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Está no ar o "Ilvençore" da Rádio Observador, programa que também pode acompanhar em direto no YouTube, Facebook e no nosso site. Esta sexta-feira juntam-se à equipa das manhãs 360 e ao José Manuel Fernandes, a Ana Sanles e o Ricardo Conceição. E Carla, hoje falamos de inflação nos preços, mas também nas pensões. Mas vamos começar com a Transtejo. A administração da Transtejo foi rápida a pedir a demissão, assim que ontem se conheceu a auditoria do Tribunal de Contas sobre a compra de barcos elétricos sem bateria. Ana, a administração demitiu-se, mas não ficou muito convencida. É sobre isso que queres falar?
Sim, é sobre isso que quero falar. A administração deve estar ainda também, como o ministro Duarte Cordeiro, muito transtornada com isto tudo. Eu própria estou muito transtornada com isto tudo.
Também.
E não sou utente da Transtejo. Esses sim estão transtornados todos os dias e há muitos anos. Este foi mais um episódio revelador do quão exótica, misteriosa e insondável pode ser a gestão pública. Não meteu indemnizações a gestores, mas envolveu um concurso público que desde o início era muito estranho e acho que não era preciso saber muito de gestão, nem de navios para perceber que tinha tudo para correr mal. Desde já porque tinha como objeto barcos que não existem. Se houvesse um departamento do Estado para fazer esta avaliação prévia, acho que este levava um carimbo garrafal vermelho a dizer: "Vai correr mal". Vai correr mal e correu. A única pessoa que não percebeu isso do início foi quem devia ter percebido, era Marina Ferreira, presidente do Conselho de Administração da Transtejo Soflusa. Eu achei que hoje podíamos estar a falar aqui de uma Marina, de outra Marina, Marina Gonçalves, ministra, por causa das medidas da habitação, mas a vida trocou-nos as voltas e trouxe-nos Marina Ferreira. E eu acho que Marina Ferreira, perante a avaliação completamente arrasadora do Tribunal de Contas, não tinha alternativa que não fosse demitir-se. E o governo não tinha opção que não fosse aceitar, apesar dos argumentos e apesar de ter defendido as suas opções e de, por um lado, até parecer que acreditava genuinamente delas, por boa-fé, ingenuidade, o que quer que seja. Mas ter o Tribunal de Contas a dizer que a gestão tomou decisões irracionais, ilegais e graves, era um convite, era uma passadeira estendida à saída. E a administração assim o entendeu e entendeu bem, assumiu as suas responsabilidades e acaba por sair por cima, com o respaldo do governo, para quem o grande culpado, o grande transtorno disto tudo não é um concurso sem sentido, mas é sim o Tribunal de Contas vir dizer que isto é um concurso sem sentido. Mas nisto tudo da Transtejo, o governo já anda há algum tempo bastante perdido. O secretário de Estado da Mobilidade disse, em novembro do ano passado, que os navios elétricos iam começar a navegar no Tejo até o início deste ano. Disse que as baterias e os postos de carregamento já estão contratados. Não estão. Duarte Cordeiro, já este ano também no Parlamento, disse que afinal só no final de 2023 é que é possível que haja um barco a operar, um deles, que deve chegar ainda este trimestre, é o único que tem bateria. E andamos nesta navegação à vista. E eu sei que a Transtejo não é uma empresa tão sexy como a TAP, até porque está circunscrita no espaço, mas apesar de ser uma empresa de transportes públicos, é do interesse de todos. Mas era bom que não se esquecesse este tema, porque está longe de estar resolvido. Vai ser preciso, provavelmente, um novo concurso só para as baterias. Vão ser precisas estações de carregamento. E alguma coisa me diz que isto também é tema para dar chatice. Vai ser preciso adaptar os pontões aos navios. Vai ser precisa muita coisa até que as pessoas tenham finalmente um transporte público em condições, porque alguém achou que era a melhor opção comprar barcos que realmente é muito difícil.
Lhes faltava ali uma pecinha, não é?
Não era só a pecinha, o próprio navio. O ministro Duarte Cordeiro admitiu recentemente no Parlamento, isto é uma operação de uma complexidade muito grande, barcos elétricos. Infelizmente, um dia acredito que serão realidade, até que o ricara, mas ainda não são. Acho que era interessante, se calhar, ouvir Matos Fernandes no Parlamento sobre isto, era ministro do Ambiente na altura. Por que achou que esta era uma boa ideia já. E pronto, a responsabilidade do caso foi tirada ontem, mas acho que ela não se extingue em Marina Ferreira. E não só a responsabilidade neste caso específico, mas em tudo no que se passa na Transtejo há anos, que tantas vezes é negligenciada.
E está tão pouco presente nas notícias, Ricardo, alguém saia bem do episódio de ontem.
Sim, eu diria que é tudo um problema de Marinas, não é? Falta aqui uma Marina eficaz para atracar os navios. Carla, peço desculpa, eu queria dar um 19 ao pote, ao Pedro Gonçalves, mas não é aqui o campeão, é pois não.
Pois não, não. É depois das nove.
Então está a porta errada, Ricardo.
Tens que tirar o traçano, Ricardo.
Pronto, peço desculpa, enganei-me no guichê.
É que possa servi-lo em alguma outra matéria?
Sim, eu posso falar na questão dos navios. Eu queria dar um 18 aos passageiros da Transtejo, um 18 para estas pessoas que todos os dias atravessam o Tejo para chegar a Lisboa. E realmente é preciso muita paciência, muita persistência, porque também faltam alternativas eficazes. No ano passado Segundo os dados oficiais, a Soflusa e a Transtejo transportaram 22 milhões de pessoas. Não é brincadeira. E estas pessoas foram afetadas por quase 10% de supressões. E não estamos a falar só de greves, estamos a falar de problemas técnicos, problemas de segurança. Se fizermos aqui umas contas simples, em 100 viagens são 10, em 1000 são quase 100, e isto provoca um grau de incerteza neste serviço que eu imagino que cause ansiedade a quem todos os dias tem de usar a Transtejo ou Soflusa para chegar ao trabalho, para vir estudar, para vir ao médico, para vir ao hospital, para vir passear, enfim, aquilo que as pessoas querem. Adaptando aqui uma frase ou uma posição assumida pelo nosso presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o que esperamos, o que desejamos, o que queremos, são navios que naveguem a horas e que sejam seguros. E o que temos é trapalhadas, temos negócios que levantam dúvidas. Andamos nisto há anos, sem nenhum porto seguro à vista. Sucedem-se os ministros, sucedem-se os secretários de Estado, as administrações. Nos sindicatos, por regra, são sempre os mesmos sindicalistas durante anos e anos, mas sucedem-se os sindicatos e os passageiros ficam no cais com uma vista incrível para Lisboa, mas nem ver navios têm direito. Olha, um 18 para a paciência dos passageiros. E não sei, Carla, se queres aqui um poema, rapidamente. Vou citar o Castilheiro de Ari dos Santos.
Se és um poeta cultuado, vamos lá. Então nem é tão cultuado.
Não, pelo amor de Deus. É de Ari dos Santos. Castilheiro, com música de Paulo de Carvalho. Escrevia Ari dos Santos: "Leva namorados, marujos, soldados e trabalhadores e parte de um cais que cheira a jornais, morangos e flores. Regressa contente, levou muita gente e nunca se cansa. Parece um barquinho lançado no Tejo por uma criança." É o Castilheiro. Um grande abraço ao Castilheiro e às pessoas que todos os dias atravessam o Tejo.
E que merecem um 18, ainda assim menos um ponto do que o pote, que levou com 19. Ana, dás nota a quem?
Sem poesia, podia citar talvez o "Sou como um rio" dos Delfins, é o meu título significativo. Para os utentes, claro, sempre um 20, mas vai para a administração demissionária da Transtejo, pela responsabilidade que assumiu e vai um 15.
Vai um 15 para a administração da Transtejo, que ontem apresentou a demissão. Ora, já tivemos Ari dos Santos. O José Manuel Fernandes foi muito enigmático a anunciar o vencedor. Mete um ministro, um deputado e um vestal. José Manela, o que é que se passa?
É verdade. Estamos na primavera. Já estamos a chegar à primavera e portanto temos ervilhas. Não sei se gostas disso com ovo.
É verdade, já aprendi a gostar muito.
Pronto, eu também gosto muito de ervilhas com ovo.
Finalmente, um tema sério.
Um tema que interessa.
E portanto, ontem ficámos a saber que se formos a um supermercado, como foi o caso de Guimarães Pinto, e se procurarmos ervilhas, entre ervilhas congeladas, ervilhas em lata, ervilhas cruas, ervilhas cozinhadas, elas podem custar entre 1,39 € e 5,98 €. E o que ele fez depois dessa constatação foi perguntar ao deputado do PCP e também, de alguma forma, ao que ele chamou os comunistas do Chega, os comunistas do PS e os outros comunistas todos que há na Assembleia da República, qual destes preços é que iam escolher, entre 1,39 e 5,98 €, para congelar o preço das ervilhas, se aplicassem as suas medidas de congelamento de preços, que, como é óbvio, levam àquilo que a Cláudia Azevedo disse ontem, que é prateleiras vazias. Quando há congelamento de preços, aconteceu sempre isso, até já aconteceu em Portugal. E até já aconteceu nos Estados Unidos, vejam lá. Porque também já houve essa tentação lá. E isso é recordado hoje por António Costa Silva, numa entrevista ao Dianoências, em que diz que ele, coitado, ao contrário da maior parte, quase todo o resto do governo, não andou só nos bancos da universidade e nos bancos dos grupos parlamentares, andou pelo mundo, tem a ideia de que quando faz estas coisas a economia funciona mal. E também disse que é contra o congelamento de preços, preto no branco, que é uma coisa que julgo que é o primeiro membro do governo a dizer isto com tanta clareza e clarividência, digo eu. E eu quero dar uma nota muito positiva às ervilhas, ao Carlos Guimarães Pinto, ao Costa e Silva. Por balanço, já agora, já me tinha esquecido dela, mas o Miguel lembrou-me no bom mau e vilão, à Cláudia Azevedo, por recordarem aquilo que é óbvio, não é com medidas administrativas que se resolve o problema da inflação. E é bom que tenhamos políticos e empresários a dizer preto no branco aquilo que se passa, em vez de irem na onda da demagogia e fica bem sempre nestas alturas. Portanto, para as ervilhas e estes políticos e empresários, eu vou dar, até porque é sexta-feira, uns generosos 16.
E estamos na época das ervilhas, temos aqui uns 16. Paulo, acompanhas as notas tão generosas que temos estado a ouvir esta manhã?
Não vou acompanhar essas notas.
Este dia não é normal.
Não é normal.
Repõe a normalidade, Paulo Ferreira.
Alguém tem que o fazer. Tarefas importantes. Até porque vou mudar de tema, e quero falar aqui da sequela de uma fita, um drama que esteve nas nossas salas em setembro e outubro, que é o Golpe das Pensões. A parte um foi nessa altura, nessa altura foi o Golpe das Pensões, o truque dos aumentos. A parte dois já tem guião, eu reparei nisso agora, e vai desenvolver-se ao longo deste ano, vai chamar-se o Regresso do Golpe das Pensões, a nova fórmula de cálculo. Bom, o que é que se passa? Nós todos lembramos aquele truque que o governo fez nas pensões em setembro, quando anunciou aquela meia pensão extraordinária, para pagar em outubro, como parte daquele pacote de ajuda às famílias, dizendo que aquilo já era parte do aumento que devia ocorrer, de acordo com a lei, em janeiro. E o governo, ao retirar metade do aumento em janeiro, cortou para sempre, já com efeitos a partir de agora de janeiro de 2024, cerca de 1000 milhões de euros das pensões, que é pagamento às pessoas. Vocês lembram-se que na altura o governo disse: "Não, calma lá, depois dos aumentos de 2024, nós vamos decidir isso durante 2023, como é normal, no final do ano, essas contas fazem-se nessa altura". Ora bem, nós já começamos a ter uma noção do que é que vai ser feito. Por quê? Porque na quarta-feira, o secretário de Estado da Segurança Social, Gabriel Vaz, esteve numa conferência, um debate sobre o futuro da Segurança Social, e ele já foi avançando qual é a ideia do governo. O governo defende então que a partir de agora a atualização das pensões, e vou citá-lo, passe a ser menos sensível a picos de inflação. Ele espera que as mudanças tenham efeitos já em 2024, portanto, cá está a tal conversa que o governo disse: "Ah, isso falamos depois, em 2023". Portanto, o governo vai agora já mudar tudo para que não seja reposto o aumento que ficou a ser devido aos pensionistas no início deste ano. Ele diz então que o objetivo é, no fundo, deixar que picos de inflação entrem no cálculo das pensões. E ele vai dizendo, e cito mais uma vez: "Já fomos pensando como é que isso pode ser feito e há maneiras, sem mudar a fórmula", diz ele, "sem mudar a fórmula de considerar períodos de referência mais alargados". Bom, percebe-se aqui a ideia, em vez de contar só com a inflação do ano anterior, que pode ter picos, como teve o ano passado, obviamente. Se nós considerarmos a média, imaginando os últimos cinco ou os últimos sete anos, obviamente que esses picos são esbatidos, são alisados. Agora, o governo já está a preparar uma narrativa, também ela não isenta aqui de truque, quer dizer, sem mudar a fórmula. Bom, podem não mudar a fórmula, mas se mudarem a forma como cada componente da fórmula, que é a inflação e o crescimento económico, são contabilizados, estão a mudar a fórmula, como é evidente. Isto é a mesma coisa que dizer: "Bom, nós não mudamos a fórmula, por exemplo, do cálculo da média de ensino superior. Bom, mas o exame final deixa de contar 50% e passa a contar 30 ou 70%. Portanto, a fórmula é a mesma, mas o peso de cada componente muda. E portanto, é isso que está a acontecer. Vamos lá ver, eu defendo há muito que este governo e os governos, de uma forma genérica, devem olhar para as pensões, porque aquilo é uma bomba-relógio, como é evidente. E tem que haver coragem, como se está a ver em França, por exemplo, agora, no caso lá é o aumento da idade de reforma, tem que haver coragem para dizer às pessoas: "Atenção, que temos que fazer aqui mudanças de fundo porque o sistema é insustentável". Agora, esta forma, às escondidas, sem enfrentar o problema, cortando de uma forma ardilosa, com truque e enganando as pessoas, é que não pode ser. O governo tem que olhar cara na cara com o país, com os pensionistas e dizer: "Meus amigos, isto é insustentável em termos orçamentais e para o sistema de Segurança Social. Portanto, vamos ter que fazer mudanças." Agora, reparem só nos vários truques. Já foi o truque do aumento em setembro. Agora o truque do não vamos mudar a fórmula, mas vamos considerar períodos mais alargados para a inflação ou para o crescimento, no fundo, é para perpetuar, de alguma maneira, o corte de 1000 milhões de euros que foi feito à escapa em setembro. E de facto, isto não é forma de fazer política, até porque não passa a mensagem certa às pessoas. Com estes truques em que o governo tenta fingir que não está a fazer aquilo que está a fazer, que são cortes, as pessoas não percebem a gravidade do assunto e elas próprias não tomam medidas, nomeadamente constituindo poupanças à parte para as reformas que não vão ter no futuro. Enfim, tudo isso é muito triste.
Além dessa questão quase de linguagem, há aqui pouca transparência.
Há pouca transparência e passa o sinal errado às pessoas. Se os governos, este e quem quer que seja, disser às pessoas: "Atenção que no futuro as vossas pensões vão ser muito menores do que aquilo que eram as pensões equivalentes há 10 anos ou ao que são agora". As pessoas têm que ter noção de que daqui a 10 ou 20 anos, a pensão que vão receber será muito inferior em percentagem às expectativas e ao seu último ordenado. A taxa de substituição de António José Marques anda cerca dos 80%, isto é, a primeira pensão recebida é 80% do último ordenado. Isto de um mês para o outro, e portanto, é uma queda de rendimentos muito grande. E as pessoas vão ter que esses 80% vão ser 70, 50 e 40%. E se as pessoas não forem alertadas, não vão tomar medidas elas próprias na sua vida. Anota. Olha, vai aqui um sete, o processo está a começar, portanto, a fita está ainda em rodagem. Já há um guião aqui, mas vai um sete na esperança de que o guião seja alterado e que o governo cresça um bocadinho e tenha coragem, vá lá dizer estas coisas cara na cara às pessoas, basicamente.
E por isso parte-se com um sete, num enorme contraste com as notas altíssimas que tivemos neste "E o Vencedor É", que não vai de fim de semana, já sabemos. Amanhã e domingo as edições são logo a seguir às notícias das 10h30. Quanto a nós, bom fim de semana.