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Eu acho que hoje falta gente que escreva revista.

Ok, como era o Nick Houlson, por exemplo, naquela altura.

Sim. Eu acho que há boa gente para escrever revista e que está a escrever para outros sítios.

Sim.

Neste momento há muito boa gente que poderia escrever revista e que está a escrever rádio de manhã, por exemplo.

Sim.

Programas de rádio de humor de manhã.

Até ao fim do mês está em cena no Teatro Armando Cortez, "Um Quinteto de Morte", uma comédia negra com encenação, tradução, adaptação, cenografia e figurinos, da responsabilidade do meu convidado de hoje, Frederico Corado. Além de uma referência de humor britânico, esta peça assinala os 70 anos da estreia do filme original, "The Ladykillers", e assinala o centenário de Peter Sellers, um dos seus protagonistas no filme, e emprega até uma atriz com 97 anos. Com um extenso currículo no cinema, teatro, televisão, publicidade, vídeo, fotografia, curadoria, programação, Frederico Corado, vice-presidente da Academia Portuguesa de Cinema e membro da direção da Casa do Artista, é filho também do cineasta Lauro António e já em 2020 foi ele o responsável pela adaptação e encenação do sucesso, "A Peça Que Dá para o Torto". Vamos conhecer melhor este talentoso homem dos sete instrumentos, que de verdade acredita que fazer rir e rir bem é talvez a mais difícil das artes. Olá, Frederico, e bem-vindo ao Rádio Observador. É um grande prazer estar aqui a conversar contigo. Gosto muito do teu trabalho. Já te dei antes, off record, de antes de começar a gravação, os parabéns, porque de facto, que era esta peça que tivemos aqui o Miguel Tireli a falar dela há uns anos. "A Peça Que Dá para o Torto", extraordinário. Tinha visto em Londres, tinha chorado às lágrimas. Veio aqui e não fica nada a dever. É extraordinário, é muito bem feita também, muito bem encenada. E eles têm, só para te avisar, mais duas ou três. O Peter Pan que deu mal, o roubo. Aquele roubo que também que deu para o torto. Esse tipo de coisas. E agora tem uma outra, além dos sketches que têm no-

Agora estrearam a dos espiões, que é fantástica.

Eu só estou a dizer isto porque eu sei que tu tens jeito para adaptar essas coisas, o humor britânico para o português e portanto, para estares de olho.

Sendo que "A Peça Que Dá para o Torto" foi traduzida pelo Marco.

Nuno Marco, exatamente. Isso já foi em 2020, que ela veio e que estreou cá, e depois teve uma reposição agora em 24 e 25. Mas só para dizer que estás atento, Frederico. Vai Londres, lê.

Eu estou muito atento.

Estar atento aos direitos é uma coisa que eu também disse ao lá Férias, às vezes: "Filipe, eu vi a 'Mary Poppins' em Nova Iorque. Tens de trazer isso". "Ó João, temos que esperar 10 anos pelos direitos". Há uma série de anos. Até consegui trazer, mas sim, eu também vi, eu conheço.

Aliás, eu já tenho uma nova em carteira que está já em preparação, que vem de Espanha, precisamente.

E também é super divertida. De Espanha, às vezes vêm coisas. Musicais não me lembro de espanhóis, mas de peças e assim, e de séries da televisão ou contam como foi em espanhol.

Aliás, posso dizer em primeira mão aqui, ainda ninguém sabe. Chama-se "Gordas".

"Gordas"?

"Gordas". É uma peça sobre gordofobia e sobre a imagem do corpo.

Body shaming.

Body shaming. E que vai estrear em setembro.

Aqui em...

Não vai estrear em Lisboa, vai estrear fora de Lisboa, vai fazer o circuito por fora e depois estreará em Lisboa, se calhar no início do ano.

Olha, estou muito curioso e ficamos aqui a saber. Muito bom.

É uma peça extraordinária de um autor espanhol chamado Carlos Mesa, e que esteve quatro anos em Madrid, a peça. Foi um sucesso estrondoso.

Fantástico. Estou muito contente com isso e muito contente de saber em primeira mão. És, de facto, o homem dos sete instrumentos, porque além do curador, professor, programador.

Essa listagem, mais coisas houvesse, mais eu faria.

Exato, porque tu também fotografia, também dás cartas. Mas no teatro e no cinema, encenador, realizador, produtor, montador, ator. Ator também, também dás ali uns toques de vez em quando. Argumentista, operador de luz. É extraordinário, também já fizeste.

Fiz desenhos de luz, sim.

É extraordinário, gosto muito. Tu, claro, it goes without saying, és filho do Lauro António, o extraordinário Lauro António, que nos deixou há quatro anos, exatamente há quatro anos. Grande fundador de cineclubes. Curiosamente, eu não sabia que era licenciado em História. Não sabia do teu pai.

Sim.

E filho de um pintor também, o teu avô, e foi realizador, crítico, ensaísta, mais de 50 livros publicados, editor de revistas, programas de televisão e de rádio, e realizou "A Manhã Submersa", por exemplo, grande filme, do livro, "Do Meu Professor de Português". Ele brincava com a imitação do Herman José, do Lauro Dérrio.

Sim.

"Let's look at a trailer", que era o teu pai. Ele brincava com isso.

Ele achava muito divertido, tanto que o Herman um dia convidou para ele ir ao programa e fizeram o Lauro Dérrio entrevistar Lauro António. E o meu pai chegou a convidá-lo a ir apresentar. Ele teve um livro sobre o programa, o Lauro António apresenta em livro, e foi o Herman que foi apresentar o livro.

É fantástico. A barata ali na Avenida Roma. Engraçado, incrível. Claro que desde pequenino, Frederico, começaste a estar envolvido com o cinema, mas pouca gente se calhar sabe que tu tinhas 15 dias quando entraste no teu primeiro filme.

É verdade, foi uma história engraçada, porque eu saí da maternidade diretamente para o Café Vavá, ali na Estação de São Bento.

Na esquina.

E foi, eu creio que o Jorge Paixão da Costa, que foi assistente de realização do António Macedo no filme "O Príncipe com Orelhas de Burro", que passou pelo Vavá cumprimentar os meus pais.

E dar parabéns para a cria.

Estava toda a gente a adorar a criancinha, e ele disse: "O Macedo precisa de um bebê para entrar no filme. Vocês se importam se emprestar?" E então eu fui para o set, para o cenário do "Príncipe com Orelhas de Burro", fazer de príncipe com orelhas de burro ao colo da Eugénia Bittencourt. E foi a minha estreia no cinema com 15 dias, no Palácio.

Já fizeste príncipe logo.

Fiz logo príncipe.

Aqueles. Incrível. Olha, qual é a tua ligação ao Cartaxo?

A minha ligação ao Cartaxo é muito curiosa.

Comissão de 200 anos de elevação a concelho.

Neste momento, eu vivo no Cartaxo.

Ok.

E por quê? Porque curiosamente, levado para lá por José Raposo.

Que engraçado.

O José Raposo organizou durante alguns anos umas conversas no Centro Cultural do Cartaxo com artistas. Nós temos esta paixão comum pelos artistas mais velhos e por aí fora. Não eram só os mais velhos.

Ele tem, de facto. Casa do Artista, onde os dois estão na direção.

Sim. E então ele começou por convidar artistas mais velhos, aliás, o meu pai foi um deles, a irem lá ter umas conversas que eram ao domingo, se não estou em erro, uma vez por mês, a um domingo, e eram umas conversas no café do Centro Cultural, e ele pediu-me para eu fazer um vídeo para apresentar cada um deles, e eu fazia-lhes os vídeos que apresentavam cada um desses artistas. No centro cultural, propus uma vez aos programadores do centro cultural fazer uma peça de teatro que juntasse a comunidade do Cartaxo. Portanto, os atores seriam pessoas da comunidade. Juntava também os lojistas, os empresários, na construção dos cenários, na construção do guarda-roupa, por aí fora. E foi assim que nasceu um projeto que durou 12 anos no Centro Cultural do Cartaxo, que acabou por criar uma associação cultural chamada Área de Serviço, que hoje em dia é a produtora onde funcionam os meus projetos. O primeiro projeto que fizemos foi "O Marido Ideal", do Oscar Wilde, com quase 60 pessoas em palco, que aprenderam a dançar valsa, fizemos um espetáculo extraordinário, muito apoiado pelas pessoas que estavam à frente do centro cultural na altura, que era o Carlos Ouro e o Marco Guerra, que deram uma grande ajuda, e depois uma estrutura enorme que se criou à volta desta área de serviço com o Mário Júlio, que era quem construía os nossos cenários e que agora construiu o cenário do "Quinteto de Morte" comigo. Fizemos vários projetos durante muito tempo ali no Cartaxo, e foi onde eu conheci minha mulher.

Pronto. Então há uma relação de amor também.

Eu fiz "As Alegras Comadres de Windsor" no Cartaxo, e uma das comadres era a Vânia Calado, que é a minha mulher, e que vivia em Vale da Pinta, que é uma pequena aldeia no Cartaxo. E acabei por mudar para Vale da Pinta. Casei com ela e fomos viver para Vale da Pinta.

Incrível. E a tua ligação a Setúbal? Tu também tens alguma ligação a Setúbal, ou não? Ou é só o Fórum Municipal?

O meu pai fazia muitas coisas em Setúbal.

É que eu vi que no teu currículo, tens um currículo extensíssimo, brutal. Seis horas de programa, não temos. Mas eu lembro umas coisas, várias coisas que tu fazes, homenagens na Luísa Todi.

Sim. O meu pai acabou por doar o seu espólio todo, sobretudo tudo o que estava ligado a cinema e audiovisual, ao município de Setúbal, que criou uma coisa que se chama Casa das Imagens Lauro António, mesmo ao lado da Biblioteca Municipal.

E tu já fizeste lá exposições também, que tu foste o curador.

Sim, e eu estou a colaborar com eles na criação de algumas exposições, uns ciclos, ajudo na programação.

É isso.

E faço uma colaboração também com o Fórum Luísa Todi na programação da parte de cinema. Temos uma coisa que eu gosto muito, que é um ciclo de cinema português que eu organizo, que é a história resumida do cinema português em alguns filmes. Todos os anos escolho uma seleção.

Como as obras completas de Shakespeare em 20 minutos.

É mais ou menos essa a ideia.

É uma ideia muito gira. Por isso é que eu estou a dizer: municípios de Portugal, unam-se para convidar o Frederico Horário. Quando ele agarra as coisas, agarra muito bem.

Unam-se à vontade. O meu telefone é muito fácil de encontrar, estão à vontade para contactar.

E depois é importante, porque o Frederico, como por exemplo esta peça agora do "Quinteto de Morte", que vai de 29, acaba aqui em Lisboa, no Teatro Armando Cortez, e depois vai entrar em digressão, vai para o Porto, vai para Faro. E sinto que tu tens muito em ti esta coisa do descentralizar, do levar a todo lado.

Eu acho isso importantíssimo.

O teu currículo vê-se: este homem gosta de ir para fora e mostrar a toda a gente, não obrigar as pessoas a vir ao Porto ou a Lisboa, mas obrigar a fazer estas coisas irem, as pessoas localmente verem estas manifestações de arte.

Este trabalho no Cartaxo foi muito de experiência com essa coisa de fazer coisas fora de Lisboa, porque eu acho que estar fora de Lisboa, estar fora do Porto, das grandes cidades, é muito importante, porque há muita gente que tem vontade de ver coisas e não consegue ir a estes lugares. E levarmos as coisas para fora é muito importante. Nós estamos agora a fazer com a Academia Portuguesa de Cinema, estamos a fazer um projeto que agora vai levar cinema português aos Açores, ao Coliseu Micaelense. Vamos fazer durante um ano uma programação de cinema português no Micaelense. Queremos fazer isto noutros sítios também. E lá está, chama-se História do Cinema Português, uma edição de bolso.

Exacto.

E estamos a fazer uma edição de bolso da história do cinema português.

Até porque, convenhamos, o cinema português não é muito bem tratado pela crítica em geral e sobretudo pelo público. É isso que me preocupa mais. Falamos em cinema português e lembramos logo o Noel Rivera.

Eu acho que é um mito.

É, mas há que desmontá-lo.

E é esse mito que nós queremos desmontar com isto, que é levar uma seleção de filmes que vão desde grandes clássicos a filmes perdidos e esquecidos, desde filmes muito antigos até filmes mais recentes.

Portanto, quem vai tem surpresas?

Tem surpresas, sem dúvida. Eu acho que isso pode ser muito interessante e acho que vão descobrir que aqueles mitos que se dizem do cinema português, que é chato, que é aborrecido, que não se percebe, que é muito longo.

Não tem andamento.

Está completamente desfasado da realidade.

Engraçado, ainda bem que tu dizes isso. Fico muito contente ao ouvir isso. E fico muito contente com esse ciclo. E oxalá eu possa assistir também um dia. Tu tens desde 93, "O Recreio", aquele teu primeiro vídeo, a "Estrela", onde entrava o teu pai, este conto do Virgílio Ferreira. 2004, até fizeste vídeos para a ópera. Tu fazes muito este trabalho dos vídeos para vídeos iniciais de espetáculos. O Lafer, até teve muitos.

Fiz durante muito tempo.

E até para uma ópera, "O Barbeiro de Sevilha". Cansaste? Porque é muito cansativo, não é um cinema, não é uma longa-metragem, nem uma curta.

É uma coisa que se usava muito, usou-se muito durante muito tempo, vídeos em teatro. Depois trabalhei durante muito tempo com o Filipe La Féria. Fiz os cenários do Amália, do La Féria, esteve seis anos em cena.

Incrível.

E cansei-me muito de ver cenários em vídeo E o recurso a vídeo em espetáculo. Tanto que nenhum espetáculo que eu fiz alguma vez tenha tido vídeo em cena.

Ok. Mas, por exemplo, este da Carmen Miranda é todo, o cenário é feito.

O Filipe gosta muito de usar vídeo.

Mas eu acho que ali resulta muito, porque tu não consegues dar a alegria do Brasil e dos papagaios e das roupas.

Ele faz isso muito bem e usa muito bem.

Ali é magistral esse uso.

Eu é que me cansei de fazer esse trabalho. Eu fiz isso para o Filipe durante imenso tempo e gostava muito. Eu adoro trabalhar com o Filipe. Trabalhei com o Filipe durante muito tempo, fiz tudo, fiz produção, fui assistente de encenação dele durante muito tempo. E gosto muito do Filipe. "Canção de Lisboa" foi um espetáculo que eu adorei fazer e que acho que foi um espetáculo que foi maltratado pelo público, mas eu gostei muito de fazer a "Canção de Lisboa". E o Filipe é uma pessoa com um talento extraordinário.

Incrível.

Mas eu cansei-me um pouquinho de fazer vídeos para espetáculo.

Porque é muito intenso.

É, e dá muito trabalho. E depois é a questão da narrativa, acompanhar a narrativa do espetáculo. Os vídeos devem funcionar como um cenário, não se devem sobrepor ao que está a acontecer em palco, é preciso ter essa noção. Depois também a técnica avançou de uma forma avassaladora com a animação.

Exatamente.

E eu não faço animação, faço outras coisas.

Sim.

Portanto-

"A Balada das Sete Maravilhas" também me lembro, porque era o teu-

Era meu.

Isso eu lembro, isso eu estive, estava lá. Simão.

Esse trabalho foi feito em colaboração com animadores, que faziam um trabalho muito mais interessante do que aquilo que eu faço. Eu posso dizer o que é que pretendo e os animadores é que fazem essa animação.

Mas alguém tem que ter a cabeça que dá a ideia. Obviamente.

Fiz espetáculos com a Celguerra na Barraca, em que fiz vídeos para espetáculos, fiz várias coisas. Mas interessou-me sempre muito essa linguagem e como é que se adapta essa linguagem de vídeo para o palco. Foi uma coisa que sempre me interessou muito. E o meu trabalho com o Filipe, a primeira coisa que eu fiz para ele foi precisamente um vídeo para um espetáculo.

Ok.

Depois comecei a fazer spots de televisão, depois comecei a fazer outras coisas, mas começou precisamente com um vídeo para um espetáculo.

Ok.

E começou de uma maneira muito engraçada, que foi um contocinema do Filipe lá para casa, para falar com o meu pai. E eu disse: "Não, o meu pai não está hoje cá em casa." "Mas você faz vídeos, não faz?" Eu disse: "Faço". "Eu precisava de fazer aqui uma coisa, não quero que vá vir falar comigo ao Politécnico."

Ah, que engraçado.

E eu disse: "Está bem, então vou aí." E eu sempre tinha querido trabalhar com o Filipe La Féria.

Por quê? Tinhas este fascínio?

Eu tinha visto o "Passa por mim no Rossio". Esta história já é uma história que eu já contei várias vezes.

Olha, não sei.

Eu tinha visto o "Passa por mim no Rossio" quando era miúdo. E há um momento no "Passa por mim no Rossio", em que há um grupo de bailarinos que está na plateia, num quadro alusivo ao Bordalo Pinheiro, e estão a passar uns enormes tomates, umas cebolas e uns alhos na plateia.

As louças e as coisas, sim.

Que passam para a plateia, para o público, e o público passa uns aos outros até o outro lado da plateia. E eu olhei para trás nesse momento e pensei: "Isto é extraordinário, esta envolvência entre atores, plateia".

A quarta parede, que não está aqui.

É fantástico. E as pessoas estão todas superentusiasmadas com isto. Eu gostava de fazer isto, gostava de conseguir um dia fazer isto. E gosto da pessoa que criou isto. A pessoa que criou isto é extraordinária. Eu gostava de trabalhar com esta pessoa. E anos depois essa pessoa chamou-me para trabalhar com ela e foi um sonho cumprido.

Um filme dirigido ao pai. É extraordinário como as coisas acontecem, não há coincidências, eu acho sempre.

É verdade.

Na televisão também colaboraste com a TV Manchete, na Xica da Silva, por exemplo, do Walter Afansini. Foste assistente de realização, novamente de mito, do teu pai, para a RTP. Publicidade, tens muita coisa de publicidade também. Gostavas disso. Entre televisão, teatro, cinema, publicidade, rádio também fizeste. Algum meio que tu prefiras muito em relação aos outros? Ou é tudo trabalho, portanto tudo que vier é bom?

Eu a publicidade fiz.

Muita coisa.

Televisão também fiz.

Clientes.

A publicidade é engraçado, porque eu comecei a fazer publicidade com o António Macedo, com quem comecei o meu filme, que é muito engraçado.

Estou com 15 dias.

É verdade. Uma campanha para segurança na agricultura, foi muito engraçado, para o Edict. O que é que eu prefiro? É muito complicado. Eu entre o teatro e o cinema divido-me sempre muito, porque são duas formas diferentes de abordar uma coisa. O teatro tem uma coisa que me agrada muito, que é o facto de nós passarmos muito tempo juntos e de se criar um espírito de comunidade que me agrada muito. Eu gosto muito de pessoas e gosto muito de estar com pessoas. E gosto muito de criar raízes com as pessoas.

O cinema é mais rápido nisso.

É mais rápido.

E fébro.

É. E depois os atores vão lá, têm aquelas sessões e têm que se ir embora. E isso custa-me um bocado. Porque eu gosto muito de atores e gosto de estar com eles e de trabalhar com eles.

Razão tão bonita para gostar de teatro e do meio teatro.

Mas não gosto mais de teatro ou de cinema. Gosto mais de trabalhar em teatro, se calhar, por causa disso, porque prolonga-se mais e há mais esse lado da relação. Depois, custa-me quando as coisas não funcionam assim no teatro, porque lá está, não há esse lado. Quando isso não vai por esse caminho, isso custa-me um bocado.

Sim.

Aliás, eu sou um bocado de cortar quando a coisa não está a funcionar, desapareço e não apareço mais.

É?

É, é um bocado isso.

Desligar um bocadinho.

É.

Documentários também, videoclipes, tu fizeste também que nunca mais acaba, os vídeos de homenagem a tudo o que é personalidade importante que tu fizeste.

Eu que fiz, lá está, fiz para o Zé, fiz para festivais de cinema, fiz para festivais literários, fiz muita coisa.

No cinema também fundaste o Colégio Moderno, foi onde andaste?

Andei no Colégio Moderno e fiz o Cinema Clube dentro do Colégio Moderno.

Exatamente. Este cinema moderno.

Mas aí foi extraordinário.

O colóquio, da revista, sessões de cinema.

Aliás, falaste aí de dois filmes que eu fiz dentro do colégio.

Sim.

Mas isso é uma história engraçada, que eu te posso contar, que foi: eu nunca fui bom aluno.

Olha, quem diria? Tu que dominas tantas artes.

Porque era preguiçoso para a escola.

Sim.

Mas foi no Colégio Moderno que graças a uma grande mulher chamada Isabel Soares e também à Maria Barroso, que me chamaram e disseram: "Epá, não podes ter estas notas, não é possível. O que é que tu gostas de fazer?" Eu disse: "Eu gosto de fazer teatro, eu gosto de fazer cinema." "Então faz." Faz e a gente apoia-te.

Abri bom rosto então, que a trilha é consagradíssima.

Eu criei esse cineclube com a colaboração de alguns amigos, Diana, um amigo que é jornalista agora, chamado Pedro Cordeiro, que está no Expresso.

Quando te viste focado em arte e cinema, as notas começaram a subir e começaste motivado para ir.

Também. Mas esse filme, o recreio, passava-se no recreio da escola. Até chegou a ganhar um prêmio. E depois o outro filme, a estrela, levei os meus colegas todos, curiosamente pra zona do Cartaxo, que não tinha a zona ainda.

Ainda?

E fiz um filme lá com, como estavas a dizer, meu pai entra, mas convenci a Mariuca de Sousa Guerra, o Camacho Costa, a Adelaide João e foi essa gente toda que participou a fazer um filme. Tinha eu 16 anos, 15, 16.

A Adelaide João, exatamente.

E foi porque na escola me deram esse incentivo pra eu avançar.

Essa zica. Engraçado.

E é importante que nas escolas olhem para os alunos não apenas como números, mas como indivíduos, porque esse fator fez toda a diferença. Eu deixei de ser um mero aluno medíocre e passei a ter um propósito.

A importância desse objetivo.

Se calhar, é por isso que estou aqui hoje.

E é engraçado essa questão, agora que estás a falar nisso, estou agora a pensar nisso, a questão de foi uma atividade extracurricular, digamos assim, que te alavancou e que te empurrou e disse: "Não, eu quero continuar aqui, quero fazer isto, já agora, vou fazer um esforço aqui ao lado desta parte."

Sem dúvida.

Isso é muito importante. Ainda antes, eu estou aqui a passar pelo teu currículo e pelo cinema que tu falaste, a questão, és sócio fundador da Magazine Produções e não existe?

Magazan.

Magazan.

Não, a Magazan deixou de existir por vários motivos. Um deles era uma produtora que eu tinha fundado com a minha mãe. E a minha mãe também já não está cá, mas a Magazan também já não existe.

Mas continuas a ter uma produtora que organiza, pela qual tu contratas.

É uma associação que está a funcionar como base.

E és diretor artístico dos Prêmios Sofia, da Academia Portuguesa de Cinema e, portanto, estás em alta elaboração neste momento. É uma sorte termos-te aqui.

A todo gás, sim.

A todo gás, porque vai ser já quando?

Maio.

Em maio. Então está quase, já tens muita coisa pra preparar. Muito bem. Estamos aqui a falar também que tu, como ator ou técnico, colaboraste em imensos filmes. Tens, de fato, este fascínio pelo teatro e integras os corpos sociais da Academia Portuguesa de Ciência, da Casa do Cinema e da Casa do Artista. Desde que te conheces, o humor e a comédia estão no teu ADN. Tu tinhas e tens uma série de memórias que vais tefiando aos nove anos a ver no Teatro ABC, o Arsênico e Rendas Velhas. Depois, com 10 anos, no Variedades a ver o "Aqui há Fantasmas" com o Henrique Santana. Falaste no Antônio Feio e do José Raposo, lembras-te dessa altura. O What Happened to Marlène Iglesias na Casa da Comédia, rias à grande. Tudo que fosse musicais, revistas e cabarés, gostavas e frequentavas e adoravas. O teatro popular, digamos assim, Frederico, é um cadinho mal visto e é pena, porque as pessoas associam muito o teatro a uma coisa quase de elite. Questão de teatros populares ou este género de comédia, há muita gente ainda, e mal, que torce o nariz. Por quê?

Não sei.

Mas qual é a razão de ver, ou como a Revista à Portuguesa, hoje em dia, não sei se faria tanto sucesso como fez. Teve uma época de ouro, claro, mas as pessoas pensam: "Isso é teatro de segunda." Há pessoas que ainda reagem assim, quando não é, é uma forma de arte.

A revista é um caso à parte, teve uma época de ouro. Eu acho que hoje falta gente que escreva revista.

Ok, como era o Nicholson, por exemplo, naquela altura.

Sim. Eu acho que há boa gente pra escrever revista e que está a escrever pra outros sítios.

Sim.

Neste momento, há muito boa gente que poderia escrever revista e que está a escrever rádio de manhã, por exemplo.

Sim.

Programas de rádio do humor de manhã.

Que são um grande sucesso, é verdade.

Que são um grande sucesso e que são revista.

Poderiam remontar a revista. Exatamente.

São quase revista que está a ser feita pra rádio. Se aquelas pessoas estivessem nos anos 40 cá, estariam a escrever revista.

No Parque Mayer.

Fariam parcerias com o Parque Mayer, com certeza.

Mas por que nós subestimamos essa comédia e achamos tudo uma coisa de segunda?

Eu acho que o que tem público, o que é popular, o que agrada a grandes massas, é sempre posto de lado.

Arte pop, literatura pop.

Por outras pessoas. Agora, será que é mesmo ou será que é aqueles guilty pleasures que tanto se fala? Acaba por ser, no fundo.

Achas? Deus que o ouça.

Quem é que pode torcer o nariz ao "Quinta da Morte" e que ao mesmo tempo diga que não gostou do filme? Porque é muito difícil alguém dizer que não gosta do Lady Killers, do filme, não é?

Exatamente. Peter Sellers. E depois a outra versão também, com o Tom Hanks.

Sim, a versão do Tom Hanks, eu próprio acho que é um cadinho discutível a adaptação que eles fizeram.

Ok. Dos irmãos Cohen.

Dos irmãos Cohen. Mas o filme do Peter Sellers é um filme absolutamente extraordinário.

55, extraordinário. Ou 54.

É um filme extraordinário. Peter Sellers, Cecil Parker.

Alec Guinness, que era o protagonista? Sim.

É um filme absolutamente extraordinário.

É genial.

E eu acho que por muito que se diga: "Ah, eu não gosto deste gênero de teatro." O que acho perfeitamente possível, perfeitamente legítimo. Neste momento, estamos a ver um espetáculo que é muito baseado, e este espetáculo, eu sou um anglófilo de primeira.

Sim.

Eu sou um consumidor-

Humor britânico. É muito humor britânico, é engraçado.

Eu sou um grande consumidor de tudo que vem de Inglaterra.

Ainda bem.

Eu gosto muito de teatro inglês, gosto muito de cinema inglês, gosto muito de música inglesa. Sou um anglófilo confesso.

E convicto.

Muito convicto.

Tão bom.

E acho que esta peça está muito próxima, não do filme, mas está muito próxima do espírito britânico. Apesar de nós, como disse o Cândido Mota, termos transformado um prato britânico num bom bacalhau à brás.

Mantém a essência do prato britânico, mas com sabor.

O mash pie.

É uma boa comparação.

O sausage and mash.

Porque não é fácil, e tu conseguiste adaptar isso muito bem. E tu adaptarias, claro, a falar da peça. O humor britânico adaptado.

Agora, não se pode dizer: "Ah, eu gosto do filme, mas isto..." O que se vai dizer? Não se gosta da Florbela Queiroz, que é extraordinária neste espetáculo?

Sim.

Não se gosta do José Raposo?

Eu gosto de velhas, como diria o Heitor.

Não gosta de velhas.

Adorei.

Essa personagem é muito engraçada.

É extraordinário, o Então Nós.

Pode não se gostar, de facto, de um teatro mais popular. Isto não é para agradar a todos.

Há gente que só gosta de ópera.

Como é óbvio. O Timothée Chalamet vive em todos nós de alguma forma. Não gosta de ópera, não gosta de bailado.

É o que ele diz. E por isso que aquelas bocas, por causa dos Oscars, gozaram com ele.

E ele tem todo o direito de não gostar. Se calhar não o dizer daquela maneira.

Sim, não foi feliz.

Portanto, há um parti pris contra um teatro mais popular. Não é generalizado, como é óbvio, senão não tínhamos casas cheias.

Exatamente.

Portanto, há sempre alguém que não gosta, e estão no seu direito. O que é chato é que quando há pessoas que estão em lugares de poderem dar projeção aos espetáculos, de poderem dar projeção a filmes, e que não gostam e que estão a impedir que a palavra chegue a essas massas.

Essa influência.

Por exemplo, não sei se algum crítico foi ver este espetáculo. Eu não sei se algum decisor de, por exemplo, Globos de Ouro, coisas desse gênero, foi ver este espetáculo. Eu acho perfeitamente que há aqui algumas interpretações neste espetáculo que poderiam ser dignas de receberem uma nomeação, pelo menos de um Globo.

Claro que sim.

E se as pessoas vão de pé atrás, ao verem o cartaz sequer, nem ver o espetáculo, logo aí há um...

Um preconceito, como tu dizes, um parti pris.

E é essa a questão.

A Florbela Queiroz, se calhar está com 83 anos e está aqui extraordinária. Tem 68 de carreira, é extraordinário. Incrivelmente nesta pele de velha, a dona da casa, dizia que viu esta peça em Londres, acho que duas vezes, e depois viu uma terceira em musical. Quer dizer que estes The Ladykillers existem também em versão musical.

Não me lembro, não tenho essa consciência.

Aquela engraçada disse isso na revisão, numa entrevista que lhe fizeram. Muito bem, tu também na Casa do Artista, além de ser membro da direção, coordenas este centro de documentação Carmem Delosse, a questão também das exposições temporárias, tens feito uma série delas, e a programação de cinema. Quer dizer que também tem programação de cinema para toda a gente ou só para os residentes?

Não. Nós temos é um festival de cinema dentro da casa, que se chama Curtas na Casa.

Ok.

E que é um festival de curtas para a comunidade escolar, portanto, desde a primária até à universidade. Nos primeiros anos foi sobretudo dedicado a um tema que era a casa e os artistas enquanto temática, mas depois abandonámos um pouco essa temática e abrimos um bocadinho mais e foi este ano, foi agora o mês passado. Não, ainda estamos no mês. Foi este mês.

Em março?

Foi este mês. E temos vários prémios: temos um prémio para a primária, para o básico, por aí fora, e até ao universitário. Depois temos um prémio chamado Prémio António Évora, que era um ator que residia na Casa do Artista e que morreu há pouco tempo, e que é dado a um filme que aborda a temática do idadismo, este gênero de temáticas que andem à volta disto. O festival tem uma particularidade, que é: os filmes não são todos exibidos. Nós não temos espaço na Casa do Artista para estar a exibir os filmes todos que estão ao concurso. O júri viu os filmes.

Mas fazem uma triagem.

O júri viu os filmes todos e depois só exibimos os filmes vencedores.

Está bem.

No dia do festival. O festival é um dia só.

Ok.

E exibimos apenas os filmes vencedores. Temos os residentes a ir ver os filmes, é muito engraçado, e foi agora mesmo, há pouco tempo. Mas de qualquer das maneiras continuamos a fazer sessões mesmo dentro da casa. Temos uma sala, que é a sala Linda Silva, onde costumamos organizar umas sessões de cinema. Temos um filme por dia.

Ok.

E fazemos umas sessões de cinema para os residentes.

Essa exposição que tu fizeste em 2022 e depois em 2024, o Parque Visto por Laura António, são exposições que tu fizeste a curadoria, organizaste lá dentro da Casa do Artista.

Sim, essa é muito interessante, porque o meu pai fez uma série de documentários que não conseguiu acabar. Fez um primeiro chamado Vamos ao Nimas, que era sobre os cinemas de Lisboa que estavam a desaparecer, os piolhos, basicamente. E essa série de documentários chamava-se Os Arquivos da Cidade. Começava por esse e depois havia um, que estava a ser preparado, sobre os quiosques de Lisboa e um sobre o Parque Mayer. E ele fez a reperage em 75, foi fotografar o Parque Mayer nessa altura. Ali no intervalo entre 74 e 75, fotografou o Parque Mayer todo.

Ainda havia os teatros.

E então eu peguei nessas fotografias, todas que meu pai tirou, e fiz uma exposição dessas fotografias.

Queria dizer, esta pop-up, exposição pop-up, os tesouros da Casa do Artista. Por que pop-up?

Porque foram poucos dias, foi uma coisa que apareceu. Nós fizemos uma feira todos os anos na Casa do Artista de coisas que nos são oferecidas para vender e nós dentro dessa feira fizemos essa exposição, e eram os tesouros do arquivo. Nós temos dentro daquele arquivo coisas absolutamente extraordinárias. Dentro do centro de documentação temos desde um currículo escrito à mão pelo António Silva, até à bengala da Irene Isidro, até aos óculos da Marilena Matos. Temos várias coisas neste género.

Estava a querer dizer bengala da Palmira Bastos. Porque as árvores não morrem de pé.

Temos coisas. Este currículo do António Silva é absolutamente extraordinário. É ele a dizer: "Eu nasci", escrito à mão por ele, é extraordinário.

Entre as peças que tu traduziste ou encenaste, coisas como A Sombra de Austin Wells, por exemplo, do Pendleton, coisas de Neil Simon, do Oscar Wilde, Marido Ideal, por exemplo, Bernard Santareno, uma série de peças. Tens esta então da peça Que Deu para o Torto, uma coisa que dá para o torto, uma coisa extraordinária de 2021 Já pelos 30 anos da UAU. A UAU também é a produtora deste espetáculo, que está no Armando Cortez ainda. Este Quinteto de Morte está em Lisboa até 29 de março e que mete a Florbela Queiroz, a família Raposo, o Zé, o Miguel e o Ricardo, o Heitor Lourenço. Não gosto de velhinhas, eu gostei muito disso. O Carlos Areia, que estava, e depois o João Maria Pinto. Eu acho que ficou o João Maria Pinto, quando teve um acidente, substituiu uns tempos.

O Areia teve um acidente, mas vai voltar agora.

O maravilhoso Machado. E depois tem estas extras. Elas são umas residentes, outras velhinhas que são residentes da Casa do Artista. Uma com 97, é extraordinário. A Natália Guimarães, a Lurdes Lima, a Teresa Santos, que começou como ponte no teatro. Meu Deus, é extraordinário. É muito bonito falares disso e eu acho que isso é das coisas que esta peça também, entre os vários temas que traz, tem esta parte do idadismo. Mas o Zé Raposo é uma coisa que está sempre a dizer: "Já me pediram para fazer de avô de não sei quantas. Eu tenho avôs muito melhores que eu na Casa do Artista, empreguem as pessoas mais idadas, vocês acham que não?" Saiu do palco. E acho que esta peça, rindo, alerta para isso.

Temos lá a Natália e a Teresa em palco todos os dias, é extraordinário. A Natália, que foi de facto ponte e é irmã da Cecília Guimarães.

Ok.

E a Teresa, que foi durante muitos anos assistente de encenação do Avilez, o que é extraordinário também. Trabalhou muitos anos no Tec, a Teresa Santos. E estão todos os dias em palco nesta peça ao lado da Fátima Severino, que tem um papel muito engraçado também.

Sim. Retochão. É extraordinário. Eu ri às lágrimas com a Fátima Severino.

Elas são muito engraçadas e eu acho que é o momento muito divertido da peça quando elas entram. A entrada delas é extraordinária.

É extraordinário. Por que este título? Isto originalmente, The Ladykillers, foi conhecido o filme como O Quinteto Era de Cordas. No Brasil, O Quinteto da Morte, que é de morte. No cinema, no Brasil, era O Quinteto Vendaval. Isto passou por vários títulos.

É verdade, e é engraçado que perguntes isso, porque o título que eu lhe pus foi Quinteto de Morte, e o Carlos Areia, que é o responsável pelo um, disse: "Tem que ser Um Quinteto de Morte", e o um faz toda a diferença.

Pois faz. É uma peça de morte, vão atrás, uma comida de morte.

Eu adorei trabalhar com o Carlos Areia, estou a adorar trabalhar com o Carlos Areia.

Vai voltar agora?

Que vai voltar agora. E são estas coisas. Eu não paro de aprender, eu acho que nós todos não paramos de aprender ao longo da vida. E trabalhar com o Carlos Areia e com o Zé neste espetáculo, sobretudo com eles os dois, a nível de ritmos de comédia, de tempos de comédia.

Eu imagino os vossos ensaios, Frederico.

Os nossos ensaios foram muito difíceis, são muito indisciplinados todos.

E como é que tu és como encenador? És muito picuinhas? Ou dás uma liberdade?

Eu tento ser um bocado picuinhas.

Há quem diga: "Não, eu tenho que respeitar o texto. E depois deixo-os brincar um bocadinho, mas não podem fugir daquelas baias que eu lhes dou ao princípio". Como é que tu és?

Eu o texto tento que se respeite o mais possível, sendo que depois há muitas alterações.

Mas com esta equipa, não vai ser fácil. O Machado, quem é que cala o Machado, quem é que o para? O Raposo com os filhos?

O Machado faz papagaio também, a gravação da voz do papagaio é do Machado.

Ele faz todos os sons. É um sonoplasta em potência.

Mas é muito interessante isso que eu estava a dizer de aprender muito com o Areia e com o Zé. E este é um caso, este um que ele põe atrás do título.

Um Quinteto de Morte.

É extraordinário.

E faz toda a diferença.

E foi sempre feito com uma humildade e com uma dedicação ao espetáculo extraordinária. Eu aprendi imenso com ele durante este espetáculo.

Adoro a ideia de irmos lá à Casa do Artista e ter o Raposo, e o Machado também, cá fora a tirar fotografias com as pessoas e obrigá-las a comprar o programa e a comer empadas. Mas à parte das empadas, que são ótimas. O quê?

O Machado vestido de polícia.

Vestido de polícia. Já em personagem, também, o Zé Raposo já começou com a escola até Algés. Mas tiram fotografias, as pessoas compram o programa, que eu tenho aqui na mão, e de facto é muito bonito e é uma coisa, como estavas a falar há bocado: vamos a Londres, vamos a um musical, e eu gosto de levar é o programa.

O programa é muito bonito, é uma peça muito bonita.

Está muito bem feito. Não é nada chato, tem históriasíssimos para ler sobre cada um. E eu, de facto, acho que faz parte e acho que é uma boa tradição manter isso, à boa maneira dos musicais ingleses, que a gente vai e adora trazer de recordação.

E não só os musicais, qualquer espetáculo em Londres tem um programazinho.

Tem um programazinho que faz parte, a gente compra, ajuda, e aqui reverte-se uma parte também para a Casa do Artista, portanto é muito importante. A questão da escolha dos atores foi contigo, Frederico?

A escolha dos atores deste espetáculo foi grande parte do Zé Raposo.

Foi ele? Tens o outsourcing do Zé Raposo.

Não, porque eu vi este espetáculo há muitos anos em Londres e quando o vi, depois falei com o Zé e disse: "Olha, tenho aqui um espetáculo que nós devíamos fazer."

Isto foi para aí em 2013, há muito tempo, há 13 anos.

E este espetáculo ficou a marinar desde então. Ficam a marinar muito tempo. A peça Tá pó torto também ficou a marinar.

Já tinhas muito antes, 2020, já tinhas.

Sim, eu saí da peça Tá pó torto e fui falar com o produtor que estava à porta e disse: "Eu quero fazer espetáculo em Lisboa". E ele disse: "Ok". Está combinado então. Quando quiser manda-me um e-mail. Eu saí, peguei no telemóvel e mandei-lhe um e-mail do telemóvel a dizer: "Quero fazer espetáculo em Lisboa, este é o meu contacto". E ficámos apalavrados. E só cinco anos depois é que consegui.

Faz. Isto também era uma coisa que já tinhas pensado? Disseste ao José Raposo.

Disse ao Zé.

Ficou entusiasmado.

Ficou entusiasmado e agora falámos com o Paulo Dias, da UAU, conseguimos combinar com ele e o Zé disse: "Mas eu quero trabalhar com pessoas com quem eu gosto de trabalhar e deixa-me escolher o elenco". E então ele escolheu o elenco e arrancámos a partir daí.

Assustou completamente.

Estivemos sempre a conversar, ele disse: "Olha, o que é que achas?" "Bora, vamos a isso."

Só para lembrar, o Carlos Areia, o Heitor Lourenço, o Ricardo, o Miguel e o José Raposo, claro, o António Machado, a Fátima Severino e a Florbela Queiroz, grande Florbela Queiroz, que tem aqui um regresso extraordinário, espapanante.

Florbela Queiroz, que é maravilhosa.

A subir e descer as escadas, era ótimo.

Toda a gente me fala no que eu faço é que Florbela Queiroz passar com as escadas. Como é que pois a senhora a subir e descer escadas a toda a hora, com uma bandeja cheia de chá whatnot na mão. E foi extraordinário trabalhar com ela, ensiná-la e ter uma atriz daquela idade e com aquele equilíbrio, que sabe ouvir.

E é ótimo nisto, é a cara dela, é extraordinário.

E ouve-me e falamos sobre as coisas e discutimos os assuntos.

Tu depois de ver as peças tomas notas e depois dás feedback?

Sim.

Dos primeiros tempos, não vais agora sempre ou vais sempre?

A peça "Tap to Order", por exemplo, foi uma questão diferente, porque a peça "Tap to Order" era uma peça que vinha já toda encenada de lá.

Ok.

A peça tinha que ser feita como estava feita em Inglaterra.

Ok.

E a peça era muito difícil a nível físico. Tinha muitas quedas. Havia uma exigência de sítios, de ritmos, de precisão.

E foi isso que o Telmo Ramalho, é muito complicado fazer aquilo. As coisas têm que ir no momento certo.

Tinha que lá estar todos os dias, a ver aquilo todos os dias e entregar notas todos os dias. Era a minha função.

Para fechar em 20 segundos, o que é que tu ainda gostavas de encenar? Vais ter "As Gordas", pronto, mas à parte disso, tens algumas peças que gostavas de levar isto?

Há muita coisa ainda.

Há?

Há. Isto só acaba, é como o Filipe, isto só acaba quando a gente acabar.

Bem, vocês parece divertir aqui mais vezes, o que é muito bom. De facto, tu és especialista em adaptação de textos, também da britânica. Por favor, faz mais, Frederico. E eu, só para despedir, deixo aqui esta nota final: "Um Quinteto de Morte", tanto de contradição e encenação de Frederico Arado. Quarta a sábado às 21:00, domingo às 18:00, no Teatro Armando Cortez e depois entra então em digressão. Já tem umas apresentações agendadas no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, se não me engano, a partir de 18 de junho.

Exatamente, 18 de junho.

E depois também no Teatro de Figuras, em Faro.

Teatro de Figuras, em Faro. Exatamente.

Vai ser também em junho, julho, por aí.

5 a 7 de junho. E o Centro das Artes e Espetáculos da Figueira da Foz.

O CAEF.

12 e 13 de junho.

Pronto, está dado o recado. Ainda bem que trouxeste a cábula.

Trouxe a cábula, que a Bárbara não me deixa vir sem cábula.

A Bárbara Max.

Obrigado, Bárbara.

Aqui da UAU. E pronto, fica este convite final irrecusável até dia 29. Se está em Lisboa, não perca, se está pelo norte ou se está pelo sul, já sabe, em junho vai ter mais datas para não perder este "Um Quinteto de Morte". Vai rir, vai se divertir, vai viver bom teatro com bons atores. E Frederico, quero-te cá outra vez para falar sempre das Gordas, será provavelmente o próximo.

Eu venho cá com as minhas atrizes.

É verdade.

Vimos cá todos para este estúdio.

Muito obrigado por teres vindo. Bem-haja, muito obrigado.

Obrigado, eu. Até breve.