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Olha a cabeçada. Gol! Ronaldo!

Não há português que não sinta. Mais um dia de Diário do Mundial, com o nosso enviado especial ao Qatar, o Bruno Roseira, editor de Desporto. Bruno, boa noite, bem-vindo uma vez mais.

Olá, boa noite.

Hoje o dia acabou mais cedo para ti, eu sei. Começaste, obviamente, com as conferências de imprensa de Portugal, do Fernando Santos, também de Pepe. Ainda deste um saltinho para ver o que disse Paulo Bento, que não estará no banco amanhã para esse Portugal-Coreia do Sul. Foi a tua primeira paragem. Não foi a tua primeira paragem oficial, mas já lá vamos. Comecemos por essa conferência de imprensa conjunta de Pepe e Fernando Santos.

Sim, em termos de trabalho, à exceção de estar a adiantar já coisas para o fim de semana, foi a primeira paragem. Como tinha o jogo da Croácia com a Bélgica e como o media center até fica relativamente acessível de metro, acabou por ser a primeira paragem e depois, com essa causalidade, digamos assim, de Paulo Bento ter falado mesmo antes de Fernando Santos e de Pepe. Este barulho que tu ouves é de uma coisa que já vamos falar mais daqui a bocado.

Não estás na África do Sul, pois não?

Chama-se marroquinos em festa.

OK.

É um prato que já não é a primeira vez que eu levo e para o ouvido não é agradável, como deves perceber. Eu achei mais curiosa a conferência do Paulo Bento, porque é certo que ele não vai estar amanhã no banco, mas há uma série de curiosidades em relação a este jogo para o próprio Paulo Bento, que eu também questionei na conferência de imprensa. Ele, em 2002, esteve no Portugal-Coreia do Sul, que Portugal perdeu e acabou por ser afastado desse Campeonato do Mundo organizado pela Coreia do Sul e pelo Japão. Foi a sua última internacionalização por Portugal também, esse jogo em 2002. Foi também no início da época 2002, 2003, que ele teve como companheiro de equipa um miúdo que se chamava Cristiano Ronaldo. Ou seja, na época que Ronaldo faz no Sporting, Paulo Bento está lá. Curiosamente, como havia um bocado a ideia dos treinadores, neste caso do Laszlo Boloni, de juntar experiência com juventude, o Paulo Bento nos estágios, por norma, ficava no quarto com o Quaresma e não com o Ronaldo. Ainda assim, viu o crescimento destes jogadores e depois mais tarde também os treinou na seleção. E depois, ao mesmo tempo, vai ser um jogo contra Fernando Santos, que foi o último treinador de Paulo Bento jogador em 2003, 2004, no Sporting, que foi a sua última época. Portanto, existe uma série de curiosidades em relação a este jogo. Claro está que para o Paulo Bento vai ser complicado, porque a situação e o contexto da Coreia do Sul para uma qualificação não depende apenas de si, portanto, só por aí se percebe também as dificuldades. Achei também curioso quando lhe perguntei, recuando 20 anos, se ele tinha desfrutado mais de um Campeonato do Mundo como jogador e como treinador, que ele já esteve em 2014 por Portugal e está agora pela Coreia do Sul. Eu já sabia mais ou menos a resposta, ou seja, já estava a adivinhar. Agora, achei piada a maneira como ele se expressou. Como é óbvio, não tem dúvida que os jogadores desfrutam muito mais do que os treinadores, até porque a responsabilidade é diferente, aquilo que têm de fazer é diferente. Eu não digo que os jogadores sejam uns privilegiados, mas fazem aquilo que mais gostam e têm de se preocupar apenas e só com isso. Aliás, é para isso que existe toda uma estrutura, é para que os jogadores só se tenham de preocupar com os treinos e com os jogos. Mas achei curiosa a forma como ele respondeu a dizer de caras: "Epá, que ninguém tenha dúvida, que os jogadores aproveitem ao máximo, que joguem o maior tempo possível nas suas carreiras, porque depois há tempo para quem quiser ser treinador, porque ser treinador é uma vida muito mais complicada". E depois têm de aturar uma série de coisas que preferiam não aturar. Foi, em resumo, a conferência de Paulo Bento. A conferência de Fernando Santos e de Pepe fica resumida, sobretudo a parte de Fernando Santos, à abertura da possibilidade de haver alterações na equipa de Portugal para amanhã. Já se sabe, Nuno Mendes vai falhar o resto do Campeonato do Mundo. O Danilo, o tipo de lesão que tem, diria que no limite, poderia eventualmente ser uma opção se Portugal fosse às meias-finais, final, mas sempre à condição.

Certo.

Porque não é propriamente uma lesão fácil. O Otávio também não conta amanhã. E as alterações, diria que muito provavelmente, não é uma certeza, mas não ficaria admirado se Cristiano Ronaldo amanhã começasse no banco E diria até que se por alguma razão o Ronaldo for titular, tem apenas e só a ver com a sua contabilidade em termos de Campeonato do Mundo, com a sua contabilidade em termos de gols, com aquela tentativa de bater sempre mais algum recorde que ainda exista por bater, porque em termos desportivos, diria que a poupança do Ronaldo seria a opção mais sensata nesta altura, tendo em conta também a profundidade que o plantel de Portugal tem e os jogadores que tem na frente. André Silva, Gonçalo Ramos, o próprio Ricardo Horta que ainda não se estreou, e que poderão ter uma oportunidade também no jogo com a Coreia do Sul.

Mas uma gestão. Eu pergunto-te isto, aliás, e peço também a tua análise ou a tua previsão do futuro, ainda que limitada, obviamente. Uma poupança à la France ou um bocadinho menos inventivo do que Didier Deschamps ontem frente à Tunísia?

Não, eu diria que o melhor, e penso que Fernando Santos fará isso, será uma poupança a pensar na segunda fase. Mas isso não quer dizer obrigatoriamente rodar os jogadores todos, ou seja, é perceber aquilo que Portugal pode ou não contar na fase a eliminar. Um exemplo muito prático: nesta altura, Fernando Santos sabe que se chegar à final, vai fazer cinco jogos. Desses cinco jogos, só tem um lateral esquerdo de raiz que se chama Rafael Guerreiro.

Certo.

A partir daí tem duas hipóteses: ou lança amanhã no jogo com a Coreia do Sul, Rafael Guerreiro, e sabe que em condições normais terá de continuar a jogar com Rafael Guerreiro porque é a opção natural, ou aproveita o jogo com a Coreia do Sul, joga com Dalot à direita, testa Cancelo à esquerda, para qualquer eventualidade que possa acontecer, e Portugal tem tido muitos azares nesse sentido, o próprio João Cancelo já estar rotinado a jogar dentro da forma de jogar de Portugal e da ideia de jogo que tem, jogar também à esquerda. Isto é um exemplo prático de como, na minha ótica, se pode trabalhar essa questão das poupanças, mas preparando aquilo que será o futuro da seleção.

Até porque se fala muito de colocar o João Cancelo à esquerda, porque também o faz no City, mas é diferente jogar à esquerda no City e jogar à esquerda na seleção nacional, presumo.

São ideias completamente diferentes e é exatamente por causa disso. Parece-me que há alguns jogadores que estão na calha para terem uma oportunidade. O Palhinha, no lugar do Rúben Neves, parece-me quase uma solução natural, até porque o Rúben Neves saiu tocado do último jogo com o Uruguai. Uma possível entrada do Rafael Leão como titular também me parece algo natural daquilo que nós vimos das apostas que Fernando Santos fazia quando tinha de recorrer ao banco. Não acredito numa revolução total, porque acho que há alguns suportes e algumas bases da equipa que não devem ser perdidas. Rúben Dias, muito provavelmente, ficará. Não sei até que ponto é que não poderá ser uma boa oportunidade para António Silva fazer uma estreia num Campeonato do Mundo, poupando Pepe no jogo com a Coreia do Sul. O próprio Bruno Fernandes, parece-me que nesta altura, por mais que se possa considerar que ele devia ser poupado, eu diria que deveria começar o jogo para não quebrar completamente aquilo que são os processos da equipa e para haver alguma cola para juntar todas as alterações que serão feitas. A minha grande dúvida, ou as duas grandes dúvidas, é em relação à baliza, se Rui Patrício terá ou não a sua oportunidade. E em relação ao ataque, Cristiano Ronaldo, haverá uma opção mais sensata de poupanças o capitão de Portugal ou haverá uma opção de dar até algo moral e incentivo com um possível gol no jogo à Coreia do Sul, que poderia ser também um dínamo importante para Ronaldo na fase a eliminar.

Amanhã veremos. Estádio Education City, o Estádio Cidade da Educação em Al Rayyan. Jogo marcado para as 15h desta sexta-feira, dia 2 de dezembro, Portugal-Coreia do Sul. Último jogo da fase de grupos para ouvir aqui, claro, na Rádio Observador. Bruno, hoje escolheste os jogos do primeiro turno e escolheste um em concreto, o Bélgica-Croácia. Foste tu a imaginar que ias ao melhor jogo? Ao melhor jogo não diria, porque se nós fossemos para este mundial a pensar neste jogo, certamente que o escolhíamos em detrimento do Canadá-Marrocos. Acontece que tanto Croácia como Bélgica foram uma das, e esta frase é minha, ou a ideia é minha, das maiores desilusões deste Campeonato do Mundo e acabaram por confirmá-lo. Mais uma, e falo da Bélgica, do que outra, são das maiores desilusões. E a Bélgica acabou eliminada para espanto ou não de quem viu este mundial.

Sim. Olhando para o Croácia-Bélgica, é daqueles jogos que provam que o fato de acabar 0 x 0 não tem necessariamente que dizer que tenha sido um mau jogo.

Certo.

Que não foi. Teve períodos, sempre também com a Bélgica muito manejada com a Croácia, teve períodos em que o jogo acelerou, partiu, criaram-se oportunidades e houve espetáculo. E houve outros períodos onde a Croácia soube jogar também com a vantagem que teria com o empate, baixando a intensidade, baixando também as linhas, desacelerando o jogo, percebendo que não era preciso ter o jogo partido porque o empate estava a seu favor. Em relação à Bélgica, para mim é a maior desilusão, ainda mais do que a Dinamarca, porque quando nós vemos a qualidade e a profundidade das opções de Roberto Martínez, que chegou à conferência de imprensa e anunciou que está de saída, portanto, é a primeira saída já confirmada deste Campeonato do Mundo. A comparar Bélgica e Dinamarca Será uma maior desilusão. Ainda para mais, se nós olharmos para um número que é relativamente simples de perceber, em 270 minutos, mais aquela normal eternidade de descontos, que por acaso hoje até nem foi muito.

Quatro minutos nos dois jogos, curiosamente.

Foi quase mais uma exceção à regra de esticar o período de descontos. A Bélgica consegue marcar um gol, só. É muito curto para quem tem tantos jogadores de tanta qualidade. Acho que foi o pior fim possível de uma geração que tinha tudo para ser uma geração de ouro e que o máximo que conseguiu foi ser uma geração de bronze no Mundial 2018. Convém recordar que o segundo e o terceiro classificado do Campeonato do Mundo, a partir do momento em que Marrocos ganha ao Canadá, estão a discutir a passagem aos oitavos, o que também mostra a diferença que existe em relação ao último Campeonato do Mundo. E depois temos o exemplo paradigmático do Lukaku em relação ao que é uma lei de Murphy completa que se abateu também sobre a Bélgica, porque tudo aquilo que podia correr mal, correu ainda pior.

Correu, efetivamente.

Fosse bolas no poste, fosse bolas isolado, em que a bola saía por cima ou ao lado. Ou seja, diria que não houve nada que pudesse correr mal, que não tivesse ainda corrido pior a esta Bélgica. É um final de ciclo, é o final de uma geração que só não é a melhor porque houve aquela dos anos 70 e 80, que conseguiu também chegar a grandes lutas internacionais, mas era uma geração que tinha todas as condições para conseguir o seu grande título internacional. Esteve perto no Mundial 2018, até perder na meia-final com a França. Agora ficou muito longe e por mais que a equipe belga tenha tentado desanuviar a pressão e dizer que não havia qualquer tipo de tensão e que estava tudo bem lá dentro do balneário, parece-me mais do que evidente que a própria maneira de abordar o jogo e aquilo que se foi passando, nomeadamente os últimos 15 minutos, onde houve essa maior pressão e onde o Lukaku volta a ter oportunidades mais do que suficientes para resolver o jogo, mostra bem também aquilo que se vive no balneário da Bélgica e o próximo selecionador vai ter uma tarefa muito mais difícil do que o Martinez, porque o Martinez só tinha de escolher os melhores. E o novo selecionador, aquilo que terá de fazer é uma autêntica revolução, perceber quem é que ainda conta, quem é que deixa de contar e, sobretudo, montar uma base de futuro para fazer as próximas fases finais. E diria que isso é uma tarefa bem mais complicada do que aquela que Roberto Martinez foi tendo nos últimos anos.

Bélgica fora do mundial, Croácia em segundo, passa Marrocos em primeiro neste grupo que já sabíamos que tinha o Canadá eliminado. Amanhã, Bruno, eu presumo, e corrija-me se eu estiver errado, vais estar completamente concentrado no fecho do nosso grupo e no Coreia do Sul-Portugal, até porque os jogos são muito em cima e tu já disseste aqui neste espaço que a partir do momento em que os jogos são às 13:00 e às 19:00, dificilmente consegues ir ao segundo turno, ainda para mais quando amanhã joga Portugal, não é?

Sim, o facto de jogar Portugal anula a possibilidade de ir ao outro. Ou seja, conseguiria ir, mas era sinal que não passava pela zona mista de Portugal, não escrevia qualquer texto, portanto é uma coisa que não posso fazer. Deixa-me só acrescentar que entretanto já saíram as regras para os oitavos de final, com uma nova nuance que ainda não consegui perceber bem o porquê, porque acaba por contradizer aquilo que se passou na primeira fase, que é cada dia tens dois jogos nos oitavos de final, mas só poderás ir a um. Ou seja, vais ter, por exemplo, o dia do França-Polônia, é escolher entre França-Polônia e Inglaterra-Senegal. O dia da Argentina e da Austrália e Países Baixos-Estados Unidos, também vais ter de escolher só um dos jogos. Não consigo perceber, porque a diferença horária entre eles é a mesma do que está a acontecer agora nesta última jornada e consegue-se ir aos dois e está a ser mais do que praticável, sendo que na primeira tem de se abdicar da zona mista ou então em relação ao segundo, tem de se saber que se vai chegar mais tarde, mas isso cada um já sabe como é que são as coisas, porque não dá para estalar os dedos e estar no outro lado. Amanhã o dia, até por uma questão de gestão física, vai ser bem mais tranquilo. O jogo de Portugal é às 18:00 daqui, é o estádio Education City, é o estádio mais perto que existe do centro de imprensa, é uma paragem de metro só. Portanto, o que é uma vantagem. Não quer dizer que seja necessariamente perto, porque isto não é propriamente Campo Pequeno de Saldanha, por exemplo, é sempre um bocadinho mais longe, mas ainda assim é um estádio relativamente perto e é um bom dia para continuar a fazer aquelas coisas que parece que não, quando se começa a avançar na competição, é melhor ir fazendo. Tratar da roupa, tratar das questões físicas, pedir para tratar o pé e o tornozelo.

Pois, porque tu Al Bayt nunca mais, não é, Bruno?

Al Bayt. Eu entretanto a falar com um português num trabalho que há de sair nos próximos dias, ele explicou-me: Al Bayt também iria ter metro. Agora, o problema de Al Bayt é que é numa cidade que é Al Khor. E Al Khor é sobretudo uma Tem vila piscatória e depois é uma cidade industrial. E aquilo que os responsáveis perceberam, e existe aqui um comitê apenas e só vocacionado para a sustentabilidade de qualquer projeto que seja feito no âmbito do Campeonato do Mundo, é que não fazia muito sentido prolongar a linha de metrô que estava a ser feita até ao Estádio Al Bayt ou até, neste caso, Al Khor, porque depois do Campeonato do Mundo, Al Khor vai continuar a ser aquilo mesmo. Não tem nada a ver com Lusail, que é uma cidade que está a ser construída de raiz e que, além de ter a última paragem de metrô de uma das linhas, que é a linha vermelha, tem depois uma coisa que eles chamam o tram, que faz o circuito por toda a cidade. Ou seja, tudo aquilo está pensado no âmbito do Campeonato do Mundo, mas está pensado para ficar como uma nova grande cidade muito perto de Doha. O que o Al Bayt fez, sobretudo com os tênis, porque é normal, nós andamos aqui a escolher também como é que são os dias mediante aquilo que nós temos projetado.

Claro.

Se eu vou para um estádio do bus, no shuttle que existe da competição, é normal eu perceber que não vou propriamente andar muito. E fiei-me nisso. E portanto, como tive de chegar ao Espanha e Alemanha a correr que nem um desalmado, provavelmente mais do que fiz no último ano, num só dia e num só período de tempo. As pernas responderam bem, o físico também aguentou bem, as costas, que era o meu grande problema, porque tinha a mochila, também aguentaram bem, os pés nem por isso, por causa dos tênis.

É um problema de base.

Sim, mas já estou devidamente tratado, equipado. Amanhã volto, tal e qual como se fosse um jogador de futebol. Portanto, prontíssimo. Pelo que eu percebi, vai demorar mais tempo a chegarem-me as camisas lavadas do que o pé ficar a 100%. Portanto, é bom que já vou estar apto a 100% também para os oitavos de final. Isso é sempre uma boa notícia.

E é com isto que nos despedimos de Bruno Roseira. Amanhã, já sabe, dia 2 de dezembro, decidimos a nossa classificação no grupo. Ficamos em primeiro e em segundo e sabemos também, depois das 21h, quem nos calha nos oitavos, no grupo do Brasil. Bruno Roseira, amanhã vai estar com Portugal, como sempre. Bruno, as melhoras e que as camisas, entretanto, se lavem também.

Sim, as camisas também convém, mas agora primeiro o pé e depois as camisas.

Bruno, até amanhã para mais um "Dia do Mundial".

Eu sou como o Fernando Santos. Venho com a mala preparada até dia 19 de dezembro. O pé é que eu não estava a contar.

Também já não arranjas nenhum. Bruno, até amanhã.

Até amanhã. Obrigado, João.

Olha a cabeçada! É gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.