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Nelson Ferreira é um jovem artista plástico e retratista que viajou por todo o mundo a aprender técnicas de desenho e pintura e se especializou em técnicas de antigos mestres europeus. Hoje, é um respeitado e requisitado professor de arte em Portugal e no Reino Unido, que há duas décadas expõe e ensina a sua arte a profissionais de museus, galerias e empresas de grande prestígio, como a National Gallery e a National Portrait Gallery de Londres, o Victoria and Albert Museum, a Galeria Saatchi, o Discovery Channel, a Industrial Light & Magic da Walt Disney, a Paramount Pictures, os Museus de Arte Antiga, de Arte Contemporânea em Lisboa, entre muitas outras. Acredita que nunca poderemos ser verdadeiramente magníficos em qualquer disciplina artística, se não estivermos 100% apaixonados pelo que estamos a fazer, mesmo se estivermos a pintar a falta de amor. Olá, Nelson, bem-haja por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao Observador.
João Paulo, muito obrigado eu.
É um grande prazer estar aqui contigo, falar contigo sobre isto, com este artista que pouca gente conhece, acho eu, aqui em Portugal ainda, talvez mais no meio da arte antiga, adoram-te. O presidente visitou-te outro dia e teve contigo e gostaste muito da visita que ele fez aos teus trabalhos, o presidente Marcelo, uma coisa fantástica.
Foi uma grande honra mesmo, não estava à espera.
E vou ter que começar com uma nota não tão feliz com a Paula Rego, que morreu na quarta-feira, com 87 anos, também radicada em Londres, tal como tu, uma grande falta. Já não somos os mesmos sem Paula Rego nas artes.
Não, ela deixou um vácuo que eu não estou a ver ninguém, de momento, que possa preencher. Para já, ela era uma pessoa muito sui generis, era mesmo uma artista única. Demorou muito tempo a ser aceita em Portugal, e eu acho que ainda está a ser aceita em Portugal. Ela foi muito criticada e continua a sê-lo, o que eu acho inacreditável, porque ela foi nomeada, inclusive, uma das 40 mulheres mais influentes do mundo. E não é nas artes, é do mundo. Mas em Portugal, parece que ainda não se valoriza quem merece ser valorizado.
É verdade.
E então a Paula Rego, infelizmente, chegou o tempo dela. Eu tive a honra de a conhecer várias vezes em Londres. Sou muito amigo da Lila, que é a modelo principal da Paula Rego e a assistente. E a Paula Rego disse-me uma vez uma coisa que eu não me esqueci mais. Ela disse que antes de ter a carreira que tem, ela foi rejeitada por perto de, prepara-te, por perto de 50 galerias.
Não é possível.
Exatamente. Ela andou de galeria em galeria.
Impressionante.
Toda gente a rejeitava na altura, porque não era conhecida, não era famosa, não era uma Kardashian.
Exato.
Eu acho que o culto da celebridade não é só de agora.
Exato.
E a Paula Rego disse que havia galeristas que nem sequer olhavam pro trabalho dela, estavam a conversar com os funcionários de costas viradas enquanto desfolhavam o portfólio. Não olhavam sequer. No fim, fechavam e diziam: "Desculpa, isto não é pra nós". E também houve casos de galeristas que mais tarde, quando ela finalmente teve carreira, vieram a correr tentar comprar as mesmas pinturas que eles tinham rejeitado há uns anos atrás.
Nem tinham olhado.
Nem tinham olhado. Portanto, é inacreditável. E ela disse para nunca desistirmos.
É um exemplo de resiliência. Aposta, sabe o que faz, gosta do que faz, tem amor e carinho. A tua carreira é um bocadinho assim também, por aquilo que faz. Mas o pior é isso de chegar aos outros e conseguir ultrapassar essa-
Demora tempo.
Mulher extraordinária, eu acho que isso é verdade. Mas olha, o teu país amava-a profundamente. A Tate Modern fez uma superexposição, Paula Rego, em nome dela, há muito pouco tempo, há uns meses.
Mas sabes que também demorou muito tempo até ela começar. Durante anos, a Tate não lhe ligava nenhuma, também. Há tempo eu estava a falar com a Emília Ferreira, a diretora do Museu de Arte Contemporânea, e ela disse que as mulheres artistas, e isto estatisticamente é muito verdade, costumam ter um hiato muito grande na carreira, agora não me recordo se é entre os 30 e tais e os 60, em que parece que não existem. E então Paula Rego também passou por isso.
Exatamente.
Mas pronto, conseguiu e quero fazer esta homenagem porque realmente é um gênio.
Exatamente. Fica aqui esta saudade e esta homenagem bem merecida. Nelson Ferreira, engraçado, porque todos os teus sites dizem: "Common misspelling: 'Ferreira'". As pessoas em Inglaterra não têm dificuldade em dizer Ferreira e dizem "Ferreira"?
João Paulo, ninguém sabe escrever Ferreira. Quando eu dito, eles põem sempre o I antes do E.
Olha, o teu jeito para desenho vem de onde? Aqui, se calar, prestamos homenagem a outra mulher, à professora Célia Pires, ou não?
Também. Eu tive grandes professores no secundário e a professora Célia foi aquela em que eu comecei realmente a amar arte a sério. Mudou o meu percurso de vida, porque talvez tivesse sido bom pra humanidade, porque o meu objetivo principal, antes de eu querer ser um artista, era trazer de volta os dinossauros. Eu queria ser bioquímico.
Ah, ok.
E então o meu objetivo-
Fazer experiências com o ADN e trazer-
Exatamente. E ainda bem. Perdeu-se um grande cientista. Pronto.
Ganhou-se um grande artista. E tu decidiste ser retratista e muito novo. É engraçado, porque aqui está uma homenagem que também fazemos às professoras e aos professores de desenho ou de artes visuais, educação visual, que é muito importante na carreira do miúdo. E ela, nos intervalos, punha-se a fazer retratos, vocês seguiam isso e tu disseste: "É isto que eu quero fazer". Tu eras um fascinado pela cor, já tinhas essa atração pela cor desde miúdo?
Sim, isso já vem de criança, o fascínio pela cor, mas não o fascínio pelo desenho. O fascínio pelo desenho veio muito mais tarde. Eu acho que o desenho é uma arte muito mais intelectual do que a pintura. A pintura é mais sensual O desenho é uma coisa quase que 100% matemática e geralmente não brota nas crianças pequenas o gosto pelo desenho, mas sim o gosto pela pintura. Mais tarde, a coisa inverte. Portanto, quando chegamos à adolescência, à idade adulta, aí o desenho torna-se fulcral. E realmente foi isso que aconteceu.
Muito engraçado, porque costumas dizer, é uma frase que eu adoro, que é: "O artista é cego, o desenho é que vê."
Exato.
Uma frase muito bonita. Agora a propósito disto, o que distingue tanto o desenho das outras artes? O que só o desenho permite, Nelson?
Dentro das artes visuais, vamos começar pelas artes visuais agora. O desenho é a disciplina, e eu digo disciplina mesmo no sentido da autodisciplina também. É a disciplina que melhor treina o olhar. E as pessoas não acreditam quando a gente diz: "Ah, treinar o olhar." Toda a gente acha que vê. Eu ensino técnica de desenho clássica, que é desenho a sério.
Sim.
Permitam-me um aparte.
Sim.
É desenho a sério. E o treino do olhar demora meses de trabalho contínuo e anos de trabalho contínuo. E eu digo mesmo treinar o olhar. Nós achamos que vemos e não vemos. Todos temos uma espécie de véus de ilusão que cobrem os nossos olhos, que não são os olhos, é a mente.
Claro.
E o treinar do desenho desenvolve circuitos neuronais no cérebro, que permitem olhar para a realidade muito mais eficientemente. Começamos a ver proporções, começamos a ver volumes que não reparávamos, começamos a ver nuances de claro escuro que não víamos antes. Começamos a ver milhares de tipos diferentes de texturas, desde o liso ao rugoso, ao intermédio, a milhares de tipos diferentes de focado ou desfocado. Estar vivo transforma-se numa sinfonia visual. É como se fosse uma orquestra, com todas as texturas dos milhares de instrumentos que compõem a realidade. E portanto, estudar arte, eu acho que, para já devia ser obrigatório, porque acho que aumenta em muito a nossa fruição do ato de estar vivo.
Costumas dizer isso, tu ensinas nos teus cursos a olhar para a realidade, para o mundo que nos cerca.
Sim.
A apreciar a vida, que é o mais importante. É muito gira essa coisa que tu dizes: "Eu ensino a apreciar a vida, é o mais importante de frequentar as aulas de arte." Que a vida torna-se nessa sinfonia, nesse concerto.
É, eu tento ensinar o que acho que é mais importante na era em que nós vivemos. Hoje em dia, eu acho que é muito importante reaprendermos a olhar para fora de nós mesmos. Tornámo-nos todos muito narcísicos, muito autocentrados. É uma cultura do eu. E a arte, também nesse sentido, pode servir de medicamento, ou pelo menos de bálsamo. Não cura ninguém, mas é um bálsamo.
É um bálsamo, muito importante.
Muito poderoso.
Sim. É engraçado, porque as tuas formações, eu vi comentários de ex-alunos teus que diziam: "The guy is always learning". Quer dizer, ele está sempre em curso, está sempre a aprender. E isso é muito curioso.
Sempre.
E tu tiveste, além da tua licenciatura em pintura, e esta influência grande que tu tens por estes mestres e pelos antigos, decidiste, ao fim deste curso de pintura, que não tinhas aprendido aquilo o essencial para seres um bom artista.
Pois não.
Não tinhas as ferramentas principais.
Nem eu, nem ninguém.
E portanto, decidiste viajar pelo mundo inteiro. Foste a quase 50 países aprender com culturas como Marrocos, o mundo islâmico, a Índia, a China, e fizeste cursos que nunca mais acaba. E muito importantes, desde iconografia russa e grega, arte islâmica, o marmorizado turco, onde tu aprendeste, que depois vieste cá ensinar, curiosamente, numa escola em Almada, há 200 quilómetros, devem ter sido umas sessões fantásticas.
Foi.
A miniatura indiana.
No Colégio do Vale.
Colégio do Vale. A miniatura indiana, o estilo mogol, que também é tão bom, com os melhores professores do mundo a ensinar isso. Pintura chinesa, azulejos, porcelana. Nunca mais paraste para aprender. Por isso é que tens tanta prática e tanto gosto em, se calhar, também ensinar, porque foste beber às fontes principais, todos esses tipos de desenho e de arte.
Exato.
Tens que comunicar, tens que testemunhar.
E é também uma grande falha da cultura ocidental, da nossa cultura. E portanto, eu posso dizer isto sem ser acusado de xenofobia, porque é a minha cultura que eu estou a criticar.
Claro.
É uma grande falha da cultura ocidental, uma falha artística. Este mito que se gerou principalmente no século XIX, de que nós já nascemos ensinados. Ou seja, já em bebê sabia pintar. Isso é uma tanga de todo o tamanho.
Nada mais enganador, claro.
Correto. E a arte é como qualquer conhecimento acadêmico, como qualquer disciplina acadêmica, pode ser estudada e aprendida. E eu realmente estudei com os maiores mestres que tive acesso. E o que eles me ensinaram não tem valor. Ainda estou agora a assimilar ensinamentos de coisas que eu vi há sete, oito anos.
Impressionante.
E que só agora é que estão a sedimentar em mim. Porque nós não aprendemos na altura. Nós ouvimos coisas.
Embebemos.
É.
E depois vamos digerindo.
Vamos digerindo, vamos esquecendo e depois vamos reinventando aquilo que ouvimos. E eu acho que aí é que aprendemos mesmo.
É incrível, estou a ver aqui outras coisas. Tiveste cursos para aprender forma e anatomia ou pintura de flores peônias, por exemplo, é uma coisa engraçada, que faz aqueles tapetes, aquelas tapeçarias de mille fleurs.
Exato.
A pintura tanka, que aprendeste na Índia.
Ah, sim, as tankas. São as pinturas budistas.
Tu também tiveste aqui uma coisa, a própria Stella Pires, que foi tua professora, ela também ensina técnicas pictoriais fotográficas oitocentistas. É curioso esta gamme dichromate. Isto é o que é?
Sim, é goma bicromatada.
Ok.
Que é uma das primeiras técnicas fotográficas que existiram.
Fica as manchas azuis, é isto?
Não, isso é o cianótipo.
O sépia. Ah, ok.
A goma bicromatada pode ser feita com qualquer cor. E a tinta é uma tinta que se mistura com bicarb-- ai.
Bicarbonato de sódio?
Não. Agora estamos a falar de comida. Bicromato. Bicromato de potássio, exato. E isso torna a tinta fotossensível. E as partes que apanham luz tornam-se insolúveis à água. O que não apanhou luz é lavado quando se põe o papel de aguarela debaixo da água.
Portanto, pões a água, a água lava, é uma lixiviação, no fundo, desaparece.
E a fotografia aparece.
Ah, que curioso.
Sim.
Muito giro. Dado por ela, este curso é muito engraçado. Também és muito inspirado no chiaroscuro, estamos a falar naqueles sfumatos do Leonardo Da Vinci, isso é uma coisa que também te fascina.
Sim, toda a arte clássica fascina-me.
E com os teus desenhos dos casts, daqueles dos moldes das estátuas gregas, é sempre fabuloso. Depois desenhas ao contrário e pões aquilo para as pessoas verem o que está bem, o que está mal, e pões espelhos. Tu ensinas técnicas de ver, treinar o olhar?
Para treinar o olhar do principiante. Claro que nós depois não precisamos de usar nada disso quando já temos prática, mas os alunos têm que passar por uma fase de vários anos em que têm que usar esses recursos.
Incrível. Estes cursos que tu dás, nunca vais aos Estados Unidos ou outros sítios dar? Só dás em Londres ou cá?
Dou em várias partes do mundo. Estados Unidos não e vou explicar por quê. Eles têm lá excelentes mestres neste tipo de técnicas. Aliás, esta grande explosão de recuperar o conhecimento clássico foi iniciada por americanos, por Estados Unidos. Nós na Europa achávamos que a arte europeia não era assim grande coisa. E andámos a copiar os estadunidenses. E eles nos Estados Unidos acham o contrário, estão fartos de expressionismo abstrato.
É, e isso é uma das coisas que desviou-lhe um bocadinho do teu curso de Belas Artes. Era tudo muito século XX, muito modernismo, muito arte abstrata. E tu disseste: "Mas há mais além, há os mestres flamengos, há toda esta técnica que se vai perder se a gente não praticar isso."
Eu tive um treino absolutamente xenófobo, poderia dizer, porque tudo o que nós aprendemos era centrado no Ocidente.
Sim.
Parecia que o resto do mundo não existia, quando na realidade o resto do mundo é a maioria da população mundial.
Claro.
É a maioria da história, é a maioria de tudo. Mas nós não.
Somos muito centrados na cultura ocidental, que é nossa, mas não devíamos ficar fechados nela. Aprendemos muito abrindo os horizontes. Estava a falar das aulas cá em Inglaterra, mas, por exemplo, tu, se não me engano, vais dar um curso em Java, na Indonésia.
Vou, em janeiro. É um consórcio de universidades de quatro países do sudeste asiático. Portanto, não sei quantas centenas ou milhares de alunos eu vou ter, acho que milhares. Vou ensinar a técnica de desenho Bargue, que é uma técnica de desenho do século XIX, que já iremos falar se calhar dela.
Exatamente, sim. Foi o teu primeiro curso online.
Foi. E este curso que vou dar na Indonésia vai ser transmitido também para algumas universidades na Indonésia, no Vietname, na Tailândia e na Malásia.
Incrível. Já agora que falaste disso, é importante, é um curso que qualquer pessoa se pode inscrever neste teu site, www.bargue.org. Este Charles Bargue era um artista, um estudante de Beaux Arts de Paris, era estudante em Paris e que fez aquela exposição, e estamos a falar em 1865, uma exposição considerada horrível. Na altura, a imprensa demoliu aquela exposição, mas pouco depois, com estas técnicas de desenho clássico, foi ganhando a fama e estas tabelas de desenho, essas quase 200 tabelas de desenho, tu tens?
Sim.
Que o Picasso e o Van Gogh, por exemplo, fizeram?
Fizeram. Aliás, eles não saberiam desenhar se não tivessem feito os estudos do curso Bargue.
Portanto, é uma coisa que se recomenda vivamente, este desenho realista.
Sim, sem dúvida. O curso Bargue, na realidade, foi o contrário. O curso Bargue surgiu porque houve primeiro uma exposição horrível de todas as escolas de arte francesas. E o país apercebeu-se, o país, a nação, a França, apercebeu-se que a qualidade artística tinha decaído tanto, que era urgente novos métodos de ensino. Então foi aí que o Charles Bargue entrou para salvar o país, e salvou. Ele criou um curso fantástico, porque ele desenhava muito bem. O Charles Bargue era aluno do Jean-Léon Gérôme, que era um dos principais pintores da época. Muito orientalista, porque na altura não havia postais ilustrados.
Sim.
Então íamos ao Egito, pintávamos um quadro do Egito, trazíamos para a Europa e mostrávamos às pessoas como é que era o Egito.
Exato.
E os artistas orientalistas eram muito populares devido a isso.
Que giro. Parece mais aquelas ilustrações portuguesas. Os desenhos eram sempre uns retratistas que faziam o que se passava. Até os acidentes eram desenhados.
Era.
Era muito curioso. A gente hoje só vê isso por causa dos tribunais americanos, que não podem tirar fotografias. Fazes este curso que é uma versão contemporânea. O Nelson Ferreira traz este curso para educar o olho dos artistas contemporâneos. Há muitos artistas que querem pintar antes de aprender a desenhar, o que é um grande erro.
É. É um erro crasso.
Tem um vídeo, depois, que qualquer pessoa pode fazer, iniciado já com alguns conhecimentos, isso é muito bom. Os vídeos ensinam passo a passo. Tem uma banda sonora oitocentista também, que eu também fiquei curioso.
Exato.
Isso é muito curioso. Fica aqui esta dica muito importante, porque é uma produção 4K, cinematográfica, de alta qualidade, alta definição, à séria, que até podem projetar num anfiteatro.
Sim, até em anfiteatros de universidades e museus. E foi todo gravado Num monumento listado no Reino Unido, é um monumento protegido que se chama a Capela Asylum. Asylum Chapel.
Porque foi um hospício antigamente, era um hospital de malucos.
Aliás, ainda lá estão pessoas a morar.
Antigos doentes ou sem-abrigo?
Agora é mais os antigos soldados da guerra.
Os veteranos.
Mas que ficaram afetados psicologicamente. E então moram naquela zona.
Com síndromes pós-traumáticas.
Pós-traumáticas. Mas a Asylum Chapel é espetacular, porque é uma igreja incrível, século XIX grandioso. E depois o que aconteceu? Foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. E está destruída ainda. Portanto, tem aquele aspecto de ruína, mas que fica muito bem. Já não é uma igreja, neste momento é um monumento.
Está dessacralizada.
Está dessacralizada. E eu achei que era uma metáfora incrível ao conhecimento de desenho do século XIX, ao desenho clássico, que foi também bombardeado e quase que destruído pelas academias de artes do século XX, que não ensinavam desenho. Então eu achei que eu tenho que gravar na Asylum Chapel, porque é uma metáfora.
Muito engraçado, porque outra coisa que tu fazes também muito e fazes questão, é o teu lado de voluntariado. Sempre foste uma pessoa que gosta de poder ajudar causas, como fizeste em 2012 os cursos de retrato para os sem-abrigo, com a Associação Cais, aqui em Portugal.
Eles nem se olhavam.
Exato, que melhorava essa empatia, essa autoestima. É muito importante veres isso e pouca gente vê isso e isso é essencial.
E ensiná-los a olhar para o outro, porque eu só aprendi isto quando eu comecei a trabalhar com a Cais, eu não sabia. Os sem-abrigo, regra geral, evitam olhar nos olhos de outro sem-abrigo, porque é considerado uma invasão.
Do seu espaço.
Do seu espaço, o que faz sentido, porque eles não têm paredes que os protejam. Então o espaço é psíquico.
Exatamente.
Quando nós olhamos, e olhamos diretamente, nós estamos a entrar pela casa adentro.
É verdade.
Que eles não têm casa.
Curioso.
E quando eu comecei a ensiná-los a desenhar retrato, eles começaram a desenhar-se uns aos outros, eles não olhavam para os rostos uns dos outros. Era incrível. Estavam a desenhar só de memória.
Incrível.
É. E eu é que dizia: "Olha, vês que o nariz é maior". E eles pouco a pouco lá começaram a olhar. Sim.
E outras coisas, as causas que tu tens, como as crianças refugiadas na Síria, fizeste aquele leilão em Londres também, ou na Galeria Monumental aqui em Lisboa, para apoiar também os refugiados sírios. A Liga Portuguesa contra o Cancro, também te pediu um curso de desenho e tu tens feito isso. Veteranos necessitados, o Alívio à Pobreza, aquela Agir 21. Fazes questão de fazer isso. E é muito engraçado, porque tu dás muitos cursos de team building para empresas, mas empresas do mais famoso que existe e ótimas. Isto desde que estás em Londres, se não me engano, desde 2004, estás lá há 18 anos. Mas quando a gente fala em empresas, é a Walt Disney Company, a Paramount Pictures, a Swarovski, Starbucks, a Singapore Airlines e o Museu Britânico, claro, obviamente. Empresas de advogados, como McFarland, por exemplo. É incrível, porque estas empresas depois explicam que estes cursos que tu dás, que podem ser um dia só ou fim de semana ou whatever, é muito curioso porque ajuda a criar essa empatia.
Ajuda.
Esse mingling. Eles falam disso. O Banco da América diz isso em Londres, que foi tão bom porque tínhamos estagiários a fazer aulas de desenho, o Nelson a ensinar, estagiários e CEOs a aprender na mesma sala.
Exatamente.
Isso é muito importante para a produtividade das empresas.
Exatamente.
Isso devia ser muito mais expandido cá. Não fazes isso cá também?
Ora, Portugal, nisso, acho que tem bastante a aprender com o Reino Unido.
Incrível.
O Reino Unido tem uma dinâmica muito mais ativa. Se eu pudesse descrever a diferença entre as duas culturas, e agora vou elogiar o Reino Unido temporariamente, está bem?
Está bem, tens autorização.
Os ouvintes não levem a mal, porque eu até prefiro estar em Portugal, eu gosto mais de Portugal, mas vou elogiar temporariamente o Reino Unido.
As coisas boas são para se divulgar, claro.
As coisas lá não demoram tempo a serem aprovadas. Quando há projetos interessantes, quando há gente inteligente, quando há ideias boas, em menos de uma semana está tudo garantido.
Não encravam como cá na burocracia.
Correto. E eu acho que agora, aqui em Portugal, eu estou a ter sorte. Eu estou a começar a encontrar pessoas já com essa mentalidade.
Boa.
Mas durante anos não era assim. E ainda não é.
Nunca está tarde para aprender, como tu dizes.
E então, lugares tipo Banco da América, McFarland, esses que referiste.
A Accenture, a UNICEF, imensos organismos lá em Londres.
A esmagadora maioria começam, por exemplo, com uma aula avulsa ou duas, e depois gostam e pedem sempre cursos de longa duração. Eu, por exemplo, à McFarland, já estou a dar aulas há uns cinco anos.
Desde 2015. Há sete.
Então há sete. Pois é, que o Covid não contou.
É uma empresa de advogados que tem mais de 1000 empregados, é uma coisa gigante.
Sim, tem perto de 1000 advogados, mais os funcionários extra.
É impressionante.
São empresas de uma escala. O Banco da América, por exemplo, que eu também já dou aulas há muitos anos, neste momento deve ter perto de 4 ou 5 mil funcionários.
É incrível.
No edifício principal.
E tu, por exemplo, dás aquelas aulas no Chiswick Park.
Sim.
Naquele parque onde está a Paramount Pictures, onde está a Discovery Channel.
Correto.
E que as pessoas dizem que os meus cursos de arte, por acaso, são os únicos que estão sempre esgotados.
Estão, estão sempre esgotados.
É extraordinário, Nelson, é incrível. E as pessoas perceberem que é importante qualquer empresa, mesmo que não seja de artes, poder ter estas aulas extra, estas atividades extracurriculares, digamos assim, porque ajuda realmente. O team building é importantíssimo.
Acima de tudo, preserva os melhores funcionários. Porque nós quando entramos numa empresa, nós não entramos numa empresa. Nós entramos num conjunto de paredes que têm memórias. As memórias que forem despoletadas quando nós entramos num lugar de trabalho é que vão determinar se vamos ou não continuar com essa empresa. E então, empresas como a Google já perceberam isso há muito tempo. E dentro das paredes da Google, há entretenimento, há cursos, há divertimento. As pessoas não vão para o trabalho. As pessoas vão para uma segunda casa, quase. Não é?
Exato.
E isso em Londres acontece com as maiores empresas também.
Têm creches, têm ginásios, têm tudo, refeitórios ótimos, onde a comida é gratuita na Google, tive uma sobrinha a trabalhar lá, é impressionante. É ótimo. E ela dizia que não queria quase sair de lá, como tu dizes, é verdade. A cultura da empresa que nos aproxima disso é muito importante.
E está provado.
Temos que aprender isso ainda.
Temos. E está provado que se o funcionário for feliz, o fator mais importante nem sequer é o salário.
Exatamente, tudo para a sua riqueza pessoal.
Correto. O sentir-se valorizado.
Realizado, exatamente.
Exatamente, muito mesmo.
Tu também és orador público especialista, por alguma razão tiveste estudos tocando no observatório, portanto sabes fazer apresentações.
No conservatório.
No conservatório. Portanto, conservatório de música, claro, e és bom para eventos em inglês e português, estás apto a isso também. E fico muito fascinado com os materiais que tu usas, que é impressionante. Coisas de vidro líquido e têmpera de ovo sobre painéis de gesso e cristal de bismuto, cerveja fervida e ouro 24 quilates. Nunca mais acabam essas técnicas complicadíssimas, algumas antigas.
Alguns ingredientes não se podem dizer.
Não é? Tens de ter segredos.
Por exemplo, há muitas técnicas de pintura que exigem urina.
Ok. Isso eu sabia para limpar quadros, para restaurar, para pintar, não.
Para pintar também. Aliás, há receitas da Idade Média que são muito interessantes. Eu essas nunca fiz, mas, por exemplo, pedem urina de um jovem de cabelo ruivo.
Ah, que engraçado.
E eu acho que era porque eles acreditavam na alquimia.
Sim.
E então era o elemento fogo.
Ok.
E então há assim uma série de receitas.
Outra coisa que tu fazias, isso agora vou te perguntar, há 15 anos, Nelson, tens estas visitas guiadas de história da arte. Isso é uma coisa que eu também acho fascinante, como tiveste em 2007 a The Wallace Collection.
Sim.
E depois, mais tarde também, nessa altura, fizeste a National Portrait Gallery também, onde ias visitar, explicar às pessoas, o David Hockney, a Paula Rego, por exemplo, também passavas por ela. Ou também nessa altura, The National Gallery. Essas coisas já não tens feito. Essas datas que eu tenho já têm 12, 13, 14, 15 anos. Isso é tão importante, a pessoa ir ver o museu com alguém que saiba explicar e com alguém que te mostre a arte. Já não tens feito isso?
Ora, esse hábito, digamos assim, de fazer visitas guiadas, surgiu graças aos meus muito bons amigos portugueses, que na altura pediram-me, havia um grupo de amigos, e pediu: "Nelson, leva-nos aos museus e explica-nos, porque nós não entendemos. Nós gostamos de arte, mas não entendemos." Então começamos a fazer. Começamos com um grupo, eu já não me recordo, isto já foi há-
Há 15 anos
...15 anos ou 14. Exato. Começamos com um grupo muito pequenino, acho que éramos cinco pessoas ou sete, não sei. Depois, na segunda visita, eles já trouxeram mais uns amigos, já éramos 20.
Palavra puxa palavra, exato.
Na terceira ou na quarta, já passava dos 150. Então eu tive que começar a quebrar os grupos em grupos pequenos.
A agendar para várias datas.
A agendar. Mas à medida que a minha carreira como pintor foi crescendo, eu comecei a ter menos e menos tempo para fazer esse tipo de trabalhos, que eu gostaria muito de fazer, mas não tenho tempo.
Acredito, mas deve ser fascinante visitar essas coisas a ouvir-te. Queria falar também deste projeto, Fungagadas Artes, é uma coisa que tu ficaste fascinado. Costumas dizer, gostas de dizer isso, o Museu Nacional de Arte Contemporânea foi, agora aqui vamos homenagear a Emília Ferreira também.
Vamos, sim.
E este museu, tu dizes que é o primeiro museu nacional do mundo dedicado à arte contemporânea. E tu foste o primeiro artista residente, também o primeiro a ser convidado, o que te surpreendeu.
Sim, junto com o artista António Faria.
Exatamente. É óbvio que eras tu. E fizeste uma série de vídeos, este Fungagadas Artes, vídeos de arte que fizeste online durante a pandemia e que foram seguidos, não foi por 3 mil famílias, foi por 43 mil famílias. Isto foi uma coisa excepcional. Acabou por ser premiado há muito pouco tempo, não é?
Ganhámos o prêmio da Associação Portuguesa de Museologia.
Exatamente, a APOM.
Como o melhor projeto educativo do país.
Incrível.
E foi uma ideia da Emília Ferreira. Ela contactou-me quando veio o primeiro, como é que se diz em português?
Confinamento.
O confinamento, exato. Já ia dizer lockdown. Peço desculpa. Dezessete anos fora dá nisto. Quando a Emília Ferreira contactou-me e ela disse que temos que criar algo, mas que seja para todas as idades. E eu a pensar: "Isto vai ser complicado, porque vai ter que ser pessoas idosas, na idade, jovens e crianças. Ai, meu Deus, como é que a gente vai safar desta?" Conseguimos.
Uma coisa abrangente para toda a gente e que isto obrigou. A importância da cultura e das artes durante os confinamentos foi essencial. Ainda hoje, Nelson, como sabes, cá em Portugal, a cultura é muito tratada em segundo plano, quando é tratada.
Portugal continua a ser o país da Comunidade Europeia que menos investe na cultura e que o público menos quer saber de cultura.
É verdade, o que é pena e contamos contigo também para mudar o estado das coisas. Manhãs Criativas, foste o orador com o Jorge Moita também no Museu de Arte Contemporânea. Fizeste aquelas aguarelas fabulosas daquele tom azul, parecia o azul Ivvy Klein, uma coisa lindíssima com aquelas estátuas no jardim das estátuas.
Sim.
E depois aguarelas que depois deixaste, ficaram aqui expostas aos elementos no exterior.
Ficaram.
E tu ficavas fascinado e filmaste no teu Instagram a água da chuva a passar pelas tuas pinturas, as aguarelas. Mas isto é uma mistura quase com street art e com as arquiteturas efêmeras e os danos efêmeros. Deu-te imenso gozo, isso.
Deu. Até porque eu protegi as aguarelas muito bem, elas ficaram à prova d'água.
Com verniz, um spray?
Sim, que não se vê. Portanto, a aguarela é mate.
Ok.
Não se nota que está envernizada, mas está E então quando chovia, eu amava ver o público chocado, a ver as aguarelas à chuva.
Sim, eu estou a ver também isso. Mas que estranho, ele todo contente, eu vi os teus posts, era todo contente com aquilo. E eu pensei: "Mas isso vai desaparecer tudo". Mas não, estava perfeito.
Estão imutáveis.
Nós não temos muito mais tempo, mas vamos divulgar onde é que tu vais estar agora. Tu vais voltar para Inglaterra agora no domingo?
Sim.
Estás em Inglaterra agora, quando isto for para o ar, se calhar já estás.
Tenho uma série de pinturas para terminar, para enviar para a Arábia Saudita.
Ok, vais ter lá uma exposição em Riade?
Não é mesmo encomendas, é 50 quadros para um palácio, que eu nem vou ver.
Como assim? Não te convidam para ir à inauguração, à instalação?
Não, porque fui contratado através da equipa que representa o cliente.
Ok. Mas depois um dia convidam, certo?
Exato.
Vamos falar agora, em 28 de julho, às 18h, vamos ter uma inauguração no MNAC, aqui no Museu de Arte Contemporânea, no Chiado, com os poemas do Domingos Gomes.
Exatamente.
Isto é dia 28 de julho.
Vai ser a inauguração da minha exposição a solo.
Que é lá também?
É.
É esta.
É o arranque da minha exposição. Eu vou ter os poemas do Domingos Gomes a fazer-
A abrilhantar o ambiente.
Exatamente. E há uma série de poemas sobre azul, que ele vai dizer.
É o azul o claim, já sei. É que aquele tom é muito bonito, eu gosto imenso daquele tom, ficou fabuloso. Mas as pinturas ainda lá estão?
Estão, mas de momento não estão expostas. Dia 28 é que vai arrancar. Não são essas, como outras muito maiores que eu fiz.
Maiores que aquelas que já são do meu tamanho?
São muito maiores as novas que vão ser expostas.
Estamos muito curiosos. 28 de julho, tome nota na sua agenda. Daí a três dias, no 31 de julho, no último dia do mês de julho, temos, às 17h, um concerto.
À frente das pinturas também. Também no MNAC. Vai haver dois músicos que são incríveis. Ambos músicos a sério. A Cátia foi minha colega no conservatório, estudou canto lírico. Exatamente, a Cátia Alhandra. E o Tiago Valentim estudou guitarra.
Concertos Vozes de Água, chama-se este concerto.
É, porque o azul da água, o azul das minhas pinturas, a Cátia pensou logo em água. Então ela vai escolher temas ancestrais, atenção, de música portuguesa, mas temas muito antigos, de música popular portuguesa.
Que piada, também estou curioso.
Sim.
No dia a seguir, volta a Cátia e volta o Tiago para a tua exposição, mas agora de ícones.
Exatamente. No Mosteiro da Batalha, nas Capelas Imperfeitas. No dia 1 de agosto, às 16h, é o arranque da minha exposição de ícones, que eu já vou falar sobre isso, mas a Cátia vai cantar e o Tiago vai tocar nas Capelas Imperfeitas à frente dos ícones também.
Muito bem. Também não esquecer que nesse mês de agosto, em Elvas, vais ter várias atividades, uma delas é muito curiosa: curso de pintura noturna.
Exatamente.
Isto é como? De noite as pessoas pintam, têm focos apontados para...? Como é que é?
Vai ser um desafio até para mim ensinar, mas sim. Vamos pintar a noite, porque partes do Alentejo foram nomeadas como o destino starlight. Aliás, o primeiro destino starlight do mundo. No mundo inteiro. Correto. E então decidi homenagear a beleza da noite alentejana fazendo um curso de pintura noturna. E as datas serão anunciadas em breve. Quem quiser, seja o que for, que se inscreva na lista de e-mails do meu site.
Exatamente.
Que é nelson-ferreira.com.
nelson-ferreira.com ou então também no site do BARGE também dá.
Também dá, para os que não têm ligação.
www.barge.org. Tem também o Twitter, @nsilvaferreira, o Instagram @nelsonferreira1978. Todos os dados, todas as informações, tudo sobre ti.
Ainda tenho esse Instagram. O que eu estou a usar é nelson.ferreira.visual.artist. Esse era o antigo.
Mas eu acho que se tu ligares este, ele também vai dar.
É provável, devem estar ligados, sim.
Muito bem. Nelson Ferreira, sempre fácil encontrar estas referências. Nelson, nós infelizmente já passámos o nosso tempo, não temos tempo para mais, mas isto voa na rádio quando a conversa apetece e é boa.
Muito obrigado mesmo, é uma honra.
Quero te agradecer estares aqui, bem-hajas por tua disponibilidade em vires e contamos ver-te agora nas tuas exposições. Vêm aí as tuas exposições individuais e depois sei que vai ficar uma loucura.
Vai ser uma loucura de verão, mas é um verão em grande.
Mas a inspiração é grande e por isso nós vamos acompanhar-te. Nelson, bem-hajas.
João Paulo, até um dia. Obrigado.