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Hoje, no Direto ao Assunto das manhãs 360, é nosso convidado o médico dos cuidados intensivos do Hospital Egas Moniz, em Lisboa, Tomás Lamas. Bom dia e muito obrigada por estar conosco na Rádio Observador.

Olá, bom dia. Obrigado pelo convite para estar presente aqui no vosso programa.

Muito obrigada nós. O senhor tem denunciado o que considera ser o calcanhar de Aquiles da Estratégia Nacional de Combate ao Coronavírus. Pergunto-lhe: o que se está a fazer mal?

Eu penso que nós estabelecemos esta quarentena nacional e foi bem implementada, foi no tempo certo. Agora, há algumas falhas nesta quarentena, que são os locais de grande concentração de pessoas, as quais não podem sair, não podem ir para casa e fazer a quarentena. E enquanto mantivermos estes grandes grupos de concentração de pessoas que não podem se afastar, tem que existir uma chamada barreira física entre o pessoal de saúde e os doentes, que é os equipamentos de proteção individual. Enquanto nós não compreendemos que a única barreira que nos defende dos vírus é uma verdadeira barreira física, nós não vamos conseguir conter esse vírus, que é um vírus manhoso, que permite que pessoas que estejam asmáticas e que possam contaminar outras pessoas, e nós, médicos, enfermeiros, etc, não conseguimos saber quem, mesmo fazendo dois testes que muitas vezes são falsos negativos e, portanto, é uma falsa segurança aquele doente que está internado, pensarmos que não é um portador do vírus. E essa é que é a grande dificuldade, é identificar os doentes que são positivos neste grande sistema. Os hospitais, sendo um local onde existem doentes com fragilidade, acabam por aumentar o risco de disseminação do vírus e depois os doentes voltam para a comunidade e os médicos, enfermeiros e auxiliares voltam para a comunidade e portanto vai perpetuar a disseminação do vírus, tanto dentro dos hospitais como também na comunidade.

Mas, Tomás Lamas, não há recomendações internacionais sobre o que devem ser as boas práticas nos hospitais?

Há recomendações. Pode ser consultado o CDC dos Estados Unidos. Há também o CDC chinês, que também já emitiu as suas recomendações. É mais difícil a sua tradução. Com base nessas recomendações, aquilo que nós devíamos fazer dentro dos hospitais está escrito nessas recomendações e portanto, aqui não há dúvida nenhuma. Aquilo que está a falhar na nossa estratégia é assumir que não é só o doente positivo que temos que usar os equipamentos, é todo o resto do sistema, qualquer doente que entre no hospital é um potencial disseminador. É assumir este potencial e assim conseguimos combater, quebrar o círculo vicioso de disseminação do vírus, que a única coisa que vai impedir é se houver um doente e não conseguir contaminar mais ninguém.

Tomás Lamas, nós não estamos a ouvir corretamente. Estamos a ouvir com vários cortes. Vamos tentar fazer a ligação outra vez para que os nossos ouvintes consigam ouvi-lo na perfeição, porque senão, isto assim fica um pouco confuso. A Sofia Sá, a nossa produtora, já está a fazer a ligação outra vez, porque senão fica difícil. Já aqui o temos outra vez. Vamos tentar agora.

Olá.

Vamos tentar agora de novo. Tomás Lamas, peço desculpa de o ter interrompido. Estava no meio da sua resposta, mas só para tentar ver se o ouvimos de melhor, de uma forma mais clara. Era importante, de facto, ouvir o Tomás sem cortes. Eles estavam a acontecer e o que nos estava a explicar é que neste momento há um risco enorme em ir para um hospital. É isso que posso concluir do que nos estava a dizer.

O risco enorme de toda a gente, tanto profissionais de saúde como também dos doentes. Há o risco do doente ser infectado pelo doente que está ao lado, há o risco do profissional ser infectado pelos doentes ou ser o próprio portador da doença, porque continua a viver na comunidade onde existe o vírus já disseminado na comunidade. E portanto, há uma série de potenciais humanos que se estão a deslocar para uma grande concentração de pessoas, que são os hospitais.

E como é que isto se resolve? Era dedicar alguns hospitais só para os positivos de COVID-19. Está a dizer que isso também não serve, não é? Porque podemos estar aqui perante falsos negativos.

Exatamente. O investimento fortíssimo na prevenção. E a única prevenção que nós sabemos que é eficaz é a utilização dos EPIs, que são os equipamentos de proteção individual. E esse investimento é que vai conseguir cortar este círculo vicioso entre contaminados e potenciais contaminantes.

Tomás Lamas, pergunto-lhe se, perante aquilo que está a dizer, se os doentes não COVID estão a ter os necessários cuidados de saúde, se estão a ter o tratamento correto.

Neste momento, os doentes não COVID estão a ter o seu tratamento por outras razões, ou seja, os doentes não são só internados por terem a infecção COVID. Contudo, para proteger doentes, para proteger profissionais, temos que assumir esta postura. Enquanto não assumimos isso, vamos continuar a ter um número incontável de pessoas que podem se tornar COVID positivos.

Tomás Lamas, vamos pegar nesta ideia que nos deixa das máscaras. É a própria Organização Mundial de Saúde que diz que a utilização das máscaras nos pode dar uma falsa sensação de segurança e a Direção-Geral de Saúde também tem dito o mesmo. Que garantias é que nos diz que é a máscara que nos vai evitar que haja novos contágios, sobretudo em contexto hospitalar?

A máscara tem várias funções. A máscara cirúrgica é uma máscara que impede a saída de contaminante para fora. Portanto, a máscara cirúrgica não nos protege do vírus. Se eu inspirar, o vírus passa livremente através da máscara cirúrgica. Agora, o grande benefício da máscara cirúrgica é se todos de uma sala estivermos a usar a máscara cirúrgica, eu quando espirro ou quando tusso, não consigo enviar as minhas gotículas para cima de toda a gente. E esse é que é o chamado efeito protetor de grupo. Agora, as outras máscaras, as únicas que realmente são contra o vírus, que nos impede tanto de expirar como de inspirar o vírus, são os chamados respiradores, o chamado P2 ou P3. E isso devia ser o que devia ser usado no ambiente hospitalar.

E, portanto, estamos a falar da utilização de máscaras, é isso que defende, de todos nos hospitais. Não é esta situação de vermos todas as pessoas na rua e nos supermercados, por exemplo, a utilizar máscaras. Portanto, a recomendação, na sua opinião, deve ser desta utilização obrigatória e extensiva nos hospitais.

É assim, se eu vou a um supermercado, mesmo que eu crie a chamada distância de segurança, a capacidade de contaminar superfícies através de um espirro ou de uma tossidela, permanece. A pessoa que vier a seguir e pegar num pacote o qual ficou contaminado, há sempre esse risco de transmissão. Portanto, se todos usarmos a máscara cirúrgica corretamente, porque a DGS está correta numa parte da sua recomendação, é que se usarmos mal a máscara cirúrgica, não faz sentido. Ou seja, se o nariz estiver fora da máscara cirúrgica, não faz qualquer sentido, porque não estamos a usar corretamente e não nos protege a respiração em relação ao exterior. Agora, se todos usarmos, aquilo que os países que têm maior sucesso, têm uma formação básica na etiqueta respiratória, sabem usar máscaras, já fazem isto há muitos anos e fazia parte da DGS ensinar a população a usar as máscaras corretamente. Isso era uma campanha que seria desenvolvida. Obviamente que se não houver máscaras cirúrgicas para disponibilizar à população, é difícil ensinar como é que se deve usar uma máscara cirúrgica.

O som, de facto, não está a ser o melhor. Portanto, vou agradecer a sua presença. O médico dos cuidados intensivos do Hospital Egas Moniz, em Lisboa, Tomás Lamas, no "Direto ao Assunto". Muito obrigada pelos seus esclarecimentos e pelo seu tempo, por ter aceitado o nosso convite. Muito obrigada.

Obrigado e bom dia.

Bom dia também para si. Muito obrigada. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.