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Olha a cabeçada, é golo! Ronaldo! Não há português que não sinta.
Seja bem-vindo ao último episódio do "Diário do Mundial". Estamos no último dia de quartas de final, isso significa que Portugal não foi tão longe quanto desejávamos. Conosco já está o nosso enviado especial ao Catar, o editor de esporte do Observador, Bruno Roseiro. Bruno, boa noite.
Olá, boa noite.
Antes de falarmos do dia de hoje, deixa-me perguntar se ontem fizeste a mala à noite. Eu sei que não a fazes, mas podia ser que tivesses tido um feeling do que ia acontecer hoje.
Não, o feeling comecei a ter quando acordei. Ontem à noite aquilo que eu tive foi vontade de fazer tudo e mais alguma coisa a quem quer que me aparecesse à frente. Eu já estava mais ou menos à espera, acabando o jogo da Argentina e dos Países Baixos, com pênaltis acabou, salvo erro, por volta da 01:00. Depois com mais zona mista. Entretanto acabou o metrô, que fecha às 03:00, e depois foi preciso andar à procura de um local.
Dos shuttles?
Não, o que eu pensei: shuttle não vale a pena, porque o shuttle demora 40 minutos e depois eu teria de fazer mais 20 para casa. Ou seja, o que eu percebi: Al Mansura, que é onde eu estou, é preferível ir logo direto para Lusail, de Lusail para Al Mansura, porque é mais perto do que andar a dar voltinhas. Problema: o circuito que estava montado para que nenhum carro entrasse num perímetro muito maior do que eu imaginava à volta do estádio, fez com que eu andasse no mínimo, e estou a contar por baixo, pelo menos meia hora, e depois fosse para uma espécie de um canto, uma rua, que era a primeira onde já não havia vedação, onde basicamente estavam dezenas de argentinos a tentar chamar Uber, que era completamente impossível.
Claro.
E depois a fazer quase um jogo de: o primeiro carro que aparecesse e parasse um bocadinho, que era sinal de que devia ser um táxi, atiravam-se lá para dentro, mergulhavam. Eu ainda resisti ao primeiro e segundo mergulho, ao terceiro já não aguentei, atirei-me lá para dentro. O primeiro correu mal, foi um mergulho claramente numa piscina sem água, porque comecei a perguntar onde é que estava o taxímetro e ele a dizer-me que não tinha taxímetro, e eu: "Sim, senhor, então e quanto é que vai ser?" "150 reais". Só para tu teres uma ideia, será à volta de €40, mais ou menos.
Uma viagem carinha.
Sim, para fazer 20 minutos era preciso €40. Quando ele me disse isso, eu saí logo automaticamente. Foi uma coisa mesmo muito à filme, quando ele me disse, foi automático. Eu: "Oi, se não se importa, encostar aqui, faz favor e vá a sua vida, que eu fico aqui na minha". Percebi que se calhar não teria sido a melhor hipótese, porque depois aquilo continuou a regatear, houve quem me tivesse pedido 200, depois era outro que era 170, etc. Depois lá consegui encontrar um que fazia por 100 e passava recibo, e já estava cego. Isto tudo para dizer o quê? Cheguei ao apartamento às 16h35, portanto esta coisa de porem os jogos às 22h é ótimo, sobretudo quando vai para pênaltis. E depois só acabei de escrever o texto de Marrocos, já deviam ser 18h e qualquer coisa. Portanto, o meu dia hoje, pela primeira vez, basicamente foi resumido apenas e só a Portugal, com essa nuance, não toquei na mala. Nunca toquei na mala, aliás, continua tal e qual como chegou, encostadinha a um canto. Houve, de facto, hoje um prenúncio quando eu acordei, por volta das 11h00, que foi pelo segundo dia consecutivo, não vi sol, e eu desde que vim para o Mundial, esteve sempre sol de manhã, inclusivamente no dia em que choveu um bocadinho aqui em Doha.
Certo.
Segundo prenúncio que alguma coisa não estava bem. Quando eu desci a primeira vez só para ir beber um café, aqui mais ou menos ao pé, estava vento que se notava e que até era frio. Portanto, foi preciso chegar ao último dia para me lembrar que tinha na mala camisolas, também eram só duas, e vestir uma camisola. Claramente havia qualquer coisa hoje que não estava bem.
Com tudo isso esqueceste de ligar ao senhor engenheiro Fernando Santos e explicar-lhe que há aqui rato ou havia aqui rato.
Havia rato, embora, verdade seja dita, tudo aquilo que Marrocos fez era tudo aquilo que eu tinha falado com o Miguel durante a tarde.
Era previsível.
Sim, até porque foi exatamente igual ao da Espanha. Houve ali umas nuances, às vezes avançava, o próprio treinador pedia para avançarem um bocadinho mais a linha defensiva, ou seja, não se importava em algumas alturas de dar a profundidade a Portugal. Agora, todo o jogo, e sobretudo a segunda parte então, foi tudo aquilo que se esperava. E sinceramente, na primeira parte, que acho que foi uma primeira parte mal conseguida por Portugal, Portugal teve sempre noção do que Marrocos fazia, e o que Marrocos podia fazer, e o que Marrocos poderia ter de pontos débeis para explorar. Acho é que nunca teve a capacidade para, por um lado, travar os seus pontos fortes E sobretudo, por outro, aproveitar essas debilidades. Na segunda parte, e eu não sou nada dessa questão de perder a culpa é do árbitro. Recuso-me a isso. Portugal está eliminado porque não conseguiu marcar, a verdade é essa. E Marrocos também tem o seu mérito. Marrocos tem quase 500 minutos de Campeonato do Mundo, tem um golo sofrido, que é um autogolo, mais nada. E já jogou com Portugal, já jogou com Espanha, já jogou com Bélgica, já jogou com Croácia. Portanto, não são propriamente adversários fáceis. Acho que Portugal também não procurou as melhores soluções para chegar ao golo, embora tenha tido as suas oportunidades, mas em relação à arbitragem, ainda na primeira parte, mas sobretudo na segunda, Marrocos foi conseguindo gerir a vantagem. Em qualquer reposição, fosse lançamento, fosse um pontapé de baliza, fosse uma falta ganha, fosse cair no chão. Nós temos muita mania de perguntar, e há aí uma outra coisa que eu depois também já vou dizer, que é exatamente igual. Temos muita mania de olhar pra nós e falar naquela questão do antijogo e agora a liga colocar a porcentagem de tempo útil, etc. Mas chegamos às quartas de final de um Campeonato do Mundo, e a segunda parte foi muito à base do antijogo, porque aquilo pra mim é antijogo, não há grandes dúvidas sobre isso. Sem tirar qualquer mérito àquilo que Marrocos fez, mas estavam a jogar com o tempo, porque, tal como toda a gente já previa, inclusivamente Fernando Santos, Marrocos fisicamente está de rastos.
Notou-se logo que o Saïss, logo antes, no aquecimento, foi ligado uma segunda vez, coxa esquerda, se não me engano.
Sim, e o Saïss, antes de sair na segunda parte, andava a arrastar-se. Até porque a certa altura parece-me que é o próprio Rúben Dias que vai avisar o Ronaldo, e já não me lembro mais quem, mas houve ali uma conversa a três, exatamente a apontar pra aquilo, ou seja, enquanto ele não é substituído, vamos carregar em cima dele, porque ali é que pode estar o caminho para o golo. Em relação a esta coisa das comparações, dizer que no meio daquela confusão ontem da Argentina, não fiquei também particularmente agradado pela maneira como Messi, por um lado, reage contra Van Gaal ainda no campo, e por outro, reage contra o Weghorst, que eu na altura não sabia quem era, só vi aquilo do "Qué estás mirando, bobo?" Só tinha visto o vídeo, não sabia para quem era ainda, não sabia ainda o alvo. Mas deixa-me dizer que o discurso de Messi quando vai receber o prêmio, depois na conversa de imprensa, se fosse em Portugal, automaticamente, pelas críticas que ele fez à arbitragem, estava pelo menos castigado um jogo. E no Campeonato do Mundo, provavelmente, vai passar completamente ao lado. E das duas, uma, não sei quem é que tem razão, e também não me interessa muito, porque é um tema que não é propriamente o meu. Sei é que gostava que as coisas fossem sempre todas muito mais coerentes. E não faz sentido nenhum, seja ele Messi, Ronaldo, Amrabat, pra mim não me interessa nada o nome. Aquilo que me interessa é: quando estas coisas acontecem, qual é que deve ser a regra, e se o Campeonato do Mundo é que impera, eu acho que então, a partir de agora, no Campeonato Português, devemos ter pelo menos a flexibilidade para de quando em vez um jogador poder criticar a arbitragem sem com isso ser castigado, e sem com isso também que se torne uma regra. Mas pelo menos perceber que estamos num Campeonato do Mundo e que uma das grandes figuras de uma equipa que está nas meias-finais critica abertamente o árbitro, até de uma maneira, ainda antes de falar da vitória, já estava a falar do árbitro e ele tinha ganho, e vai passar completamente ao lado. Da mesma maneira como tem havido, e isso o Pedro Henriques provavelmente tem estado a falar sobre isso, tem havido, e é uma coisa que eu reparo aqui, imensas entradas daquelas de pisar o pé porque se chega atrasado, pisar o pé, pisar a zona do tornozelo, porque se chega um bocadinho atrasado.
Foram aquelas faltas que passaram a ser assinaladas e admoestadas, vá pra usar esta palavra tão pouposa, a partir do momento em que apareceu o VAR. Aqueles pisões, isso começou a ser o principal alvo.
Exatamente. Mas mais do que isso, se vai ao VAR é pra ser expulso.
Pois, exato.
É muito mais do que isso. E aquilo que eu tenho visto muito no Campeonato do Mundo é: ou não vai ao VAR, ou nunca dá expulsão. E já vi "n" lances assim, ao menos que agora que Portugal está na hora de ir embora, ao menos que até a própria liga portuguesa e os próprios árbitros também consigam ganhar referências e consigam perceber o que é que se faz lá em cima, no topo, que é o Campeonato do Mundo, e daí também tirar as suas ilações.
E Bruno, o jogo foi o que foi. Depois, não sei se conseguiste ir à zona mista, terás conseguido.
Sim, não fui à zona mista, mas deixa-me só acrescentar, ao intervalo, e não fiz questão de ir ver uma coisa. Estava-me a fazer imensa confusão o número de cadeiras sem dono no início do jogo, mas estava mesmo a fazer confusão.
Tu mandaste uma foto pra um dos nossos grupos no WhatsApp aqui do Observador, com a imagem das bancadas 20 minutos antes do jogo começar. E de facto, como é que era possível encher-se o estádio e quando a 20 minutos da bola começar a rolar nos quartos de final, estar a meio gás, pra aí?
Não, nem a 20 minutos, estava há muito menos. E quando começou, tinha melhorado imenso, mas havia clareiras. Aliás, todos os dias em que houve quartos de final, oitavos e fase de grupos, fui sempre pelo menos a um jogo. Às vezes ia a dois, pelo menos a um fui. E não me lembro de ver uma coisa assim, talvez num jogo que agora não me estou a recordar, que foi um jogo que eu até escolhi especificamente Já me lembro. Foi o Japão com a Costa Rica.
Exatamente.
O Japão com a Costa Rica. E até o Japão com a Costa Rica, mesmo assim, não estava com tantas clareiras como vi hoje no Estádio Al Thumama. E foi por isso que ao intervalo, em vez de continuar a escrever a crônica, avisei logo: "Olha, a crônica pode atrasar um cadinho, eu agora vou lá fora ver uma coisa". Andei nas portas mais ao pé da entrada da zona de imprensa a ver e tirar fotografias, que é uma pouca vergonha, não tem outra expressão, como é que era possível, ao intervalo, de repente, os estádios se enchiam todos. Será que havia pessoas que compravam só metade de um bilhete? Será que de repente começavam a chover bilhetes? Tinha de ir averiguar. Aquilo que eu vi foi o seguinte: na porta onde entraram alguns adeptos portugueses, que era a porta nove, não havia o mínimo de confusão, zero. Estava tudo ali, inclusivamente até com reforço policial, que não é normal ao pé da porta. Mas depois vi imensas pessoas a correr com o bilhete na mão. Também me faz imensa confusão, ou seja, pessoas que alegadamente terão pago um balúrdio pelos bilhetes, que os bilhetes são todos caríssimos, de repente só chegavam ao intervalo e vinham todas contentes a correr com o bilhete na mão. E havia uma porta em específico, era a porta cinco, que tinha uma entrada que era para pessoas acreditadas, mas que estavam a fazer várias coisas, ou seja, ou estavam nos bares ou estavam na entrada a fazer vigilância, ou seja, pessoas que têm esse tipo de acreditação. Havia uma entrada onde elas estavam a tentar entrar, mas ao mesmo tempo estava uma série de adeptos marroquinos que se iam enfiando no meio deles e ia lá tudo para dentro. Comprova-se a questão das entradas de borla continua a existir até nos quartos de final.
Entradas marteladas.
Sim, completamente, mas completamente mesmo. E depois tenho muitas dúvidas. Uma coisa é fazer acordos com as companhias aéreas nacionais, como aconteceu com Marrocos, e muito bem, eu acho que é ótimo levar o máximo de pessoas possível para apoiar a equipa, acho isso tudo lindamente. Agora, faz-me confusão é de onde é que são desencantados tantos bilhetes e quem é que paga aqueles bilhetes. É mesmo por curiosidade, porque essa foi a parte que eu nunca percebi, quem é que pagava aqueles bilhetes todos. Há uma coisa que eu tenho a certeza absoluta, porque não me contaram, fui eu lá abaixo ver. Que havia pessoas a entrar sem bilhete, havia. E que havia pessoas, e eram muitas, a correr com um bilhete que de repente tinha aparecido, também eram muitas. Por que isto acontece? Saio daqui mais de três semanas depois e não consigo perceber.
Porque se eu tivesse um bilhete para um jogo de quarto final do mundial e só chegasse ao intervalo, não me vinha a rir, certeza.
Ora bem.
Avançamos então para a zona mista. Como é que estava o espírito dos portugueses? O que é que se falava? O que se dizia?
Muito cabisbaixo. Eu não soube ainda o que se passou no balneário após o jogo.
O Ronaldo já estava lá à espera de toda a gente, não é?
O Ronaldo, por exemplo, não passou na zona mista. Conseguiu furar ali e foi diretamente para o autocarro. Na zona mista, na parte de escrita, digamos assim, pela televisão, o Rúben Dias e o Bernardo também já lá tinham passado. Pela parte escrita, passou o Pepe e o Bruno Fernandes, foram os únicos que falaram, e falaram também só uma vez. Tiveram uma paragem, estavam jornalistas portugueses, brasileiros, espanhóis, de várias outras nacionalidades que punham o gravador, mas depois nos vinham perguntar o que elas tinham dito, porque não percebiam português. Acho que provavelmente estariam na esperança que elas pudessem ter alguma resposta também em inglês. Mas foram só esses que falaram. Todos os outros que foram passando depois, muito cabisbaixos, mesmo muito pesado. Há aquele pormenor do Bruno Fernandes quando está a falar, que já se pode ler no texto que eu escrevi, que a certa altura dão-lhe o toque porque se percebeu que ele ia começar a abrir o livro em relação à arbitragem, e ele tem uma expressão que não vale a pena estarmos aqui a repetir agora. Como quem diz "Não quer saber das consequências, eu vou ter de dizer isto". Também é bom dizer que ele no final disse: "Quem passa merece sempre passar. Marrocos defendeu bem, merece passar, parabéns a Marrocos". Também é importante dizer isso. Mas foram os únicos dois que passaram, sendo que a partir do momento em que um dos assessores da federação explicou que Ronaldo não iria passar por ali porque já estava no autocarro, automaticamente mais metade da zona mista esvaziou por completo, porque mais uma vez estava tudo à espera do Ronaldo e hoje fazia sentido, porque hoje acabou o Campeonato do Mundo para um jogador que é um jogador livre e toda a gente está interessada em saber qual será o seu próximo clube, se há próximo clube e, sobretudo, nesta altura e neste contexto, como é que vai ser em relação à seleção. Porque aquilo que Ronaldo decidir em relação à seleção pode também pesar naquilo que poderá ser o futuro de Fernando Santos na seleção.
Exatamente. Diga-se o que se disser, a verdade acho que é esta e a marca resumiu-a muito bem. Sejam quais forem as atitudes de Ronaldo, questione-se ou não o que Ronaldo diz e faz, eu acho que não foram imagens agradáveis de se ver. A marca escreveu, Bruno, não sei se tiveste a oportunidade de ler, que custa ver o Ronaldo assim. Custou muito vê-lo a chorar e a sair lavado em lágrimas Deste jogo e a FIFA até já fez uma espécie de compilação a agradecer em jeito de despedida de Cristiano Ronaldo, a assumir que foi o último campeonato do mundo. E de facto é como disse, se calhar hoje pedia-se que Ronaldo, a chorar ou não, passasse pela zona mista, passasse pelo final para dar uma palavra sobre o que quer que seja.
Sim. Para nós sim, óbvio. Aliás, para nós sim, Ronaldo passar e falar sempre. Eu hoje, e contra mim falo, porque eu era um daqueles que estava lá à espera dele, percebo que ele não tivesse passado. Até porque as imagens que eu vi, e eu vi as imagens ainda nos ecrãs pequenos que nós temos na bancada de imprensa. Eu acho que Ronaldo hoje não estava a chorar só porque foi eliminado dos quartos-final do Campeonato do Mundo. Isto é o descarregar de tudo o que aconteceu durante um ano ou meio ano. Acho, sobretudo, o que essas lágrimas significam. Como é óbvio, tem uma parte de uma despedida como ele não queria, como suplente, e não vale a pena estarmos a escamotear isso. Ronaldo, independentemente de perceber ou não as razões de Fernando Santos, nunca lhe passaria pela cabeça que iria terminar o seu último campeonato do mundo como suplente. E essa é a verdade dos factos.
Certo.
O Ronaldo tinha o contexto perfeito no Qatar para ter a despedida de sonho, porque estava num contexto onde entrava num estádio e era muitas vezes maior do que Portugal. Ainda ontem, aquele salvador que eu tive em Lusail, que era indiano, que dizia que torcia por Portugal, quando eu lhe perguntei mais algum jogador além do Ronaldo, ele não sabia nem um. Mas é que nem um. Podia ainda dizer Bruno Fernandes, Bernardo Silva, que são jogadores da Premier e normalmente na Índia vê-se muita Premier League. Não sabia nem sequer um nome e por isso Ronaldo tinha aqui o contexto todo. As coisas não saíram. Voltou a entrar numa espiral complicada. Acho que desta vez houve um argumento que apareceu e que não foi nada positivo para ele, que é esta questão de irmãs, namorada, tudo a falar. Piers Morgan, que eu próprio começo a duvidar se é jornalista, comentador, assessor de Ronaldo. Já não consigo perceber que figura é que ele é. Sei que é uma figura cada vez mais usada no meio e cada vez mais presente. Mas sinceramente, já me faz confusão, porque eu já não consigo perceber o que ele representa naquela altura, quando ele fala. Se é uma caixa de ressonância do Ronaldo, se está a assumir o seu papel de jornalista, já não consigo perceber. Aliás, ele próprio já confunde também isso. Acho que nada ajudou, mas sobretudo aquelas lágrimas. Eu continuo a achar que são lágrimas de alguém que acabou como não queria, mas que sobretudo teve a grande derrota da vida dele quando perdeu um filho. E aquela entrevista de Piers Morgan, se é certo que, como é óbvio, iria automaticamente rebentar a relação com o United e levar a um desfecho previsível como aquele que aconteceu de uma rescisão unilateral de contrato. Aquela entrevista, aquilo que mostrou sobretudo, foi o impacto que a perda do filho teve em Ronaldo. E nesta altura, cada vez mais, aquelas lágrimas é de alguém, é do jogador que fez o seu último campeonato do mundo e saiu pela porta que não queria e da maneira que não queria, mas é sobretudo as lágrimas da parte do homem que muito provavelmente nunca se conseguiu levantar nem adaptar ao choque que é o episódio que ele teve e a perda de um filho e que ainda hoje chora por isso.
Bruno, nós também temos que pôr um elástico neste nosso diário. Enfim, ganham aqueles que já pediam que tu regressasses. Já compraste o bilhete?
Já está tudo tratado.
Chegas antes ou depois da seleção?
Chego depois. Sabes que não quero ter a brilho a ninguém. Eles é que são os protagonistas. Portanto, eu só chego depois, muito depois. Muito não. Não, muito sim, chego umas sete horas depois. Mas sim, ainda nem sequer fiz a mala, ainda tenho chamadas para fazer, ainda tenho textos para escrever. Só depois é que eu vou fazer a mala. E pronto, dentro de tudo aquilo que correu mal hoje, e eu continuo a dizer, quando eu saí, não vi o sol e senti o vento. Aliás, se tu fores ler a crônica, aquela crônica foi começada a ser escrita duas horas antes do jogo começar. Ou seja, mais premonitória do que isso é impossível. E pronto, agora sim, agora está na altura de voltar para casa e para as pessoas que queriam que eu voltasse. Sim, para filhos que durante 364 dias querem sempre que Portugal ganhe, Portugal é o maior e que, por exemplo, no jogo contra a Suíça ficaram tristes porque sabiam que se Portugal ganhasse, eles não viam o pai. Portanto, agora está na altura de ir ter com as pessoas que me aguentaram aqui, porque se não fossem elas, a este ritmo não ia ser garantidamente fácil.
Bruno Roseira, o nosso enviado especial ao Qatar. Foi um gosto partilhar contigo a tua odisseia por um mundial que queríamos que tivesse sorrido muito mais do que sorriu. Bruno, um abraço, boa viagem e chega seguro. Faz a mala.
Sim, tenho que fazer a mala primeiro ainda.
Um abraço.
Até amanhã, João. Obrigado.
Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.
