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Está no ar uma nova edição de "Iuvens Tuore" na Rádio Observador. Hoje, nas manhãs 360 de fim de semana, contamos com a análise do José Manuel Mestre, jornalista da SIC, e o António Costa, publisher do jornal Eco. A moderação é contigo, Miguel Cordar.

Bem-vindos, José Manuel Mestre, António Costa. Bem-vindos a mais uma edição de "Iuvens Tuore". Bom dia, bom fim de semana. Vamos começar pelo tema que marca toda esta semana, para lá da guerra. O tema que marca em Portugal é um regresso que se pode confirmar ou não confirmar. Esta é a grande dúvida. Pedro Passos Coelho, António Costa, o que têm a dizer sobre um conflito não armado que começou esta semana?

Olha, tinha tanto pra dizer, mas não vou dizer tudo que tinha pra dizer. Mas vou dizer o seguinte: comecemos pelo fim. Pedro Passos Coelho repetiu o que já disse inúmeras vezes, não é candidato, mas a forma como disse ontem, sexta-feira, na Faculdade de Economia do Porto, numa conferência a que foi e que já estava marcada, fez-me recordar uma campanha do PSD: deixem o Luís trabalhar. Porque basicamente o que Pedro Passos Coelho disse, num tom irônico e talvez até provocador, foi dizer: "Mas se queres trabalhar, vai lá trabalhar. Não arranje desculpas." E a verdade é que Pedro Passos Coelho já tinha definido. Fazendo aqui um parêntese, eu tive a oportunidade de entrevistar Pedro Passos Coelho e publiquei a entrevista no Eco na segunda-feira, uma entrevista longa. Já não dava entrevistas há muitos anos. Exceção feita à entrevista que fez aqui precisamente pra Observador no âmbito dos 50 anos, mas de uma natureza, obviamente, muito diferente. Esta foi a primeira entrevista de natureza de atualidade político-econômica e governativa. E ele próprio, nessa entrevista, disse várias coisas. A entrevista é normalmente longa e fi-la normalmente longa, porque obviamente já não dava uma entrevista há muitos anos. Mas diz sobre esta matéria duas coisas importantes. Não é candidato, repetiu. Quando for candidato, vai anunciá-lo. Não vai andar aqui a fazer jogos de bastidores pra uma qualquer salto ao poder, vai anunciá-lo e vai dizê-lo. E não vai ser limitado. Disse antes da intervenção recente de Luís Montenegro, na qualidade de líder do PSD. Não vai ser limitado nas suas intervenções públicas e políticas e da avaliação da realidade político-econômica do país por quem quer que seja. A resposta de Luís Montenegro foi, eu creio, um sinal de enorme fraqueza e que durou 48 horas. Isto é, Luís Montenegro, de uma forma, eu diria, inédita, inaudita até, porque é primeiro-ministro, decide lançar uma espécie de moção de confiança ao seu próprio partido. Há um ano, nós fomos a eleições porque Luís Montenegro entendeu, na sequência do caso Spinonviva, que não tinha condições de governabilidade e apresenta uma moção de confiança que foi chumbada e fomos a eleições. Isso não é estranho, acontece. O que é mais estranho é um primeiro-ministro lançar uma moção de confiança no seu próprio partido quando é primeiro-ministro. Eu quero recordar que Luís Montenegro tentou derrubar Rui Rio, creio que duas vezes, aliás, em conselhos nacionais, e foi derrotado, e Rui Rio não era líder do país, não era primeiro-ministro, era líder do PSD. Quando é um primeiro-ministro que faz isto, de facto, o que se demonstra é uma enorme fraqueza e uma enorme revelação de desconforto sobre as condições em que está a exercer a sua função, que só dependem do próprio, só dependem de Luís Montenegro. Ao destrunfar o que alguns consideraram um golpe de mestre, não é uma observação pra ti, Mestre, mas alguns consideraram um golpe de mestre de Luís Montenegro, que acabou por durar 48 horas e que não vai terminar no dia a seguir às eleições do PSD, em maio, acaba por remeter-nos pra isto. O ponto, o foco da discussão não deve ser se Pedro Passos Coelho é candidato ou não. O que está a fazer Luís Montenegro e o governo que justificam este sinal de fraqueza e esta necessidade de relegitimação do próprio líder do governo.

Mas Luís Montenegro não estará precisamente a tentar fazer isso? Que a discussão esteja sobre Pedro Passos Coelho é candidato ou não pra evitar uma contestação dos políticos do governo?

Não, mas não há contestação. Um governo tem que se habituar a viver com críticas. Pedro Passos Coelho também foi muito criticado, e bem, e fez coisas muito bem, fez coisas muito más. E teve que ouvir as críticas de linhas como a de Ferreira Leite, por exemplo, ou de Marcos Mendes todos os dias ao domingo. Faz parte, mal seria se um primeiro-ministro, porque tem alguém do seu próprio partido, mesmo que seja uma pessoa relevante. Outra coisa seria se houvesse evidência ou se o próprio Pedro Passos Coelho dissesse: "Eu quero candidatar-me." Ou não dizendo, se andasse a promover, provavelmente, aquelas coisas que se via há muitos anos e não se via há muito tempo. Eu creio que desde António Costa, com António José Seguro, curiosamente, que é reuniões secretas, tentativa de fazer grupos de combate nos órgãos do partido. Nada se viu disto. O que se viu foi publicamente

críticas duras, por mais duras que sejam, críticas públicas à governação ou ao que não está a ser feito pela governação.

Há uma história infantil chamada "Pedro e o Lobo", uma história infantil contada a partir de música. Aqui o lobo parece que se chama Pedro e, portanto, José Manuel Mestre queres falar de Luís e o Lobo.

Essa fábula é mesmo a história desta realidade, a história de Luís e do Lobo. Pegando no que o António estava a dizer, eu acho que deveria ser lançado um movimento "Deixem o Luís deixar a tática e passar à política". O problema é que Luís Montenegro acha que isto se resolve com tática e ele só resolve o problema que tem com Pedro Passos Coelho e com o novo presidente da República, isto como diz o povo, anda tudo ligado, quando passar à política e não é com tática. Resumindo, eu acho que há uma entrevista na Vixi Suave da Rádio Observador, notável, de Vasco Rato, uma das pessoas mais próximas de Pedro Passos Coelho, que vale a pena ler para perceber aquilo que eu percebi desde a primeira hora. Pedro Passos Coelho não se colocou no espaço público para se candidatar amanhã à liderança do PSD. Não é por acaso que João Cotrim Figueiredo perde com 16% e lança um movimento. Também não é por acaso que Marques Mendes, o candidato apoiado por Luís Montenegro, teve 11,3% e o candidato com quem provavelmente Pedro Passos Coelho simpatizava, mas nunca o disse, sem que isso tenha acontecido, teve 16%, João Cotrim Figueiredo. Há aqui uma visão de país com a qual João Cotrim Figueiredo e Pedro Passos Coelho se identificam. E nada disto é por acaso, por quê? Temos um presidente da República que, pelo que disse, vai apostar em defender causas mais sociais do que económicas. Não quer que as reformas do Código de Trabalho sejam como o governo tem proposto. Se não forem alteradas, se não tiverem o acordo da UGT, diz que vai vetar. Quer que a saúde mude, vai para os locais onde houve a tempestade mais afetados na primeira presidência aberta e promete não se calar enquanto os apoios extraordinários não chegarem ao ordinários, ou seja, não chegarem rapidamente ao terreno. E este presidente mais social coloca um desafio a Luís Montenegro, que é: vai por este caminho ou vai pelo caminho mais liberal que prometeu de início, que prometeu, por exemplo, com a reforma do Código de Trabalho? O que aqui, claramente, Pedro Passos Coelho vem dizer ou vem colocar uma trincheira. Luís Montenegro tem de se definir. O que está em causa para João Cotrim Figueiredo, como para Pedro Passos Coelho, é a visão de país. Ele já o disse claramente e aparecer agora a fazê-lo é dizer que Luís Montenegro tem de escolher, tem de deixar a tática, tem de passar à política, como ele sugeriu, tem que passar a trabalhar. Não pode condicionar o país por quem nem sequer é candidato à liderança. Se Luís Montenegro for por aí, vamos ter Pedro Passos Coelho sem ser candidato durante muito tempo, afrontando, eventualmente, o Presidente da República. Agora, o que este lado da visão política do país, ou se quiserem, uma visão económica do país quer é condicionar Luís Montenegro. Que caminho é que Luís Montenegro vai escolher? E Luís Montenegro escolheu a tática outra vez, que é: então venha de lá Pedro Passos Coelho. Não vai resultar em nada. Foi destruído, como disseste e muito bem, António, logo de imediato esse conceito. E agora temos aqui Luís Montenegro com um risco, que é o risco do Pedro e do Lobo, neste caso é o Luís, e o lobo que lhe parece no horizonte e ele clama contra esse lobo: cuidado quem vem aí, é que um dia não é pela oposição que Luís Montenegro pode cair, mas é dentro do PSD. E ele tem que escolher e agora foi obrigado, está a ser obrigado a escolher por Pedro Passos Coelho, também indiretamente por João Cotrim Figueiredo, que se colocou no espaço público e tem Pedro Passos Coelho do seu lado uma maioria que se forma com os deputados do Chega. E o que Pedro Passos Coelho está a dizer é que Luís Montenegro, já o disse várias vezes, tem de aproveitar essa maioria para fazer as reformas que esta visão de país quer. E não teve problemas em cortar com aquele que foi o seu líder parlamentar. E o seu líder parlamentar agora tem que escolher ir por um lado onde tem o apoio do PS ou então substituir esta visão ou juntar-se a esta visão de Pedro Passos Coelho, tendo Pedro Passos Coelho silencioso porque a realidade que ele defende está a ser aplicada e aí vai ter a oposição à esquerda a crescer. E Pedro Passos Coelho será, de um modo ou de outro, mais tarde ou mais cedo, o lobo que vai aparecer na casa mesmo, não é na quinta, mas é a entrar pela casa de Luís Montenegro adentro. Só mesmo para terminar. Eu acho que lendo tudo o que foi dito e tendo entrevistado Passos Coelho, eu chego a uma conclusão: Passos Coelho não vai precisar dizer se é candidato ou não.

Pois não.

Ele um dia ou é chamado ou não é chamado. E se não for chamado, não será candidato.

Exatamente.

Se os militantes do PSD, estamos a falar dos militantes do PSD na sequência ou desgaste do governo, ou porque Luís Montenegro vai embora, por alguma coisa, ou porque perdeu eleições. E os militantes do PSD é como se isto vai evoluir de uma forma um bocadinho

Contrário ao que é normal. Passos Coelho não vai precisar de anunciar: "Eu quero ser candidato."

Ao antigo PSD, que normalmente só fazia isso na oposição, quando um líder não lhe servia, ia buscar outro. E agora pode acontecer que essa realidade volte a acontecer. Está nas mãos de Luís Montenegro e da capacidade de liderança do governo afrontar essa realidade, mas é isso que está e não adianta Luís Montenegro marcar um congresso todas as semanas.

Não.

Vamos às notas. António Costa, que nota para tudo isto?

Eu dou um oito a Luís Montenegro, sem querer ser ofensivo, obviamente, mas eu acho que Luís Montenegro, como pedia na campanha, tem mesmo é de trabalhar.

José Manuel Mestre?

Eu vou pela positiva, o vencedor da semana é outra vez Pedro Passos Coelho, usando o nome do programa. Luís Montenegro jogou uma carta, mas essa carta não fez dele o vencedor. O vencedor é o seu futuro, ou não, adversário interno.

Temos ainda seis minutos, vamos tentar abordar outros temas. António Costa, queres falar da economia?

Sim, quero falar da tempestade que temos aí pela frente. A nós, no país, já não nos bastava uma coisa que saiu da agenda política, parece que afinal já não é preciso PTRR nenhum. Isto, de repente, em duas ou três semanas, foi anunciado com tanta relevância e há duas semanas saiu da agenda. Já não se fala disso, parece que não é necessário, o que é uma coisa um pouquinho estranha. Mas veremos nas próximas semanas o que o governo anda a fazer sobre isto, quem é que o está a coordenar, quais são as linhas com que se vão coser, porque, na verdade, a região centro foi destruída, não melhorou por milagre. Os problemas estão lá, as empresas estão lá. Que se saiba, as empresas ainda não tiveram acesso às linhas de garantia que foram criadas. Não é porque ninguém queira dizer, não vão ter acesso é por burocracias e modelo de funcionamento. Continua a haver necessidade de apoiar muitas empresas e muitas famílias.

Nós estamos até numa semana em que foram apontadas as primeiras previsões de prejuízos em muitos sítios. Foram dados os primeiros números.

E, portanto, isso saiu estranhamente da agenda, mas como se não bastasse ao país esse problema, que é um problema gigantesco. Vem agora esta guerra no Medio Oriente, o ataque ao Irão, as consequências do Estreito de Ormuz, o preço do combustível, que nós sabemos, na segunda-feira vai aumentar 19 cêntimos, ou coisa que o valha. Porque há um subsídio, uma redução do ISP, que se não teria ido quase aos 25 cêntimos, o que é um valor absolutamente brutal. A reunião do BCE para decisão de taxa de juro é 18 e 19 de março e veremos. Os primeiros sinais são de que o BCE, perante isto, ganha força a probabilidade de ter que vir a subir juros, veremos a contaminação dos preços de energia.

Na última guerra não foi tão repentino, foi um bocadinho mais gradual.

Foi, mas a verdade é que há um efeito muito rápido.

A realidade económica também era diferente.

Era diferente, houve um efeito muito rápido. Também houve um conjunto, nomeadamente petrolíferas e empresas que fizeram stock com risco, isso pressionou procura, pressionou preço. Veremos como é que isto vai impactar os preços. E obviamente, o BCE até chegou muito tarde à última crise de preços que tivemos e, portanto, a tendência do BCE será agora responder de forma mais rápida.

E, portanto, com as coisas que podemos ter, por exemplo, na habitação.

Uma subida de Euribor, obviamente. Vamos voltar a discutir isto. Apetece-me dizer que a duração conta. Neste caso, estamos a falar de uma guerra, a duração conta mesmo. Vai ser determinante perceber se a guerra vai durar e vai prolongar-se mais três a quatro semanas ou, como ouvia esta manhã nas notícias internacionais e também já nacionais, se já se antecipa meses de guerra naquela zona. E é mais um factor enorme de pressão para um ano que vai ser, de facto, muito atípico do ponto de vista económico. Enfim, não sou conselheiro fiscal nem de finanças pessoais, mas aconselhava as famílias a reavaliarem operações de compra que tenham maior porte nesta fase, porque o ano é mesmo de incerteza.

Neste contexto, que nota atribuís?

Atribuo um três ao BCE, que vai ser muito determinante, porque provavelmente terá que fazer uma coisa que nós não gostamos, que é subir juros, mas que é crítico que o faça a tempo e horas, para que as expectativas de inflação sejam ancoradas de forma correta e para que isso dê sinais às famílias e às empresas sobre o perfil de despesa e de encargos que devem ter nos próximos meses.

José Manuel Mestre.

Sim.

Só acrescentar uma coisa, que é, de facto, vêm aí tempos difíceis, sobretudo para cada um de nós, mas eu, que nunca tive inveja de nenhum governante, cá está mais um desafio para Luís Montenegro, que já não lhe bastava o da política, que é ter uma economia que pode criar-lhe muitos problemas. Não vai ter vida fácil também por este lado, nem ele, nem o ministro das Finanças e muito menos os cidadãos. Como se diz, a guerra promete durar.

Sim, uma última nota, porque saiu ontem, sexta-feira, um rating da Fitch, que, na verdade, não alterou o rating de Portugal, mas deu perspetivas positivas. O que mostra uma coisa que é muito importante, e que eu creio que os portugueses já aprenderam na última década, é que é mesmo muito importante ter contas públicas com excedente, precisamente porque é isso que permite que agora, perante estes riscos, o Estado tenha capacidade de responder a eles De forma sustentada, sem voltarmos ao que vivemos em 2011.

José Manuel Mestre, um minuto e meio para falares de arrefecimento global em Belém.

"Habituem-se", diria António Vitorino, que desistiu de concorrer a Belém. Há um presidente que é completamente diferente do que tinha acontecido. A única entrevista no espaço público que apareceu desde a noite das eleições já tinha sido dada, foi um programa mais ou menos de entretenimento, histórias de vida na SIC, do Daniel Oliveira. Temos um presidente completamente silencioso, à Cavaco, e eu acho que vai ser muito assim. Mas este presidente, que vai marcar uma diferença total com Marcelo Rebelo de Sousa, não é o presidente que julgavam. Ele fez uma primeira volta de uma campanha, eu tinha dito aqui que passava à segunda volta, entre os que havia dúvidas, quem tivesse uma campanha de maior proximidade à Marcelo da primeira eleição e de maior intensidade à Jorge Sampaio de 96, e ele fez as duas coisas contra, eventualmente, algumas vontades, fazendo tudo como entendia. Na segunda volta, fez uma campanha como se estivéssemos na pandemia, como Marcelo fez na pandemia, porque havia o problema do estado e tudo o que causou. E depois, por exemplo, as noites eleitorais nas Caldas da Rainha, os próximos diziam-lhe que não, e ele levou aquilo em frente. Este é um presidente que vai responder a uma ou duas perguntas quando entender, vai ser completamente diferente de Marcelo, mas muito teimoso naquilo que quiser levar em frente. E Luís Montenegro vai ter de ter isso em conta e falará muito pouco. Seguindo aqui, já foi um bocado Sampaio, um bocado Marcelo, e agora vai ser muito Cavaco, falando pouco e com muita assertividade. É isso que se espera. Temos de falar disto porque estamos na véspera quase da eleição.

Da tomada de posse.

Da eleição, da tomada de posse. É completamente diferente este presidente que aí vem, mas cuidado, porque ele vai tentar ter os portugueses, os eleitores como sua âncora, mas também não pode afrontar a comunicação social. É evidente que ninguém está à espera que ele governe com a comunicação social ou que ele presida com a comunicação social e não vai fazer.

Nota final para este arrefecimento global em Belém.

Na semana que deveria ser para Marcelo, acaba por ser uma nota de vencedor da semana pela estratégia que conseguiu impor mesmo antes de ser eleito, tornando claro o que aí vem.

José Manuel Mestre, António Costa, muito obrigado e boa continuação.

Obrigado, bom fim de semana.