Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Houston, we have a problem. A Agência Espacial Europeia está à procura de novos astronautas. Há mais de uma década que a organização não recrutava novos astronautas. A Agência Espacial Europeia procura mais mulheres e há uma vaga experimental para uma pessoa com deficiência física. Junta-se a este espaço de ciência da tarde em direto, João Lousada, primeiro astronauta português. É diretor de voo da Estação Espacial Internacional, astronauta análogo e comandante de missões análogas a Marte pelo Fórum Espacial Austríaco. Alô, João, Rádio Observador chama.

Olá, boa tarde.

João, como é que se escolhe um astronauta?

Existem vários fatores, claro. O trabalho de um astronauta é um trabalho bastante variado, mas principalmente o objetivo é conduzir experiências a bordo da Estação Espacial Internacional e também em missões futuras, mais longe, tanto na Lua como no futuro será Marte. Portanto, existem muitos requisitos, principalmente aptidão física, é um ambiente que é preciso algum exercício físico, a capacidade mental, bons conhecimentos técnicos. Existe toda uma quantidade de fatores que são levados em conta, até mesmo fatores psicológicos, de modo a poder desempenhar este trabalho.

Quando diz conhecimentos técnicos, conhecimentos técnicos em que áreas?

As áreas iniciais podem ser as mais diversas que se podem imaginar. Normalmente, tem que ser uma área de ciência, mas tivemos astronautas no passado que foram, por exemplo, médicos, têm um passado em medicina, estudaram medicina. Temos astronautas que estudaram, por exemplo, biologia, engenharia. Este tipo de áreas costumam levar a bons candidatos que de fato têm aquele conhecimento técnico numa área científica, que depois podem facilmente aplicar quando conduzem experiências a bordo da Estação Espacial Internacional.

Portanto, maioritariamente são pessoas oriundas das chamadas ciências exatas.

Normalmente, sim.

Qual é que é o perfil desejado ou desejável, habitualmente, para a Agência Espacial Europeia?

Um dos fatores principais é, por exemplo, poder trabalhar em equipe, poder trabalhar num ambiente internacional, multicultural, e desempenhar bem dentro deste ambiente, relacionar-se bem com diferente tipo de pessoas, diferente tipo de equipes, porque no fundo será esse o ambiente de trabalho do astronauta. Existem também fatores como, por exemplo, poder trabalhar bem sob pressão. Muitas vezes os astronautas estão sujeitos a muita pressão, podem ter bastante informação dada ao mesmo tempo e é preciso também poder processar essa informação, fazer uma decisão informada sobre essa decisão, de modo a desempenhar da melhor maneira possível, uma vez que estejam em missão. Então todos esses tipos de fatores são importantes e existe uma multitude de fatores que é preciso ter em conta.

João Lousada, e já agora, haverá muitos portugueses com um perfil capaz de encaixar nesses aspectos que estava a falar?

Eu creio que sim. Eu conheci muitas pessoas ao longo da minha carreira que também trabalham na área de espaço, mas também fora da área de espaço, que eu acredito que tenham um bom perfil e acredito que, cumprindo os requisitos mínimos, acho que se uma pessoa estiver motivada, é importante tentar, porque no fundo não devemos ser nós a dizer que não, mas de fato tentar e cumprindo esses requisitos, acredito que sim.

Eu perguntava isto também porque, como sabemos, há desde cedo muitas crianças que ambicionam ser astronautas. Portanto, estava a tentar perceber se haveria aqui espaço e vagas para encaixar também nessas ambições.

Sem dúvida. Também foi o meu caso, que desde criança também tive esse sonho e acredito que muitos de nós tivemos, porque de fato nós como crianças temos aquela curiosidade natural de querer explorar o mundo que nos rodeia e acho natural sentir essa curiosidade ou pelo espaço ou por outras áreas. Cada pessoa tem os seus interesses, mas acho que é uma curiosidade natural que surge, principalmente como criança, e que de fato, por que não tentar cumprir esse sonho? Acredito que vale a pena.

João, a Agência Espacial Europeia está à procura de pessoas para missões na Lua e também em Marte. Há diferenças entre ser astronauta na Lua ou no planeta vermelho?

Sim, existem bastantes diferenças. Começando pelo fato de a Lua ser um ambiente um pouco mais conhecido. Temos já um pouco de experiência devido às missões Apollo, mas também porque Marte traz novos desafios. Traz novos desafios no sentido, por exemplo, do tempo de missão. Estamos a falar de uma missão de larga duração, cerca de dois anos de missão para uma missão de ida e volta. Estamos também mais expostos à radiação durante mais tempo, a radiação solar, que tem efeitos tanto nos sistemas das naves espaciais como no corpo humano em si. São sistemas que se vão acumulando ao longo do tempo e quanto mais tempo estamos expostos a este ambiente, maiores serão os efeitos. E depois existe também o fator que devido à distância, a comunicação, e tivemos recentemente a aterragem do rover Perseverance, que mostrou isso mesmo. Existe um atraso na comunicação devido à distância. A comunicação, mesmo à velocidade da luz, demora entre 10 a 20 minutos a chegar à Terra, portanto torna a comunicação com os astronautas ou com os rovers que estão no planeta vermelho, muito mais difícil. Não é possível comunicar diretamente e se imaginar uma chamada telefônica que teve recentemente ou mesmo um programa de rádio, claro, com este atraso de 10 minutos na comunicação entre as duas partes, fica de fato impossível.

E portanto, são essas condicionantes todas que é preciso ter em conta quando pensamos numa missão a Marte. João, como é que é a vida de um astronauta?

Vida de um astronauta tem duas partes. Quando estão em missão, claro, é uma vida bem definida, com horário bastante bem definido, preparado pelos operadores de terra, que inclui, por exemplo, o tempo que vão dormir, o tempo de exercício. Existem duas horas de exercício por dia obrigatório, que tem a ver com a perda de massa muscular, a perda de massa óssea que acontece no corpo humano Quando estás exposto à ausência de gravidade, simplesmente pelo fato de não usarmos as pernas, perdemos essa massa muscular e massa óssea. Então esse exercício combate esses efeitos. E depois, o objetivo principal é realizar experiências a bordo da estação espacial e, no futuro, no ambiente lunar, no ambiente do planeta vermelho. E se alguma coisa dentro da nave espacial precisar de manutenção, precisarmos de arranjar algum sistema, teremos também que realizar isso com os astronautas.

E muitas repetições. Repetem muitos procedimentos ou não?

Sim, porque muitos dos procedimentos científicos precisam de um grande número de execuções. Ou seja, é preciso ter um grande número de execuções desta experiência para poder depois comparar os resultados e ter um resultado que tenha um significado estatístico.

João, ontem um veículo da NASA chegou ao solo marciano. Vamos só escutar esse momento. É este o momento em que o rover Perseverance toca o solo marciano. João Louzada, como é que acompanhou este momento? Também bateu palmas, tal como as pessoas que estavam na sala de comando?

Também fiquei contente.

Emocionado?

Acompanhei ao vivo e foi bom de observar. E como eu dizia, o problema principal desse tipo de missões é mesmo a distância e o atraso na comunicação, que não permite, os controladores que acompanhamos ao vivo, controlar o rover na sua descida e na aterragem. Então tem que ser algo que é feito de forma autônoma. É o que a NASA chama os sete minutos de terror, é o tempo que demora entre entrar no início da atmosfera de Marte até tocar no chão. São sete minutos, que, a informação quando chega à Terra, já aconteceu. Ou seja, nós estamos simplesmente a ver o que já aconteceu, mas não sabemos se correu bem ou não. Ou seja, é uma situação interessante e que aumenta também um pouco o suspense, de estar a ver ao vivo e não sabermos exatamente se correu bem ou não, mas não podemos já influenciar o acontecimento.

Mas emocionou-se ontem ao ver aquele momento?

Já tive muitas experiências em missões e passado um pouco, não é emocionante. Claro que é bom ver e fico contente, mas não diria que fiquei emocionado.

João Louzada, já estamos aqui a terminar a nossa conversa. O João perguntava se houve emoção no momento da aterragem ontem desse veículo da NASA em solo marciano, mas o João dizia que já foram muitas missões em que também acabou por participar. Queria perguntar se estamos neste momento numa época em que estamos a dar devido valor àquilo que está a acontecer a nível de exploração espacial, porque entretanto há várias missões que estão a ter sucesso, há muita coisa que se está a descobrir também. Neste momento, os seres humanos no planeta Terra percebem que este é um momento também muito importante na exploração espacial?

Sim, eu acredito que sim.

Há essa consciência?

Acredito que sim. E tem vindo a aumentar mais e mais e existem empresas como a SpaceX que têm divulgado também bastante o objetivo da exploração espacial e os desenvolvimentos que se têm feito recentemente. E acredito que mais e mais o público vai também vendo e vai se interessando também, e acredito que teremos missões muito interessantes no futuro. Estamos agora a preparar as próximas missões tripuladas à Lua, o programa Artemis, e estamos também já a pensar na exploração de Marte e enviar os primeiros astronautas a Marte também. Acredito que vêm coisas muito interessantes e as pessoas vão se interessando cada vez mais também.

Vamos recuperar uma época de ouro que já tivemos no passado, nos anos 60 e 70, uma nova época de ouro para a ciência espacial?

Eu acredito que sim, e acredito que é um crescimento natural também da espécie humana, digamos, de querer expandir mais e querer conhecer mais sobre o universo que nos rodeia. Acredito que será apenas uma questão de tempo, à medida que nos vamos expandindo mais e mais no sistema solar.

João Louzada, muito obrigado por se ter juntado à tarde em direto de hoje ao "Espaço é igual a MC ao quadrado", em que falamos todos os dias de ciência. Bom fim de semana.

Obrigado!

De nada, João. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.