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Começa agora mais um Yuven Sorey das manhãs 360. Carla, esta terça-feira, além do José Manuel Fernandes, está também conosco o Miguel Santos Carrapatoso. O preço das casas voltou a subir e muito. O CDS também quer ser valorizado. A TAP voltou a estar na mira do Tribunal de Contas e a esquerda quer renascer depois da derrota eleitoral. José Manuel Fernandes, Francisco Louçã apresentou ontem um caminho num artigo de opinião do jornal Público, que calculo que tenhas lido com interesse.
Li.
E então?
Eu estou me a rir, mas não sei se não devia chorar em vez de rir, porque basicamente o que Louçã quer é um povo novo. Ele, aliás, tem uma frase que eu acho muito lapidar e reveladora. Ele diz que é preciso criar povo. Nós tínhamos visto esta preocupação de criar povo de uma forma irônica naquela frase de Bertolt Brecht, que disse que se o povo não presta, cria-se um povo novo, ou vem um povo novo, ou pedimos um povo novo. E Louçã, num texto com referências bíblicas, tem um título bíblico, a certa altura diz que, de facto, é preciso criar povo. Isto é rigorosamente entre aspas, eu estou a citar, não estou a inventar. Criar povo, sair das redes sociais. Enfim, é um sinal de que há aqui uma total desorientação. Eu devo dizer que isto não é totalmente surpreendente. Eu quando estava aqui a fazer as buscas, tropecei num texto que não me recordava, confesso, mas que foi escrito aqui pelo nosso Miguel Pinheiro há muito pouco tempo, no final da convenção do Bloco de 2023, acho eu. Deixe-me só ver. Ou 24. Já foi depois do mau resultado do ano passado, e em que ele, a propósito daquilo que tinha sido a linha de orientação da direção de Mariana Mortágua, comentava que aparentemente o Bloco quer também fazer como o Brecht sugeriu e ter um povo novo. Isto foi exatamente, deixe-me ver aqui a data pra não me enganar. Não tenho aqui a data. Não, tenho. 23 de maio. 28 de maio. Olha, foi 28 de maio, foi data curiosa. 2023, este texto. E ele basicamente repara como o Bloco não quer mudar nada, acha que não é preciso mudar nada e basta fazer força para eventualmente ter um povo novo. As coisas complicaram-se, não é? E agora a expressão exata não é mudar de povo, é criar povo. Mas no fundo, isto é um sinal de que em vez de procurar olhar para o que esteve errado nas políticas, o Bloco acha que o problema está nos eleitores e há outros aspectos. Enfim, o texto do Francisco Louçã daria muito que falar, mas uma das coisas curiosas é ele também considerar que o nosso atual regime acabou. Já não temos o atual regime e por isso é que precisamos ter um povo novo. Eu hesito com a nota a dar, porque isto ou merece uma nota como aquelas que o Francisco Louçã teve na faculdade, que eram notas boas, 16, 17, pela imaginação, ou um zero pela ausência total de noção. Entre noção e imaginação, fico pela noção. E acho que por este caminho, nem o Bloco, nem a esquerda que estiver com esse tipo de raciocínios vai ir alguma vez a parte alguma.
Portanto, vais dar uma nota negativa, vais dar mesmo zero?
Exatamente, vou dar mesmo zero, vou dar mesmo zero, nota negativa.
É um texto do Francisco Louçã de ontem no Público, é uma página inteira.
Olha, como a mulher de Lot, que é o título do texto, como a mulher de Lot também não tem nome.
Um zero, então.
É só a mulher de Lot. Neste caso, é a viúva do povo, Francisco Louçã.
Um zero então para a reflexão e as propostas que Francisco Louçã deixa nesse artigo de opinião. Já do lado do CDS, Miguel, bom dia, o CDS de Lisboa está a tentar também marcar a sua posição numa coligação pra Câmara de Lisboa.
É verdade, e continuando a falar de partidos relevantes, vamos falar um pouquinho de CDS.
Pode falar.
Já tinha sido um pouquinho risível a intervenção de João Almeida no debate do programa de governo, em que se galvaniza por a esquerda ter desaparecido, esquecendo que o CDS já não vai a votos sozinhos há algum tempo. Agora o CDS de Lisboa decidiu-
E quando foi não foi bem.
É verdade. Aparentemente, uma parte do CDS esqueceu-se disso, já não sabe o que é ir a votos sozinho há muito tempo e portanto está muito feliz que a esquerda tenha quase desaparecido. Bom, resta saber a força do CDS. Mas por falar em força, o CDS de Lisboa decidiu fazer ontem uma demonstração de força, reuniu em plenário e decidiu que quer fazer parte da coligação de Carlos Moedas, mas quer ser valorizado e exige um tratamento de respeito. Eu acho isso tudo ótimo. Acho que o CDS, como qualquer outro partido, deve ser levado a sério e deve lutar por aquilo em que acredita e pela força que acha que tem. Agora convém é que se decida, de facto, e que tome uma posição realmente de força, se quer ou não fazer parte De uma coligação deve ser claro e cristalino até para que os próprios eleitores, aqueles que restam, se identifiquem com o partido. O CDS está há muito tempo a criar entraves à coligação de Carlos Moedas. O CDS continua preso ao resultado que teve em 2017, um bom resultado de Assunção Cristas, mas é preciso que alguém diga aos atuais responsáveis do CDS que já não representa a força que teve em 2017, o resultado que teve em 2017. Portanto, naquele plenário que ficou decidido, para quem não acompanhou o texto e para quem não teve a oportunidade de ler o texto da Mariana Lima Cunha, foi que quer fazer parte, mas quer ser levado a sério. Ora, o que significa ser levado a sério? O CDS tem atualmente um vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Filipa Anacoreta Correia. Acontece que este CDS não gosta de Filipa Anacoreta Correia, o que é um azar, e portanto quer que o presidente da Câmara de Lisboa, o Carlos Moedas, faça uma nova negociação em que ao mesmo tempo que valoriza o atual CDS, não dá protagonismo à Iniciativa Liberal, o protagonismo que o CDS gostaria de ter e que a Iniciativa Liberal também ambiciona ter. E portanto é isso, o que ficou decidido foi que querem fazer parte, continuam a ser parte da solução, querem fazer parte da coligação de Carlos Moedas, mas querem ser valorizados e estão muito insatisfeitos com a forma como Carlos Moedas os está a deixar ansiosos.
Estamos aqui a falar na negociação de lugares. É isso, Miguel.
Era aí que eu queria chegar. O CDS quer ter eventualmente dois vereadores, o mesmo número de vereadores que a Iniciativa Liberal, nem menos nem mais, e que um dos vereadores não seja Filipa Anacoreta Correia, que entretanto já anunciou que está de saída do CDS. É tudo perfeitamente legítimo. O CDS tem todo o direito de exigir o que bem entende. Agora, está numa posição de menos força negocial e, portanto, convinha que percebesse isso, a menos que queira, de facto, ir a votos sozinho, coisa que ameaçou fazer antes deste plenário. Enfim, o plenário acabou por decidir de forma unânime que vão fazer parte da coligação, mas convinha que o CDS percebesse que não tem a força que teve noutros tempos e que fazer este tipo de ameaças torna-se um pouco ridículo, tendo em conta que o partido já não vai a votos sozinho há muito tempo, que em Lisboa teve um bom resultado em 2017. É verdade, mas que realisticamente já não representa aquilo que representou no passado. Mas o CDS está a fazer pela vida, está a ameaçar Carlos Moedas.
Miguel, até é normal que o CDS, neste contexto da Câmara de Lisboa, faça esse tipo de exigências, porque se nos lembrarmos, nas últimas eleições, a Iniciativa Liberal concorreu sozinha. Houve o risco de haver uma câmara de esquerda, do PS, por causa dos votos que foram pra Iniciativa Liberal e é natural que o CDS lembre essa questão da antiguidade, de uma tradição de coligações, de estar sempre lá, agora que a Iniciativa Liberal também se quer juntar à coligação. Eu acho que até certo ponto, mesmo não tendo o CDS a capacidade de negociar o peso que vem dos votos, há aqui um outro lado político em que o CDS fala.
A aliança mais antiga.
Mais antiga, exatamente.
Mas a antiguidade não é um posto, acho eu. E há aqui uma coisa que eu acho que particularmente traz.
Eu acho que é.
Sim, eu valorizo a tradição. Agora, esta ideia de que já se esteve, tem que se estar, é diferente, sobretudo porque na política as coisas evoluem. Nós não temos hoje o mesmo equilíbrio de poderes que tínhamos no passado.
E não está em condições de fazer ameaças, acho eu.
Não, é que no caso do CDS, uma das coisas que está aqui a acontecer e que é, a meu ver, tristemente reveladora, é que boa parte destes problemas que estão a acontecer decorrem de guerras intestinas dentro do CDS. O CDS cabe num quarto e quer caber numa gaveta. Porque não querem que ninguém que seja impuro esteja, e impuro pro CDS é não fazer parte da direção do momento. Ter feito parte da direção anterior.
E isso explica por que estão onde estão.
Claro, ajuda a explicar, pelo menos, por que é que estão onde é que estão, mas parece que não aprenderam nada. Porque no fundo, esta questão com a Anacoreta Correia, que ganhou por mérito próprio direito a fazer parte da lista de Carlos Moedas, porque foi um dos seus principais colaboradores, de repente eles acham que ele não conta. Tem que ir como supranumerário, qualquer coisa desse gênero, porque não faz parte do grupo que atualmente manda no CDS. Isso é que é, a meu ver, bastante trágico.
Miguel, queres dar nota ao CDS, é isso?
Vou dar nota ao CDS. Não sei bem que nota é que hei de dar, porque é difícil quantificar, porque podia fazer uma brincadeira com a porcentagem de votos que teve nas últimas eleições, mas nós não sabemos. Mas vou dar um cinco, na esperança que o CDS tome algum juízo e decida fazer de facto parte da solução e não parte do problema, porque, e estava a acabar essa ideia há instantes, arrisca-se a ser dispensado por Carlos Moedas, porque se continuar a arranjar problemas como tem arranjado à coligação Novos Tempos, Carlos Moedas pode decidir que talvez o CDS seja dispensável.
Carlos Moedas que ainda não anunciou que é candidato.
É um mini tabu, chamemos assim.
É um mini tabu. Um cinco então para o CDS em Lisboa e as negociações para a aliança às autarquias. Bruno, entretanto, os preços das casas estão com valores record.
Sim, aumentaram no primeiro trimestre os preços, 16%. Eu estava a ler o artigo da opinião da Helena Garrido no Observador. Ontem tinha visto esta notícia e de facto, eu acho que estamos perante o maior problema para o dia a dia das famílias portuguesas, este da habitação. Também já tinha falado aqui anteriormente.
Para uma parte das famílias.
Sim, e para muitas famílias jovens, jovens que querem constituir família.
Querem sair de casa dos pais.
Querem sair de casa dos pais e isso é um problema, não para quem já...
Basicamente é um mercado também dual a esse nível. Isto é, quem já está dentro, está a ganhar com isto.
Está a ganhar. Há uma valorização, claro.
Que é o problema da primeira casa.
O problema é quem quer entrar.
Claro, quem quer entrar. E se uma das prioridades do país é fixar os jovens, é fixar o talento, eu não consigo perceber como é que isso vai acontecer com estes preços e se forem empurrados precisamente pelas dificuldades no acesso à habitação. E estamos a falar de um panorama em que temos, pela primeira vez desde há muitos anos, o ressurgimento de bairros de barracas, de pessoas que não têm alternativa. Estamos a falar de pessoas de classe média-baixa que não conseguem entrar neste mercado, quer no mercado de arrendamento, que está completamente a ferver, quer no mercado da compra de casas, e aqui até nas soluções o governo contribuiu para o problema. Com todas as boas intenções que se possam reconhecer ao governo, aquelas medidas de apoio à compra de casa por parte dos mais jovens, a isenção do imposto de selo, e a garantia bancária, isso só veio aumentar a procura e aumentando a procura, não havendo mais oferta, só costuma ter um resultado, que é o aumento dos preços. Mas aqui a questão, é possível não reconhecer o problema, acho que já passamos essa fase, mas durante algum tempo houve uma falta de assumir que estávamos perante um problema. Entretanto, o problema foi reconhecido e também passou a ser um problema as soluções que entretanto...
Chega-se a um ponto, se há casas no mercado, qualquer coisa que tu faças para ajudar quem precisa ter casa, vai aumentando o desequilíbrio e aumentando a procura.
Aumenta a procura, claro. Portanto, e referindo esse artigo da Helena Garrido, tem que se atacar a questão da oferta, tem que haver mais oferta. Mas isso já tem sido falado. O que custa é ver a inoperância dos governos e deste governo, porque pode-se dizer que está lá só há um ano, agora um novo governo, mas a verdade é que é preciso agir e é preciso atuar pelo lado da oferta. E parece que o que se vê é uma grande inoperância. Pode-se falar da questão da mão de obra, da dificuldade que as empresas do setor da construção têm de arranjar mão de obra.
E de licenciamentos, sobretudo.
Mas têm sido apontados outros problemas e que não têm sido resolvidos. Não se têm atacado esses problemas dos licenciamentos, do excesso de burocracia. Não vamos aqui reduzir a zero a necessidade de regras, porque algumas estão lá para algum motivo. Não é baixar aqui os limites para que depois seja a lei da selva de cimento. Mas a verdade é que é preciso atuar do lado da oferta, porque estamos perante um problema gravíssimo. Eu sei que a imigração dá votos, é uma das preocupações dos portugueses, mas também como disse a Helena Garrido nesse artigo, parece que de um momento para o outro, só temos o problema da imigração e não temos. O problema da habitação é um problema que está aí, é muito grave, está a afetar transversalmente muitas famílias. Algumas não são prejudicadas porque já estão dentro do mercado, mas há outras que são prejudicadas. E se nós queremos manter cá os jovens, como todos os governos têm dito, é preciso atacar este problema, que não tem sido atacado, pelo menos da melhor forma.
A nota vai para cá então, Bruno?
Vai para o governo, por estas medidas que por muito bem-intencionadas que fossem, tiveram o resultado ao contrário, aumentando ainda o preço das habitações, agravando o problema. Não sei que foi, é um oito.
É um oito para o governo e as políticas para a habitação até agora. Paulo, e na TAP, mais uma vez o Tribunal de Contas a encontrar aqui problemas nos gestores.
Nos gestores e sobretudo, isto obriga-nos a refletir porque é que isto se passa. Aliás, isto tem um pouquinho a ver com a história das licenças e das regulamentações e da burocracia, basicamente é isso que estamos. O Tribunal de Contas fez uma auditoria, aponta ilegalidades em 29 contratos executados pela TAP, no montante de 473 milhões de euros. São ilegalidades, são irregularidades, as responsabilidades são dos gestores ou ex-gestores da empresa. Pode-se pensar: "Bom, grande marosca que é para aqui quase 500 milhões de euros". Não, vamos ver concretamente o que isto é. Isto já agora apanha a gestão anterior e a atual gestão, desde Christine Ourmières-Widener até Luís Rodrigues, que é o atual CEO da TAP, e vários gestores intermédios da TAP. Estamos a falar de quê? A TAP enquanto empresa pública, está obrigada a ter o visto prévio do Tribunal de Contas para cada contrato que faça. Estamos a falar de que tipo de contratos? Compra de combustível para os aviões, serviços de catering para os aviões ou de handling. Os serviços de handling, a TAP tem que pagar, obviamente, o trabalho com as nossas bagagens, porque é feito por empresas de handling. Nós pagamos o bilhete à TAP, que depois paga esse serviço às outras empresas que o prestam. Estamos a falar de pagar os leasings dos aviões. Estamos a falar de um seguro para acidentes de trabalho. Ou seja, estamos a falar de questões absolutamente banais, essenciais para o funcionamento de uma empresa como a TAP. E estamos a falar de mercados, muitas vezes, que não se coadunam com as regras burocráticas portuguesas de ter que ir o visto para o Tribunal de Contas, de terem que esperar.
Mas não te esqueças que a TAP não é uma empresa, a TAP é uma bandeira.
Pois, é estratégica.
É um símbolo. É como as Caravelas. Aquilo não é uma empresa.
Mas esse é o ponto. Quando se amarra de tal maneira uma empresa que trabalha num setor altamente concorrencial como é o da aviação, às regras do Estado, é isto que acontece. Basicamente, o que temos aqui? O Tribunal de Contas está a fazer o seu trabalho, que é olhar para a lei e saber se ela foi ou não cumprida. O Ministério Público irá agora fazer o seu trabalho de saber se aqueles gestores vão ser, de alguma forma, processados criminalmente ou não, e que indemnizações, eventualmente, é que eles poderão ter que pagar. E os gestores também fizeram o seu trabalho porque lhes compete a eles, dentro das regras dos mercados, cumprir e manter a empresa em funcionamento. O que é que está aqui mal? São as regras, obviamente. Isto é mais um ponto para a forma como as nossas regras labirínticas são absolutamente incompatíveis com isto. Perguntas que isto gera: que gestores loucos é que se vão querer meter nisto, agora que a empresa vai ser privatizada parcialmente, e que acionistas é que vão querer entrar minoritariamente no capital, numa empresa que vai continuar pública, segundo o governo disse, vai só privatizar menos de 50% do capital e portanto estas regras continuam a verificar-se. Enfim, é um novelo absoluto. Isto resolve-se de uma boa maneira: é colocar ou devolver a TAP de onde ela não devia ter saído depois de lá ter estado, que é basicamente entregue aos privados, como acontece em todos os países europeus. Não há Estados já a mandar em empresas de bandeira, nem outras. Portanto, liberte-se a TAP disso, porque senão vamos continuar neste imbróglio absoluto.
Libertem a TAP.
Libertem a TAP.
A nota.
Deixem a TAP voar, se quiseres.
Só falta a nota para nós. Isto está muito fraquinho entre o zero e o oito.
São 12 gestores da companhia, eu dou um 12 apesar de tudo. Não há sinais de irregularidades para além do papel, que falta o papel, onde é que está o papel, é só isso que está em causa. Dou um 12 aos gestores da companhia, que ainda assim são corajosos para aceitar.
Só queriam que a TAP voasse.
Exatamente.
E o vencedor é: regressa mais logo na tarde política.