Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Ficou muito surpreendido e naturalmente ficou tocado por esse elogio. A Gabriela faz parte de uma família que eu conheci a partir de outra, Carrascalão, com quem eu trabalhei no Público. Durante muitos anos, os longos anos da luta dos timorenses contra a presença indonésia na sua terra, durante anos nos fizeram unir contra aquilo que seria expectável, na medida em que ela fazia parte de uma família que desempenhou com alguns dos seus elementos, embora João Carrascalão estivesse no exílio e tivesse uma luta clara e pública contra a presença indonésia, esses laços fizeram-nos levar a uma compreensão muito grande entre os dois. E foi uma emoção depois ver a Ângela Carrascalão, já com o seu país independente, o primeiro país independente do século XXI, como Ministra da Justiça. E a Gabriela também, me encontrei com ela aqui há uns anos lá em Timor e ela também desempenhando um cargo oficial. Mostra-nos como a história habitada por aqueles que nela estão e não estão a dormir, tem esses momentos e essas vivências tão profundas. Por outro lado, se me permite, faço agora um elogio a alguém que não pode agradecer-me. Em Freitas do Amaral, eu entrevistei-o em julho de 75, num programa muito controverso que houve na RTP chamado "Responder ao País". E esse programa não foi pro ar da primeira vez que se tentou que ele fosse pro ar, porque houve um problema técnico e ninguém acreditou que fosse um problema técnico. E para nós três, os que o entrevistávamos, que era o José Carlos Megre, que era então diretor de programas da RTP, e o José Manuel Galvão Telles, que era um advogado como continua a ser hoje, mas era um homem com presença pública, e eu próprio, foi acabrunhante, vermos metidos naquela história. Não interessa isso, interessa que se estabeleceu entre nós uma relação de compreensão, porque Freitas do Amaral percebeu que nós não tínhamos responsabilidade por aquilo. E a entrevista, pareceu-me a mim, pareceu-nos a nós, há várias coisas que eu poderia contar e que não vale a pena, mas no final eu fiquei com a sensação que tinha corrido mal a ele. E uns anos mais tarde, ele no final de uma conferência de imprensa, não sei se foi quando anunciou que saía do CDS, e eu lhe fui fazer uma pergunta, ele disse-me assim: "Olhe, já agora gostava de fazer um agradecimento". E eu perguntei: "Não percebo. Agradecimento por quê?" Nós estávamos ideologicamente longíssimo um do outro. E ele disse-me: "É que nós no CDS, correu tão bem aquela entrevista que você e os outros dois nos fizeram, que nós transcrevemo-la, fizemos um opúsculo e vendemo-la no país inteiro, sobretudo aos domingos, à saída das missas, e vendemos 150 mil exemplares, que nos ajudou muito à subsistência do CDS". E Freitas do Amaral, depois, eu apreciei muito por ter feito uma coisa que é sempre muito difícil, seja qual for a postura em que as pessoas se encontrem. A certa altura, ele tomou posições públicas e até exerceu cargos públicos que contavam no oposto daquilo que parecia ter sido o seu arranque inicial político. E ele arrostou com isso, perdeu, julgo, alguns amigos. E eu admirei essa força interior que faz com que pessoas que a certa altura consideram que tomar uma determinada posição pública é aquilo que a sua consciência os obriga a fazer, tenha a coragem de fazer.
Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.