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Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta. Diário do Mundial, 15ª página do nosso enviado especial Bruno Roseiro. Quer dizer, Bruno, 15º dia, se calhar não escreves 15 páginas. Com 15 dias de mundial escreves muito mais. Boa noite.

Se calhar. Olá, boa noite. Para mim já são 17.

Pois, exato. Mais essa.

Para mim já são 17.

Vamos começar pelo início. Parece-me adequado neste belo dia, porque começaste o dia a escrever sobre o campeonato do mundo da corrida dos camelos, não é? Um desporto rei no Qatar.

Sim, isto não pode ser só o ir. Tive de vencer a preguiça e escrever. É o especial que está agora no jornal. Eu ontem já tinha falado isto com o André. Hoje continua a haver corridas, agora até dia 14, que foi isso que eu combinei com o meu novo amigo de todo aquele complexo. Dia 14 eu voltaria, porque dia 14 coincidiria com uma possível meia-final de Portugal. Ficou assim combinado. Dia 14 é o dia das corridas mais a sério, ou seja, os melhores camelos, os mais competitivos. Nomeadamente a pista principal, que foi onde eu estive sentado a achar que ia acontecer tudo e não vi nada, porque os camelos que estavam a correr no primeiro dia e hoje também era assim, são os camelos mais novos e por isso é a pista mais pequena, que é de 4 km.

Mais promissores.

Sim, foi logo. Eu já percebi que o Souda, se eu voltar cá daqui a seis anos, o Souda está provavelmente no dia 14 daqui a seis anos a lutar para correr, porque aparentemente tem uma maneira de correr que acho que é muito promissora. Para mim é tudo igual. A única diferença que eu vi entre os camelos, eu não sei se tu ontem ouviste a minha conversa com o André, eu a certa altura já estava a ficar um bocado aborrecido, porque eu queria era ver aquilo e eu conseguia perceber pelo barulho que aquilo devia ser engraçado, porque a pista é na zona central e depois de lado há duas pistas para os carros que vão comandar os jóqueis robôs que estão em cima dos camelos. E enquanto eu não me meti lá, não descansei. Eu tinha de ir num carro daqueles, e lá fui. E em relação aos camelos, as únicas três diferenças é: uma, que foi a última que eu reparei, há mesmo camelos que fazem a chamada corrida de trás para a frente, ou seja, andam ali no ram ram e no final começam a acelerar e ultrapassar bastante. E eu ia fixando, como eles têm uns números na zona do pescoço, é fácil perceber quem é quem. Ou seja, não sei como é que ele se chama, não sei quem é o proprietário, muito menos sei quem são os tratadores, porque isto envolve milhões, mas os tratadores continuam na mesma, apesar de fazerem basicamente o trabalho quase todo. E consegui perceber isso. Há uns que na parte final vão de trás para a frente. Consegui perceber que há uns que se sentem mais à vontade do que outros, que a certa altura começam quase a espumar da boca, mas que é normal. Depende dos camelos. Há uns que é mais, há outros que é menos, há outros que não. É essa a diferença. A terceira é quando tu entras nos últimos 200 metros, não é a festa da buzina dela, é qualquer coisa muito mais à frente, até porque há sempre, entre os camelos que é possível ganhar, há sempre um ou dois daquelas pessoas que estão a tentar comandar o jóquei e eventualmente até proprietários, eu essa parte não consegui perceber, mas que são pessoas que se põem com a cabeça fora da janela ou pelo tejadilho, a dar aquele último grito de incentivo. Claro está que o camelo não aquece, não arrefece, porque ele está a correr lançado, mas é uma excitação e uma vibração enorme, brutal. Aliás, não é por acaso que eles têm um canal próprio só para passar a corrida de camelos. É quase um loop. Normalmente o vencedor é entre os 6 minutos e 2 e os 6 minutos e 10. Mas Macaba passa o photo finish, e photo finish pode ser se eles passarem muito próximos um do outro ou se o segundo classificado estiver a 10, 15 metros. O photo finish eu já percebi que é uma coisa que aqui deve pegar, porque eles gostam imenso de repetir aquilo, e passado 30 segundos já está a começar outra. Isto é sempre em loop. Dia 14 vai ser a grande corrida, vão ser as estrelas, digamos assim. Para tu perceberes mais ou menos números, os melhores camelos de todos podem chegar a custar à volta de 520 mil euros, que é o equivalente mais ou menos a 2 milhões de reais cataris. Não é coisa pouca. Há muitos concursos que são carros de luxo, mas em média os principais campeonatos, os prêmios rondam os 4 milhões de reais, mais de 1 milhão de euros. Tu por aí percebes que isto não é propriamente uma coisa de brincar. Com uma nuance, que é: quem olha para isto tudo pensa automaticamente duas coisas. Um, isto deve ser um fenómeno nas bancadas É a primeira coisa que tu pensas e garantidamente não é por falta de dinheiro aqui que não se constrói alguma coisa, porque tudo acontece. Por exemplo, na zona Lusail, há quatro torres gigantes que tu torces o pescoço para olhar lá para cima, que pura e simplesmente não estão ocupadas, mas tinham de ser construídas. Não é por falta de dinheiro que não se constrói por uma bancada, é mesmo por opção. E a segunda, as apostas são ilegais e portanto é um manancial entre o número de pessoas que deixam de ver ao vivo e que provavelmente iriam custar imenso. E a questão das apostas, tal e qual como existe, por exemplo, em Inglaterra muito com os cavalos, são duas coisas que não existem, embora tenha, por exemplo, um canal próprio, que é uma coisa que eu não sei ao certo se em Inglaterra haverá, mas neste caso específico é um canal que a única coisa que faz é passar, narrar, comentar e analisar corridas de camelos. Deixa-me dizer que o João e o André lá do sítio têm de se andar a revezar. Ou seja, eles estão a relatar aquilo de uma maneira tal na televisão que a certa altura tu percebes que eles estão a ficar com a boca seca. É aquela excitação de quererem tanto. "E agora vai, e agora vai, e agora vai." E a certa altura têm mesmo de trocar entre eles porque conseguem ver ali um encanto que nós se calhar não conseguimos perceber, mas é uma questão cultural e eu essa parte percebo, porque no fundo isto é tudo muito uma questão de raízes, de cultura. Com essa nuance de hoje haver os jóqueis robôs, que acabou com a questão das crianças por dois motivos: um, muitas vezes as crianças não eram alimentadas para ficarem mais leves em cima do camelo e a segunda, chegavam a ser traficadas, fosse na maneira como chegavam ao Catar e a outros países aqui desta zona do Golfo Pérsico, fosse na maneira como eram trocadas entre proprietários também de camelos e para não haver o mínimo atropelo nesse aspeto em específico, à questão dos direitos humanos e os direitos das crianças, acabou por ser introduzido a questão dos robôs. No início, aparentemente os camelos estranharam a questão do robô. Depois começaram a tentar transformar o robô numa espécie de uma criança com os olhinhos, etc. E agora é um robô muito mais pequenino que vai ali mais ou menos enfiado na zona da camisola. Todos eles têm uma espécie de camisola, tem um formato retangular. Não é uma camisola, mas tem o formato retangular com as cores da equipa do proprietário. E agora já estão habituados. E esse robô é que tem uma espécie de uma vareta, que é um braço comprido, que quem está com o joystick a comandar, cá de fora, de vez em quando dá sinal e aquilo roda para os camelos andarem um bocadinho mais depressa.

Iria catorze a esse main event da nata da Cáfila catari, grande corrida do mundial.

Olha, se eu fosse lá era sinal que estávamos nas meias-finais.

Vamos lá ver. Portanto, já sabe, senhor ouvinte, se o Bruno Roseiro nos trouxer essa história, é bom sinal, é sinal que chegamos à frente. Vamos avançar. Tu estiveste no Media Center, obviamente, e hoje creio que acompanhaste, se não estou em erro, estiveste na conferência de imprensa de Tite, do Brasil, certo?

Do Brasil, sim, porque eu adoro arranjar lenha para me queimar. Ou seja, eu tenho imensa coisa para escrever, mas sempre que eu vejo alguma oportunidade, penso sempre: "Ah, mas também não faz mal ler só isto". Fui eu, antes de ir para o jogo da França, à conferência do Brasil. Já tinha ido a uma da Argentina, não tinha ido à do Brasil. São conferências claramente diferentes, a começar logo por uma questão. Eu quando cheguei, cheguei cinco, sete minutos antes da hora e fiquei na última fila de um auditório enorme. Portanto, a possibilidade de fazer perguntas passa de quase zero para menos 10, mas mostra bem o interesse que envolve. A primeira conferência foi engraçada porque a primeira pergunta foi para o Thiago Silva, capitão, e foi logo a tentar procurar se o Neymar jogava ou não. E foi o próprio Tite que acabou logo a questão, arrumou a dizer: "Sim". Disse só. E os brasileiros já fizeram logo a festa, porque já tinham aquilo que queriam duplamente. Ou seja, já tinham aquilo que queriam para escrever e já tinham aquilo que queriam de coração para poderem ter mais uma arma para tentar ganhar à Coreia do Sul de Paulo Bento. Depois, a conferência do Thiago Silva foi uma conferência normal. Há uma particularidade, é que as conferências do Brasil têm não só o Tite, mas também o César Sampaio, adjunto. E não foi só hoje, costuma ser assim. Há algumas perguntas mais relacionadas com questões técnico-táticas, de análise de adversários, etc., que muitas vezes é o César Sampaio que responde depois do Tite para acrescentar alguma coisa que possa faltar. Achei muito curioso dois aspetos em relação a Tite. Um, quando lhe perguntaram a questão de Gabriel Jesus ter sido chamado à seleção, podendo já ter problemas no arsenal que propiciaram a que ele agora tivesse esta lesão que o vai impedir de fazer o resto do Campeonato do Mundo, e ele deu um show de bola, como eles dizem, pela questão do eu nunca minto, eu há um princípio que eu tenho de seguir sempre, eu nunca vos menti. É um bocado a ideia de eu às vezes posso não vos dizer as coisas todas, por uma questão de preservação também de equipa, etc. Mas eu nunca minto e eu ponho sempre a saúde dos meus jogadores à frente de qualquer título que eu possa ganhar. E foi uma coisa que mexeu muito com o Tite. Percebeu-se que ele ficou completamente doente, foi de mentiroso para cima, para quem escreveu aquilo. Foi tudo assim. O segundo aspecto foi a última pergunta, como não poderia deixar de ser, para o mítico Galvão Bueno, um dos jornalistas mais conhecidos do Brasil. Eu, em 2013, fui à Bahia ao sorteio do Campeonato do Mundo do Mundial 2014, na zona da Bahia, na Costa do Sauípe, e fui a um restaurante onde estava Galvão Bueno, mais alguns jornalistas e o Casagrande, que jogou no Futebol Clube do Porto. Reparei, para tu teres noção do fenômeno Galvão Bueno, há muito mais pessoas a tentar pedir fotografias e autógrafos ao Galvão Bueno do que ao próprio Casagrande, que foi jogador, foi alguém conhecido, é alguém que até pelas posições que toma, é alguém importante também no futebol brasileiro, mas o Galvão Bueno está muito acima. E a última pergunta do Galvão Bueno começou com ele a dizer que se sente privilegiado porque chegou a fazer três campeonatos do mundo com o Pelé, que costuma trocar mensagens com ele, que o Pelé lhe confidenciou que nesta altura uma das coisas que o deixa muito satisfeito é ver os jogos do Brasil. É uma das coisas que ele diz que são das melhores coisas que ele tem, apesar de ficar sempre nervoso. Ele basicamente queria dizer isto, até porque se tinha falado antes de Pelé e o próprio Tite fez questão de dizer que era a única pessoa que o fez transpirar da mão e tremer só de o cumprimentar. E depois o Galvão Bueno fez a pergunta: "Então podemos presumir que com o Neymar a equipa do meio-campo pra frente vai ser igual à do primeiro jogo?" E basicamente o Tite disse que sim, não dizendo que sim. Olhou pra ele, riu-se. Isto é uma conferência de imprensa do Brasil, é sempre assim, é sempre diferente. Esta não voltou a ser. Parecem-me muito confiantes. Parece-me que é bom que vejam o jogo da Coreia do Sul contra Portugal para perceberem que aquela goleada de 5x1 no jogo particular antes do Campeonato do Mundo na Coreia do Sul pode também indiciar números que não são aqueles que poderão acontecer amanhã.

E Bruno, vamos ter que ser mais rápidos do que os camelos. Agora no Qatar temos três tópicos para falar e temos qualquer coisa como dois minutos e alguma coisita. Falamos do jogo a que foste, o França-Polônia. Prevaleceu a lei do mais forte e pergunto-te já se a zona mista teve história.

Sim, teve história por duas razões. O Lloris igualou o Thuram como o jogador mais internacional de sempre de França e falou aos franceses e aos ingleses. O Giroud tornou-se o melhor marcador da seleção francesa à frente do Henry.

Com essa fica triste.

E falou em francês. Exatamente. E falou em francês e falou em inglês. O Lewandowski também passou pela zona mista e falou depois da derrota. Não quis dizer se este era ou não o último mundial, porque basicamente explicou: "Fisicamente, eu acho que vou estar bem pra fazer um outro campeonato do mundo, mas um jogador de futebol não é só uma questão física e, portanto, eu tenho que perceber como é que está a minha cabeça, tenho que perceber como é que eu vou estar, qual é que será a minha disposição. Portanto, eu prefiro não". Nesta altura, deixou tudo em aberto. A outra história foi que o Mbappé, que ainda não tinha aparecido em termos públicos a falar, apareceu na conferência de imprensa de MVP do jogo e havia tantas ou mais pessoas encostadas à televisão a ouvir a conferência do Mbappé, incluindo eu, do que a ouvir o Giroud, que naquela altura falava para a imprensa internacional, depois de já ter falado à imprensa francesa, com essa curiosidade que o Mbappé, a meio dessa conferência que só teve três perguntas, admitiu já que é ele que vai pagar as multas que a federação levou por ele estar ausente. Se ele pudesse apresentar a fatura pra nós termos a certeza que ia ser assim, nós agradecíamos imenso e era uma grande atitude.

E amanhã, depois de teres ido hoje à conferência de imprensa do Brasil, posso assumir que vais ao Brasil-Coreia do Sul?

Sim, e podes assumir que vou também às conferências de Portugal e da Suíça. Podes assumir essas coisas todas e depois podes assumir que finalmente vou ter roupa lavada, portanto vou buscar as minhas camisas já lavadas.

Oito euros.

Os oito euros que vou ter de pagar amanhã e vou lá deixar mais umas. E provavelmente ainda terei de descrever algumas coisas, nomeadamente uma conversa também muito engraçada com o Cash, o lateral direito da Polônia, onde ele dizia que até agora tinha sido o Sterling o adversário mais complicado de enfrentar, mas hoje esteve pela frente o Mbappé. E a maneira como ele fala do Mbappé é engraçado, porque não é normal ouvir um adversário direto a falar assim de um avançado que enfrentou, embora ele tenha dado uma boa réplica, mas ele também tem consciência disso.

Fica mais uma página escrita deste Diário do Mundial. Bruno Roseiro, nosso enviado especial ao Qatar, já sabe. Pode ler tudo que o Bruno vai escrevendo no nosso site em observador.pt e pode também ouvi-lo aqui todos os dias no Diário do Mundial. Bruno, um abraço. Bom descanso.

Obrigado, até amanhã.

Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.