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E damos agora as boas-vindas à convidada extra de hoje, João, e à nossa convidada Inês Afonso Marques, que nos vai fazer companhia até às 21h. Boa noite, Inês, e bem-vinda ao "Observador".
Olá, obrigada.
Mais uma vez, obrigado por teres aceitado este nosso convite. Inês, tu és mãe e és psicóloga. É muito importante dizer isto porque Inês, que é psicóloga clínica e é psicoterapeuta infanto-juvenil, tem uma pós-graduação em psicotria com crianças e adolescentes. Além disso, tens uma pós-graduação também em neuropsicologia pediátrica.
Sim.
Deri o teu interesse pelas
Crianças.
E pelas neurociências também, que é uma área muito interessante e uma área de futuro. Tens aqui uma coisa que eu estou muito curioso, esta questão da tua formação em EMDR. Isto em inglês, Eye Movement Desensitization and Reprocessing, uma coisa complicada que tem a ver com a dessensibilização e reprocessamento através do movimento ocular, que é uma técnica que esta psicóloga, esta Francine Shapiro, descobriu completamente por acaso, já há 32 anos. Fala um pouquinho desta técnica, que é uma coisa que ajuda a ultrapassar traumas.
É verdade. Cá em Portugal não é muito falado, mas quer nos Estados Unidos, quer em Inglaterra, está na primeira linha de tratamento em questões como o trauma, por exemplo. E aquilo que a Shapiro percebeu, um bocadinho por acaso. O que ela percebeu foi: num passeio, com movimentos compassados bastante firmes, e, portanto, esta questão do movimento alternado, ela estava envolvida num dilema qualquer da sua vida e aquilo que ela percebeu foi, nesse passeio que ela realizou, como todo o seu pensamento se organizou e tudo aquilo que ela sentia que não tinha solução e onde ela se sentia muito mergulhada
Encaixou.
Foi encaixando, foi fazendo sentido. A verdade é que, em termos de memórias, todas as nossas experiências têm memórias associadas e estão associadas aos nossos canais sensoriais. E em situações de trauma, por exemplo, aquilo que acontece é que a memória está guardada como se não tivesse sido processada. E por isso é que muitas vezes quando relembramos determinado evento, ele é quase revivido. E através do EMDR, que é desta técnica, tem aqui questões muito específicas.
É uma ferramenta do psicólogo.
Sim. Ajudamos, no fundo, a reprocessar estas memórias traumáticas.
E ficam como que arrumadas na sua caixa e já não nos perturbam tanto, é isso?
Sim.
Muito bem. E depois também, dentro do teu currículo, que é vasto, muito rico e muito bom, falas em terapias de terceira geração. Isto é o quê?
Algo, por exemplo, como o mindfulness, que ouvimos falar cada vez mais, felizmente.
Tu dás conferências também sobre isso.
Tenho feito algumas formações, dado algumas formações, feito alguns grupos com crianças. O que o mindfulness nos diz ou nos ensina?
É outra ferramenta, não é?
Sim, a importância de treinarmos a nossa atenção no momento presente, sem julgamento, porque no fundo, nós passamos a vida a andar em piloto automático, em fazermos todas as nossas tarefas, muito sem estarmos conscientes, incluindo os temas da parentalidade, curiosamente. Portanto, no nosso dia a dia, no nosso acelerar, mas sem estarmos com consciência.
Exatamente. Não estamos 100%.
Em vez de agirmos as situações, em determinado momento, estamos a ceder à impulsividade e reagimos a elas quase sem consciência. O mindfulness tem uma lógica de prática mais formal, associada à meditação, mas, por outro lado, tem este lado mais informal em que nos chama a atenção e nos ajuda a perceber como é que podemos estar de uma forma mais consciente, mais ligada a todas as nossas experiências. E a satisfação toda que daí advém. Porque a lógica de estarmos sempre no futuro e no que vai acontecer põe-nos muitas vezes ansiosos, ou estarmos muito com a nossa cabeça no que está lá atrás, deixa-nos
Às vezes deprimidos, mais tristes.
Mais tristes. E perdemos o presente, perdemos aquilo que está a acontecer. E é curioso como esta área, por exemplo, se aplica tanto aos temas das relações entre pais e filhos.
Pais e filhos. Muito bem, que é isso exatamente o que falamos hoje. Tu atualmente já tens uma experiência de 14 anos, se calhar mais agora.
São 14.
Catorze anos de experiência, maioritariamente em contexto de clínica privada, portanto, acompanhas todos os dias crianças e adolescentes, também jovens adultos e também pais, educadores, muito. E és coordenadora da equipa infanto-juvenil da Mindkiddo, que é a oficina de psicologia. É uma clínica que está em vários países e és tua mentora em Portugal desta clínica.
Coordenadora da equipa, não a mentora.
Pronto.
Não mentoria. Tive esta ideia fantástica da Madalena Lobo.
Foi uma portuguesa que começou isso?
Sim. Eu já estou na equipa há oito anos, mais ou menos, e portanto, em determinado momento, fui ficando responsável por tudo o que são os temas da área infanto-juvenil.
Muito bem. Interessante que, devo dizer, esta oficina de psicologia ganhou já vários prêmios pela revista Exame como a primeira na área da saúde, como a melhor empresa para trabalhar. Isto é muito bom. Quer dizer, tem condições ótimas e as pessoas sentem-se felizes por trabalhar lá e isso é importante.
E pelo trabalho que fazemos, no fundo, descomplicar a psicologia, muitas vezes associada aqui a uma linguagem muito complexa e coisas que não são acessíveis, quando, no fundo, nós podemos te falar de temas sérios, nomeadamente a saúde mental, o bem-estar psicológico, de uma forma descomplicada, acessível e em que de facto, todos nós procuramos coisas que estão no nosso dia a dia, sem que necessariamente isso tenha que passar pelo consultório do psicólogo, inclusivamente, para nos sentirmos melhor.
Sentes que ainda hoje, há muitos anos, dizer que o meu filho está no psicólogo, era um estigma, quase. As pessoas diziam: "Eita". Hoje em dia, as coisas evoluíram muito. Eu tenho a sensação que os psicólogos têm: "Tenho um filho, está na psicologia, outro está na neurociência", portanto, são no fundo desta área. Mas sinto que vocês aprendem técnicas e ferramentas que podem ajudar pais, filhos, professores e a relação entre eles. E, portanto, deveria ser quase, não digo obrigatório, mas frequente para as pessoas poderem ir.
Sim, o estigma acho que está mais diluído e diria que particularmente nas camadas mais jovens, porque muitas vezes temos realmente jovens que são eles que pedem aos pais para marcar uma consulta, porque precisam lidar com as suas ansiedades, com os seus medos, com dúvidas que Não se sentir totalmente-
As das aulas, que são as dos namoros, até se calhar.
Coisas muito diversas.
Exatamente.
E são os próprios pais, determinadamente, não são todos, naturalmente. Mas alguns pais que aconselham os filhos a não comentarem com os amigos e com os colegas da escola que estão a ir.
Estão a ir ao psicólogo.
Mas ainda assim, eu sinto, de facto, que é algo que está muito mais diluído. Não há tanto esse estigma. Efetivamente, é um bocado isso. Quase que devia ser algo obrigatório. E a melhor satisfação que eu tenho, muitas vezes, no final de uma primeira consulta, é quando alguém partilha: "Eu já devia ter vindo há mais tempo, foi a melhor decisão que tomei para cuidar de mim". Isso, de facto, é um feedback muito importante.
Obviamente. Tu, já faz agora cinco anos, escreveste um livro pela Arte Plural, "É Tão Bom Fazer Amigos". Isto, aliás, é em coautoria com a Rita Castanheira Alves, uma colega tua, que é um bocadinho sobre problemas de relação dentro de uma coleção, esta Crescer com Pinta, portanto, é um primeiro volume, não sei se depois sairão mais ou não.
Sairão.
Pronto, e neste tu colaboraste. Portanto, em cada volume, a ideia é uma situação desafiante que vocês tentam retratar e tentam resolver para dar umas pistas para quem sinta.
Este era sobre a timidez e a ansiedade social. É um livro infantil, mas é um livro que permite ser partilhado entre pais ou entre professores, educadores e a criança. Porque, neste caso, é a história do António, uma criança que fica muito nervosa.
Até quando é para ir para o recreio.
Exatamente, na antecipação de fazer novos amigos.
Exatamente, ter que partilhar tempo com outros.
Ao longo do livro, a ideia é que a própria criança que está a ler se sinta identificada com aquela personagem, na sintomatologia, por assim dizer, e depois na exploração de estratégias para lidar com os seus receios e as suas ansiedades. E todo o livro vai sendo acompanhado por algumas sugestões de interação e de pequenos jogos que o adulto pode fazer com a criança precisamente para trabalhar este tema.
São neste momento 08h33. Continuamos a conversa com a psicóloga e psicoterapeuta Inês Afonso Marques, que traz ao cerão do Observador a absoluta necessidade dos pais brincarem com os filhos. "Crescemos Juntos, 365 +1 Inspirações Para Uma Parentalidade Feliz" foi um livro que tu o ano passado lançaste pela IN. Um livro muito interessante, por esta psicóloga que nos está a ajudar aqui a perceber estes reais problemas e desafios, e nesta tríade que nem sempre é fácil e nem sempre é clara, esta relação entre a escola, os alunos e os pais. Tu falas neste livro também desta necessidade dos pais e dos filhos, porque os pais muitas vezes sentes, quando também te chegam ao consultório, que são pessoas desorientadas, às vezes. São pais sem saberem muito bem como, sem terem tirado nenhum curso.
Sim, eu acho que muitas vezes os pais aquilo que procuram essencialmente é um colinho, ou seja, quase como se eles tivessem lá tudo. E a verdade é quando surge o tema da parentalidade na vida de uma pessoa, de uma mãe, de um pai, há um conjunto de focos, de objetivos, de valores, com os quais as pessoas se identificam. E muitas vezes, embrulhados, envoltos nestes desafios diários da parentalidade, esquecem-se aqui um bocadinho do rumo que queriam para si enquanto pais. E quando chegam às consultas, muitas vezes, a única coisa que precisam é de voltar a calibrar esta sua bússola da parentalidade, e voltarem a pôr o foco naquilo que é realmente imprescindível para eles nesta sua missão de serem pais.
E é importante essa questão que tu acabaste de levantar, sobre também não cair no exagero de pessoas que se anulam completamente em favor dos filhos. Isso também não é bom para as pessoas. As pessoas têm que perceber que há um espaço e há um lugar para uns e para outros, e de preferência também em conjunto, tempos em comum, mas não se devem anular também completamente e ser tudo em função das crianças.
De todo. Há uma inspiração no livro, agora não a consigo situar precisamente, mas que fala precisamente do autocuidado dos pais, da importância do autocuidado, que não é um luxo, é uma necessidade. Porque efetivamente, as crianças sintonizam emocionalmente com os adultos e se os pais estão, e isto de ser pai é algo realmente desafiante, diariamente desafiante. E se a pessoa está envolvida nos seus medos, nas suas dúvidas, nas suas irritações.
Se desleixa esse autocuidado.
Determinadamente não está disponível também para estar verdadeiramente em sintonia de um modo mindful, como falávamos há pouco, com os filhos. E, portanto, esta lógica de que nós enquanto seres humanos não somos só pais ou só mães, e temos aqui um conjunto de missões e de papéis que vamos desempenhando. E esta lógica do autocuidado é fundamental para podermos estar em pleno nos vários papéis que desempenhamos.
Não há pais perfeitos, como tu dizes, mas há pais que diariamente dão o melhor de si.
Sim.
Uma frase muito interessante de Tony, aliás, é a inspiração número um do teu livro.
Que abre o livro.
É verdade. Ouve muitas vezes no consultório estes gêneros de, não diria críticas, não diria reparos, mas diria essas constatações dos miúdos: "Os meus pais não sabem o que eu faço nos intervalos, só querem saber o que eu almocei, quando é que é o próximo teste. De certeza que querem ouvir a música que eu prefiro? Os meus pais nunca me pediram pra ouvir a música, não sabem sequer qual é a música que eu prefiro". E depois: "Quem me dera que meus pais se sentassem no chão comigo a jogar um jogo, que vão sentir que me queres conhecer e que tens em consideração as minhas opiniões". É muito engraçado ouvir isso, mas ao mesmo tempo faz pensar: "Bolas, tanto trabalho que ainda tenho a fazer com estes pais".
É um fenómeno curioso, nomeadamente esse do brincar, por exemplo. E nós temos muito a ideia, por exemplo, que as crianças não gostam de fazer um jogo de tabuleiro. E eu, de facto, no consultório tenho N jogos diferentes, do mais tradicional possível, e elas mostram imenso interesse em jogar. E enquanto jogamos, estamos de facto ali em interação, estamos a promover uma data de competências e a criança sente que tem um canal para comunicar com o outro. E muitas vezes tenho os pais, por outro lado, a dizer: "Não se senta, não quer conversar, não quer jogar, não me conta nada do seu dia". Mas muitas vezes é isto, os pais estão no meio das suas mil coisas, sentados a fazer um jogo, mas com o seu telemóvel na mão, ou a pensar no e-mail que ficou por enviar, ou na roupa que está para lavar.
Estão fisicamente, mas não estão.
Efetivamente não estão lá sintonizados. E os miúdos percebem muito isso e queixam-se, entre aspas, desta espécie de indisponibilidade que alguns pais também vão demonstrando. Um fenómeno muito curioso é, por exemplo, ter jovens a pedir aos pais para desviarem o olhar da televisão ou do seu telemóvel, porque precisam de falar com os pais, porque lhes querem fazer uma pergunta, querem um conselho e sentem que seus pais não estão assim tão disponíveis.
Estão desatentos.
Nós vemos muito a questão do: "Por que não desliga o telemóvel à mesa?" O pai a criticar o filho. Para já, não nos podemos esquecer de como somos verdadeiros modelos comportamentais para os nossos filhos.
Exatamente. E pais são exemplos.
Mas, por outro lado, há, de facto, outras situações que expressa esta mudança do papel, que é o filho que está a dizer: "Não ouve-me, porque eu preciso de ti".
Exatamente. Claro, chegamos a este, "A brincar também se educa", este livro que já editaste este ano, no verão, saiu no verão pela Manuscrito, esta essencial da Presença. Por que é tão importante brincar, Inês?
Por muitos motivos. Brincar é, no fundo, um tubo de ensaio para uma criança experimentar tudo aquilo que vai fazer pela vida afora. A criança é uma espécie de cientista e através deste brincar, experimentando, fazendo, experimentando gostar. Estar em outros papéis, por exemplo. No fundo, é experimentar. Sem dúvida, caindo aqui numa certa redundância. Por outro lado, através da brincadeira, fortalecem-se, de facto, laços afetivos entre pais e filhos, por exemplo. A criança aprende estando envolvida naquilo que está a fazer. Quando queremos estimular o desenvolvimento cognitivo, o desenvolvimento social, o desenvolvimento emocional, há uma parte da aprendizagem que é feita por observação e outra por participação. E as brincadeiras são, por excelência, uma forma de a criança o fazer.
E também se conhece, não é?
E, por outro lado-
Fica a conhecer os seus limites
...esse lado do autoconhecimento. A criança, além de explorar o mundo, explora-se a ela própria. E um adulto que partilha brincadeiras com a criança, tem ali uma janela excelente para o interior daquela criança, porque através da brincadeira, a criança mostra-se.
Comunica e mostra. O que tu defendes neste livro é: quarto de hora, bastam 15 minutos por dia de tempo especial para saltar, sujar, desenhar, sorrir, confessar e esfregar. E estes 15 minutos podem mudar uma vida inteira e podem mudar uma vida de adulto e podem salvar um casamento, e podem salvar uma relação pai e filhos. Tem tantas qualidades boas e as pessoas não arranjam tempo. Os pais dizem que não têm tempo, Inês.
A verdade é que os 15 minutos não são à toa, porque 15 minutos não parece nada de extraordinário e todos nós temos, de facto, esses 15 minutos. Com vontade.
Se quiser arranjar.
Eu digo os 15 minutos aqui como um tempo de referência, um tempo, diria que mínimo. Mas que é importante que exista esse tempo especial diariamente, de atenção plena, de partilha plena. E quando em consultório, muitas vezes, perante pais que se queixam da criança que faz birras descomunais pra chamar a atenção ou que não coopera com os pais, ou que está com dificuldade em regular as suas emoções, a prescrição da introdução desses 15 minutos de tempo especial diários, faz uma diferença muito significativa. Em quê? No desenvolvimento da criança, no limite, na satisfação dos pais, em toda a dinâmica relacional. E estes 15 minutos é algo que nós conseguimos ter acessível na nossa agenda diariamente.
Tem tantas vantagens que as pessoas não se apercebem. Quinze minutos por dia de tempo especial. Tempo especial é a mesma coisa que tempo de qualidade?
Sim. É nesse sentido.
Interessa mais a qualidade, portanto, do que propriamente a quantidade, nesse caso.
Sim.
Muitas vezes, esses 15 minutos, como tu dizes, podem mudar a dinâmica de uma família. É um tempo razoável, como tu dizes, é um valor de referência, mas numa altura, são períodos em que todos se podem abstrair do jantar, dos e-mails, das tarefas de casa, dos trabalhos da escola. Brincar devia ser uma tarefa tão obrigatória, costumas dizer, como lavar os dentes. É uma coisa que acho ótimo.
Que é um direito das crianças, que muitas vezes nós estamos também a privar nessas agendas apertadas que os miúdos têm todos os dias. Claro que brincar pode surgir em qualquer sítio, em qualquer lugar. E a brincadeira pode surgir numa refeição, pode surgir na hora do banho, pode surgir na deslocação entre casa e escola. Mas estes 15 minutos de tempo especial são ali outros específicos, em que realmente nada-
Não vale substituir pela hora de deitar.
Sim. E que não sejam 15 minutos, por exemplo, em que estamos passivamente a olhar pra televisão.
Sim, pois. Em que haja uma interação. Já percebi isso. E brincar implica, como tu dizes, sujar, desarrumar e fazer barulho. É muito engraçado, porque só me lembro dos anúncios dos detergentes, que é um bocado aquela coisa que nós temos também, que já há uns anos que se cultiva também, ao menos aí, que é muito importante. Tudo isso torna, como tu dizes, as brincadeiras muito ricas. As crianças brincam cada vez menos Ao ar livre. E isso faz muita falta, não faz? Esse contato com a natureza.
Como se retirássamos aqui uma liberdade muito grande e que é importante, porque queremos educar crianças, futuros adultos, livres, exploradores, destemidos, corajosos, mas no fundo, tendemos também, em resposta aos nossos próprios medos, a criar crianças protegidas numa redoma que não saem das suas zonas de conforto, que não as deixamos correr nenhum tipo de riscos, e aí estamos a privá-las de um mundo inteirinho.
Portanto, deixá-las subir às árvores e subir os escorregas ao contrário.
Sim.
Mas perigos é diferente de risco. Perigo é diferente de risco, não é? Como tu costumas explicar.
Sim. O risco é, a título de exemplo, o risco de ouvir um não quando um colega não quer ir brincar comigo, o risco de sujar ou de arranhar-me quando estou a subir uma árvore, por exemplo. O risco de, isto agora até pensando aqui na escola, de ter uma má nota porque não me dediquei no trabalho da escola. Isto são riscos que as crianças precisam de viver para desenvolver competências. Por exemplo, pra saber lidar com a frustração, pra saber lidar com a tristeza, pra saber lidar com a vergonha, com o medo. O perigo é tudo aquilo que realmente possa pôr em causa o bem-estar global, a saúde daquele ser humano. O papel dos pais é, de facto, proteger dos que são perigos. Mas no limite, tu subir o escorrega ao contrário, apesar de não ser o convencional, não é um perigo. Claro, tem riscos inerentes, mas também tem desafios que são muito importantes pra criança, nomeadamente ao nível da motricidade. E lá está, de se encontrar com um outro menino pelo caminho que vai refilar com ele e ele vai ter que saber reagir.
Reagir e solucionar essa situação. As regras existem pra ser quebradas, tu falas um bocadinho disso também. Há regras e há regras que devem ser cumpridas, mas também, se forem quebradas, às vezes não vem daí o grande mal ao mundo.
Nesta lógica do que estávamos a dizer, está convencionado que o escorrega se desce de cima pra baixo e que não é pra subir. Mas este quebrar, que não põe em causa ninguém, por assim dizer, é um risco que é uma crise que esconde uma oportunidade. Há uma partilha que eu faço muitas vezes nas consultas e até nas formações. O caráter chinês para a palavra crise é o mesmo que é usado para oportunidade. E é no fundo isto que estamos aqui a dizer. O subir o escorrega ao contrário pode ser encarado como uma crise, precisamente porque estou a desafiar aqui um conjunto de regras implícitas e até daquilo que é o autoconhecimento que a própria criança tem de subir o escorrega. Não é aquilo que faz mais vezes, não sabe se vai sequer conseguir ou não conseguir. Mas esconde, de facto, ali um conjunto de oportunidades que pode alimentar até a sua autoestima e a sua autoconfiança, por perceber que é capaz de fazer aquela coisa difícil e desafiante.
As refeições com a televisão ligada, por exemplo, os passeios com o telemóvel na mão, os pequenos almoços no carro e assim, não servem. Isso não convida laços afetivos a criar laços entre eles. Portanto, é uma coisa a evitar, defendes tu absolutamente.
Sim. Eu sugiro sempre que a hora das refeições não seja com a televisão ligada, que os passeios efetivamente podem ser feitos com os telemóveis nas mochilas e nas malas. A ideia é mesmo que o tempo possa ser de qualidade e a verdade é que passamos mensagens de algum, isto quando é recorrente, até de algum desrespeito e desinteresse pelos nossos filhos quando estamos mais focados numa outra coisa qualquer que não é deles. O que não quer dizer, no limite, que vamos imaginar, eu estou sentada a fazer qualquer coisa de trabalho, ao computador, a terminar qualquer coisa. E vem o meu filho que me quer mostrar qualquer coisa que acabou de fazer, a sua construção do Lego, e vem maravilhado. Eu dizer: "Aguarda dois ou três minutos, porque eu neste momento não te consigo dar atenção, mereces toda a atenção do mundo. Vou só terminar de escrever esta mensagem." Isto não tem nada de errado. Agora, de forma persistente, permanente, as pessoas estarem muito desligadas umas das outras, mas ligadas à tecnologia, não tem nada de benéfico pra ninguém.
Outra coisa que tu dizes é esta coisa do não é tanto os pais não terem tempo, às vezes arranjam tempo, mas os pais não sabem brincar. Isso é importante também. Eu acho que às vezes os pais não sabem brincar. E por isso é que o teu livro também é bom, porque dá umas dicas, dá umas ajudas.
Sim, tem algumas sugestões. E a maior sugestão que nós podemos dar é que a pessoa se ponha ao nível da criança e que siga os interesses do filho. Porque a maior parte das brincadeiras não tem, de facto, um manual de instruções, não tem regras que estão lá. E nós não nos esquecemos de brincar, nós deixamos é de brincar, que é uma coisa diferente. À medida que crescemos, parece que vemos a brincadeira como uma coisa desnecessária ou como uma coisa infantil, mas a verdade é que podemos retirar grande prazer deste partilhar brincadeiras com as crianças e divertirmo-nos imenso. E lá está, a questão do estreitar os laços.
Eu lembro uma coisa que eu achei muito apiada no teu livro, é a questão do, por exemplo, brincadeiras com os bebês, porque tu vais depois dos bebês até à pré-adolescência, dizes muito, por exemplo, quanto mais novinhos, deve haver brincadeiras que estimulem os cinco sentidos. Tu tens gêmeos também, tiveste gêmeos, eu também tive gêmeos. A questão deles experimentarem com a comida. E então era todos os sentidos aí, a comida voava pelo ar, eles agarravam tudo, queriam experimentar com as mãos todas e punham pela boca toda e pelo corpo todo, atiravam pro teto. E, portanto, tem um bocadinho os cinco sentidos aqui, eles são de meter a mão na massa, as crianças mais pequeninas, e tu deixas e dizes que isso é bom.
Sim, é importante.
Há mais que não deixa sujar a cozinha e não se pode. Há limites.
Sim. Mas a verdade é que as tais memórias, as aprendizagens, fazem-se com a mão na massa, como referias. E é importante estimular isso. E há bocado falávamos do criar as crianças numa redoma e muitas vezes estamos a dar resposta aos nossos medos, aos nossos receios. Sim, dá muito trabalho limpar uma pintura que saiu fora do papel e está na mesa da cozinha, por exemplo, ou porque vamos fazer uma receita e ficou farinha espalhada pelo chão. Mas todas essas experiências que implicam sujidade e alguma bagunça são extremamente ricas e aprendizagens pra eles.
Continuamos aqui a conversa com a Inês Afonso Marques, neste livro do "A brincar também se educa", onde ela dá algumas ideias e também a importância deste livro pra mim é isso. Temos algumas ideias, algumas sugestões de jogos e tarefas pra brincar com os bebês, com as crianças e até com adolescentes. Quando eles têm dois, três anos, aí já entra a questão da imaginação e já estamos nos jogos do faz de conta e já fazem o lápis que serve de microfone e este tanto de coisas aí já é importante estimular outras coisas.
Sim, o jogo simbólico surge precisamente por volta dos dois, três anos. Essa capacidade da criança, por um lado, encarnar outros papéis, outros personagens, e adoram ser o bombeiro, imitar as personagens que veem muitas vezes nos seus desenhos animados, e têm esta capacidade maravilhosa de pegar num qualquer objeto e atribuir-lhe uma outra função. O lápis que é o microfone, a bola que vira uma maçã, este tipo de coisas.
O jogo dos objetos é outra ideia que tu pões, em que também obrigam as pessoas a não estarem em presença dos objetos, mas podem fingir para que servem as coisas. Podem fazer jogos com os pais que serão muito divertidos, as caixas mistério, também falas nisso.
Sim. Aquilo que vai estimulando também é a curiosidade da criança, que é um dos pilares fundamentais mais tarde, em termos de motivação intrínseca para a aprendizagem na escola. Esta curiosidade que nós vamos alimentando é um pilar muito preditor da motivação intrínseca mais tarde. E isso também implica, ao longo do crescimento, darmos atenção e mostrarmos também nós curiosidade por aquilo que as crianças nos vão perguntando. Eu lembro-me há uns anos, numa viagem de barco no Algarve, que ia um pequenito com a sua mãe, acho que era uma tia, e o miúdo fazia imensas perguntas. E eu lembro-me dele perguntar: "Por que os aviões deixam o rasto?"
No céu.
Mas a resposta da mãe era: "Que chato que tu estás a ser, que não paras de me fazer perguntas". E são estas perguntas que transparecem uma criança ávida por aprender.
Curiosidade por conhecimento. Também gostei muito da tua ideia das brincadeiras sem brinquedos. Façam desenhos uns aos outros, preparem piqueniques, ler um livro em conjunto, plantar uma árvore, lutas de almofadas. Eu achei isto ótimo, achei isto que era um voltar completamente à infância. Saltar em poças de água, acho extraordinário. Pronto, cá está, estamos no detergente outra vez. Estás a dar muito trabalho, ainda bem, a todas estas fábricas de detergentes, que é muito importante. E vamos terminar agora, temos dois minutinhos, mas há esta obsessão com os videojogos, que é uma coisa importante hoje em dia, e tu também falas um bocado disso. Muitos pais dizem que os miúdos vivem obcecados com os jogos, só falam, por exemplo, do Fortnite, que são tão dependentes. Se eu peço para desligar o Sims ou o que for, ela fica furiosa comigo. Mas tu, mesmo que seja uma coisa aparentemente viciante, o mal não está nesses jogos. O que tu recomendas a estes pais que se confrontam com este fecho dos filhos dentro destas coisas virtuais e que não querem sair dali?
Muitas vezes o jogo está a funcionar como um escape à vida real, por algum motivo. E isso é sintomático de qualquer coisa que vale a pena aprofundar e perceber por que aquela criança ou aquele jovem está no mundo virtual e o que no mundo real está a ser difícil. É o medo de ser rejeitado, é uma ansiedade de se expor, o que quer que seja. Por outro lado, muitas vezes eles dizem: "Eu não tenho alternativa". Isto já vem de trás, não é? Porque muitas vezes nós damos o telemóvel para a criança se entreter, porque temos medo que se aborreça. E acaba por ser aquela coisa que os pais sentem que é mais acessível. Mas eu quando vou para o restaurante, não tenho que levar o telemóvel para a criança estar ali entretida. Eu até posso querer que ela esteja entretida, pelos mais variados motivos, mas tenho alternativas, tenho os livros, tenho os lápis, tenho os carrinhos, tenho outras coisas. As crianças vão registando na sua memória que não há outras coisas pelas quais se interessem. Então é fundamental que ao longo do crescimento, os pais vão diversificando as oportunidades e os estímulos para as crianças se entreterem. E os jogos tornam-se realmente perigosos quando são exclusivos, não há outras alternativas que a criança encontre e, por outro lado, quando a questão da interação face a face é posta em causa. Ou seja, quando a criança não se movimenta, quando não se vai relacionar com outras crianças da sua idade, aí, sim, o jogo pode tornar-se algo verdadeiramente perigoso. Portanto, jogos, sim, no limite, mas que os pais também demonstrem interesse em conhecer esses jogos e em saber se são adequados para a idade da criança, que haja aqui uma negociação daquilo que é um tempo razoável de envolvimento no videojogo, por exemplo, porque há aprendizagens. A criança sente mestria quando é capaz de ultrapassar níveis, por exemplo, quando é elogiado por um parceiro de jogo, por determinada jogada que fez, há ali também um conjunto de aprendizagens que a criança tem. Quando o jogo é exclusivo, torna-se realmente perigoso.
Muito bem. Inês, nós não temos tempo para mais, infelizmente. Foi muito bom a tua presença aqui. Resta-me agradecer-te, mais uma vez, por teres aceitado este nosso convite, este serão tão bom e tão cheio, onde ficamos cheios de vontade de mandar os nossos filhos sujarem e subirem às árvores. E com a ideia da necessidade imperiosa de arranjarmos pelo menos 15 minutos por dia para brincar e desafiar os nossos filhos. Boa noite, eu sou o João Paulo Seculo. Amanhã trago-lhe outro convidado a este nosso serão, às oito e pouca da noite, o Diogo Infante vem-nos falar do Teatro Trindade e do seu novíssimo musical, o famoso Chicago. Conto consigo aí desse lado.