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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana apaixonou-se por um destino e agora vive nele. Foi um filme que a levou a viajar, o "Comer, Orar, Amar" com Julia Roberts, que conta a história de uma mulher que depois de um divórcio viaja pelo mundo à procura de boa comida, espiritualidade e do amor verdadeiro. O filme inspirou-a de tal maneira que se pôs logo a procurar destinos e uns meses depois estava a viajar de mochilas às costas na Ásia. É onde está agora. Paula Carvalho, sawadee ka.

Sawadee ka.

É assim que se cumprimentam os tailandeses?

É mesmo, é sawadee ka. Para os homens é sawadee krap, porque eles têm uma distinção entre o homem e a mulher. É diferente.

Muito bem.

Como nós fazemos o "a" e o "o" pro homem e pra mulher.

Muito bem, sawadee ka. Com esta surpreendi-te.

Por acaso, bastante.

Foi o meu amigo Google Translate que me deu uma ajuda.

Muito bem, sawadee ka.

Olha, Paula, estás onde concretamente na Tailândia?

Então, neste momento estou em Krabi.

Que é uma cidade em que zona da Tailândia?

Sul.

Sul da Tailândia. Muito bem.

Praias, coisas bonitas só.

Coisas bonitas. Completamente rendida e apaixonada pela Tailândia, certo, Paula?

Sim, claro. Estas paisagens, não há como. É lindo.

Muito bem. Então antes de irmos falar do teu percurso como viajante, gostava que me contasses tudo sobre a Tailândia. Por que é um país que te seduziu? O que é que há nessas praias e nessas paisagens de tão especial?

Olha, por acaso, a escolha não foi a Tailândia, para estar neste momento, não foi a Tailândia por ser a Tailândia em si. Foi mais porque era o destino que estava mais aberto no Sudeste Asiático a receber turistas em outubro de 2021, que foi quando eu vim pra cá. Agora, entretanto, já abriram mais destinos, já está mais fácil movimentarmo-nos por aqui, mas nessa altura estava difícil entrar aqui no Sudeste Asiático. A Tailândia era o mais fácil na altura, então eu decidi vir pra Tailândia, até porque já cá tinha estado e já sabia mais ou menos como é que era o país.

Ou seja, o teu objetivo não é a Tailândia, é outro país, é isso, Paula?

Meu objetivo é seguir pro Vietnã, sim.

Pro Vietnã. Por quê?

Sim, porque o Vietnã fez parte da minha vida durante um ano, em 2019. E é pra lá que eu quero voltar, quero voltar a essa vida que tinha antes do Covid.

Muito bem, então vamos pôr ordem aqui na mesa, como se costuma dizer. Tu viajaste para o Sudeste Asiático pela primeira vez em 2018. Fizeste uma viagem de quatro meses, a tal viagem iniciática, depois de teres visto aquele filme, o "Comer, Orar, Amar". Depois regressaste a Portugal, voltaste ao Sudeste Asiático, regressaste a Portugal e regressaste novamente agora ao Sudeste Asiático, que é onde vives. Por que este fascínio por esta região do nosso planeta que te levou já três vezes, Paula?

Eu acho que é por ser algo tão diferente da nossa realidade aí em Portugal e na Europa em si. Na Europa, basicamente, os países vizinhos acabam por ser um bocado semelhantes, não é?

Portanto, achas os países europeus todos iguais uns aos outros?

Não, nada disso. Mas se eu for pra uma Espanha, não é tão diferente como eu ir de um Portugal pra uma Ásia, não tem nada a ver. Portanto, foi essa diferença que me cativou. Foi a forma de estar deles, a forma de viver deles, como aqui as pessoas andam mais com um sorriso na cara, com mais cor. A temperatura ajuda imenso, confesso. Eu por mim vivia sempre no verão.

Mas também é pesado, o ar da Ásia é pesado.

Mil vezes o ar da Ásia do que um inverno aí.

Ai é?

Sim, eu fico aqui nesses 40 graus, só preciso, 35, não me importo.

Muito bem. Olha, então vamos regressar a 2017, o ano em que tu--

18.

Ou 18. O ano em que tu fizeste essa tal viagem, essa primeira viagem de quatro meses. Muito inspirada por aquele filme. Deu-te logo um clique a ver aquele filme com a Julia Roberts, foi, Paula?

Não foi tanto por o filme em si, eu já tinha uma ideia de fazer qualquer coisa diferente.

Mas o que me contaste foi que aquele filme pôs-te a procurar voos logo.

Pronto, foi isso. O filme é que instigou a pesquisa.

Ok.

Foi durante o filme, comecei a fazer essa pesquisa e quanto mais pesquisei, mais me apercebi de que seria uma viagem possível dentro do orçamento que eu tinha em mente. Fui pesquisando, vendo cada vez sítios mais bonitos, ficava cada vez mais excitada com as coisas que via. Organizei tudo, fiz um itinerário, fiz um orçamento com a ajuda de outros blogs de viagens que encontrei na internet. A minha pesquisa foi toda feita com a ajuda de outros viajantes.

E tudo apontava para o Sudeste Asiático

E sim, o Sudeste Asiático era uma zona barata, pareceu-me que era a mais barata para viajar.

E foste tu.

Ficou escolhido assim o Sudeste Asiático.

E tiraste uma licença sem vencimento de quatro meses. Arrependida, Paula?

Claro que não, a melhor coisa que fiz.

Qual foi o primeiro país onde tu aterraste? Ainda te lembras do momento em que aterraste lá na Ásia? Foi onde?

Sim, foi em Delhi, na Índia, e eu nunca tinha viajado sozinha. Foi meu primeiro destino sozinha.

Prova de fogo.

Foi logo prova de fogo. Depois de Delhi, estou preparada para o que vem a seguir, portanto, vamos começar logo pelo pior.

Pois. Mas correu bem a chegada à Índia? Sentiste-te assustada, com medo, a pensar acabar com essa aventura e regressar ao conforto da Europa ou isso deu-te força para continuar?

Sim, senti-me muito assustada, com muito medo, tudo por causa das opiniões das outras pessoas que nunca estiveram na Índia e que me estavam enchendo a cabeça de bichinhos, a dizer que muitas coisas más me iriam acontecer, porque Índia isto, porque Índia aquilo. Então eu já ia com a minha cabeça feita para o pior. E este medo, portanto, aterrei, estava cheia de fome, com muito sono. Aquilo tudo foi um choque gigante para mim, porque eu saio à rua e é só lixo, pessoas todas umas em cima das outras. Tudo muito sujo. Lembro-me perfeitamente de um momento antes de aterrar. Delhi é uma cidade muito poluída, era um cheiro horrível a poluição, mesmo antes de aterrar. Eu nunca aterrei numa cidade que cheirasse, antes de aterrar, tão mal. Cheirava a um género de borracha queimada. Isso nunca mais vai sair do meu nariz. O primeiro cheiro da Ásia foi esse, foi aquele cheiro de Delhi super poluída. E eu tinha um plano para a Índia que acabou por ser todo mudado nesse primeiro dia, porque eu achei que conseguia chegar lá e comprar um bilhete de comboio para Agra, que era o destino que eu queria ir a seguir, mas isso não foi possível.

Por quê?

Não sei se é possível ou se me disseram que não era possível e eu acreditei na conversa. Não sei ao certo. Eu sei que é complicado na Índia arranjar bilhetes para o mesmo dia de comboio, para os estrangeiros, pior ainda. Mas não foi possível. Eu fui às bilheteiras, não vi ninguém. Ninguém falava inglês, apareceu um senhor.

Desculpa, só para contextualizar, querias ir a Agra, que é onde se situa o fantástico, bonitíssimo e lindíssimo Taj Mahal, não é?

Exatamente. Aliás, essa foi a minha motivação para ir à Índia. Eu queria ver o Taj Mahal, era a principal razão para eu ir à Índia.

E chegaste a ver?

Cheguei a ver, sim, e ainda fiz um voluntariado em que ia todos os dias a uns sítios muito bonitos com vista para o Taj Mahal para vermos o pôr do sol.

Olha, que bem, trabalho. Trabalho, quer dizer, voluntariado não é, é voluntariado, mas bela tarefa.

Sim, foi uma tarefa, não estava à espera que a tarefa fosse essa, eu sei o melhor do que a encomenda.

Muito bem. Olha, e depois da Índia, Paula, por onde é que andaste no Sudeste Asiático nesta primeira vez?

Então, depois da Índia, fui até ao Myanmar, a antiga Birmânia.

É seguro viajar no Myanmar?

Eu nunca me senti insegura no Myanmar. Nunca. O Myanmar é muito peculiar. Eu às vezes tento explicar às pessoas porque eu deixar o Myanmar tão especial, mas sinto sempre que não consigo transmitir bem aquilo que sinto.

Então.

É diferente de todos os outros. O pessoal se calhar acha que os países aqui da Ásia são todos muito parecidos, mas não, eles são todos muito diferentes e o Myanmar consegue ser muito diferente. Da Índia, nós ainda temos algumas ideias e algumas imagens. Eu do Myanmar não sabia mesmo nada. Eu chego lá, vejo homens com saia, com a cara toda pintada de amarelo, todos vermelhos. Uma coisa completamente-

Portanto, não ias preparada para essa diversidade, para esse exotismo, não?

Não, não ia, era muito diferente. E depois, numa Índia, por exemplo, as pessoas olhavam para mim com uma cara de julgamento e assim um olhar desagradável. E no Myanmar, as pessoas olham para mim e riem-se, mas é um sorriso assim tão tímido e genuíno. É mesmo giro. No Myanmar, eu só me lembro de andar sempre com sorriso na cara. É o que eu me lembro do Myanmar, andar sempre com sorriso na cara.

Mas por quê? Porque lá tu é que és a exótica. Será isso? Eles olham para ti com algum fascínio, será? Não deve haver muitos turistas no Myanmar. Digo eu.

Começam a haver cada vez mais, mas eu acho que é mesmo deles. Eles são mesmo simpáticos. E depois nota-se, porque eu falo com eles e eles ficam assim todos tímidos, já riem-se assim muito tímidos. Quase a quererem fugir, nem querem falar. Nota-se nas expressões deles e depois eles riem-se com aqueles dentes todos vermelhos. Não dá, uma pessoa só se consegue rir.

Muito bem. Portanto, da Índia para o Myanmar, saltaste o Bangladesh. Não chegaste a ir ao Bangladesh. Não foste.

Não fui ao Bangladesh.

E da Birmânia, seguiste viagem para onde, Paula?

Da Birmânia para a Tailândia.

Tailândia, muito bem. Paízinho logo no sul da Birmânia.

Sim, e tão diferente.

Diferente também? Diferente de Myanmar e diferente também da Índia?

Sim, são mundos completamente diferentes. A Tailândia, tão turística. Eu no Mianmar encontrava-me tantas vezes a ser a única pessoa nos arredores. Na Tailândia, isso nunca aconteceu. Imensos turistas. Também depende das zonas a que se vai. Acho que eu escolhi as mais turísticas. Se eu for pra zona mais rural, certo, a minha experiência seria muito diferente. Mas, no geral, a Tailândia tem muito turista. Eu mesmo agora estou aqui, tem sempre estrangeiros em qualquer lado.

É um país muito requisitado por estrangeiros, é isso?

É muito. A Tailândia vive muito do turismo, acho que foi por isso que devem ter sido os primeiros a abrir as portas. Eles dependem muito do turismo e nota-se perfeitamente. Tem aqui sítios que parecem-me a mim, parecem-me a Europa.

Ai, é?

Eu quando estreei fui pra Phuket. Havia sítios em que quase eu não via locais, é só estrangeiros.

Uau.

Portanto, sim, a Tailândia é muito diferente de uma Birmânia, muito diferente de uma Índia.

Muito bem, então vamos ao top três da Tailândia. O que eu não posso perder neste país, imaginando que vou marcar férias pra Tailândia, Paula?

Olha, pra mim seriam as ilhas Phi Phi, que são lindas. Valem muito a pena. Eu quando cá vim a primeira vez, disseram: "Ah, não vale a pena, é só party place, é só pra festa". Mas tão linda a natureza em si, as paisagens. Eu vou pelas paisagens naturais.

Ok.

Tão lindo, que eu acho que vale muito a pena. Portanto, eu diria Phi Phi, Bangkok, por ser uma cidade também muito característica, é diferente. Se eu punha mais um ponto, punha Krabi.

Krabi, onde vives. O que há em Krabi?

Krabi tem muita coisa e muito sítio por onde explorar, tem muitas ilhas aqui à volta. Aqui a zona é lindíssima, cheia destes calcários, montanhas calcárias, não sei se é assim que se diz.

Sim.

Tem esses cliffs em todo lado, é super giro, super verde, uma paisagem luxuriante. É muito giro, e tem muita coisa à volta, num perímetro de 100 quilômetros, tem imensa coisa pra ver.

Muito bem.

É mais por aí.

Olha, Paula, e as ilhas Phi Phi são, na realidade, como mostram os postais que nos chegam da Tailândia? São mesmo assim, com penhascos verdejantes e encimados em águas quase das azul-turquesa, é isso?

Sim. As ilhas Phi Phi são duas-

As fotografias não desmentem.

Não, não mentem. É lindo. Muito lindo. Vale mesmo muito a pena.

Muito bem. Olha, nunca sentiste medo, viajar sozinha pelo sudeste asiático, Paula?

Claro que senti medo.

Então. Mas havia razões pra ter medo ou não? Houve razões pra ter medo?

Essa é que é a questão. O medo estava todo na minha cabeça. Razões concretas para haver o medo, não. Não havia, falo da Índia em específico. Eram todas aquelas ideias que eu tinha na cabeça, pronto, que me puseram na cabeça ao longo da vida e que me puseram na cabeça antes de eu ir pra lá. Mas sim, tive medo durante várias situações um bocado chatas.

Vamos, partilha uma situação chata.

Olha, uma situação, por exemplo, eu tive um comboio cancelado, que já sabia que ia ser um problema gigante, porque os comboios é sempre um filme por causa dos bilhetes. O comboio foi cancelado, mas eu tinha que apanhar o comboio naquele dia e fui lá na mesma. E tentei levar a minha avante e dizer que já tinha um bilhete pro que tinha sido cancelado, se podia apanhar o seguinte, já tinha um bilhete, não tenho culpa que ele não apareça. Tive que pagar por um novo, mas o que eles fizeram? Eu não podia comprar, quer dizer, sempre não posso comprar no próprio dia, eu não podia comprar o bilhete. Então eles venderam um bilhete na classe mais baixa. Pra mim era o medo, o pânico e o terror, porque aquela ideia que eu tinha na cabeça era todos a dormirem em cima dos outros no chão.

Pois, imaginaste logo a viajar no meio da molhada.

Imaginei logo isso. Meu Deus do céu. Ainda por cima era o meu primeiro destino sozinha. Nunca tinha estado sozinha a viajar, nunca tinha estado na Ásia. É claro que pra mim, naquela altura, era muito mais assustador do que hoje seria. Hoje, por exemplo, iria na boa, se calhar, e naquela altura, não, pra mim era a pior coisa que podia acontecer. Comprei esse bilhete e o senhor disse pra eu ir pra classe alta na mesma e ficar lá à espera do revisor pra ele me fazer um upgrade do bilhete. Quem andou nos comboios na Índia sabe que os comboios, os que são de dormir, têm camas pra certa pessoa. Portanto, tu não podes chegar lá e sentar-te num sítio qualquer. Tu tens um lugar dedicado a ti. Portanto, eu não tinha nada, fui pra essa carruagem, sentei-me entre carruagens, naquele sítio onde faz aquela barulheira tremenda entre carruagens, porque as portas vão abertas, está ali todo aquele barulho gigantesco. Até os ajudantes lá do comboio tinham onde sentar e dormir, e eu não, estava lá sentada em cima das minhas malas. Foi horrível, porque eles estavam a olhar pra mim e a rir. Foi horrível. Eles estavam a olhar pra mim e a rir-se de mim.

A perceber o teu desconforto, era isso

Sim, e depois vinha mais outro, e depois vinha outro e perguntavam o que eu estava a fazer. E depois vinha outro. Eu tinha que estar sempre a justificar-me. Até que finalmente veio um senhor que me perguntou, mas desta vez me ajudou, fez alguma coisa, porque eu estava a ficar aterrorizada com a ideia de que eles me fossem expulsar ali da carruagem, porque eu não tinha bilhete para estar ali.

Pois.

Então a ideia de eles saberem que eu não tinha bilhete e que me podiam mandar comboio fora à meia-noite, no meio do nada, estava a me deixar muito nervosa.

Mas correu tudo bem.

Até que veio um senhor que me ajudou, levou-me para a beira da família dele e ajudou-me depois a encontrar uma cama que estivesse livre, porque o revisor nunca apareceu. Portanto, se tivesse sido aquela família a falar com alguém para tentar ver se havia uma cama livre, eu teria passado o meu tempo todo ali sentada na mala entre carruagens.

Muito bem. Olha, estamos a chegar ao final da primeira parte, Paula. Vamos abrir o álbum de viagem. Paula Carvalho, há algum objeto que tu guardes, que tenhas trazido das tuas viagens e que tenha para ti um significado especial?

Existem alguns objetos.

Vamos lá, escolhe um e rápido. Vá lá.

Um. São duas figuras, uma do Buda e uma do Lord Ganesha, que eu tenho sempre comigo em conjunto com um crucifixo. Esse é o meu simbolismo.

Uma visão ecumênica do mundo.

Sim, alguns deles estão todos aqui.

Muito bem. És uma pessoa devota, com fé, Paula?

Eu tenho a minha própria teoria sobre a fé, que é estranha, portanto não vou dizer nada.

Muito bem. Paula, na primeira parte explicaste-nos por onde andaste nessa primeira viagem que realizaste durante quatro meses, depois de teres tirado uma licença sem vencimento. Depois regressaste a Portugal, mas o apelo do Sudeste Asiático foi mais forte. Por quê? Corria-te mal a vida em Portugal ou sentias saudades do cheiro e das cores do Sudeste Asiático?

Pronto, a questão é que eu quando fui viajar, nunca foi porque eu sempre ambicionei viajar e conhecer todos os países do mundo. Eu fui porque eu queria uma mudança na minha vida. Portanto, eu estava à procura que qualquer coisa acontecesse que me fizesse mudar de vida. E aconteceu. Portanto, voltando, se aconteceu essa coisa que eu queria que acontecesse, não fazia sentido nenhum ficar onde eu estava.

Portanto, estava clarinho como água na tua cabeça que tinhas que voltar a viajar, é isso?

Sim, estava claro como água, porque eu não ia ficar na Europa, que eu tinha que vir para o Sudeste Asiático e tinha que arranjar uma maneira de ficar por cá.

E arranjaste. E agora trabalhas aí, tens um trabalho remoto. Paula, que outros países conheces por aí, por essa região do planeta e que nos possas aconselhar a conhecer? Já falaste da Índia, já falaste do Myanmar, já falaste um pouco da Tailândia. Camboja, Vietnã, Laos, também conheces?

Sim, exatamente, ainda não tinha falado sobre esses. Também fui ao Camboja, Vietnã, Laos, a Malásia. O Vietnã para mim é especial porque eu estive lá um ano, estive a viver lá.

Viver num sítio específico do Vietnã ou ias viajando e vivendo?

Não, eu estava sempre no mesmo sítio. Aí foi mesmo ficar, eu estava mesmo estável.

Foste residente do Vietnã.

Era quase isso, já era quase local.

Ok.

Para mim o Vietnã é especial. Eu conheço lá uma família que para mim foi o meu suporte lá, era a minha família lá. Todos os dias ia à casa deles, a avó cozinhava para mim, ao fim de semana nós às vezes íamos fazer coisas juntos. Portanto, a minha vida no Vietnã foi muito com interação local. Eu não vivi como um estrangeiro no Vietnã, eu vivi mais como local.

Estavas perfeitamente integrada, não é?

Sim, não havia mais nenhum estrangeiro. Existe uma zona onde eles estão todos lá. Eu estava longe dessa zona.

Onde é que vivias, Paula?

Eu estava em Ho Chi Minh, mas Ho Chi Minh é muito grande e está divido por vários distritos. Eu estava num distrito onde não costumam ter muitos estrangeiros. Tanto que eu estive lá tanto tempo, que passava todos os dias na mesma rua e mesmo assim, durante tanto tempo, eles ainda ficavam a olhar para mim sempre que eu passava lá.

Tal a estranheza.

Exatamente. E sabiam que eu passava lá todos os dias, ainda assim ficavam a olhar.

Se calhar pensavam: "Olha, ainda cá vive esta europeia".

É mesmo.

Será?

Devia ser. Ainda esta uma pouquinho aí.

Olha, e a cidade de Ho Chi Minh, como é que é? É uma típica cidade asiática com muita confusão, arranha-céus e casas tradicionais, ou o que nos podes dizer sobre esta cidade, Paula?

É caótica, sim. Ho Chi Minh é quase um dédalo, mas de motas. No Vietnã, eu não sei se é em Ho Chi Minh ou se é em Hanoi, que existem mais motas do que pessoas. Existem mesmo muitas motas e há pessoas, turistas, principalmente, às vezes têm muito medo de passar a estrada, porque aquilo parece muito caótico, mas não é.

Pois.

Eles entendem-se muito bem.

Há ali uma orgânica, não é? Já apreendida por todos.

E há naturalmente, que parece caótico, mas assim que estás lá no meio, não é nada caótico. Não sei se me vais seguindo. É uma cidade com muita coisa a acontecer, é uma cidade muito grande. É caótico. Para visitar teria mais templos, porque de resto natureza não tem, é uma cidade. Mas é uma cidade engraçada, é diferente de todas as outras por essa coisa das motas. É impossível desassociar o Vietname às motas, porque pensar em Vietname é motas, é a primeira coisa que vem à cabeça.

Pois. Tiveste a oportunidade de conhecer bem o país ou ficaste pela cidade de Ho Chi Minh?

Não, eu fui a várias cidades, desde o norte até ao sul. Não sei quantas, mas fiz muitas.

Muitas. Olha, e nota-se alguma diferença entre o norte do Vietname e o sul do Vietname? Há ali um percurso divergente no século XX, não é? Nestas duas regiões do país, nota-se ainda algum desfasamento entre estas duas regiões do Vietname ou nem por isso?

Existe uma diferença, sim, mas quem nota mais isso serão até mesmo os locais. Eles têm essa rivalidade entre o norte e o sul. O sul não gosta dos do norte, os do norte não gostam dos do sul, mas acho que um turista que está lá X dias não se vai aperceber de nada dessas.

Tu conseguiste te aperceber disso?

Da primeira vez que lá estive, não. Só foi com o contacto local e dos locais falarem sobre o Vietname, e eu a aprender sobre o Vietname, que eu fiquei a perceber isso. Senão, não fazia ideia.

Muito bem.

Até as comidas são diferentes, existem comidas no norte, comidas diferentes no sul.

Ai é?

Sim.

Então vá, vamos lá. No norte-

Desculpa, não sei dizer os nomes agora. Eu sei que existem diferenças, existem pratos típicos, assim como nós em Portugal também temos, pratos mais típicos do norte e pratos mais típicos do sul. Acho que é normal.

Claro que sim. Olha, e no Vietname, o que é que há para ver, o que é que destacarias, Paula?

O Vietname, destacaria de sítios, Halong Bay. Halong Bay é supergiro, são aqueles penhascos no meio da água, lá tem imensos. Eu até acho que a nível destes penhascos que se costuma saber no meio da água, eu acho que Halong Bay deve ser o sítio do mundo onde tem mais. É supergira a baía. Depois, tem ilhas. Normalmente, o pessoal não associa o Vietname a ilhas, mas o Vietname também tem ilhas muito bonitas. E o plus é que não têm turistas nenhuns, porque estão todos cá na Tailândia. Portanto, se quiser ilhas bonitas e desérticas, é ir pro Vietname, tem lá várias ilhas muito lindas.

Na tal baía de-

Posso te dizer, Condao, Hanoi, Phu Quoc. Podem ser essas.

Muito bem, eu não faço a mínima ideia do que estás a dizer. São os nomes das ilhas.

Cenas de postal, pronto, é isso.

Muito bem. Na tal baía de Halong Bay.

Isso já é outro sítio. Halong Bay já é no norte, depois existem outras ilhas mais pro sul.

Ok, muito bem. Paula, vamos falar de ti. O que mudou em ti depois das três viagens que realizaste no Sudeste Asiático? Tu és a mesma pessoa que deixou Portugal em 2018 pela primeira vez?

Não, essa pessoa já não existe. Eu às vezes vou ler os meus antigos posts da minha primeira viagem e eu rio para as coisas que eu escrevia.

Por quê? Ris de quê?

Rio da maneira como eu pensava, mesmo ingênua, de quem não sabia nada e impregnada pelos ouvidos. Esse gênero de coisas. Preconceituosa. Mudou tudo, mudou a maneira como eu penso, a maneira como eu me visto, a maneira como eu olho pra vida, as coisas que têm importância pra mim na vida, a forma como se deve estar perante a vida. Pra mim, tudo isso mudou.

Ok. Portanto, disseste que eras menos preconceituosa, é isso?

Sim.

E o que mudou mais na forma como tu vês o mundo, Paula?

Neste momento, acho que é tudo muito manipulado. Quando estamos aí no Ocidente, é tudo muito manipulado pra acharmos que no Ocidente é que é, que isto aqui é um fim do mundo, por isso que chamam os países de terceiro mundo, tentam nos convencer que isto aqui é tudo muito mal. Depois uma pessoa põe aqui o pé e percebe-se que afinal as coisas não são bem assim. E dá uma sensação que andei a ser enganada toda uma vida, a dizerem-me coisas más sobre estas zonas do nosso mundo, quando afinal não é nada disso. Dá um bocado essa sensação.

Muito bem. Portanto, tu achas que eles são felizes, é isso? As pessoas que vivem nessa região do mundo.

Sim, eu sei que eles não têm tanto quanto nós, a nível de bens materiais, mas eles pelo menos têm sempre um sorriso pra oferecer, coisa que aqui não.

É difícil. Somos focados em outras coisas, mais no lado material. Aí são mais focados no lado espiritual. Sentes isso, Paula? É correto o que eu estou a dizer ou não?

Não sei. Acho que para eles, eles olham para a vida de outra maneira, uma maneira mais simples. Eu lembro da primeira vez que cá vim.

Também são mais pobres, se calhar isso também determina muito.

São mais pobres também determina, sim. Eu lembro de vir para cá ainda com essa mentalidade ocidental e vê-los sem fazer nada o dia todo e achar: "Oh, meu Deus, como é que isto é possível? Como é que eles conseguem passar o dia todo sem fazer nada?" Eu agora olho para eles e penso: "Fogo, é aquilo que eu quero, é passar o dia todo sem fazer nada". Eu agora quero ser como eles. Mudou-me esse ponto.

É esse o teu objetivo de vida, passar os dias sem fazer nada, Paula?

O meu objectivo é ser como eles, estar aqui sossegado, sem me preocupar com coisas que não interessam a nada, nem a ninguém. Não me preocupar com o que os outros acham de mim, com o que eu tenho que ter, a vida que eu tenho que ter, as coisas que eles acham que eu tenho que fazer.

Isso é independência. Tu queres ser independente, mas não dedicares-te à preguiça, é isso?

É, totalmente independente.

Ok.

Mas gosto de fazer coisas. Também não é não fazer nada, literalmente não fazer nada. Senão ia chatear e aborrecer, não é?

Muito bem. O tempo voa. Estamos aqui já a encaminharmos para o final do programa desta semana. Paula, temos que fazer check-out, vamos lá?

Sim, embora.

Vamos embora. Então, vou pedir-te para completares as habituais frases de todos os programas, é o que peço a todos os viajantes. Na minha mala vai sempre?

Coisas coloridas.

Coisas coloridas. Isso é muito abstrato. Coisas coloridas, como por exemplo?

Como por exemplo, tudo o que vai na minha mala tem cor, não é nada preto.

Odeias o preto.

Só tenho uma peça unicamente, exclusivamente preta. Só uma.

Isso era uma característica que já existia na Paula antes de 2018, na Paula que vivia em Portugal ou é da nova Paula, isso?

Esta é da nova Paula.

O gostar de cor.

É como toda a gente, é o preto que é para não se pôr em risco, é aquela escolha segura. Evitar o julgamento, usar preto, não ser julgada pelos outros. Pronto, é isso.

Muito bem.

Agora não quero saber do julgamento dos outros, uso as cores que eu quiser, que me apetece e é isso.

Portanto, para ti não há nenhum problema em misturar amarelo com rosa e laranja.

Por favor, misturem. Misturem tudo.

Olha, a viagem com mais peripécias, qual foi, Paula?

Foi mesmo essa viagem da Índia. Aconteceram muitas coisas que eu não estava à espera.

A tal primeira viagem, não é?

Sim.

"Aconteceram muitas coisas que eu não estava à espera." Entre elas?

Entre elas, mudar tudo no primeiro dia, mudar o meu plano todo no primeiro dia. Mudou tudo depois, o resto, portanto, foi tudo por acréscimo.

Mas deixa-me perceber, fizeste coisas que não estavas à espera de fazer, deixaste de fazer coisas, isso aconteceu?

Sim, fui a sítios que não tinha planeado ir, deixei de fazer voluntariados que tinha planeado fazer. Portanto, sim, mudou completamente tudo o que eu tinha pensado, menos o Taj Mahal, que o Taj Mahal tinha que manter.

Muito bem. É lindo, não é?

Olha, por acaso, posso dizer que estava à espera de mais.

Ai, é?

Soltei aquela expectativa toda e depois cheguei lá, sei lá, estava à espera por dentro ser uma coisa espetacular ou qualquer coisa assim, mas cheguei lá e por dentro, não sei.

Como é que é por dentro? Nunca se vê o Taj Mahal por dentro. Vendem-nos o Taj Mahal por fora. Num bonito pôr do sol, fantástico, com cores laranja. Mas por dentro não há nada para ver.

É proibido tirar fotografias, se calhar é por isso.

Ok, está explicado. Muito bem. Olha, vamos avançar. O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje, qual foi?

Foi o visto da China, país que eu nunca visitei, por causa do Covid.

Mas tentaste.

Mas foi dificílimo de obter, porque era uma portuguesa, estava no Myanmar a tentar obter um visto para a China, não tinha trabalho e tinha não sei quantas páginas com vistos do Vietname, o que para eles foi um red flag gigantesco. Levaram para uma sala de interrogatório durante 15 minutos, como se eu fosse uma criminosa, a perguntarem me 500 vezes as mesmas perguntas. Tive de lhes mostrar o meu Instagram, o meu blog, tive de lhes falar sobre a minha vida toda. Um filme.

Para no final não te darem autorização.

Deram-me o visto, no final deram-me.

Deram-te.

Deram-me o visto. Depois o voo foi cancelado, veio o Covid e eu não pude ir à China, esse é que foi o problema.

Oh, bolas.

Mas consegui. Custou muito, mas consegui.

Deduzo que já não esteja válido, não é?

Não, já não está válido, obviamente.

Muito bem. Olha, a recordação de viagem mais cara, qual foi? Onde é que perdeste a cabeça, Paula Carvalho? Conta-nos tudo.

Não, não compro nada. Coisas caras. É só aquelas bugigangas mais baratas que se encontra. Não, bens materiais, não, nada.

Nada. Não és uma pessoa materialista.

Muito menos do que eu era.

Isso também mudou em ti.

Sim, sem dúvida.

Olha, e tornaste-te espiritual ou mais espiritual?

Eu tenho as minhas próprias crenças. Não sei se sou mais espiritual, mas mudei a minha maneira de acreditar nas coisas. Isso mudou.

Ok. Olha, a refeição mais estranha que comeste.

Refeição mais estranha.

Estás num sítio onde, para os nossos padrões, se come estranho, muito estranho.

Foi no Laos. Eu diria que foi no Laos, uma salada com ovos de formiga.

Salada com ovos de formiga.

Era uma salada com várias coisas, vegetais e ovos de formiga, mas os ovos eram grandes, dava para vê-los bem.

Ai é?

Sim.

Sabem a quê os ovos de formiga, Paula?

Não sei, porque a salada era tão picante que não dava para sentir sabor nenhum. É que é tão picante, não há sabores.

Muito bem. E para fechar, gostava de viajar com quem, Paula?

Gostava de viajar com a minha alma gêmea no sexo oposto, porque há muitas coisas que eu não faço por ser mulher, inclusivamente campismo selvagem, é uma coisa que eu gostava de fazer, mandar-me assim só uns dias andar pela natureza e acampar. E não faço por ser mulher e por ter medo de o fazer.

Autocensuras-te.

Sim. Não sou assim tão corajosa, pelos vistos. É uma coisa que não consigo fazer. Precisaria de outra pessoa para fazer, mas é uma coisa que eu gostava muito de fazer.

Acampar por aí. E tens algum sítio já escolhido?

Não interessa, desde que seja no meio da natureza, nas montanhas, está tudo bem.

Então quando vieres a Portugal, ganha coragem e monta a tenda por aí.

Depois de falta de coragem, falta é coragem.

Paula, agora sim, chegamos ao fim. Que música escolheste para fechar a nossa conversa?

Escolhi uma música birmanesa, porque agora a minha playlist é birmanesa e vietnamita. Essa música birmanesa tem uma história por trás. Eu estava no Mianmar e ouvia muito uma música, nunca a cheguei a encontrar, mas essa música, esta em particular, eu estava num comboio do Mianmar. Os comboios são uma experiência única, tem que se andar de comboio no Mianmar. É ratos a passear, é o comboio a abanar tanto que as coisas caem, as coisas que estão em cima a cair para baixo, as pessoas não conseguem andar, porque aquilo abana tanto, parece que vai descarrilar a qualquer momento. E estava eu nesse comboio com paisagens deslumbrantes e uma senhora atrás de mim com uma música e a cantar. E eu lembro-me de pegar no telemóvel e pôr a gravar para depois no futuro ouvir e regressar àquele momento. Depois, quando eu chego a Portugal e estou a escrever no meu blog sobre esse dia, deparo-me com o vídeo, lembro-me de fazer um Shazam. Quando o Shazam apanha a música, eu dei umas lágrimas aos olhos, eu começo a chorar. "Meu Deus, não acredito que encontrei esta música e vou poder viver este comboio do Mianmar para sempre". Sempre que eu a ouvir, vou estar naquele comboio no Mianmar. Portanto, sim, essa música, sem dúvida. E depois, quando eu voltei, porque eu já lá voltei mais duas vezes, quando eu lá volto e ouço essa música a tocar em qualquer lado, fico toda feliz.

É uma música conhecida, não é?

Sim.

Muito bem. "A Lu Taw", do artista Ma Naw, a fechar a conversa do "Fim do Mundo". Espero ter dito bem. Paula Carvalho, foi um gosto.

Igualmente.

Foi um gosto. Regressamos na próxima semana, neste horário. Até de hoje a oito dias. Sejam bons e boas viagens.