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"Quis saber quem sou, o que faço aqui, sou muito mais do que palavras bonitas cantadas por Paulo de Carvalho." Para David Ehrlich são mesmo um modo e programa de vida. Foi durante três anos o mais jovem professor de Filosofia da escola pública em Portugal e ainda é decididamente um dos intelectuais de Moscavide com maior projeção nacional. Quem acha que a filosofia é uma coisa sisuda e reservada a poucos, é porque não o conhece. Famoso por querer transformar a filosofia numa disciplina pop, mas nas aulas, nas redes e nos media, ele é mestre em cima desta disciplina, na qual se está a doutorar. Hoje traz no seu último livro, "A Bebedeira de Kant e outros 49 episódios da história da filosofia", para pensar e para sorrir. Vamos saber mais deste apaixonado por esta disciplina que há quem diga ser o romance da alma. Olá, David, bem-hajás por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Olá, muito boa tarde. Obrigado pelo convite.
É um grande prazer estar aqui contigo e começo já pelo David. Eu sei que digo bem quando digo David Ehrlich.
Dizes bem, há vários modos de dizer, eu sou pluralista.
Pode ser de várias maneiras.
O meu avô paterno.
Ruben?
Exatamente. Trabalho de casa bem feito. O meu avô paterno sabia falar ídiche, que é um dialeto, um idioma que cruza o alemão e o hebraico, dizia Ehrlich. Mas em Buenos Aires, onde eu viajo com frequência, que é de onde são os meus pais, a malta diz Ehrlich. E de qualquer modo, eu sou pluralista e aceito vários nomes. Aliás, nas várias distorções do meu nome, a mais engraçada que eu recebi foi David Elvis.
Esse é muito bom.
Procurei considerar um elogio, no fundo tentando dizer que eu sou professor de Filosofia, mas podia ser uma estrela de rock and roll.
Exatamente.
Desculpa interromper. Já que aqui estamos, não queria deixar de começar por algo que é no décimo aniversário de um órgão de imprensa, houve um vil ataque pela calada da noite à liberdade de imprensa. E eu queria manifestar a minha preocupação e, sobretudo, manifestar a minha solidariedade com o Observador pelo ataque de que foi alvo e sobretudo dizer que em democracia as opiniões combatem-se com opiniões. Em democracia, as opiniões combatem-se com argumentos. E combater opiniões, combater argumentos com vandalismo, com atirar tinta à cara de candidatos, com vandalizar sedes partidárias, não é próprio de uma democracia parlamentar. E, portanto, não queria deixar de manifestar, por um lado, a minha solidariedade com o órgão de imprensa que foi vandalizado à noite, no seu décimo aniversário, e manifestar a minha preocupação com uma certa tendência iliberal que parece caracterizar determinados movimentos emancipatórios, cujas causas por vezes são justas, mas cujos meios têm de ser justos também. E numa democracia parlamentar, a justiça dos meios tem a ver com o respeito pela palavra e com o respeito pela lei, que é a lei de todos.
Seja a imprensa, sejam os movimentos climáticos, seja imensa coisa. Há maneiras e maneiras de protestar. Como tu dizes, só podem ser armas entre aspas, são metáforas, não podem ser armas de arremesso ou convidar a essa violência.
Sim, sobretudo, a um argumento, contrapomos um argumento. A uma opinião, contrapomos uma opinião. E uma nova ideia que está a surgir em alguns movimentos sociais, de que podemos combater opiniões vandalizando paredes à noite.
Ou estátuas.
Exatamente. Ou podemos derrubar estátuas de forma anárquica, é uma ideia perigosa e é uma ideia que coloca em causa um acordo tácito da democracia. E o acordo tácito da democracia é que se eu quero derrubar uma estátua, eu posso fazer uma petição, eu posso procurar um referendo local, eu posso persuadir outras pessoas. A democracia é o reino da persuasão e da paz que a palavra traz. E quando recusamos isso, em prol de finalidades que até podem ser justas, recusamos verdadeiramente esta exclusividade humana que é a racionalidade argumentativa. E como professor de Filosofia, não só como cidadão, preocupa-me.
Muito bem, começamos com Voltaire, que é extraordinário, é um bom arranque para esta conversa. É engraçado, já agora, falarmos deste François-Marie Arouet, este Voltaire, iluminista do século XVIII, que tem esta frase, que aliás não é dele, é da biógrafa dele, da Evelyn Beatrice Hall, que diz: "Discordo do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres". É muito bonito isto. Ele terá dito uma coisa mais do gênero: "Pensa por ti mesmo e permita aos outros o privilégio de fazerem o mesmo." Mas hoje, como sabes tão bem como eu, David, vivemos, como dizia o Nick Hume, este autor do "O Direito de Ofender", inglês que dizia: "Vivemos a época dos contra Voltaires." Sei que vou detestar o que vais dizer, vou defender até o fim a liberdade de expressão do meu direito de te impedir de o dizeres. E é o que hoje em dia, com estes cancelamentos, estas culturas, estamos a assistir cada vez mais: o calar os outros que não pensam como nós, ou mudar os dicionários das palavras que não queremos que sejam ditas e que achamos que hoje nos fazem impressão. Como é que será daqui a 100 anos, daqui a 50 anos, quando as circunstâncias mudarem?
É curioso falares nisso, porque esse é um assunto que me preocupa, na dupla condição de professor de Filosofia e de homem que sempre foi educado e sempre pensou num quadro conceptual político do centro-esquerda. A meu ver, há duas prioridades coletivas. A primeira é a liberdade de expressão e a liberdade da democracia e organizarmo-nos institucionalmente no quadro de uma democracia parlamentar. E a segunda é usar as ferramentas do Estado para lutar contra as desigualdades sociais e económicas. E a mim parece-me que nós vivemos um tempo invulgar em que, enquanto que no Maio de 68, o lema emancipatório da esquerda juvenil era: "É proibido proibir", parece que certos círculos De uma certa esquerda urbana ou de uma certa nova esquerda, uma esquerda identitária, uma esquerda woke, diz: "É proibido não proibir". E, nesse sentido, este novo modo de estar ignora que a liberdade de expressão é uma noção processual. Nós não podemos defender a liberdade de expressão só para as opiniões com as quais concordamos. E, portanto, são tempos verdadeiramente invulgares, porque às ameaças perigosas do populismo xenófobo e a certas tendências que são marcadamente antiliberais, que se declaram frontalmente antiliberais.
E que estão a crescer.
E que estão a crescer.
Na Europa toda, não só em-
Exatamente. Mas temos do outro lado tendências que eu chamaria iliberais. Por que iliberais e não antiliberais? Porque são tendências que não se identificam explicitamente contra as estruturas da democracia representativa, mas que ao atacar um órgão de imprensa pela calada da noite, pintando as suas paredes, que ao atirar tinta a um candidato que está em campanha política, que ao promover, por exemplo, na parede de uma universidade, despedimento de professores universitários, são círculos intelectuais e de ação política que verdadeiramente são iliberais, no sentido em que não assumem que são um perigo para a democracia representativa, mas são. E parece que os moderados constituímos uma maioria em perigo, ensanduíçada entre aqueles que dizem que a homossexualidade é pecado e aqueles que querem condenar ao silêncio aqueles que dizem que a homossexualidade é pecado. Eu, do meu lado, estou do lado do combate contra a homofobia, do combate contra o racismo, do combate contra todas as formas de discriminação, mas inspirado por Voltaire, um combate que não é o combate do silenciamento, é o combate do diálogo.
Do debate de ideias.
Exatamente.
Isso faz lembrar também a Hipátia. Diz Hipátia ou Hipácia?
Sabes que é engraçado falares disso.
Porque é uma história maravilhosa de uma mulher que ainda por cima era linda. Além disso, supermatemática, superastrónoma, superimportante. E aí já foi, quem tinha o poder aí já era a religião dos Estados, já era o cristianismo, e foram eles que foram silenciados, como depois aconteceu na Inquisição e na Queima de Livros. Os teus avós assistiram a isso, os teus pais assistiram a isso.
Exatamente. Antes de ir a esse registo mais sério, é engraçada esta questão dos nomes. Eu estive recentemente no programa do Alvin, ele até lançou um referendo, como é que se diz, Nietzsche ou Nietzsche. A Hipátia também, há quem diga Hipácia, há quem diga Hipátia. Outro filósofo que está na parte da filosofia antiga do livro é Carneades, que também às vezes aparece Carneades. Mas tu és luso-argentino. Exatamente. Nasci em Portugal, considero-me português de coração, mas uma parte de mim está em Buenos Aires, na capital da Argentina. E as acentuações às vezes são diferentes. Um filósofo que aqui se acentua de um modo, ali acentua-se de outro e, de certo modo, as minhas pertenças geográficas diversas também fazem com que haja uma diversidade de acentuação.
É bom, é rico. Estavas a falar da Hipátia.
Exatamente, que é uma intelectual cuja morte nos faz pensar sobre o perigo do radicalismo e o perigo da tirania opinativa.
Que tu contas que foi violentíssima, cortaram-lhe os pecados e queimaram os pecados e foi assassinada por aqueles fanáticos religiosos, cristãos, neste caso.
Foi verdadeiramente hediondo. A Hipácia ou Hipátia, encerra a parte da filosofia antiga e dá que pensar.
Supertolerante. De várias religiões.
Fico mesmo feliz que preparaste muito bem. Leste mesmo o livro e fico feliz porque a rádio não permite, mas sem querer exagerar, o teu olhar brilha ao falar do capítulo e fico feliz com isso. É muito interessante pensar nesta tendência das ideias a tornarem-se verdade absoluta, quase que parece ser um perigo do humano, porque quando nós entramos num debate, num diálogo, nós estamos nesse diálogo para persuadir os outros da verdade do que estamos a dizer. Nem sempre é assim, mas muitas vezes é assim. Muitas vezes, sobretudo quando o diálogo é debate, porque nem todo o diálogo é debate, mas quando o diálogo é debate, nós estamos numa dialética em que procuramos persuadir o outro de que aquilo que dizemos é verdade, estamos profundamente convencidos da nossa verdade. E em certo sentido, o pluralismo exige, por um lado, um compromisso com a verdade, porque a completa ausência de um compromisso com a verdade parece conduzir a um niilismo, a um vale tudo, a uma ideia de não querer saber, a um descomprometimento. Mas por outro lado, um vínculo excessivo com a verdade parece conduzir ao dogmatismo. E a história do cristianismo, e não só, a história de outras ideias parece remeter para este perigo, porque hoje em dia, infelizmente, o cristianismo é uma ferramenta social, para além de uma religião, gera bem no mundo e é tolerante.
E este papa, que é argentino também.
Exatamente.
É um bom exemplo de um homem aberto ao mundo.
Sem prejuízo de que haja alguns radicais cristãos e que haja algum extremismo cristão, o cristianismo é maioritariamente, hoje, uma religião de paz e tolerância. Mas não foi assim. E a transição do cristianismo na antiguidade de religião perseguida, a religião tolerada e a religião persecutória é muito interessante. E às vezes ignoramos um tempo que eu próprio gostaria de aprofundar mais. Como sabes, sou de filosofia, não de história, mas é um tempo que se eu tivesse tempo livre, gostaria de ler sobre este tempo, que é um tempo de poucas décadas entre o Édito de Milão e o Édito de Tessalônica, em que o Império Romano foi liberal antes do tempo, porque havia liberdade religiosa antes de termos sequer o liberalismo político que nos trouxe a ideia de que cada um pode adorar o Deus que quiser.
Muito engraçado também esta questão da religião e da filosofia, que na Idade Média se confundiram muito. E depois, cada um para o seu lado. Mas eu quero recuar um bocadinho ao Alejandro Erlich Oliva, ao teu pai, um magnífico contrabaixista e grande músico. E a tua mãe, Lídia David. Quer dizer que o teu David é apelido ou é nome próprio?
É uma bela questão. O meu David é, em mim próprio, um nome próprio, mas em certo sentido é uma homenagem à família da minha mãe, porque David é um apelido da minha mãe e é um apelido que remete para o pai da minha mãe e que é um apelido de origem francesa. Portanto, em certo sentido, se eu fizer a minha árvore genealógica, sou uma espécie de anúncio Benetton ou uma espécie de agência da ONU.
A tua irmã Marina ofereceu-te aquele kit do ADN e tu descobriste que tu és tudo e mais alguma coisa. Tu és a ONU.
É verdade, eu não sabia que já tinha contado essa história em público. É verdade. Eu prometo que é a última vez que digo isto, para não ser insistente, mas o modo como estás preparado, quase que receio que saibas mais sobre mim do que eu próprio.
É essa a irmã que mora lá em Israel?
Exatamente.
Ashkelon.
A minha irmã ofereceu-me um kit de ADN.
Eu também quero fazer isso, acho que isso é interessantíssimo.
Aconteceu uma circunstância muito interessante e que diz muito também das limitações e do perigo de termos conceções étnicas de nação, que é: ao contrário de certa esquerda cosmopolita e pós-pátria, eu considero-me cosmopolita, mas continuo a achar que a fidelidade a uma ideia de nação pode ser uma ferramenta útil e pode ser uma ferramenta progressista. Não vejo o progressismo como algo oposto à ideia do patriotismo. E por vezes, sobretudo nos últimos anos, tendemos a confundir patriotismo com nacionalismo. E portanto, eu amo Portugal, desde uma ideia plural, liberal, laica, diversa deste país. Mais do que a Argentina, amo Buenos Aires. Cada vez que lá vou sinto-me em casa. A Argentina é um país demasiado grande para alguém poder dizer que o conhece. São poucas as pessoas, mesmo na Argentina, que conhecem o país inteiro.
Adoras passear pelas livrarias até à meia-noite.
Exatamente.
É bom. Flaneur.
Exatamente. E tenho uma grande paixão por Buenos Aires. E ao olhar para os resultados do teste de ADN, resultou algo muito interessante, que é: aquele teste fornece um mapa, um diagrama colorido por cima do mapa, dizendo de onde vem o nosso ADN. E o meu ADN vem metade do judaísmo do leste europeu, dos judeus Ashkenazim, que é a variante do judaísmo da Europa de Leste e, por outro lado, remete para a Itália e para França, de onde vêm alguns dos meus avós. E curiosamente, o meu património genético não tem nenhuma sobreposição com Portugal, apesar de eu amar profundamente este país e é o meu país, e não tem nenhuma sobreposição com a Argentina, apesar de eu ter uma relação afetiva muito forte com Buenos Aires. Então ao olhar para aquilo, dei-me conta como, efetivamente, a meu ver, e vivo isso na pele, é sempre melhor quando temos noções de pátria, de país, de cidade, mais abertas às narrativas que partilhamos e menos atentas a ideias de genética e ideias de etnia.
A criar raízes, portanto.
Exatamente. Até porque aquilo que nos distingue das outras espécies é precisamente o nosso grau de sofisticação cultural. É quando vamos para lá do étnico, do genético e do biológico e apontamos para o cultural, que é sempre feito de palavra partilhada, que nos tornamos mais humanos.
Começámos esta conversa e ainda não saímos dos teus avós. Eu quero muito falar dos teus avós. Tenho um grande respeito pela tua história, a história que tu investigaste, toda esta catarse que tu fizeste com a história da tua família. Como ele era de Kovel, esta terra que já tinha sido lituana, depois foi polaca, depois foi ocupada pela Rússia, hoje em dia é da Ucrânia, noroeste da Ucrânia, onde o teu avô, este Rubin, era professor de piano e em Viena foi avisado, estamos em 1938, foi avisado, fugiu, com aquela ideia de um dia voltar para ir buscar a família que tinha deixado para trás, uma mulher e dois filhos, e acabou por nunca conseguir voltar. E emigrou para Buenos Aires. Lá conhece a tua avó Amélia, que também era pianista, se não me engano.
Correto.
Muito bem, e depois tiveram o teu pai, em dezembro de 48. Tu dedicas o teu livro a estes antepassados, a este Isaac, a esta Eva, a esta Tâmara e a esta criança que nem sabes o nome, que foram vítimas do Holocausto e investigaste, soubeste que há testemunhos diretos de eles terem perecido naquela horrível Shoah. E investigaste isto, é extraordinário. Chegaste a fazer as pazes com este síndrome do sobrevivente que muitas pessoas sofrem, porque és um sobrevivente, mas isso é uma ocasião extraordinária para celebrar a vida e celebrar toda a herança que tens deles, que é muita. A tua mãe é artista, o teu pai também é músico. É incrível teres estas artes todas na tua cabeça e depois enveredares por uma coisa que explica, afinal, o que é a beleza de estar vivo e a beleza da natureza e do mundo. Estás a seguir a genética deles, é muito curioso isso. Tens noção disso?
A tua pergunta é belíssima.
A tua vida é belíssima.
O modo como a puseste também e a intimidade a que estamos a chegar, quase que me apetece perguntar onde é que é o divã, doutor.
A fazer a tua sessão de canal.
A história da minha família é uma história complexa. É uma história que é feita de zonas penumbra, de zonas cinzentas, mas é também uma história de muito amor. Há poucos falaste do meu pai e da minha mãe e apeteceu-me Dizer que o meu pai é um excelente contrabaixista, um grande músico, que é um homem brilhante. A minha mãe, mais low profile, mais discreta, por vezes trabalhando os seus próprios fantasmas, mas era também uma pintora de muito talento. Mas para além disso, foram também e são, a minha mãe foi, o meu pai é, uma mãe maravilhosa e um pai maravilhoso. E portanto, acho que na família, como na vida, fica tudo mais fácil quando há amor. É difícil falar disto sem ser clichê. Não querendo ser clichê, posso até dizer que às vezes é preciso fazer um resgate da ideia judaico-cristã, sobretudo num tempo em que tantas vezes ouvimos falar negativamente em certos círculos intelectuais da pesada herança judaico-cristã. É verdade que há partes pesadas desta herança.
Mas superimportante.
Sim, há partes pesadas.
Superformadora pelo espiritual, não é?
Claro, mas há partes que podemos superar.
Porque passou o período.
Sim, associadas a noções de culpa. Entre a cultura de cancelamento e a cultura tradicional, eu gosto muito da expressão cultura crítica. Mas às vezes também é importante fazer o reconhecimento de onde estamos, de quem somos e da nossa cultura. E por vezes há este paradoxo ocidental de agarrarmos o chicote e fazermos a hiperautocrítica sem ter em conta, por exemplo, esse legado que é o amor judaico-cristão, amar o próximo como a ti mesmo. Ora, a dada altura, no âmbito de um processo psicanalítico, eu dei-me conta exatamente disso. Dei-me conta que precisava de fazer as pazes e precisava de saber o que aconteceu. Nunca me foi escondido, mas também nunca foi um tema de conversa aberta, o que aconteceu à primeira família do meu avô. E efetivamente, é uma circunstância existencial exigente, porque nós somos descendentes da segunda família do meu avô. A primeira não teve a oportunidade para existir. E isso exigiu de mim um luto, uma certa pacificação com a contingência que é estar vivo e com a contingência das histórias a que pertencemos e das histórias que vamos trocando e das histórias que recebemos e das histórias que vamos construindo, e uma certa pacificação com o passado e uma abertura à fruição e à gratidão. E sobretudo, compreender que o melhor que eu posso fazer por estes nomes é trazê-los de volta à memória. E portanto, quando tive a bela notícia desta oportunidade que a Planeta me deu de publicar um livro, uma coisa estava certa, uma coisa foi logo um ponto assente: fosse que livro fosse, estaria dedicado a estes nomes para os retirar da clandestinidade histórica, do branqueamento a que a dor, o luto, o peso os condenou, e dizer-lhes que mereceriam estar vivos.
Não foram esquecidos, estão presentes.
Estão presentes e no escritório onde escrevo está a fotografia deles.
É muito bonito isso. E é muito engraçado, não vou falar mais disso, porque vamos avançar, vamos ter que falar de filosofia.
Está a ficar pesado o ambiente.
Não, mas eu gosto, porque ao mesmo tempo estás a falar de amor e só isso alivia logo os ambientes. E essa questão bonita da família que foi fugida. Eles fugiram do terror nazista e da ditadura. Os teus pais fugiram deste processo de reorganização nacional, que foi esta mini ditadura civil militar, com 30 mil desaparecidos, que aconteceu na Argentina. Eles também se lembraram de ver queimar livros, porque o autor não sei quantos tinha sido maldito. Tudo isso é horrível e hoje em dia, infelizmente, como sabes, e já tens falado disso, estamos quase a cair nisto outra vez, neste cancelar o passado, quando a história nunca se deve apagar. Deve-se aprender com ela, é óbvio, tu sabes isso. Tu eras muito curioso, eras uma criança de muitos porquês, ou não?
É uma bela questão. Confesso que não me recordo muito bem, mas creio que sim. Eu creio que todas as crianças são crianças de muitos porquês. E acho que não seria diferente dos outros.
Tu eras nerd? Ficavas a ler enquanto iam todos jogar futebol ou jogavas futebol com os outros?
Eu jogava futebol e também ficava a ler. Acho que o que foi diferente, e também dei a gratidão ao meu pai e à minha mãe e à minha irmã, a quem cuidou de mim, também ao meu avô, no fundo, às pessoas da infância, é que sempre houve um estímulo. Não havia tema tabu. Eu perguntava algo estranhíssimo à minha mãe, por que algo, e ela explicava-me, adequado à idade, mas explicava-me. Eu lembro de entrar numa livraria e eu podia folhear qualquer livro, não havia: "Olha, este livro não é para crianças". Obviamente que se a minha mãe de repente me via folhear com cinco anos o "Ulysses" do James Joyce, ela própria dizia: "Olha, se calhar não vais compreender", mas deixava-me confrontar com essa dificuldade. E portanto, eu acho que em certo sentido, aqui estou um pouco talvez a romantizar a criança, mas não me parece que isto seja necessariamente refutado pelas evidências científicas. Mas parece-me que há uma tendência natural da criança para a descoberta e que depois o que pode mudar é haver certo estilo de educação neutro, que não estimula nem inibe. Um estilo de educação que por vezes inibe, está calado, que chatice, lá estás tu com isso. Olha, toma o ecrã e acabou. Estilo de educação que com a ditadura dos ecrãs e com esta hiperpresença do imagético e com esta entrega de ecrãs, não só às crianças, mas a nós, eu próprio não sei se tanto as crianças como nós adultos estamos disponibilizar tempo suficiente para nos aborrecermos.
Falas disso muito aqui.
Exatamente, nos últimos capítulos.
A imagem é tudo superficial.
Exatamente.
Já não contamos o que fizemos, mostramos.
Exatamente. Já me estava a afastar aqui do microfone.
Onde vão estes milhões de fotografias que se tiraram? Ninguém vai ver isso.
Estamos a perder. Eu próprio tenho essa tendência e ando a combater isso em mim mesmo. Eu agora ando numa grande batalha comigo próprio, que acho que estou a ganhar, já estive a perder, que é: se estou numa fila, ficar na fila, ficar no aborrecimento, não ir para o ecrã. Se estou à espera do metro, permanecer no aborrecimento. Esse aborrecimento, esse não estar a fazer nada, este estar subitamente cara a cara com o tédio, é muitas vezes estimulante. Nascem aí perguntas, nascem aí ideias, nascem aí: "É pá, não ligo há três meses ao meu primo que está não sei onde." Desde ideias corriqueiras a ideias profundas. E falando desta curiosidade natural, não sei até que ponto é que uma espécie de excessiva dependência do ecrã, e o ecrã é dopamínico, portanto, o ecrã é fácil, o ecrã seduz-nos.
Risca com os gatilhos.
Exatamente. O ecrã são vídeos de 15 segundos.
É verdade. É curioso estares a dizer isso, que é uma coisa que eu sinto ultimamente, que é: nós temos o horror ao vazio e vais de carro fazer uma viagem, ligas logo a rádio ou as músicas ao teu MP3, o que tu quiseres. E nos últimos tempos, de vez em quando, não ponho nada, não ponho som nenhum e estás só contigo próprio a pensar em coisas e a ter ideias. É muito engraçado isso, porque até há um ano nunca pensaria andar na viagem de carro, e quem entra comigo de carro, liga logo a rádio. É engraçado isso, aquela necessidade de paz. Vais no trânsito, vais concentrado no trânsito, mas podes pensar em vez de estar a ouvir música, a encher-te o cérebro. Isso é impressionante, também me tem acontecido imenso. É engraçado.
Sim, vivemos num tempo de horror ao vazio e horror ao silêncio. E portanto, é interessante que, por exemplo, os podcasts. O podcast, por um lado, é fascinante. Em primeiro lugar, porque os últimos tempos, e estamos aqui na rádio, têm refutado a teoria de que, como é que era? Videos. Aquela música, agora queria cantá-la.
Video killed the radio star.
Exatamente. Ainda bem que me ajudaste, assim eu tive de dispensar-me a mim próprio e aos ouvintes de tentar cantá-la. Estamos na era em que, se calhar, não é bem assim. Se calhar, as pessoas mesmo numa era tão imagética continuam a apreciar a voz. E a popularidade dos podcasts é muito interessante.
Há uma certa intimidade.
Exatamente.
Uma conversa íntima que todos podem assistir.
E como que refuta o vaticínio dessa música.
Exatamente. Isso mudou muito.
Exatamente. Mas por outro lado, há uma geração e há o livro de uma psiquiatra americana que no original dos Estados Unidos da América é "Dopamine Nation", na tradução para português é "Dopaminados", que fala de alguns casos clínicos que acompanha e acompanhou casos clínicos de adolescentes que passavam o dia inteiro a ouvir podcasts, adolescentes e jovens adultos. Adolescentes em que ela lhes perguntava: "Quando é que foi a última vez, adolescentes e jovens adultos, em que estiveste em silêncio?" E não, há um podcast para dormir, há um podcast para a viagem, há um podcast para a refeição. E portanto, seria também interessante problematizar o gigantesco medo atual que temos ao silêncio.
Ao isolamento.
Exatamente, ao silêncio.
Ou estar fora das redes. Eu nunca tive Facebook, não quis. Tu próprio tiveste Facebook, depois tiraste, e agora já te perguntam o cartão de cidadão e já querem saber muito sobre ti e isso assusta, não assusta?
Eu continuo fascinado e quase na fronteira do assustado, estou a brincar, naturalmente, com a quantidade de informação.
Creepy.
Exatamente.
tema do Twilight Zone.
É verdade, tive essa necessidade.
As redes é uma luta hoje em dia.
Sim, eu tive um tempo de profunda autodescoberta, da qual não falarei muito, porque também me incomoda. Há traços do contemporâneo que eu aprecio muito. Não quero ser um passadista, mas também me incomoda esta ideia contemporânea das histórias de superação e de inspiração.
E autoajuda.
Sim, que depois são histórias sempre muito narcísicas, porque como se a história da pessoa que está a contar na primeira pessoa valesse para todos. Mas eu tive um tempo de autodescoberta existencial, de fazer as pazes comigo próprio e apaguei as redes. Eu estive sem redes sociais entre, diria, talvez 2016 e 2020. E mesmo hoje em dia, sou ativo nas redes sociais, mas é uma rede social da minha vida como professor, como pensador. Não coloco nas redes sociais as minhas férias, não coloco nas redes sociais o quanto amo e efetivamente amo a mulher com quem vivo. Não contesto quem o faça, atenção, também não quero cair aqui numa certa ideia de catequese, nem sou ludita no sentido de querer acabar com as redes, mas acho que elas exigem reflexão, sobretudo na menoridade. Eu não sei se daqui a talvez 20, 30 anos nos recordaremos como um tempo passado, o tempo em que nós deixávamos os miúdos usar redes desreguladamente, sem uma atenta supervisão parental. Acho que sobretudo na infância, o tempo de ecrã é preocupante. Há aí um livro muito interessante que é a "Fábrica de Cortinos Digitais", de um neurocientista francês, que com uma quantidade absolutamente extensa de dados empíricos, aponta para a perigosidade do excessivo tempo de ecrã lúdico, sobretudo.
Hoje em dia é desde meses de idade, é impressionante. Os bebés já a comer, já agarrados a um iPad com bonecos animados. O canal Panda ou o canal o que for, e os miúdos, os pais, naquela altura da refeição em que deviam estar em contacto com a família toda, está cada um, já vejo isto nos restaurantes e faz imensa impressão, pai, mãe e filhos, cada um no seu telemóvel.
Claro. Sobretudo quando é regra. Ainda não sou pai, mas calculo que por vezes.
Mas és tio do músico, do miúdo.
É verdade. Um maravilhoso músico, o meu sobrinho.
Violonista.
O meu sobrinho maravilhoso, que é quase como se fosse um irmão mais novo. Partilhámos quarto durante anos e é meu sobrinho, mas a nossa relação é mais a de irmãos. Estamos entre irmãos e sobrinhos, e sobrinho e tio. Ainda ontem, por exemplo, vinha do Porto para Lisboa de comboio e vi a batalha heroica de uma mãe contra o ecrã. E adorei. Os miúdos brincavam, os miúdos falavam alto, mas os miúdos faziam perguntas sobre a paisagem, os miúdos brincavam com o outro, os miúdos perguntavam coisas: "Por que é que o comboio está atrasado?" Ela falava. Isso é tão educativo. Obviamente, quando os miúdos, depois de três horas de viagem já estavam muito saturados, ela própria disse qualquer coisa como: "Já chega, vão ter um bocadinho de ecrã porque a mãe também precisa de descanso." Eu acho que isso é aceitável. Também quem sou eu para dizer o que é aceitável ou não, não quero parecer aqui dogmático e muito menos fazer nos tempos de hoje mansplaining. Mas o ecrã existe, nós não o vamos conseguir apagar. Eu uso ecrãs nas minhas aulas. Agora, a ideia é da hiperdependência, de estar permanentemente ao ecrã. Eu estive recentemente num órgão de comunicação, nesta minha aventura de divulgação, e vi pela primeira vez na minha vida, um sinal que adorei. Estás a ver aqueles sinais de "proibido fumar" ou "cuidado, chão escorregadio"? Estive num órgão de comunicação em que numa escadaria havia um sinal de uma pessoa a olhar para um telemóvel e a escorregar, e um cuidado e um proibido. Ou seja, um sinal a relembrar pessoas adultas de que não devem mexer no telemóvel enquanto descem ou sobem escadas.
Ou atravessam a rua.
Parece-me que muito do século XXI está nessa pequena porção infográfica.
Agora que nos faltam três minutos.
Agora vamos ao livro.
Não, ainda antes do livro.
Ainda por cima tu leste o livro, mostraste uns sublinhados e o estudo do livro.
Vou mostrar para o microfone, vale a pena comprarem, é muito bom. Vamos a umas respostas rápidas. Como é que seria o mundo e a história sem filosofia?
Aborrecido.
Muito bem.
Desculpa, quão rápido? Assim tipo instantâneo, três palavras?
Continua, sim, como tu disseste. Aborrecido, podes ter mais duas.
Eu diria aborrecido e muito provavelmente totalitário.
Ok. Vamos à Arendt, que bom. Capítulo tão bonito contra o totalitarismo e a diferença entre ditadura e totalitarismo. Eu adorei aquilo, aprendi imenso contigo. Não digas que eu li muito e que estás muito contente. Eu aprendi muito com o teu livro, porque cá está, e aqui a dica para comprarem de facto este livro, este livro do David Ehrlich, esta "Babadeira de Kant" e mais 49 episódios que ele pega em 49 grandes filósofos, desde a filosofia antiga, falamos do Aristóteles, do Sócrates, do Platão, por aí fora, até aos atuais, até aos portugueses. Dizem que o Bento Espinoza, o José Luís dos Santos chamou-lhe o mais inteligente português de sempre. Ele até foi expulso da comunidade judaica de Amesterdão e ele até tem raízes contigo, porque também teve partes judias e nasceu como judeu.
Claro, e sobretudo o Espinoza é um exemplo muito interessante.
Foi uma revolução aquele homem.
Exatamente. E de um homem que, até faço aqui um paralelo com outro filósofo que está no livro, que é Diógenes o Cínico, ou seja, o episódio em que Diógenes o Cínico diz a Alexandre o Grande, quando este lhe diz que pode conceder um desejo, Diógenes responde que só tem um desejo, que ele se afaste para não lhe tapar o sol. E Espinoza também representa este símbolo de independência do papel do intelectual face aos poderes estabelecidos. Porque a família de Espinoza fora expulsa pelo catolicismo na sua versão mais opressora, mas depois Espinoza devido ao seu panteísmo e devido à sua visão ética, física, metafísica, é excomungado da comunidade judaica, recebe uma penalização especialmente dura, que é que ninguém lhe podia dirigir a palavra.
Impressionante.
E no final dos seus dias, ele recebe uma proposta, não me lembro de que monarca, uma avença para ser no fundo um intelectual palaciano, para trabalhar na corte. E ele decide que não e trabalha até o final da sua vida como oculista.
A fazer lentes para telescópios.
Exatamente.
Incrível. Aliás, foi isso que o matou. Por causa da sílica.
Exatamente, e dos pós. E portanto, pensar a partir de Espinoza como o intelectual sendo aquele que independente nos faz ver melhor.
Incrível. Outra coisa muito boa, porque eu vou ter que fechar, mas uma coisa muito boa que tu tens no teu livro, vou dizer já, explicas muito os conceitos, isso é muito bonito. Explicas com a raiz semântica, a raiz etimológica das palavras, heterodoxia, ginossofistas, o que é que são isocracia, o Pangloss, o paradoxo, o Buda até, tem psicose, empirismo, cinismo, cético. As expressões que nós usamos hoje em dia, é muito giro, usamos muito as expressões que são no fundo de escolas. É cético, é cínico, é maquiavélico. Tu falas imenso isso no teu livro e a gente aprende imensa coisa além das vidas e fatos mais curiosos das vidas de todos estes 50 filósofos que tu vais percorrendo com pormenores deliciosos sobre a vida deles, os que pedem perdão porque não escrevem bem e os que orgulhosos de escrever como o Maquiavel. É do mais variado que há, os bêbados e os ótimos. É extraordinário, os muito invertidos, os que se escondem, os que se querem matar, mas a água está fria. O outro que foi assassinado por um picador de gelo, o Trótski, por aí fora.
Tu tens o livro na tua cabeça, pá!
Não, é maravilhoso, porque o livro é muito bom e ensina imensa coisa e isto é muito interessante. E a mim fez-me pensar imenso também sobre o futuro. Estes ChatGPTs, estas coisas do escrever sem mentes, tudo isto passa por aqui e portanto é muito curioso. Para quem quer saber mais, diz-me que tens mais histórias reunidas e que um dia vem a sífilis do Espinoza e mais 49 histórias. Não sei, outra história qualquer. Tens histórias de sobra, não tens, para encher outro livro?
Sim, e tenho ideia. Primeiro recebo as tuas palavras com enorme gratidão, porque teres lido o livro como leste e tive a oportunidade de ver os sublinhados e os apontamentos, o que para mim é sempre um elogio, e perguntarmos por um segundo, sinto-me muito lisonjeado, é uma enorme responsabilidade vindo sobretudo essas palavras de quem vem, agradeço-te por isso. E posso dizer que não há um segundo livro fechado, mas há vários segundos livros possíveis e vou ter de me sentar, tal como me sentei para o primeiro, caso haja essa oportunidade, e espero que sim, com a Planeta, com a Andreia, e dialogar sobre um segundo livro. E os ouvintes podem ajudar-me, porque quanto maior sucesso tiver este, mais probabilidade tem este humilde escritor de poder escrever um segundo.
Oxalá isso aconteça. David Ehrlich, quero agradecer muito a tua presença e ficamos então à espera que voltes, porque tenho aqui muitos temas ainda para conversar contigo no próximo, está bem?
Vamos a isto.
Fica combinado. Muito obrigado.
Obrigado.