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Bem-vindos de regresso a mais um "Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, académico, geofísico, temos falado com ele muitas vezes. E hoje vamos falar de uma coisa que toda a gente está a falar, de vez em quando também temos que ir aos assuntos que toda a gente está a falar. Vamos falar do El Niño e se o El Niño tem alguma coisa a ver com o fato de estarmos aqui os dois de manga curta, num dia de muito calor, até que ponto isso é verdade. De fato, quando mete clima, e clima não é meteorologia, a meteorologia é o dia seguinte. O clima são os grandes movimentos, as grandes características. Ora bem, quando mete clima, há muita vez a tendência para se ir para cenários mais extremos. E este ano a notícia é que temos um El Niño que pode ser um grande El Niño. Isto tem graça, eu, por acaso, na preparação para esta conversa, fui recuperar o primeiro artigo que eu escrevi no Expresso, quer dizer que foi há bastante mais de 40 anos, 46 anos para ser mais exato, ou 45 anos para ser mais exato, e era um artigo precisamente sobre o facto de estarmos a assistir alguns fenômenos extremos, secas, grandes tempestades, grandes chuvas. Reparem, estamos na década de 80, ainda se falava pouco destas coisas. No entanto, ainda também não se falava do El Niño. O El Niño tornou-se um grande fenômeno midiático no final do século passado, com dois El Niños grandes que houve perto do final do século, mas é uma realidade muitíssimo mais antiga. Agora, o que nós temos, quando pensamos nas nossas vagas de calor ou no nosso cristo deste inverno, são fenômenos extremos, manifestações extremas de temperaturas e chuvas, mas não são obrigatoriamente algo que derive de um fenômeno climatérico, se nós formos ver até com rigor, El Niño quer dizer o bebê Cristo, o bebê Jesus. Portanto, o El Niño é um fenômeno que se forma habitualmente, quer dizer, pelo menos ganha a sua dimensão mais expressiva, máxima, perto do Natal. Estamos ainda há quatro, cinco meses disso acontecer. No entanto, já não se fala de outra coisa, Miguel.
É verdade. Nós, aqui na Europa Ocidental, tivemos, no fim do mês de maio, nos últimos 10 dias de maio, uma situação razoavelmente quente, ou seja, aquilo que se chama cerca de 10° a 15° acima do que se chama anormal. O normal é a média, a média de 30 anos. Este episódio de tempo quente foi fundamentalmente importante em França, em Inglaterra, no País de Gales.
Em Inglaterra bateram-se muitos recordes.
Em que se bateram, em particular no Reino Unido, que é sempre um país, como sabemos, que é muito sensível ao tempo. Aliás, não há conversa no Reino Unido que não comece por uma referência ao tempo. O Met Office emitiu aquilo que chamou alertas de saúde extraordinários, porque estava previsto que se ultrapassasse o máximo de 1944 da temperatura na cidade de Londres, coisa que aconteceu.
Estamos a falar do máximo de 32°?
32°.
Portanto, algo que nós nem dá sequer para ligarmos o ar-condicionado, às vezes.
Exatamente. Nem dá para ter uma semana notícia, mas, na verdade, em Quilgarn chegámos a 34.8 e o aeroporto de Heathrow, que toda a gente conhece, até porque é um dos maiores aeroportos da Europa, atingiu os 35°, portanto, o que para a série histórica do Reino Unido é um salto significativo.
E para o hábito deles também.
Em Portugal, a situação deu também origem, mais uma vez, a termos ultrapassado um recorde, mas eu estou sempre a chamar a atenção que numa situação em que há grande variabilidade, é normal.
Estamos a falar de recordes do mês de maio. Não estamos a falar de recordes absolutos.
Não, não são recordes absolutos. E o mês de maio, em Mora, atingiu 40.3, que é maior que o recorde antigo, que era o do Pinhão. O Pinhão, aliás, conheces também.
Sim.
Que é caracterizado tal como Mora.
Aliás, o Pinhão, eu não sei se já foi ultrapassado, mas o Pinhão, naquela grande vaga de calor daqui há três ou quatro anos, atingiu 47.
Exatamente. Houve ali um salto, como deve ser. Este não foi tão grande, é interessante, porque o anterior recorde era 30 de maio de 53, mais ou menos dois dias depois de eu ter nascido, o que mostra que já é uma coisa razoavelmente antiga. E, portanto, nós tivemos essa situação, estamos a entrar pelo mês de junho e é bom que as pessoas, primeiro, comecem por ter a certeza e lembrarem-se que o máximo observado em Lisboa, no mês de junho, foi de 41,5° na estação do Jardim Botânico.
Foi há quanto tempo?
Isso, eu não sei há quanto tempo. Em 81.
81.
Portanto, foi quando escreveste o teu artigo. O teu artigo não deve ter sido coisa boa, porque não só deu origem a este máximo em Lisboa, já agora, como depois deu origem ao tal Super El Niño, que é de 82, 83. E, portanto, as temperaturas em junho começam a subir, o que é perfeitamente normal, têm valores elevados. Nas próximas quatro semanas, se forem ver a previsão, que se chama, na meteorologia, período alargado, não há perícia de determinação, o que significa, não é claro se vamos ter um período mais quente ou menos quente nas próximas quatro semanas na zona do continente, o que normalmente significa que vamos ter uma situação próxima do que é habitual. Agora, o centro e o leste do continente já têm uma situação que já se começa a acumular desde maio, que gera um aumento significativo do risco de incêndio rural.
Estamos a falar do centro do continente. Isso é uma situação, que nós vamos ter que falar dela, provavelmente, e não pelas melhores razões do mundo, que tem a ver não só com este aumento de temperatura, tem a ver com Porventura, com alguns picos. Recordemos que um dos maiores incêndios, mais dramáticos, históricos, foi o primeiro incêndio de 2017, que foi em junho, precisamente. Foi a seguir aos 16 ou 17 de junho, exatamente por esta altura, a seguir ao feriado de Santo António. E nós temos, além disso, uma situação no terreno, em muitos sítios, porventura mais complicada, por causa das árvores que ficaram tombadas no chão, na sequência do Cristian.
Do Cristian.
E de um inverno também muito chuvoso, que fez o chamado sub-bosque, as herbáceas e os pequenos arbustos cresceram muito, o que quer dizer que há muito material fino e, portanto, muito combustível, e muito combustível a gerar calor muito elevado.
E, fazendo um pequeno parêntesis, cabe aqui dizer, porque o Tiago Oliveira saiu há pouco tempo da direção da AGIF. Ele enquanto lá esteve, foi dessa escola.
Ele esteve aqui quando a gente tentou prever se íamos ter um verão perigoso.
Pronto, ok. Ele não prevê verões, tem que ter juízo.
Sim.
Ele sabe muito como é que as coisas devem combater. Ele teve um papel muito importante, às vezes mal compreendido, mas que foi muito importante pra termos uma melhoria significativa em praticamente todas as áreas. Esperemos que agora esteja à altura do que vem por aí. O problema que nos trouxe aqui hoje é que, na verdade, a Organização Meteorológica Mundial fez um comunicado, aliás, teve mais que um comunicado sobre o El Niño de 2026, e o próprio IPMA viu-se na necessidade de fazer um comunicado extenso, aliás, cuja leitura eu aconselho, factual, sobre qual é a situação, exatamente, da temperatura da água na zona do Peru, que é o que tem a ver com o El Niño, e quais são as duas consequências expectáveis se se verificar a previsão. Portanto, a primeira coisa que vamos aqui ter cuidado é que uma coisa são observações e outra coisa são previsões. E quando nós estamos a falar de que se prevê um El Niño muito intenso, prevê-se. Não é a mesma coisa que dizer: "Nós estamos a medir um El Niño muito intenso".
Bem, mas nós temos que explicar um pouquinho melhor o que é o El Niño. Primeiro que tudo, onde é que ele ocorre? Ocorre, e foi como tal batizado, nas costas do Peru. As costas do Peru, Peru, Chile pra cima, estamos a falar do lado de lá do hemisfério da América do Sul. Estamos a falar de uma costa que tem uma barreira muito significativa de montanhas, que são os Andes, relativamente perto da costa, praticamente sem planícies litorais. Estamos a falar, depois, também de uma costa, que até pela sua proximidade, penso eu, julgo que isso não seja disparado, proximidade à zona de subducção, é uma costa que não tem plataforma continental. A plataforma continental é aquilo que nós temos, por exemplo, aqui em Portugal, em que temos uma zona sem grandes profundidades, até alguns quilômetros ao largo. Ali, não, a costa cai imediatamente. É muito vertical. E é uma zona onde, ao contrário do que sucede aqui no nosso amendo, Portugal, que é banhado, que ainda tem os efeitos da corrente do Golfo, que é uma corrente quente, que vem do Equador, vem por aí, dá a volta, banha-nos. A corrente que banha o suleste da América do Sul, oeste, quero dizer, oeste da América do Sul, é uma corrente fria, a corrente Humboldt. Humboldt era o grande geógrafo e cientista alemão. Ele era tudo. Ele inventou muitas coisas, inclusive as ciências naturais, de alguma forma. Aquilo que nós chamamos ciências naturais, Alexander von Humboldt. Esta é uma corrente fria, mas que tem uma característica que faz com que o El Niño se note: é que são águas cheias de peixe.
Quando?
Quando são frias.
E quando há afloramento costeiro.
Exatamente. Isso tens que explicar um pouco melhor.
Já aqui falámos quando falámos da sardinha. Estamos nas sciences populares, isto tem exatamente o mesmo mecanismo que a sardinha. Portanto, a pesca, em particular a pequena pesca do Peru, vive muito da existência de afloramento. Afloramento é a subida à superfície da água profunda. Essa subida traz com ela muitos nutrientes e é isso que faz o desenvolvimento das águas.
Que são anchovas. É um peixe também mais pequenino que a sardinha. Mais pequenino, são anchovas. Basicamente, é assim: o vento sopra de terra pro mar, ao contrário do que acontece aqui nas nossas paragens, que habitualmente sopra do mar pra terra, a nortada, quem vive no litoral de Portugal tem conhecimento. Aqui sopra de terra pro mar, o que quer dizer que empurra a água superficial pra longe da costa e, ao empurrar a água superficial pra longe da costa, cria espaço pra subir a água das profundidades. Essa água vem fria e com mais nutrientes.
E desde o século XVII que há documentação sobre o conhecimento pelos pescadores do fato de que, em certas alturas, existe um aquecimento anormal da água, o afloramento costeiro fica bloqueado.
É upwelling, o termo também que se usa em inglês.
E não há peixe pra pescar. Isso é conhecido, é conhecido há séculos. Pensa-se que mesmo, provavelmente, antes do século XVII já era conhecido nas comunidades pesqueiras do Peru.
Sim. E reparem, este peixe chegava a ser tão abundante, há descrições da abundância de peixe, que os barcos, apanhava-se à colher, quase. Bastava pôr uma rede e tirar o peixe de dentro d'água. Estas anchovas quase cobriam aquilo e alimentava uma comunidade de aves tão numerosa, que os dejetos das aves, que é o guano, chegou a ser a principal fonte de rendimento do Peru, no século XIX. Estamos a falar do século XIX. Só que de vez em quando Tudo desaparece.
Tudo desaparece. A primeira descrição propriamente científica é feita por um capitão Carrilho, que apresenta no fim do século XIX, uma comunicação à Sociedade Geográfica de Lima e posteriormente existe mesmo, no sentido mais científico, Frederick Pease, que é um cientista peruano, apresenta numa conferência internacional o fato de que os episódios de aquecimento anormal das águas costeiras do Peru estão diretamente ligados ao impacto nas pescarias e no clima.
E no clima, porque já agora dizemos, esta costa é uma costa muito seca, é uma das zonas, aliás, não no Peru, mas um pouco a sul, já na zona norte do Chile. O Chile é aquele país muito esticadinho, vai por ali abaixo até à Patagónia. Ficam algumas das zonas mais secas da Terra, muito mais secas que o Saara. São as zonas onde inclusivamente se encontraram múmias, pessoas mumificadas com o ar seco, de tão seco que ali é. E curiosamente, aqui há vales férteis, mas não é do que chove aqui. É da chuva que vem do outro lado, que vem da bacia do Amazonas, cai no topo dos Andes e há rios que se formam aí e transportam água para o litoral. Inclusive, no passado, houve a comunidade dos incas, mas antes dos incas houve os Mochicas, e os Mochicas viviam sobretudo nesses vales.
Muito longe do Peru, muito longe, do outro lado da Terra, no último ano do século XIX, em 1899, ou no penúltimo, depende agora como é que consideramos essa do século, acontece uma das piores fomes da história da Índia.
O que quer dizer quase da história da humanidade, enfim, se tirarmos as fomes chinesas.
Provavelmente. Onde morreram praticamente 10 milhões de pessoas. E na altura havia uma relação próxima, como todos sabem, com a Inglaterra, e então Gilberto Walker é nomeado diretor-geral dos observatórios meteorológicos da Índia no princípio do século já XX, tendo um único objetivo que era prever as monções.
As monções, para quem não sabe, só para recordar, são aqueles fenômenos cíclicos que trazem chuvas. O clima nessas regiões do mundo é muito diferente do nosso, as características, e as monções trazem as chuvas, que no fundo alimentam toda a agricultura. Toda a agricultura, todo o sistema alimentar.
Todo o sistema. E de vez em quando, na Índia, aconteciam períodos, às vezes um ano, às vezes dois anos, em que de repente não havia monção. Não havendo monção, não há chuva, não havendo chuva, não há alimento. O Walker analisa todos os dados disponíveis, tentando encontrar um mecanismo de previsão. Repare, nós aqui não estamos a falar de previsão no sentido do dia seguinte, no sentido da previsão meteorológica que toda gente conhece, que é uma previsão dinâmica, baseada em física. Estamos aqui mais a ver correlações entre situações, e o Walker, 20 anos depois, identifica que existe uma oscilação de longo período da pressão atmosférica à escala de todo o oceano Pacífico. Quando a pressão sobe do lado do Peru, desce do lado da Austrália. E chamou a esta oscilação, a oscilação do sul, em inglês, Southern Oscillation. E temos aqui dois fenômenos, muito longe um do outro, mas que ambos são variações de longo período do sistema climático.
Sim, mas deixa-me só chamar a atenção para isso, porque esse é um aspecto que eu acho que é muito interessante. O Walker é uma figura importantíssima nesta história, porque uma das coisas, nós estamos a falar de um tempo em que as redes de meteorologia não tinham a densidade que têm hoje, em que os dados não eram recolhidos à mão, mas eram depois coletados à mão, no sentido de reunidos à mão e não havia computadores para os tratar. Ele era obcecado com dados, obcecado também com estatística e conseguir detectar esta oscilação. Estamos a falar de variações de pressão, que ainda por cima não é aquilo que nós vemos a olho nu.
Nem é fácil medir.
Nem é fácil medir. É muito significativo. Ora bem, o que é que essas variações de pressão depois-
Só se compreende 30 anos mais tarde. Bjerknes, que é um dos mais famosos meteorologistas de todos os tempos.
Esse é sueco, se não estou em erro.
Analisa os dados do El Niño de 57, 58, devido ao fato de 1957, 58 ter sido o chamado Ano Geofísico Internacional. O Ano Geofísico Internacional foi uma iniciativa que, a seguir à iniciativa do trânsito de Vênus, foi seguramente das iniciativas internacionais mais bem-sucedidas, em que todos os países do mundo colaboraram numa operação única, em que lançaram simultaneamente balões para a atmosfera, para medir as propriedades da atmosfera, praticamente ao mesmo tempo. Isso conseguiu uma informação razoavelmente coerente nos dois hemisférios.
Mas tu estás a falar de balões, também não havia boias?
Por exemplo, eu preferi boias, teve tudo. Estou a dizer balões, foi tudo, oceano e atmosfera. O oceano não foi tão coberto como nós agora acreditamos, porque foi muito oceano mais superficial. Hoje em dia, está-se a falar de novo, apesar do ambiente da guerra não ser o mais propício, da necessidade de lançarmos um novo Ano Geofísico Internacional, desta vez cobrindo mais fundo no oceano e mais alto na atmosfera.
Porque nós hoje em dia, apesar de tudo, temos condições para medir as condições completamente diferentes, basicamente por causa dos satélites. Permitem ter muitas medições à escala global.
E o Bjerknes concluiu, que é o que é realmente interessante, é que esta variação do aquecimento das águas no Pacífico Oriental não era um fenômeno local do Peru. Na verdade, era parte de um sistema acoplado oceano-atmosfera, que cobria uma parte importante da Terra, do hemisfério sul, e que ele descreve de uma forma muito simples e penso que todos podes compreender. Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste.
Os ventos alísios são os ventos do Equador, que são de alguma forma influenciados pela força de Coriolis, que é aquela que nós também já falamos aqui no programa, e que de alguma forma resulta no movimento de rotação da Terra.
Portanto, nas condições normais, empurram a água quente para o Pacífico Ocidental. Quando os alises enfraquecem, a água quente reflui para leste, aquece o Pacífico Oriental, o que, por sua vez, enfraquece ainda mais os alises. Temos aqui um efeito feedback de retroalimentação positiva, em que um fenômeno gera o outro, que gera um, que gera o outro, e portanto, isso é que é a tal oscilação forte que é conhecido pelo El Niño. Então ele percebeu o seguinte: tanto o El Niño como a Southern Oscillation eram a mesma coisa, eram dois efeitos do mesmo fenômeno. Era um fenômeno que tinha a ver com a interação entre a atmosfera e o oceano. E esse fenômeno recebeu o nome de ENSO, El Niño Southern Oscillation, em inglês, que ainda hoje é utilizado. E isto materializa aquilo que se chama uma teleconexão. Temos dois pontos da Terra-
Só uma coisa. Há também um nome que mete o Walker. A oscilação do Sul do Walker.
Oscilação do Sul. Na verdade, depois o Bjerknes é que une isto tudo num conceito único, diz assim: "Não, o que estamos a ver aqui é a relação entre dois fenômenos que estão muito separados no espaço, mas tem a ver com a interação entre o oceano e a atmosfera."
Vamos explicar melhor como é que isto funciona na segunda parte. Agora fazemos um pequeno intervalo. Estamos de regresso ao "E o Resto é Ciência". Estamos a falar do El Niño, estamos a falar de Bjerknes, acho que é assim que se diz. Um sueco muito importante, na altura em que eu nasci, mais ou menos. Foi um ano geofísico internacional. Aprendi isto com este programa, que conseguiu relacionar a oscilação já identificada, a oscilação na pressão atmosférica, com o El Niño, com as mudanças de temperatura do mar na zona da costa do Peru e não só, na costa oeste da América do Sul, e também numa faixa que depois se percebeu que não era só isso. Porque o El Niño, ao princípio, julgava-se que era só aquele bocadinho ali junto à costa.
E, na verdade, estamos a falar de uma coisa de escala planetária. É assim que se deve dizer, porque, na verdade, isto é um fenômeno planetário.
O Pacífico é o maior oceano da Terra, cobre, não direi metade da Terra, mas quase.
Já agora, é preciso dizer que além do El Niño, que é o período de aquecimento excepcional, ao contrário, é o simétrico, é La Niña, como agora é chamado, por simetria também do nome, e cujos efeitos são simétricos. O La Niña, que é um processo de arrefecimento, também influencia o clima. E já agora, no fim, vamos ver de que maneira é que ambos influenciam a Península Ibérica, que não é exatamente da mesma maneira.
Mas antes, deixa só perceber isso melhor. Nós temos uma corrente lateral, isto é, que corre junto às costas da América do Sul. Depois temos uma espécie de língua que entra mais ou menos por alturas do Equador e que se vai prolongar quase até à Indonésia, quase até o outro lado, e que se vai estendendo. Isto porque o jogo das pressões faz com que a água que é mais quente nessa zona ocupe-
Isto é um problema de feedback positivo. Saber qual é o criminoso e qual é a vítima, é sempre difícil. Vamos imaginar que é uma espécie de pulsação do sistema. A Terra tem pulsações. Tem, porque tem aquilo que se chamam as ondas de Rossby, que são ondas de grande período, grande comprimento, e que fazem com que, pelo fato de envolverem a Terra toda, podem ligar o que está a passar numa zona da Terra, o que está a passar na outra, porque isso é a própria oscilação do sistema atmosférico. No caso do sistema atmosférico-oceânico, que é aquilo que responde o El Niño ou ENSO, a situação é bastante estável, porque o oceano é um sistema que é muito conservador do ponto de vista térmico e do ponto de vista dinâmico.
Eu recordo-me, do tempo de estudar Física no liceu, no ensino secundário, que a água é dos materiais com maior capacidade calorífica.
Certo.
Portanto, quer dizer que tem uma enorme inércia à mudança de temperatura. Por isso é que nós, quando queremos aquecer uma panela de água, sabemos que leva bastante tempo para o conseguir.
E aí pode-se perceber a grande diferença. Enquanto, por exemplo, na atmosfera, para se fazer previsão numérica, é preciso prever nas escalas de segundos ou menos, no oceano não é necessário, porque ele é mais lento a reagir e, portanto, toda a dinâmica é mais lenta do que a dinâmica da atmosfera. Só que existe uma ligação entre as duas. Em 1982, 83, depois do teu artigo do Expresso, há um El Niño catastrófico. Há 2 mil mortes, há cerca de 13 mil milhões de dólares em danos e então, pela primeira vez, resolve-se iniciar a observação por bóias sistemáticas fora das costas. Atenção.
Deixa só fazer aqui uma nota. Estamos a falar 82, 83. Depois estamos a falar de um outro El Niño colado ao final do século, 98, 99. Depois estamos a falar de um outro El Niño em 2016, 2017, o que dá um ciclo de mais ou menos de 14, 15, 16 anos.
À volta disso.
Agora só estão a passar 10.
Não sei se tem alguma relação.
A tal pulsação acelerou-se.
Mas reitero o que eu disse: o El Niño 97, 98, é o primeiro que é realmente previsto. Portanto, a previsão numérica, baseada exatamente em medições contínuas da temperatura da água do Oceano Pacífico, permitiu, pela primeira vez, no fim do século passado, começar a prever o El Niño. Os resultados deste esforço científico e do aumento da observação, em particular pelas bóias Argo, por tudo aquilo que já temos falado, faz com que hoje em dia nós estejamos a discutir o que é que vai acontecer no fim do ano Não há muitas previsões da Terra que se consigam fazer com esta distância.
E quando falamos do que se vai fazer no fim do ano, é dizer que no fim do ano vamos ter um El Niño. Não é saber se no fim do ano vamos ter uma tempestade, ou um dia de frio, ou uma chuva aqui ou acolá. São coisas diferentes.
Exatamente. Uma previsão sazonal de um padrão. E o que se passa aqui é que, por exemplo, existe uma outra pulsação, também muito conhecida no Atlântico, a NAO, também é muito falada. Estamos em NAO positiva, estamos em NAO negativa. Também existe uma oscilação ártica.
NAO quer dizer o quê?
North Atlantic Oscillation.
Pronto, é salto pacífico, é Norte Atlântico.
Oscillation. E depois há a oscilação do Ártico e a oscilação do Mediterrâneo. Estas oscilações estão razoavelmente compreendidas, mas no caso da oscilação do Atlântico Norte, ele é um fenômeno atmosférico, não é de acoplamento oceano-atmosfera e, portanto, é menos previsível. É mais mouco, mais instável. E é interessante perceber que a NAO começa a ser definida pelo Walker, usando-se inicialmente dados da Islândia e dos Açores, porque havia, na altura, dados em Ponta Delgada. E Açores é o que a gente sabe que é o anticiclone dos Açores, é a pressão alta, e a Islândia é tipicamente a depressão.
Depressão baixa.
Por uma pressão mais baixa.
E isso é uma coisa que sabemos há muito tempo.
Há muito tempo.
É o padrão daquelas regiões.
E ele separou que a diferença de pressão entre as duas estações, entre as duas medições, dava uma indicação da previsão a nível da estação, que se chama a previsão sazonal. Essa previsão não tem a mesma perícia, desculpem o meu inglês, mas toda gente utiliza, que é o skill, não tem a mesma perícia do que tem a previsão do El Niño. Tem algum interesse nos estudos de paleoclimatologia, em particular. Tem muito interesse. E hoje em dia, na verdade, já não é calculado com dados dos Açores, mas é calculado com dados de Lisboa, de Gibraltar, porque se chegou à conclusão que era mais importante apanhar o bordo do anticiclone dos Açores do que propriamente o máximo, para ter esta medição da variabilidade. Hoje em dia, ele é seguido por muita gente, é utilizado ainda, de certa forma, pelos grandes centros de previsão, ou seja, Reading, que é o centro europeu, planoa em Washington, ou mesmo pelo Met Office, em Inglaterra. Os três mantêm sistemas de previsão sazonal independentes, mas é preciso dizer que a perícia desta previsão é baixa e não tem sido muito útil.
Sim, mas voltando um pouco atrás, novamente ao Walker. Walker começou estes estudos, essa recolha de dados, a pensar que conseguia prever as monções. Ou, se quisermos, o falhanço das monções, de não haver monção. E muitas vezes isto leva-nos para a seguinte questão: até que ponto determinar se vai haver ou não um El Niño, talvez não determine a monção, mas determina muitas outras coisas, não é?
Muitas outras coisas. E na verdade, até tem alguma relação com a monção, porque os dois fenômenos estão relacionados. E enquanto que a NAO tem tido muito pouca capacidade preditiva nas escalas dos meses, a oscilação do Atlântico Sul, o ENSO, tem realmente uma grande capacidade preditiva e é por isso que se está a falar de uma forma tão sólida de que ele vai ser importante no fim do ano. Hoje em dia considera-se que se pode prever com seis a 12 meses, nós estamos mais ou menos a seis meses do fim do ano.
Já se fala disso há uns meses.
E, portanto, o que é que causa, quais é que são os impactos do El Niño? Primeiro, nas zonas perto de onde ele foi identificado, que é bem normal, no Peru e no Equador, nós vamos ter um oceano mais quente, vamos ter muito menos nutrientes pra alimentar a pequena pesca, provavelmente as pescarias vão ter graves dificuldades. Vamos ter chuvas torrenciais, vamos ter cheias e deslizamentos de terreno nas zonas que estão menos consolidadas.
E há historicamente exemplos de povoações, cidades e civilizações que foram afetadas por fenômenos destes, nomeadamente uma civilização que houve, estamos a falar ainda no primeiro milênio, há mais de mil anos, a civilização Mochica, que ficava nas atuais costas do Peru e que desapareceu misteriosamente. Mas, além disso, essa é uma zona de eventos catastróficos, porque apesar de tudo, traz um pouquinho mais de umidade e também traz um pouco mais de chuva a terrenos que, exceto na zona onde escorrem as águas dos Andes, portanto, águas que vêm da bacia do Amazonas, por assim dizer, aquilo é muito seco. Agora, estamos a falar apenas do Peru, quer dizer, aquilo nota-se na Austrália, nota-se na América do Norte.
Sim, mas no Chile também tem chuva a mais. Por exemplo, no nordeste do Brasil, tem secas severas. E o nordeste, não sei se estão lembrados, o nordeste é uma zona que tem graves problemas de seca cíclicos.
É uma zona também de grande pobreza, e, portanto, muita dependência da agricultura e da rentabilidade da agricultura.
O aquecimento do Pacífico, o que faz é a supressão daquilo que se chama a precipitação convectiva da região e, portanto, não há água pra ninguém.
Mas haverá também consequências no Rio Grande do Sul, que os jornais já estão a falar disso, na imprensa brasileira.
Na Austrália e na Indonésia, vamos ter secas e incêndios importantes, mas no sul da Europa e na Península Ibérica, haverá tendência pra precipitação acima do normal no inverno, mas a correlação é fraca e considerada não sistemática.
Pode acontecer, pode não acontecer, haverá outros fatores mais determinantes.
Há outros fatores que podem dominar estes.
Mas há uma parte que pode ser positiva. Aquela zona do sul dos Estados Unidos, Flórida, Mississippi, essa zona aí, costuma ser atacada Batida por furacões e por grandes ciclones, provavelmente vamos ter menos, não é?
Vamos, porque temos mais o El Niño, o que significa que dificulta a formação de furacões de grande dimensão. Portanto, tudo isto tem aspectos negativos e positivos, conforme os sítios. Na zona muito perto do El Niño, os impactos são muito grandes.
A Califórnia vai ter mais chuva, em princípio, porque para eles, neste momento, é uma boa notícia, têm quase tudo seco.
Exatamente. Quando estamos em La Niña, acontece exatamente o contrário. Temos precipitação acima do normal na Austrália, na Indonésia, em todo o sul da Ásia, no nordeste do Brasil e na África Austral. E como temos menos o El Niño, agora é o contrário, temos uma maior capacidade de furacões muito ativos no Atlântico Norte. Mais uma vez, os efeitos na Europa e na América serão menos diretos e mais difíceis de prever.
Nós hoje em dia temos a capacidade de ter uma noção de como é que foi o clima noutros tempos, o paleoclima, como falavas há pouco. Designadamente através, por exemplo, do estudo de sedimentos, podem ser pólens, dão-nos uma ideia do tipo de vegetação que havia, podem ser conchas, conforme a captura de oxigênio ou de cálcio. Também se tem uma noção se eram dias mais quentes ou mais frios, se eram mais úmidos ou menos úmidos. E alguns dos estudos, por exemplo, levados a cabo no México, indicam que podem ter sido fenômenos, não terão sido unicamente isso, mas podem ter sido fenômenos como o El Niño, que ajudaram ao fim da civilização Maia. A civilização Maia já não estava lá quando chegaram os espanhóis, tiveram sorte. Já não estava lá, mas ela acabou por volta do século X, ano 900, por aí, do primeiro milênio. Era uma zona em que a agricultura dependia muito da regularidade das chuvas e pode ter sido afetada também por um fenômeno destes. Há quem diga que pode ter havido outras civilizações, outras culturas, muito afetadas por fenômenos extremos, porque os fenômenos extremos climáticos não são uma invenção do século XXI.
Não, e em particular, quando estás a falar de fenômenos que são plurianuais, e que afetam culturas anuais, o impacto é dramático. Tem que se compreender isso.
O caso que tu referiste relativamente à Índia, aquela mortandade, literalmente aquela mortandade, depois há discussões sobre responsabilidade política que houve ou não do governador, era joia da coroa, fazia parte do império britânico, até que ponto a rede de comboios já podia ou não podia ter acorrido às necessidades. Mas isso é uma discussão que há sempre sobre estas matérias, mesma discussão que há sobre a crise da batata na Irlanda, até que ponto os ingleses também foram muito responsáveis. Não é pela mortandade da batata, é pela fome que veio a seguir e pela dimensão dessa fome. Mas independentemente disso, ali não tivemos apenas um ano, não foi um El Niño, não houve monção nesse ano, foram vários anos seguidos.
Foram vários anos seguidos, que é uma coisa que é bastante diferente, como sabes, em termos de impacto social.
De repente os armazéns ficam vazios, não há reabastecimento, as pessoas que nestas culturas ainda, na altura muito tradicionais, armazenavam de uma estação pra outra, ficaram de repente sem isso.
E, portanto, a situação que nós estamos a ver em termos de calendário de 2026, é a seguinte: neste momento, começam a vir os primeiros sinais medidos, de que nalguns locais estamos a obter uma pequena anomalia positiva de temperatura.
Estamos a falar medidos, é medidos?
No oceano.
No oceano.
No oceano. Ao largo do Peru. Os modelos estão a dar valores que não são obviamente iguais uns aos outros. O cenário que é individualmente mais provável, é termos uma anomalia final de dois graus, que é aquilo que se chama um super El Niño. Se isso acontecer, os efeitos na região e no mundo inteiro serão significativos. E poderíamos estar no mesmo nível de 82, 83, 97, 98 e 15, 16. Mas isso se se verificar. O calendário mais provável é que o sistema vá evoluindo ao longo do verão. Provavelmente, ao longo do verão, vão se multiplicar as medições, que hoje em dia, com os satélites, as coisas são feitas muito rapidamente, e os modelos vão afinando qual é que vai ser realmente o que se vai obter no fim do ano. Portanto, provavelmente nós vamos ter o pico do El Niño entre novembro e janeiro, como o nome indica, e depois teremos, a partir daí, provavelmente, uma dissipação gradual.
Portanto, voltando um pouco atrás, teremos El Niño daqui a uns meses, quer dizer que a vaca de calor que tivemos agora na Europa, sobretudo Reino Unido e França, não foi o El Niño ainda. E mesmo estes dias de calor que estamos a viver em Portugal, estarão um pouco para além do que é habitual, mas não têm uma relação direta, porque desse ponto de vista, o sistema do Atlântico, tu ainda há bocado falaste da NOAA.
Não.
Da nau, perdão. Até que ponto ela é influenciada pelo El Niño? O que sabemos sobre isso?
Não, eu não sei nada. Não conheço nenhuma referência às duas relações. Tudo isto são fenômenos, são as tais teleconexões. Portanto, o sonho de todos os meteorologistas que fazem contas, meteorologistas dinâmicos, é serem capazes de numericamente, a partir de um estado inicial, terem seis meses de previsão. Os resultados estão a ser ainda muito frágeis. A inteligência artificial está a prometer grandes vantagens nesse tipo de previsão. E vamos ver se vai consegui-los ou não.
Basicamente, por capacidade de cálculo?
Por capacidade de análise de dados passados Na perspectiva de que estas telecomunicações estão lá dentro. Podes não ter uma lei física, podes não ter uma equação de Navier-Stokes, mas tens um conjunto de dados passados que podem ser utilizados pelos mecanismos de-
E isso aconteceu naquela altura pra voltar a acontecer. É um bocado isso.
E portanto, encontrar as pistas que levam ao desenvolvimento do fenômeno. Existem também, hoje em dia, já agora, tentativas de desenvolver sistemas de inteligência artificial que têm uma base física. Portanto, o próprio mecanismo de inteligência artificial percebe a física e utiliza para fazer previsões baseadas apenas em dados. Em toda a Europa, existe esta situação de dizer que estamos a preparar-nos para o confronto climático. É uma expressão que existe repetidamente. Na verdade, o que está a passar, infelizmente, é aquilo que está previsto há muito tempo. A temperatura está a aumentar todos os anos. Todos os anos vamos bater recordes. Cada ano, normalmente, se não é o primeiro, é o segundo mais quente de sempre, se não é este mês, é o mês seguinte. E portanto, nós estamos numa situação em que a variação de longo período se continua a reforçar.
E no caso concreto da Europa, em muitos países está mesmo mais calor.
Não, está mesmo mais calor. Se bem que esta onda de calor, por exemplo, não atingiu a Escandinávia, atingiu essencialmente o centro da Europa. No centro da Europa, o que está a ocorrer é que a preparação das pessoas e dos sistemas urbanos para estes dias de temperatura acima dos 30º é um bocado insuficiente, não têm a paciência e a resiliência dos orientais. Se tivessem, estavam preparados para estas situações.
Que é a diferença, se quisermos, entre nós irmos a essas cidades quando vamos no inverno e estar tudo aquecido dentro das casas, ou irmos às cidades no verão e de repente está tudo a transpirar porque não há sistemas montados.
Exatamente. O que é interessante, porque as pessoas costumam dizer: "Estive não sei onde, estava muito frio, mas nunca senti frio, enquanto que em casa passo a vida com resfriados". Agora, também podem dizer o contrário: "Estive num sítio onde não estava grande calor, mas estava-se a transpirar todos os dias porque em nenhum sítio se conseguia estar". Na verdade, os humanos sempre fizeram variar as suas construções de forma a tornar a sua temperatura mais amena.
E conseguem viver em sítios que são quase inabitáveis.
Exatamente. E mesmo no limite da habitabilidade, à custa de energia. Por isso é que a energia acaba por ser muitas vezes o nosso calcanhar de Aquiles. E finalmente, nós aproximamo-nos do verão, aproximamo-nos dos riscos e penso que estaremos para ver, infelizmente.
Infelizmente.
Não, podemos ser felizmente.
Sim, pode ser que a coisa corra bem.
Uma excelente reação. Devo dizer que o El Nin não é necessariamente negativo para aquilo que pode ocorrer durante o verão e o princípio do outono em Portugal.
A única coisa que definimos, não este El Nin em concreto, mas o resto da evolução, é que nós sabemos que com uma Terra mais aquecida, há mais energia, e com mais energia podemos ter mais fenômenos extremos. E por isso já falámos em programas anteriores.
E por favor, não vejam o El Nin como o causador. Ele é um sintoma, ele é uma febre.
Mas vai haver muita gente a dizer isso.
Pronto, o El Nin é a febre da Terra. Não é um sintoma e não é responsável por nada daquilo que nós andamos a fazer.
Bem, reencontramo-nos dentro de uma semana para mais um programa.