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Houston, we have a problem.

Investigadores descobriram novos dados importantes sobre o processo de divisão em células estaminais. Esta descoberta pode possibilitar a criação de formas mais seguras de usar estas células na medicina. Durante a divisão celular, é frequente ocorrerem erros que vão originando anomalias nos cromossomas. E tudo isto acontece porque uma parte muito específica dos cromossomas é mais pequena e mais fraca nas células estaminais. Esta é mesmo uma das maiores limitações à utilização destas células. E este estudo que agora conhecemos aponta as possíveis causas para estas anomalias e procura também saber de que modo se podem reverter esses erros. Esta é uma investigação que foi desenvolvida no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Junta-se a nós a Inês Milagre, investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência e autora principal deste estudo. Muito boa tarde, Inês Milagre. Antes de mais, como é que ocorrem estes erros? Quais são os principais fatores que levam a que haja estes problemas durante esta divisão celular?

Muito boa tarde e muito obrigada pela oportunidade de vir aqui falar sobre o meu trabalho. No nosso trabalho de investigação fundamental, nós estamos a focar-nos em tentar perceber as causas para estes erros mitóticos, os erros que as células fazem quando se dividem. E nós focámo-nos numa estrutura muito específica dos cromossomas, que se chama centrómero, e esta estrutura é essencial para que, quando as células se vão dividir, consigam repartir de igual modo os cromossomas entre as células-filhas.

E, portanto, a explicação que demos há pouco, que foi bastante simples, mas está correta. É isso, Inês, não cometi nenhum erro?

Exatamente. Não. O que nós descobrimos é que esta estrutura existe nos cromossomas de todas as células. No entanto, nas células estaminais, esta estrutura está enfraquecida. Elas recrutam menos proteínas para esta estrutura e, portanto, a estrutura fica enfraquecida. Ao ficar enfraquecida, faz com que as células possam ter problemas ao repartir os seus cromossomas pelas células-filha, e uma célula-filha pode ter um cromossoma a mais e a outra célula-filha pode ficar com um cromossoma a menos.

E, portanto, Inês Milagre, o que vocês estão a tentar perceber é o que leva a essas anomalias que depois impossibilitam a utilização das células estaminais na medicina. É isso?

Exatamente, porque se não compreendermos por que isto acontece, não conseguimos arranjar estratégias para impedir que isto aconteça. E se estas células tiverem cromossomas a mais ou a menos, elas podem se tornar cancerígenas e, portanto, a utilização destas células deixa de ser possível, porque não queremos estar a transplantar células que depois se podem tornar um tumor. E, portanto, nós temos que perceber o que se está a passar quando elas se dividem, por que elas fazem tantos erros. E estas células têm um grande potencial para serem utilizadas em medicina regenerativa, mas também para percebermos processos como o desenvolvimento humano. No entanto, se as células tiverem estes problemas quando se dividem, nós deixamos de as poder utilizar com segurança. E, portanto, temos que compreender o que se está a passar quando elas se dividem. E é isso que estamos a fazer e é isso que planeamos fazer no futuro.

Inês, agora deixa-me só perguntar-lhe se isto acontece com regularidade, estes erros se acontecem com alguma regularidade, se é um motivo de preocupação.

Estes erros acontecem com alguma regularidade e claro que antes de as células serem utilizadas em terapias, elas têm que passar por um controle de qualidade e se as células estiverem a fazer demasiados erros, elas não podem ser usadas nas terapias. Mas, no entanto, se nós conseguirmos perceber o que se está a passar na biologia destas células, que faz com que elas façam erros, nós podemos desenhar possíveis tratamentos para que as células não façam esses erros e, portanto, possam ser usadas na sua total potencialidade.

Exatamente. E Inês Milagre, em que ponto é que estão deste estudo e quais são os próximos passos?

Neste momento, nós acabámos de publicar este artigo e percebemos que os centrômeros estão enfraquecidos. Nós neste momento estamos a tentar perceber não só se conseguirmos restabelecer a força do centrómero, se deixamos de ter erros, porque isso era uma das potenciais possibilidades de voltar a ter células que são seguras e que não têm erros. Mas, para além disso, estamos a tentar perceber também todo o resto da maquinaria que se concentra à volta do centrómero, se também está alterada nestas células, porque, novamente, pode nos dar pistas para conseguirmos corrigir estes erros.

Certo. Portanto, estão aqui a traçar cenários, a testá-los também. Eu sei que pedir aqui um prazo é sempre difícil, Inês, mas quanto tempo é que terá a demorar a ter aqui mais conclusões?

Bem, isto é uma investigação fundamental e é superimportante para percebermos a biologia. Nós não estamos a pensar numa possível terapêutica, portanto, eu não lhe consigo dar essa resposta. Essa resposta é mesmo muito difícil, mas é importante percebermos a biologia destas células se as queremos utilizar em medicina regenerativa.

Muito bem, Inês Milagre, obrigada por ter se juntado a nós, por esta explicação. A investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência e a autora principal deste estudo, que ficámos aqui a conhecer estes novos dados importantes sobre o processo de divisão em células estaminais. Esta descoberta que pode, depois, facilitar a criação de formas mais seguras de usar estas células na medicina. Voltemos a falar de ciência, na tarde em direto, amanhã, sexta-feira. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.