vânia: "Não vamos pedalar pro Rio de Janeiro. Isto é uma cidade grande." Crianças, 8 e 10 anos, com alforjes e bagagens deles. Nós tínhamos no total 100 quilos de bagagem entre todos.
Entre os quatro?
Entre os quatro. Portanto, computador, máquinas fotográficas, livros, roupa de inverno, roupa de verão, luvas de inverno, de verão, collants, casacos pra chuva, etc. Costura, primeiros corres, duas panelas, dois fogõezinhos pra cozinhar.
E começaram a vossa viagem de 22 meses.
22 meses. E no primeiro dia no Rio de Janeiro foi assustador, porque depois decidimos ir ao Rio de Janeiro e pedalamos, e começamos a pedalar. Entretanto, estávamos na Avenida Brasil, que aquilo era um trânsito louco e a criança a chorar. Oito anos, com a bicicleta, a roda 26, alforjes e a gente sem poder fazer nada. Entretanto, começamos a ver muitas favelas e uma pessoa ouve aquelas histórias todas e começa a ter um certo medo, porque ouve tanta história. E começávamos a ver, era assustador. E vimos um posto da polícia e eu fui lá. Fui lá e disse: "Estou aqui com a família, queria ir pro centro do Rio de Janeiro, como é que é?" Eles disseram: "Aqui é um bocado perigoso, esta zona, mas você nem sequer devia estar aqui. Mas olhe, quando chegar ali ao Y, tem o Y, vá pela da direita e vai lá ter." E arrancamos. De repente, vem um carro da polícia com sirenes, escolta, e acompanharam-nos a passar aquilo tudo. Foi maravilhoso.
Fantástico!
O trânsito acabou e tudo. Depois continuamos.
Depois do Brasil, foram pra onde?
Brasil, Paraguai. Paraguai, Argentina. Argentina, a pedalar até São Pedro do Atacama. Aí foi muito difícil, porque foi passar os Andes, passámos a 4850 metros de altitude, a comer lentilhas durante 10 dias. Os filhos, havia um que não gostava muito de lentilhas, já adorava lentilhas, já comia crua, meia crua, cozida, já era de qualquer maneira, porque é assim: "Ixe, não tá bom." "Olha, não há mais, não há frigorífico." Portanto, era o que havia. Passamos 10 dias aí que foram um troço difícil.
Foi o momento de maior tensão da viagem?
Não, o momento de maior tensão-- há uma grande aventura, que eu não sei quanto tempo é que temos.
Podes contar.
E que não queria deixar de contar, que acho que foi a grande aventura da viagem. Eu diria quase a minha única aventura, a minha grande aventura, que foi quando decidimos descer o rio Napo e o Rio Amazonas e andámos dois meses no meio da selva. Construímos um barco com um senhor no Equador, pusemos as quatro bicicletas e era realmente um barco a remos e andámos dois meses em pura selva. E aí tive medo várias vezes.
Os quatro, sozinhos?
Os quatro, sozinhos.
Sem mapa, sem guia?
O mapa sim, porque o rio era sempre em frente.
Era sempre a descer, não é?
Tínhamos o mapa, mas não tínhamos GPS, nem nada disso. Tínhamos só o mapa, era sempre em frente, era o rio Napo, que é um afluente do Rio Amazonas e depois o Rio Amazonas.
Portanto, tu com 50 anos, a tua mulher e os teus filhos com 8 e 10.
Sim, aí já tinham 9 e 11. Mas eles queriam ir à Amazônia, porque houve uma altura que nós falávamos muito disso. Eu comecei a procurar na net. Isto veio da África, descemos em África o rio Cassai, com a piroga, descemos no Laos, naqueles quatro anos de viagem, comprámos um barco e descemos o rio.
Portanto, há aí um padrão.
Começou a haver um padrão de rio.
Portanto, achaste que hipopótamos e crocodilos em África não são suficientemente assustadores. Eu tenho que descer o Amazonas durante dois meses.
Dois meses, foi.
Pra me confrontar com piranhas e o desconhecido.
Foi, confrontámo-nos. Por exemplo, a tomar banho no rio e a seguir o meu filho pescar uma piranha, parar numa aldeia, o pescador não ter um bocado do dedo do pé, que a piranha lhe tinha comido o dedo do pé. O barco quase a virar no meio do rio com uma tempestade que se levantou e aquilo começou a haver ondulação e o barco todo a virar. Nós tínhamos um teto e com o teto tínhamos uns tubos lá, tipo algeroz, para recuperar a água da chuva, que era a água que bebíamos. Compramos 20 quilos de arroz, sete quilos de lentilhas, mas depois era comer peixe. As pessoas super simpáticas.
Que vocês pescavam.
Que nós pescávamos e que as pessoas nos davam, que deram-nos montes de peixe. E aí houve vários momentos de muita tensão. O barco, por exemplo, a fugir contra troncos no meio do rio e a bater contra árvores que estavam espetadas no meio do rio, ficar ali encalhado três horas e dizer: "Ninguém nos tira daqui, não conseguimos sair daqui. Como é que vamos fazer?" A chover torrencialmente e depois lá saímos, por isso é que aqui estou.
Ainda bem. João, como é que se gera esse lado divertido, agora visto à distância dessa aventura?
Depois é sempre mais divertido.
Depois é sempre mais divertido. Mas não deve ser fácil viajar, e quem nos ouve deve estar a fazer essa pergunta: como é que é viajar com duas crianças que têm 8 e 10 anos, que são criaturas frágeis e vulneráveis e que deviam ter mais certezas do que dúvidas na vida. Ou pelo menos deviam estar acompanhadas de dois pais com mais certezas do que dúvidas.
Pois, mas isso, as certezas e dúvidas, pode ser na viagem como aqui em Lisboa.
É verdade.
Porque aquilo que nós somos, nós levamos pra viagem. Portanto, estando aqui ou lá, uma pessoa é igual em viagem ou não, não muda muito.
Sentiste que esta ideia que as crianças precisam de ser protegidas e precisam ter segurança.
Acho que são superprotegidas, é um bocado protegidas a mais aqui.
Mas, por exemplo, os seus filhos reclamaram segurança e proteção?
Segurança e proteção, não, reclamavam era das subidas. "Ixe, pai, isto é muito, isto é muito a subir." Isso reclamavam. Agora, segurança e proteção, não. Quando foi a história da Amazônia, nós andávamos à procura de descer um rio e eu encontrei um suíço que tinha feito esse rio e contactei-o antes. "Então, como é que é? Achas que está para descer com as crianças e tudo?" E ele disse-me que sim, ele tinha feito também esse rio e ele continuou, ele foi até mais longe. E depois houve uma altura que eu disse: "Ou vamos a Galápagos ver as tartarugas, ou vamos descer à Amazônia". E eles disseram logo: "Amazônia!". Quando fui para atravessar o Salar do Uyuni, aquilo estava cheio d'água. A história é longa.
Abreviar.
A abreviar: nós éramos para atravessar o salar, as pessoas diziam-nos que não. Nós pusemos a tenda à entrada do salar e depois no dia seguinte, nós cheio de indecisões: "Atravessamos, não atravessamos, é perigoso, não é? Quantos quilômetros são?" Diziam-nos que era 100, que era 80, alguns condutores que passavam de carro. Até que houve um condutor que passou com um turista ao lado, suíço, que nos disse: "São 70 quilômetros". E nós: "70? Dá para fazer, dá para fazer, vamos embora". E pusemos a tenda. Mas de noite começamos a pensar. Foi uma tempestade à noite incrível, choveu imenso, que era a última coisa que nós queríamos, o salar ficava com água. E de manhã quando nos levantamos, assim indecisos ainda se íamos, se não íamos, se não tínhamos que dar uma volta de 200 e tal quilômetros. E não era só isso, perdíamos aquela beleza, que foi das coisas mais bonitas que eu vi até hoje, é o salar da Bolívia cheio d'água.
Deve fazer um espelho de água brutal.
Exatamente. Dizem que é o maior espelho do mundo. E depois perguntamos às crianças: "E vocês querem ir ou não?" "Ya, vamos!" Porque eles não veem muito o perigo. As crianças não viam muito o perigo.
O que os teus filhos aprenderam que não podem aprender ou que não iriam conseguir aprender na escola?
Muitas coisas. Primeiro, não ter as eletrônicas sempre ao lado deles, não estar dependentes como os meus filhos. Agora são iguais aos outros, também se puderem ter o telefone, estão sempre a jogar, estão sempre nas mensagens, etc. Mas dois anos que tiveram sem isso. Nós tínhamos computador, portanto víamos, tínhamos acesso, mas não é aquele acesso permanente. Eram duas semanas, sem nada, mais até, sem acesso a eletrônicas e a tecnologias e às redes. Isso permite a criatividade deles se desenvolver também, porque eles inventavam jogos. De repente, estavam a jogar um jogo que eu dizia: "Mas estão a jogar isso? Como é que foi?" "Ah, inventamos este jogo". Portanto, dava a eles criatividade. Não só um jogo, havia uma situação que ele tinha que tirar água da torneira e a torneira estava muito alta em relação à garrafa que tinha que encher. Ele tinha que segurar com a garrafa, daquelas de litro e meio de plástico. E então pôs a garrafa embaixo, inventou ali um funil, cortou outra garrafa e pôs um funil para pôr lá a garrafa, abrir a torneira e não ter que estar a segurar. Portanto, este tipo de coisa aprendem. Além de nós parávamos tudo o que víamos. Víamos uma fábrica de corda, íamos ver. Fábrica de arroz, fomos ver. Plantação de ananás, íamos ver. Além dos sítios de Machu Picchu, Linhas de Nazca e desses sítios todos. E além do desenvolvimento social. A quantidade de pessoas diferentes que conheceram, diversas nacionalidades, não só europeus, mas dos locais também. Dormimos em casa de muita gente, todos os estratos sociais, desde pessoas com grandes vivendas, com tudo e mais alguma coisa, até pessoas que tiveram a limpar o sítio e tiveram a tirar as galinhas para nós pôrmos lá os colchões e dormimos lá. Portanto, o ter que se levantar de manhã, preparar a bicicleta, preparar a tenda e tudo isso. Eu acho que eles tiveram uma sorte imensa. Eu outro dia estávamos a rever um bocado as fotografias e quando eu vejo todas as experiências que eles viveram, acho que tiveram uma sorte incrível. Portanto, eu acho que viajar e viajar com crianças é uma aprendizagem para eles e para nós pais também, porque eles veem coisas, de repente, ou dão atenção a coisas que nós não damos.
O que tu aprendeste enquanto pai?
É uma boa pergunta. Não sei se tenho a resposta.
Porque eles também nos ensinam coisas.
Ensinam. Eu não me lembro assim diretamente o que eu aprendi, mas situações de eu estar a observar, eu não sei dar um exemplo, não vou estar a inventar, mas estar a observar qualquer coisa e eles dizerem: "Pai, estás a ver aquilo de outra maneira", isso sei que aconteceu várias vezes. Agora, não sei dizer aqui o que eu terei aprendido. Já aprendo muita coisa com eles diretamente. Aprende a ser mais paciente, aprende a ter mais tolerância, mas isso aprende-se em viagem. Mas pronto, isso aí podemos continuar sempre a desenvolver isso. Eu, pelo menos.
E o regresso, como é que foi? À normalidade.
O regresso, para os filhos, foi fácil. Para mim foi fácil. Tenho agora um amigo meu, o Rafael Polónia, que também esteve aqui e que me convidou para ser líder de viagens na Landscape e hoje em dia é o que eu faço. E é o que eu gosto de fazer. Sou líder de viagens na Índia, Vietname e Peru também.
Para os teus filhos, o regresso foi tranquilo e foi fácil. E para ti e para a tua mulher?
Foi tranquilo também, porque tínhamos também um projeto de permacultura. Temos um monte no Alentejo, que estamos a desenvolver um projeto de permacultura também, mas estamos a começar, estamos a renovar o monte todo, estamos a rebocar com argila. Fizemos telhados, eu construí os telhados já, portanto estamos a refazer tudo. E estamos também a experimentar técnicas agrícolas, permacultura, mas isso ainda está no começo. Temos de dar a prioridade para a casa e estamos a contar ir viver no verão, estar lá a viver. E então aí dedicar-nos mais a sério à permacultura e fazer um projeto a sério. Nós queríamos voltar para cá porque queríamos saber o que é que comíamos, que hoje em dia saber o que se come é um bocado complicado. Hoje em dia a comida é toda tão pouco boa, digamos assim. Nós queríamos saber o que é que comíamos e foi uma das razões também.
Olha, eu já vou querer saber que coisas estranhas é que tu comeste em viagem. Estamos quase a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?
Está bem.
Vamos embora. João, o check-out consiste em completar seis frases. São pequenas frases para perceber o perfil e a coragem também do nosso viajante. Então vamos lá. Na minha mala vai sempre?
Máquina fotográfica.
Nunca viajaste sem máquina fotográfica?
Não fui. Em África nem sequer tinha máquina.
Não?
Não, não tenho fotografias nenhumas.
E tens memórias gráficas, digamos assim, dessa viagem?
Poucas. Escrevemos um diário resumidíssimo também. Temos pouco.
O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje foi?
A Rússia.
Por quê? O que aconteceu?
Porque ou tinha que marcar hotéis e eu não tinha dinheiro para marcar hotéis, nem queria marcar hotéis nenhuns. E depois tinha uns amigos que disseram que mandavam um convite e não mandavam. Tivemos que andar ali numa negociação até conseguir que eles nos mandassem um convite e conseguir o visto, senão os outros foram todos relativamente simples.
A viagem com mais peripécias que fiz até hoje?
Eu tenho peripécias em quase todas elas, mas no rio Cassai em África e a Amazônia, definitivamente, foi onde houve mais peripécias. Ir ver crocodilos à noite, que eu não tive tempo de aqui contar, numa lagoa com três canoas baixíssimas, onde uma metia água. Eu ia com um filho e um senhor ia com outro filho e o pai desse senhor ia com a minha mulher. E depois, no meio da lagoa, de noite, a ver os olhos dos crocodilos e eu a tirar a água devagarinho e a dizer para o meu filho: "Rema devagar para isto não afundar. Cuidado!" E um dos senhores afastou-se com o meu filho mais velho e ele a chorar: "Pai, pai!" Normal, eu tinha medo também. É natural que ele tivesse, no meio da selva na Amazônia. Esse teve muitas peripécias.
A refeição mais estranha que comi?
Eu já comi macaco, crocodilo, cão, bicho-da-seda, formigas, gafanhotos, vermes vivos, arroz de escaravelho, serpente. Já comi bastantes coisas, já tenho um menu bastante grande.
A recordação de viagem mais cara?
A recordação de viagem mais cara.
Recordação, experiência.
Experiência mais cara. Não me lembro de uma experiência cara, porque nós viajamos sempre mais ou menos ao mesmo nível. Bom, há um hotel, talvez, mas nem me lembro bem do hotel, mas sei que houve uns hotéis que de repente paguei mais caro, porque escolhemos dormir um pouquinho melhor.
Um pequeno luxo para quem viaja de bicicleta.
Sim.
Um pequeno grande luxo.
É, talvez.
João, gostava de viajar com?
Com?
Com quem é que tu gostavas de viajar?
Eu viajei sempre com a minha mulher, portanto, estou habituado a viajar com ela. Provavelmente vai haver ainda uma nova viagem. Daqui a 10 anos vai haver uma grande viagem.
João, que música trouxeste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?
Eu pensei numa música de Stromae, no Twitter de Stromae. Stromae é um belga e eu gosto do que ele escreve. As músicas que ele escreve têm algum sentido, eu acho que fazem sentido. E esta música tem duas vertentes. Uma foi que eu conheci Stromae quando estava em viagem no Peru, em casa de uma amiga da minha mulher, que é suíça e casada com um peruano e que vive em Lima, e eram os filhos dela que ouviam esta música. Conhecemos os quatro esta música lá, depois ouvimo-la durante muito tempo. Este Stromae faz parte da nossa viagem, por um lado, e por outro lado, esta música é um bocado a crítica exactamente às redes sociais e ao Twitter, e andar ali dependente das redes. Acho que faz sentido das duas maneiras.
João Gonçalo Fonseca, foi um prazer falar contigo na última hora.
Foi um prazer estar aqui também.
João Gonçalo Fonseca, o convidado desta semana nas conversas do "Fim do Mundo". Twitter do belga Stromae, a fechar as conversas do "Fim do Mundo" desta semana. Já sabe, partilhe connosco as suas fotografias de viagem com as hashtags #conversasdofimdomundo e #radioobservador. Até para a semana. Boas viagens.
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