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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Jorge Miguel Miranda, geofísico, acadêmico, e que vai nos ajudar hoje a falar de um tema que eu vejo que está a acompanhar muito de perto, que é uma invasão de algas, podemos dizer assim, que está a prejudicar muitos banhistas nesta altura em que se procura as praias, em sítios teoricamente mais paradisíacos. Se formos para as Caraíbas, formos para o México, somos capazes de encontrar praias interditadas, porque há aquilo a que se chama sargaços, não é exatamente o sargaço, já vamos falar um pouco melhor disso, perceber que sargaços são estes. Até porque nós temos em Portugal uma tradição de exploração do sargaço, sobretudo no norte do país, para adubar as terras, e depois fomos nós que demos a uma zona no Atlântico, já perto da costa dos Estados Unidos, o nome de Mar dos Sargaços. Miguel, talvez podemos começar por aí. O que é isto, o Mar dos Sargaços? É uma coisa um pouco estranha, não é?
O Mar dos Sargaços é conhecido desde há vários séculos e claramente que ele foi pela primeira vez descrito de forma clara pelos portugueses. A citação mais popular é atribuída ao Cristóvão Colombo, que quando o atravessou ficou muito espantado por ter visto no meio do Atlântico uma espécie de uma pradaria castanha, são algas castanhas no essencial, flutuante, que na altura foi confundida com a possibilidade de ser um baixio e, portanto, causou um certo pânico entre a tripulação, mas que o Cristóvão Colombo, aliás, como tudo na sua viagem, tratou com a calma necessária para ter ultrapassado, percebendo que se tratava essencialmente de material flutuante. Na altura, uma parte da tripulação conhecia aquilo que era o sargaço, que se conhece no norte do continente e na Galiza, e por comparação atribuíram-lhe o nome o Mar dos Sargaços, que ficou até hoje. Na verdade, do ponto de vista biológico, não são exatamente a mesma coisa, uma vez que o Mar dos Sargaços é constituído por algas flutuantes, enquanto que o sargaço que-
Que nós conhecemos, enfim. As sargaceiras, por exemplo.
Exatamente, é um conjunto de macroalgas também, mas tem várias espécies misturadas. Algumas são sargassum, como agora se chama na biologia, que é primo do sargaço que existe no Mar dos Sargaços.
São aquelas que quem vai à praia de vez em quando encontra este tipo de algas, são aquelas algas que têm umas bolhas.
Essas são o sargassum.
O sargum. Estou a falar do sargassum.
Sim, mas a mistura-
Que nós encontramos cá. E tem assim uma espécie de lâminas compridas também, não é?
Sim, as laminarias. Só que o nosso sargaço é essencialmente uma população que vive na zona intertidal, que é fixa às rochas.
Zona intertidal é a zona entre marés, não é?
Entre marés, claro. E que é explorada pelos agricultores desde há muito tempo.
Infelizmente, cada vez menos.
Sim, mas foi muito usada para a agricultura e há quem diga que até está na base de alguns dos sabores particulares dos produtos que são produzidos no Minho e na Galiza. Pois bem, esse Mar dos Sargaços, apesar de ser diferente, está para sempre ligado à exploração marítima e forma aquilo que muitas vezes se diz, até, por exemplo, nas palavras cruzadas, para aqueles que ainda hoje as fazem, e quando há a pergunta dos quizzes: "Qual é que é o único mar sem costas?" Pois o único mar sem costas é o Mar dos Sargaços.
Pois, e é um mar sem costas. Basicamente, é uma parte do mar que fica mais ou menos parada, digamos assim, rodeada por correntes que andam ali à volta, correntes marítimas, não é?
Exatamente.
E que circunscrevem aquela zona onde havia a tal pradaria, mas é uma pradaria um pouquinho espessa.
Dezenas de metros.
Dezenas de metros de algas que, como estavas a explicar, são flutuantes.
Flutuantes. Têm vesículas que as levam a flutuar.
As vesículas são aquelas bolhas tão engraçadas de espremer. Pelo menos quando eu era miúdo. Não neste sargaço, no outro sargaço que nós tínhamos cá, que eram engraçadas de espremer.
E portanto, imaginem o que é, no meio do Atlântico, numa zona circunscrita geograficamente e que é limitada por quatro correntes oceânicas bastante persistentes. Uma delas nós conhecemo-la muito bem, a Corrente do Golfo, também passeia por aqui. A outra é a Corrente do Atlântico Norte. Temos do lado oeste a Corrente das Canárias e temos a Corrente Equatorial Sul. E essas quatro correntes servem de costas a este mar. Na verdade, esta situação do ponto de vista oceanográfico só foi compreendida muito tarde, no fim do século XIX, e percebeu-se que era a ação conjugada dos ventos alísios a sul, dos ventos chamados zonais do norte, uns empurrando a água de leste para oeste, outros de oeste para leste, e depois das duas correntes que são meridionais, a Corrente das Canárias, que é uma corrente lenta, essencialmente superficial, e a Corrente do Golfo, que é uma corrente mais rápida e mais profunda. E portanto, no meio disto, forma-se uma espécie de um empolamento do oceano. O empolamento é cerca de 1 metro, ou seja, o oceano sendo 1 metro mais alto do que à volta, e este equilíbrio físico Faz com que também delimita uma zona.
Por que explica esse empolamento?
O empolamento é equilíbrio entre as várias forças em jogo, nós já temos falado aqui de várias delas, é a força do gradiente de pressão, se podemos dizer assim, que tem a ver com o próprio empolamento, é a força de Coriolis, é a força centrífuga, que aqui nos vários equilíbrios dão origem a este empolamento, que forma aquilo que se chama o giro do Atlântico Norte. Nesse giro do Atlântico Norte, está centrado nas Bermudas, em Bermudas é o centro, essa água é muito quente, muito salgada e muito pobre em nutrientes. E é nesse ambiente de pradaria no meio do oceano, que também, por vezes, se chama o deserto azul do Atlântico, que está então o tal Mar dos Sargassos.
Mas, António, quero-te chamar a atenção pra uma coisa: muito pobre em nutrientes. Se é pobre em nutrientes, como é que temos lá os sargaços?
Pronto.
Porque havemos de ver que os nutrientes podem ter importância para os outros sargaços que tu falaste à bocado.
Exatamente. Nós pra termos nutrientes, temos sempre que ter o movimento da água oceânica de baixo pra cima, temos que ter subida da água profunda.
No fundo, o que estás a dizer é uma coisa que nós já vimos, por exemplo, quando falámos aqui da Corrente do El Niño, que é quando a água vem do fundo, traz nutrientes, porque eles estão depositados.
Exatamente. E tem o zooplâncton.
E o zooplâncton, e vem por ali acima, e temos aí boas pescarias. Aqui não, pelo contrário, não temos quase pescarias.
Não, mas em contrapartida, o Mar dos Sargassos é um sistema ecológico fundamental pra o Atlântico, porque ele serve de refúgio a muitas espécies marinhas. É preciso ver que no Mar dos Sargassos nós temos vários tipos de tartarugas, temos atum, espadarte, várias espécies pra sua reprodução precisam do Mar dos Sargassos e utilizam como refúgio ecológico numa zona em que praticamente não há outros refúgios. Nós estamos no meio do Atlântico e o Mar dos Sargassos é o refúgio, por definição, de muitas dessas espécies. No século XX, que é um assunto que depois mais tarde havemos de voltar, foi descoberto que é também o provável local de reprodução da enguia europeia e da enguia americana.
Já falaremos a isso.
Que utilizam o Mar de Sargassos pra uma parte da sua vida e que percorrem milhares de quilômetros entre esse local e o local onde nós as apanhamos para comermos.
Mas esse tema merece um pouquinho mais de desenvolvimento, porque estamos falando de uma espécie muito ameaçada.
Muito ameaçada. E curiosamente, como já sabem, eu sou físico, não sou biólogo, e portanto, é mais uma vez uma daquelas espécies que utiliza o campo magnético da Terra pra se orientar e voltar à casa mãe.
E de forma, em muitos aspectos, quase surpreendente, porque utiliza isso só pra se orientar, como também, aparentemente, pra mapear os estuários dos rios depois onde vai andar. Talvez fosse melhor primeiro explicar melhor o que é esse sargaço das sargaceiras do norte do país, porque é uma coisa, de facto, muito diferente.
Diferente, é uma espécie bentônica, está fixa às rochas, é explorada. Quando é explorada com sustentabilidade, que eu penso que neste momento já acontece razoavelmente, ou seja, não é sobre explorada, até corresponde realmente a um recurso.
Se bem que eu creio que o seu recurso básico era adubar os terrenos agrícolas, nomeadamente alguns terrenos nas zonas que eram terras de areia, atrás das dunas, digamos assim, do litoral norte do país e da Galiza. Hoje em dia há muito menos captura. Eu lembro-me ainda de ter ido há 40 anos, andei entre as sargaceiras a ver como é que eles trabalhavam. Hoje já é muito difícil de encontrar sargaceiros ali na zona da Apúlia, Viana do Castelo.
Hoje, infelizmente, temos uma-
Só nos restos folclóricos.
Exatamente. Hoje temos uma nova geração de sargaceiros, não estão aqui, estão no Mar das Caraíbas, não estão a apanhar este sargaço bentônico e positivo, estão a apanhar o outro sargaço e com graves problemas de saúde, como veremos um pouco mais à frente. O que é importante é que é preciso compreender que o valor ecológico do Mar de Sargassos é muito grande e que inclusivamente existem espécies que, na verdade, só vivem aqui. Por causa disso, em 2014, é assinada uma convenção internacional, que se chama Convenção de Hamilton, da qual os Açores fazem parte, mas tem também o Mônaco, o Reino Unido e os Estados Unidos da América, e depois outros países da zona, como as Bahamas e o Canadá, as Ilhas Cayman e República Dominicana.
É uma conjugação um bocado estranha. Açores, não é bem país, é Portugal. Depois temos Mônaco, por que Mônaco? É um bocado longe do Mar de Sargasso.
Sim, mas o Mônaco sempre foi o grande promotor, e estamos a falar de um princípio de conservação. Estamos a falar daquele que foi um dos primeiros acordos internacionais que se dedicaram a uma área que não está sob a responsabilidade de nenhum país. Reparem, depois disto, houve muitas mais, a mais recente é o BBNJ, portanto é aprovado recentemente, ratificado recentemente, mas na verdade, esse foi o primeiro esforço que houve de vários países que se juntaram e disseram: "Apesar desta área oceânica não ser da responsabilidade de nenhuma nação, nós vamos tomar a responsabilidade por ela". E os Açores juntam-se um pouquinho devido à sua localização atlântica. Claro que a República Dominicana tem que se perceber que é a maior economia da zona do Caribe. Os Estados Unidos e o Canadá sempre tiveram papéis globais na defesa do oceano. E esta colaboração intergovernamental foi muito importante para começar a estabelecer algumas regras de proteção deste habitat tão característico do Atlântico, ao qual nós temos uma ligação geográfica.
Geográfica. Mas agora nós temos aquela bolha, como há pouco explicaste, é mais alta, um metro mais alta no Atlântico, e era aí que estava a tal pradaria de sargaço. Mas agora a sargaça apareceu um pouco-
Agora, em 2018, saiu um artigo, que hoje em dia é dos mais citados sobre este assunto, essencialmente dirigido por investigadores da Universidade da Flórida, que começa a ver uma situação particular, essencialmente baseada em imagens do satélite americano MODIS, que é um satélite de resolução moderada, daí o nome MODIS. Começaram a verificar que nós, de 2000 a 2010, em que temos imagens com muita regularidade, praticamente não há nenhuma abundância de sargaço fora do Mar dos Sargaços, e que em 2011 qualquer coisa aconteceu. Hoje digo é 2018, sete anos depois, de forma que se via já de uma forma completamente clara uma espécie de um grande cordão que ligava a África Ocidental, entre a Nigéria e Cabo Verde, mais ou menos, até ao Mar das Caraíbas, a que chamaram GASB, que é o Grande Cinturão Atlântico de Sargaço, e que tem, a partir de 2011, praticamente um desenvolvimento, eu diria exponencial, não sei se será bem exponencial, mas é pelo menos muito rápido, e que até 2018 está sempre a crescer, sendo claro, no princípio, que as primeiras manchas aparecem junto da foz do Amazonas, que também faz parte deste sistema, e que começam por dizer assim: "Estamos aqui numa situação nova". Alguma coisa aconteceu em 2011, que levou a que, fora do Mar dos Sargaços, começasse a desenvolver as duas espécies mais importantes, que são duas espécies de sargaço, um fluitans e um natans, não vale a pena entrarmos por aí, que na opinião deles tinha algumas diferenças morfológicas do sargaço que estava no Mar dos Sargaços, este problema está ainda hoje por resolver, por perceber por quê, que imaginaram que seria alimentado essencialmente por excesso de desflorestação na área da Amazônia, por apoios dos rios africanos, aquelas zonas são os maiores rios africanos.
Congo e Níger, não é?
Exatamente, o Congo e o Níger, e que estão a fazer florescer estas macroalgas por todo o Atlântico.
Bem, mas vamos deixar esse mistério pra segunda parte. Agora temos que interromper durante alguns minutos. E "O Resto é Ciência" regressará a seguir ao noticiário. Bem-vindos de regresso à segunda parte do "E o Resto é Ciência". Nós estávamos a falar deste fenômeno que fez aparecer sargaços numa espécie de cinturão que vai das costas da África às costas da América, no centro do Atlântico. Miguel, estavas a falar do papel que podiam ter os nutrientes arrastados por rios como o Amazonas ou como os grandes rios africanos, o Níger e o Congo. O que é que nós podemos dizer mais sobre isso?
Bem, nós não podemos dizer muito mais, essa é que é a questão. Sai um artigo este ano, uma nova análise dos dados históricos, também na revista Nature Geosciences, em que tenta encontrar uma explicação mais dinâmica pra este fenômeno, porque a grande questão é que está aqui um clique, há um tipping point em 2011, e claro que em 2010, 2011, há realmente um excesso de material orgânico que é emitido a partir do Amazonas.
E por uma razão específica nesse ano?
Desflorestação na altura, por causa de incêndios, etc. Mas reparem, apesar de tudo, não é bem uma coisa global. E nós temos aqui um fenômeno que é global, que é observado no Atlântico de um lado a outro. E temos todas as tentativas de interpretação, desde quem faça modelos indo pra trás com as localizações pra saber de onde é que elas podem ter vindo, até quem veja as condições de temperatura e de velocidade das correntes, pra perceber como é que ela se pode ter espalhado. É verdade que o cinturão em si mima a própria corrente, o que significa que ele está a ser arrastado pela corrente. É verdade também que tem uma ligação à África, é verdade, tem uma ligação também ao Amazonas, porque ele é também alimentado pelo Amazonas. Mas, na verdade, o que eu penso que é preciso dizer é que as explicações são ainda muito insuficientes.
Até porque as espécies aqui presentes não são exatamente as que estão no mar.
Exatamente. Um artigo que eu li, publicado há poucos meses, ainda dizia que esse era um problema por compreender como é que se tinham criado. São as mesmas espécies, mas têm uma forma ligeiramente diferente, como é que se fez essa adaptação, onde é que houve tempo pra essa adaptação. Mas o que é importante é que quando se chega a esta região, e eu, devido ao meu trabalho atual, desloquei-me lá, assisto a uma situação que é de grande dramatismo no sentido econômico, porque temos praias que têm um grande valor turístico, que são atingidas por quantidades enormes De macroalgas castanhas que se decompõem rapidamente nos areais, produzindo H2S, ou seja, sulfureto de hidrogénio, ácido sulfúrico, como se quiser dizer, e amônia, o que tem um cheiro horrível. São rapidamente retiradas a braço, a ancinho e trator, para poder manter a qualidade do turismo, mas que também já começam a afetar as condições de saúde dos próprios trabalhadores.
Isso está a acontecer na costa do México e mais onde?
A zona mais atingida é assim: vamos imaginar o GASB, o grande cinturão de algas, entra pelas Caraíbas, pela zona mais ou menos de Barbados, a sul da República Dominicana, entre a Venezuela e a República Dominicana, e depois prolonga-se por todo o mar das Caraíbas, indo aterrar, entre aspas, nas zonas do México. É onde estão os grandes grupos hoteleiros, é onde está a grande atividade turística, que tem feito um esforço enorme para tentar diminuir o impacto que isto tem para a atividade econômica e para a ecologia das regiões.
Quem procurou solo, não se passa o mesmo contigo, não é outro caso, mas Cancún, Praia del Carmen, Riviera Maia, tudo isso está super afetado.
Sendo atingido. Nós temos aqui um esforço titânico, que envolve a colocação de barreiras no mar para impedir a progressão, envolve a recolha rápida, muitas vezes com a condução para aterro, e simultaneamente, eu diria, uma boa parte da comunidade está a tentar perceber como é que pode, por um lado, utilizar os sargaços como um recurso, perceber por que há uns anos que, mesmo neste ciclo de subida, há um ou dois anos que não tiveram praticamente sargaço, 2013. Por quê? Há quem esteja a estudar a variação do crescimento do sargaço com a temperatura e a salinidade pra compreender e tentar mimar o que se está a observar. E nós temos aqui um problema de escala global.
Pronto, quando diz que é um problema de escala global, nós estamos a falar aqui do Atlântico, mas há mais oceanos no mundo onde há muitas manchas castanhas, digamos assim, a flutuarem. Não são as manchas, os microplásticos, também se fala disso, mas aqui são manchas de algas.
Neste momento, há mais um estudo global feito para o mundo inteiro, que analisou qualquer coisa como mais de 1 milhão de imagens de satélite, claro que não podem ser processadas à mão. Nós já estamos no mundo em que existem ferramentas de inteligência artificial e que revelou uma situação realmente alarmante. É que o crescimento de manchas de macroalgas, muitas vezes exóticas, ou seja, como se passa um bocadinho ainda nos Açores e um bocadinho até no Algarve, vindas da Ásia, em boa parte, transportadas para o Atlântico, está a aumentar de uma forma muito rápida. E estes blooms anuais de algas estão a atingir, por exemplo, as costas de Qingdao. Qingdao é onde é o Instituto Oceanográfico da China, que eu, como deves compreender, conheço, e que está a ter um impacto, mais uma vez, econômico e ecológico muito grande. Observa-se no Índico, observa-se aqui numa escala mais baixa, mas observa-se em Cabo Verde, observa-se agora nas praias dos Açores, em particular nas praias do Faial e está a se tornar um problema global.
Tu disseste também o Algarve?
Também o Algarve.
Isso é sinal de que também pode haver no Mediterrâneo?
É sinal também que pode haver. No Mediterrâneo também há blooms de algas neste momento. Não me referi, peço desculpa, mas também há no Mediterrâneo. E a questão toda é: o que estamos a observar? O que aconteceu em 2011? O que há de essencialmente diferente? É a temperatura? A temperatura não pode ser absolutamente, porque, por exemplo, o ano de 2013, que é o ano em que não há um bloom grande no Atlântico, é um ano em que temos o máximo de temperatura. Há aqui fenômenos que são mais complexos do que pode parecer, senão já estariam completamente identificados. Há um conjunto de oportunidades, porque é verdade que isto também está a gerar oportunidades pra utilizações que vão desde a cosmética à farmacêutica, porque são grandes quantidades de macroalgas que se tornam acessíveis. Há quem fale em energia, produção de energia.
E aquela biomassa não pode ter outra utilidade?
Há quem queira utilizar a biomassa, em particular para a produção de energia, mas é preciso perceber. Eu sempre lutei contra o fato da gente confundir uma coisa boa com uma coisa má, confundir receita com despesa, por exemplo. É evidente que pode haver alguma receita criada a partir deste valor, mas é preciso perceber que para já vamos ter uma grande despesa. Nós estamos a ter impactos econômicos nas regiões que vivem essencialmente do turismo, que são de uma dimensão que vai precisar de um movimento global, de um movimento mundial, que seja exatamente de reduzir o impacto. Muitos destes alojamentos, para terem valor econômico, têm que ser apanhados no mar. Há quem esteja a construir navios que sejam dragas para recuperar no mar o material biológico antes dele estar decomposto.
Nós estamos a falar de um material que são milhões de toneladas, não é?
Nós estamos a falar, eu tinha aqui uns números, neste momento, a área cumulativa de blooms de macroalgas atingiu 43 milhões de quilômetros quadrados. Nós estamos a falar que em 22 tínhamos 22 milhões de toneladas, mas em 25 já tínhamos 38 e nós estamos numa subida crescente. Se estiverem no local, ou aqueles que forem ao local, verão que nas zonas que não estão a ser completamente mantidas pelos grupos hoteleiros, que as extensões de algas castanhas em decomposição são de centenas de metros E, portanto, eu não estou já a falar do aspecto meramente económico.
São coisas muito diferentes. Se nós apanharmos no mar, apesar de tudo, a alga vem mais pura, digamos assim.
Claro.
Mas também ainda pode vir com microplásticos misturados.
O problema não é só os microplásticos, o problema que eles têm é o arsênico, que aparentemente fixa e que vai aumentando à medida que o cinturão entra dentro do Mar das Caraíbas, pode atingir o máximo, provavelmente perto do México. Estamos a falar de outros metais pesados que são arrastados pelas macroalgas e que, portanto, para haver uma utilização credível, têm que ser retirados esses metais pesados. Se me perguntas se isto é uma grande oportunidade, o Covid também foi uma grande oportunidade, muita coisa que se desenvolveu.
Sim, mas, por exemplo, fica-se com a ideia, estava agora a lembrar-me, pode ser um daqueles problemas que identificada a origem, ela até tem uma solução que não é muito complicada. Eu recordo-me das chuvas ácidas, que a certa altura, as chuvas ácidas é um fenômeno que ia matando as florestas europeias anos 80, portanto há 40, 50 anos, e depois quando se resolveu o problema da emissão, basicamente, de dióxido de enxofre pelas centrais a carvão, sobretudo no Reino Unido, mas não só, resolveu-se o problema das chuvas ácidas. Nunca mais se falou do assunto.
José, sabes aquelas situações em que a gente está no trânsito e o trânsito está lento, e nós pensamos assim: "Deus queria que seja um desastre aqui à frente, porque depois ultrapassamos e andamos depressa." Isto é exatamente a mesma coisa. Às vezes não sabemos se é um desastre, se é excesso de tráfego. Pode ser um problema ambiental, um problema ambiental no sentido problema comportamental, ou seja, a necessidade que seguramente existe de melhorar os sistemas de tratamento de resíduos em toda a costa atlântica e dos outros oceanos também. E seguramente que haverá uma componente ambiental. Pode ser uma componente climática, ou seja, na verdade, as condições de temperatura podem ter alterado significativamente a circulação do chamado giro atlântico e pode ter, como se diz agora, desfeito uma parte do Mar de Sargaços e criado semente de sargaço praticamente em todo lado.
E as algas, deixa-me só fazer aqui um pequeno parêntese, as algas são capazes de se reproduzir, de facto, muito depressa, desde que tenham condições para isso. Agora, por exemplo, há uma situação muito curiosa nos Estados Unidos, porque o presidente Trump quis limpar e mudar aquele espelho d'água que fica em frente ao monumento ao Lincoln, na Mall de Washington, perto da Casa Branca, que é um espelho d'água bonito e grande. E que ele estava pintado de cinzento. Ele quis pintar de azul para os 250 anos dos Estados Unidos. E o resultado é que, como está calor, as algas começaram a multiplicar-se e agora estão lá trabalhadores todos os dias a tirar algas do espelho d'água, é uma piscina, do lago do Trump.
José, eu até te posso dizer o seguinte: o primeiro trabalho português sobre a reprodução das algas é do Abade Correia da Serra. Ou seja, isto já tem mais de 200 anos, seguramente.
E o Abade Correia da Serra viveu nos Estados Unidos.
Viveu nos Estados Unidos e foi um dos fundadores da Academia das Ciências. E é interessante que é uma discussão que o envolve a ele, o Linnaeus, o Römer, porque aquilo era uma comunidade pequena na altura, à escala europeia. E esta situação desta variação de forma, alteração de espécies, relações complexas entre vários tipos de espécies que vivem no oceano. É importante do ponto de vista ecológico, é importante para o equilíbrio que nós obtivemos agora e no qual vivemos, mas esse equilíbrio foi por alguma coisa alterado. Alguma coisa aconteceu em 2011. Não sabemos o quê. Se for comportamental, podemos fazer esforço de engenharia, portanto, corrigir a parte, em particular, da utilização excessiva de fertilizantes.
Essa mudança em 2011 não foi só no Atlântico.
Não foi só no Atlântico.
Portanto, também aconteceu no Índico, também aconteceu no Mar da China.
O que é que aconteceu? Não sei. Eu estive recentemente numa conferência, aliás, não foi no Atlântico, foi em Hong Kong, em que esta questão deste tipping point criou um certo estresse na assembleia, por uma razão simples: os tipping points nunca aparecem onde a gente pensa que eles vão aparecer. Nós sabemos que o aquecimento da Terra fez dois fenômenos importantes: aumentou a precipitação, e ao aumentar a precipitação, nós temos um maior aporte de água doce, em particular nas zonas intertropicais, e aumentou a temperatura. Sabemos que o oceano está a acumular cerca de 90% do calor em excesso. E sabemos que essa acomodação é feita na parte mais superior do oceano. São as três coisas que a gente sabe, de uma forma razoavelmente estabilizada. Mas também sabemos outras coisas. Nós não observamos quase nada abaixo de 2000 metros. Não temos capacidade de o fazer tecnologicamente. Sabemos também que os satélites são muito bons, foram muito importantes, mas veem a superfície. Sabemos que o esforço de observação do oceano está um pouquinho mais fraco, em particular pela mudança na política americana, que era um grande pagador de todo este sistema. E tudo o que está a acontecer e que está a ter o impacto económico que nós estamos a ver, vai precisar ter uma resposta global. Eu estou muito convencido, mas claro, não tenho razão nenhuma para isso, além da emocional, de que nós estamos perante um problema que nós não compreendemos muito bem, que só sabemos o impacto, que não parece ser uma única fonte Não é uma coisa que a gente diga: "Se eu resolver este problema, tipo as chuvas ácidas, se eu resolver o problema do enxofre, eu resolvo o problema". Não sabemos bem por que esses blooms estão em todo lado. Não está completamente demonstrado, do ponto de vista dinâmico, que haja uma grande alteração das próprias correntes do giro atlântico, tal como não há da corrente profunda, como já falamos aqui. Os resultados são muito contraditórios, mas o que é profundamente claro é que alguma coisa vai ter que ser feita a nível global. Isto não pode ser visto só como o problema das praias das Caraíbas, até porque quantos de nós vão às praias das Caraíbas? Muito poucos. Eu não sou grande fã, como já sabes. Mas tem que ser visto essencialmente como um problema ecológico global, que nos vai atingir a todos. Não será necessariamente só o sargaço. As macroalgas estão a aparecer em muitos outros lados. Apesar do cinturão se dirigir da África para as Caraíbas, no ano passado, algumas das praias da Ilha São Vicente, em Cabo Verde, tiveram que ser encerradas, que a quantidade de biomassa que está em jogo é estratosférica, é muito grande, que nós vamos ter que juntar praticamente todas as formas que nós temos de a consumir, produzindo energia, levando-a para a terra, usando-a para biotecnologia, e que isto será um desafio que vai seguramente ocupar a próxima década.
Mas já agora, vamos lá só terminar, se calhar, com um ponto também de preocupação, mas numa área diferente, que é: falámos há pouco que o velho Mar dos Sargazos, enfim, não sabemos, esquece donde tudo começou, mas aquele velho Mar dos Sargazos era também o local por onde passava uma espécie de peixe que faz parte da nossa dieta, que são as enguias. Isso é muito interessante, porque nós temos vários peixes que têm um registro de reproduzirem-se no mar e virem crescer até aos rios, outros que se vêm reproduzir aos rios e depois vão pro mar, e quase sempre são espécies bastante apreciadas na nossa gastronomia. Nós temos, por exemplo, os salmões, que entram pelos rios para se reproduzirem, mas temos depois também os esturjões. É um peixe cuja alimentação e crescimento é feita no mar e depois migra para os rios para se reproduzir. Como é que se chama aquela iguaria, as ovas de esturjão?
Caviar.
Caviar, exatamente, vem desse nome. Temos o contrário, temos o sável, também anda por aí. E agora temos particularmente as enguias. Enguia é um caso um pouquinho ao contrário, porque essas vêm crescer aos rios, não é?
Exatamente. As enguias têm uma vida complicada. Há muitas enguias com vidas complicadas, mas as enguias, reparem, no Mar dos Sargazos existem como larvas. São transportadas pela Corrente do Golfo durante um a três anos, até chegarem às costas da Europa. Entram aqui no estuário do Tejo, perto de onde nós estamos.
Entram em todo lado.
Exatamente. Aqui, em particular, nós as comemos. Nós, aqui os lisboetas.
Também há o cachete.
Também há lá em cima. Comem enguias chamadas enguias-de-vidro. Crescem no rio durante 10 a 30 anos.
As enguias-de-vidro são aquilo que os espanhóis chamam angulas.
Infelizmente.
Angulas, infelizmente, compram a peso de ouro e que não deviam. Já há zonas em que estão banidas.
E que têm mesmo que ser banidas. Depois crescem durante 10 a 30 anos como enguias-amarelas. Nessa altura, atingem a maturidade sexual, transformam-se em enguias prateadas e descem o Tejo até ao Atlântico.
Nós, as enguias-amarelas não queremos saber delas. Só que elas estão dentro do...
Exatamente. E portanto, descem até ao Mar dos Sargazos 6 mil km de distância. É preciso dizer também que, apesar desta descrição, que está em praticamente todos os livros de texto, muito do que se passa no Mar dos Sargazos é desconhecido, porque nós não temos praticamente capacidade de observar.
Eu penso que, aliás, um dos primeiros estudos sobre como é que elas conseguiam regressar ao Mar dos Sargazos tem menos de meia dúzia de anos. Porque é muito difícil segui-las, perceber como é que elas chegam. Mas enfim, vamos tentar apreciá-las à mesa e tentar que elas não desapareçam, porque quando estamos a falar de desaparecer, estamos a falar de algo que pode ser entre 90% a 98% de diminuição do tamanho da população, o que é dramático. Mas enfim, pronto, deixamos talvez isto pra outro programa. Para já temos um problema grande para resolver, que é o que fazer a tanto sargaço no Atlântico, e não só.