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E o Vencedor é na Rádio Observador e hoje à Judite França juntam-se o Alexandre Borges e o Pedro Benevides. Vamos olhar para o debate de ontem entre André Ventura e António José Seguro. Também a entrevista de Henrique Gouveia e Melo esta manhã aqui na Rádio Observador. E ainda temos, obviamente, de falar da cimeira entre Donald Trump e o príncipe saudita Mohammed bin Salman, com a presença ou não, ainda não sabemos, ainda não ouvimos, de Cristiano Ronaldo na Casa Branca. A história de como o miúdo do Andorinhas foi parar a Washington. Isso fica mais à frente aqui neste "E o Vencedor é". Vamos começar pela entrevista do candidato Gouveia e Melo esta manhã na Rádio Observador e como avaliam, meus senhores e minha senhora, o desempenho do candidato? Foi uma entrevista esclarecedora, Pedro Benevides?
Desculpe, eu estava aqui a pensar um bocadinho na resposta que te ia dar. Foi esclarecedora, não tanto pelo que o candidato disse, mas por aquilo que nós podemos perceber, já com alguma solidez, do que vai ser esta campanha. Havia aqui os oráculos da verdade, que éramos nós, que usávamos da nossa experiência em campanhas e dizíamos: "O Gouveia e Melo está lá em cima, mas quando começar a campanha e quando ele começar a falar, vai começar a descer por aí abaixo". Porque nós também fazemos parte deste sistema. Portanto, estamos habituados a políticos com alguma experiência para este tipo de embates que são as campanhas eleitorais. E o que é curioso é que tudo aquilo que se previa está a acontecer. Ou seja, à medida que Gouveia e Melo vai falando, vai dizendo o que pensa ou vai deixando no ar aquilo que pensa, que às vezes é mais isso, começa a deixar algum desconforto nos eleitores que tinha quando se começou a estudar quem era o candidato que tinha mais possibilidades de chegar à Presidência da República em 2026. E a verdade é que ainda ontem nós demos uma sondagem na TV, na CNN Portugal, onde pela primeira vez Marques Mendes passou à frente. Eles estão em situação de empate técnico, mas a verdade é que Marques Mendes passou à frente, isso nunca tinha acontecido. E mais do que isso, no cenário de segunda volta, não só perde com António José Seguro, como perde sem margem para dúvidas com Marques Mendes, ou seja, nem sequer está na margem de erro. Esta entrevista de hoje podia ter servido para Gouveia e Melo, de certa forma, relançar aqui um bocadinho o que é o seu posicionamento. E o que aconteceu foi que ele também começou a perceber que aquela coisa de quanto mais ele falava, mais descia nas sondagens, e o que ele hoje decidiu fazer foi não ser claro em relação a quase nada. Ou seja, quando confrontado, e foi confrontado várias vezes com declarações que ele fez, com declarações em entrevistas, em locais onde falou, cada vez que lhe pediram para concretizar, ele nunca concretizava. O que é, de si, já um bocadinho preocupante. Normalmente, isto é um discurso populista, não era exatamente essa imagem que lhe estava associada e também não sei se é isso que ele quer agora que lhe seja associada, até porque eu acho que nesse campeonato ele já tem um adversário com experiência. E portanto, aquilo que ouvimos hoje foi uma coisa que às vezes era arrepiante, outras vezes era só desconcertante. Quando ele falava, por exemplo, do caso da Spin Livra, e dizia que sim, que Montenegro tinha que ter revelado quem era os seus clientes, etc. Mas depois não aplicava a mesma regra para si próprio quando se perguntava quem são os seus financiadores. Porque ele diz: "Não, a diferença é que eu não tenho culpa de nada."
Diz que a lei está a ser cumprida.
A lei está a ser cumprida e eu não tenho culpa de nada, mas isso é exatamente o mesmo que Montenegro diz. A questão aqui não tem a ver com isso, tem a ver com uma questão de transparência.
E em muitas respostas, desculpa, Pedro, quando instado a esclarecer, deixava no ar que havia ali uma agenda escondida na pergunta.
Essa era a parte toda que às vezes arrepiava, era isso. Era quando insinuava sempre, quando depois já estava muito na defensiva e depois insinuava sempre que os jornalistas estavam a fazer as perguntas quase amando uma espécie de agenda que tinha um objetivo só que era destruí-lo. A parte da maçonaria, concretamente, quando ele às tantas diz: "Mas por que o senhor trouxe este assunto para cima da mesa?" É uma coisa que a mim, como jornalista, me deixou verdadeiramente arrepiado, que é: como assim? Eu, como jornalista, trago os assuntos que eu achar que são relevantes. Não tenho que justificar porque estou a trazer o assunto. O senhor pode é não responder, que é uma coisa diferente. Agora, a questão do posicionamento dele relativamente-
Como nós costumamos dizer, temos a obrigação de fazer todas as perguntas e o entrevistado responda ou não.
O jornalista pergunta, o entrevistado pode não responder, isso é um direito dele. Agora, questionar por carga d'água é que o jornalista trouxe aquele assunto para cima da mesa, como se, na verdade, aquilo fosse uma espécie de duelo. Isto não me cabe na cabeça, tal como não me coube na cabeça a quantidade de vezes que ele disse: "Mas já perguntou aos outros? Também tem que perguntar aos outros. Eu vou estar atento se vai perguntar aos outros." Não havia aqui nenhuma intenção. Era uma entrevista para conhecer o homem. Se ele está fora do sistema, é normal, e ele gaba-se disso, é normal que lhe sejam feitas muitas perguntas sobre o sistema. Qual é que é o posicionamento dele sobre o sistema que existe?
Vamos ver se os outros destacados membros deste painel têm a mesma leitura. Judite França?
Eu acho que foi uma entrevista, de facto, muito tensa, o que se torna até um bocado desagradável na audição. Estava sempre à defesa, muito fechado, não respondia algumas perguntas. Algumas das coisas que foi dizendo, quando foi questionado para explicar melhor, para desenvolver, não fazia isso. A dada altura, parecia que estava a fazer um frete Por exemplo, disse que grande parte dos políticos são só retórica. Não diz quem, não nomeia quem.
Fica sempre uma mancha generalizada. Que é uma arma que é usada por quem? Pelos populistas. É o tipo de discurso habitual.
Depois lá acabou por dizer que até o governo tentou que não fosse presidente da República pra ajudar Marques Mendes. Isso disse. Mas espremido, eu acho que não se consegue tirar nada de muito especial desta entrevista. E, portanto, Henrique Gouveia e Melo perdeu uma oportunidade, a não ser que já esteja em modo debate, quer dizer, já está formatado pro modo debate.
Mas não é suposto ser com os jornalistas o debate?
Não é. Tem ali a oportunidade de se dar a conhecer, de se mostrar, de dizer o que pensa de uma forma muito clara, muito concreta, e não foi capaz de o fazer. E eu acho que isto só o prejudica e acho que isso se tem visto cada vez mais. Gouveia e Melo começou em alta porque ainda não tinha dito nada e portanto agora é sempre a descer.
Alexandre Borges.
Eu concordo inteiramente com a Judite e com o Pedro. É claro que os debates serão uma ocasião dourada de se ir reerguendo disto, mas como diz o Pedro, o debate não era suposto ter sido já com os jornalistas. Há uma coisa tentando passar a forma, mas de fato é difícil. Depois quando tentamos ir ao conteúdo, o que eu retive foram ideias deste gênero. Questionado sobre as medidas da imigração: "Não tenho dúvida da importância da regulação, controle e integração, mas sou contra usar isso de forma demagógica. Há medidas importantes, mas há medidas que não são exequíveis." Sobre a saúde: "É o maior problema do governo, mas é preciso tempo, mas o tempo está a esgotar-se." Sobre Angola e Marcelo: "Não teria sido à cerimônia em Angola, mas teria sido mais duro nas declarações que fizesse depois. Percebo o lado angolano, mas há coisas de bom senso dentro do contexto histórico, mas com as palavras certas." Isto é porque aí fora às tantas torna-se cômico. Por causa do apoio que disse que Soares era a sua referência. Tinha dito isto. Das poucas coisas que chegou a concretizar algures nesta pré-campanha.
Ele não disse isso, pois ele diz que não disse isso e que foi mal interpretado.
Exatamente. Respeitável, exatamente. E falo nas críticas dos retornados a Soares. E o que é que diz Gouveia e Melo? "Os retornados sentiram-se abandonados por Soares, mas há que ser equilibrado." E depois diz: "Soares, sim, senhor, foi importante, mas também gostei muito de Eanes." Portanto, é difícil de fato de saber, continua a ser difícil de perceber verdadeiramente o que é que o almirante Gouveia e Melo pensa acerca do que quer que seja, ao fim de todo este tempo. Diz coisas do tipo: "É preciso equilíbrio, temos que ser moderados. Andamos aqui." Eu não discordo nada da ideia de que é preciso equilíbrio e moderação. O problema é que ele não passa equilíbrio e moderação. Ele passa o receio de se comprometer com o que quer que seja.
Deixa-me virar isso aqui um bocadinho do avesso. Pedro Bendit, em relação à forma e à forma como esteve nesta entrevista e como reagiu às perguntas que lhe foram feitas, sendo um candidato do sistema e estando os jornalistas, todos nós, no sistema, esta postura confrontacional que no fundo Gouveia e Melo também adotou nesta entrevista, pode ou não ir ao encontro do eleitorado?
Eu acho que o eleitorado antissistema já tem o seu candidato. Eu acho que Gouveia e Melo não era verdadeiramente o exit que era por ser antissistema. Eu acho que ele era por causa da imagem que tinha.
Por ser suprassistema, seria mais por isso?
Nem tinha a ver com o sistema, tinha a ver com aquela imagem, o porte, a imagem de autoridade, de liderança que ele transmitiu, sobretudo por causa da história das vacinas, que foi esse o grande legado que ele deixou, independentemente de toda a sua carreira.
Ninguém conhecia antes disso.
Mas que era mais discreta e, portanto, independentemente dos seus méritos, era mais discreta. Ele tornou-se uma figura nacional por causa da vacinação e porque pôs ordem na casa, liderou, teve autoridade, teve tudo aquilo que as pessoas, imagino eu, admirariam num chefe de Estado. O problema é que depois essa figura é uma estátua, e depois quando de repente dá vida à estátua e a estátua tem que falar, ela às vezes não corresponde àquilo que se estava à espera dela. E eu acho que é esse que tem sido o problema de Gouveia e Melo. Tem dado muitos tiros ao lado. E depois esta entrevista, que podia servir para recentrar a coisa, efetivamente ele usou da autoridade, mas usou da autoridade nos momentos errados. Era um quase autoritarismo. A forma como ele questionava: "Por que razão é que me está a fazer essa pergunta? Por que trouxe esse assunto pra cima da mesa?" A forma ríspida como correspondia algumas coisas. E depois, a indefinição numa série delas, que deu a ideia de ser já muito calejado nesta coisa dos políticos do sistema, que dizem uma coisa e o seu contrário, que é um clichê e uma caricatura, mas eu acho que ele correspondeu a tudo isso. Ou seja, ele não respondeu nem a um eleitorado, nem ao outro.
É isso. E de fato, sobre a questão da irritação com a pergunta da maçonaria, ele ou precisa ganhar rapidamente, mas já devia ter a casca mais grossa pra estas coisas.
É uma pergunta previsível também.
Exatamente, perfeitamente previsível.
É porque é um passado.
E porque há pessoas importantes.
E ele sabe por que a pergunta lhe está a ser feita.
A pergunta está a ser feita porque ele foi apoiado.
Ele até pode não querer ser associado à maçonaria.
E não quer, claramente.
Agora, isso não quer dizer que não tenha uma resposta logo evidente: "Olhe, eu não sei se está a querer insinuar que eu sou da maçonaria, não sou, fica já claro. Depois, relativamente às sociedades secretas, eu acho isto, isto e isto."
Exatamente.
"Olá, Bruno, é o quê? Eu assisti isto, mas..." Exatamente. É que ele agora, em princípio, ainda vai ser mais questionado sobre isto. Agora vão lhe perguntar: por que se irritou quando lhe perguntaram sobre isto? Quando deveria ter exibido, de facto, a maior tranquilidade do mundo.
E tu achas que isso não colhe junto desse eleitorado? Que procura um farol no meio tudo isso.
Sim, acho que é um problema de imagem e de convicções que se vai formando à volta de quem tu és como candidato, o que é que tu passas. As pessoas formam convicções em frações de segundo. E muitas vezes, no caso dos políticos bem-sucedidos, fazem disso vida. Agora, é muito difícil. Costumo dizer assim: não há segundas oportunidades pra causar primeiras impressões. Havia uma espécie de primeira impressão de Gouveia e Melo enquanto figura não política, pelo seu trabalho na vacinação, que eu continuo a achar admirável e continuo a não querer reduzi-lo a organizador de filas. Basta lembrar quem é que lá esteve antes, no início da comissão das vacinas, e como aquilo podia ter sido o exemplo do pior que Portugal tem. Mas foi isto. Depois de ele é cooptado pra política, ainda não tínhamos nenhuma primeira impressão. E agora ele vai, de facto, forma de cada vez que fala. E aí acho que há esse problema, ou seja, a imagem da serenidade, do controle, da autoridade, dessa pessoa que parece um pouco acima das questiúnculas políticas, vai se desmanchando.
Judite.
Estava sempre a queixar-se, por exemplo, que estavam a arrastá-lo pra baixa política.
Ah, sim.
Que é uma coisa um bocadinho altiva, porque o que se debateu ali não era baixa política. Aquelas perguntas vão ser feitas aos outros candidatos também. E essa forma de se abespunhar com perguntas que eram relativamente simples, dá a entender que, de facto, Gouveia e Melo não está preparado pra esse tipo de embates. Provavelmente, vai ter que praticar mais pra perceber que não pode ter esse tipo de atitude perante perguntas que são normais, porque esta atitude prejudica-o claramente. Eu acho que não o favorece em nada e acho que a imagem de calma, de serenidade, de alguma superioridade moral que podia ter por não estar envolvido, como ele diz, na baixa política, está a perdê-la.
Vamos a notas?
Eu a esta entrevista vou dar um oito.
À entrevista ou...?
Ao Gouveia e Melo na entrevista.
Eu disse que hoje no edição do "O Vencedor É" ouvi muitas críticas aos jornalistas que fizeram a entrevista.
A prova de que isto é uma rádio plural.
É uma rádio pluralíssima.
É uma casa em que eu também achei muito interessante. Vale a pena ouvir o "E O Vencedor É" desta manhã, pós-entrevista, para se perceber como o debate é plural. Alexandre.
Eu gostava de lhe dar um 14, mas vou dar um nove.
Pedro.
Olha, eu vou dar um 18 aos dois Miguéis e ao Rui Pedro que fizeram a entrevista, pra contrabalançar as críticas. Acho que eles fizeram uma excelente entrevista e revelaram um bocadinho também do que é o candidato e acho que isso também era o objetivo desta entrevista.
Nós já vamos voltar para a segunda parte de "E O Vencedor É". Ainda temos de falar, claro, do primeiro dos 28 debates entre candidatos presidenciais e vamos também tentar antecipar o que será um pouco o debate de hoje entre Marques Mendes e António Filipe. E claro, também temos de falar de Ronaldo, que hoje, em princípio, ainda não vimos acontecer, mas deverá estar a acontecer. Ronaldo deverá ser recebido por, ou pelo menos vai conversar com Donald Trump. Não sabemos ainda se na Casa Branca ou por ali num restaurante perto. Vamos ver o que nos reserva ainda a tarde. Arranca agora a segunda parte de "E O Vencedor É?", da Rádio Observador, com Judite França, Alexandre Borges e Pedro Benevides. E hoje temos mais um debate. Vai ser, como sempre, às 21h, na SIC. Desta vez, Marques Mendes frente a António Filipe. Mas vamos começar pelo primeiro debate entre António José Seguro e André Ventura. E Alexandre Borges, pelo que li e ouvi, há N análises para a forma como decorreu este debate. Qual é a tua, Alexandre?
Exato. Eu ainda não tinha dado, não era?
Não, ainda não tinha dado.
É verdade. De facto, também vi muitas delas. Acho que se começou por achar que Seguro tinha ganho, depois começa a aparecer a malta a dizer: "Espera, já há muita gente a dizer que o Seguro ganhou. Olha que o Ventura, afinal..." Eu acho que Seguro ganhou por uma razão: é ver Ventura no fim do debate, é ver depois quando ele fala naquele pós, na flash interview. Que isto está cada vez mais parecido com uma transmissão de futebol.
Temos pré-match.
Pré-match. Isso, exatamente.
Flash interview.
Longos comentários e nós que estamos a comentar. Estamos a comentar os comentadores.
Se foi pênalti ou não.
Exatamente. O Ventura, parece-me claramente, e é difícil de acreditar que não era isto que estava na cabeça dele. Ele foi pra lá dizer: "Eu vou cilindrar este tipo". Porque à partida, olhando pra os perfis, ainda por cima dos candidatos, Seguro é evidentemente, dos grandes candidatos, aquele que tem o perfil mais acusado de ser passivo, tranquilo, aquela coisa do mas qual é a pressa e tal. E Ventura, é rever os primeiros minutos do debate. Ventura, eu acho que mais ou menos a meio da terceira frase está a começar a atacar Seguro. Ainda Seguro disse boa tarde, ele: "Mas boa tarde o quê?" Que sabemos que é a estratégia de Ventura e tipicamente funciona, porque é não deixar ninguém sequer conseguir ouvir-se pensar. Dito isso Ventura não conseguiu esmagar. Ou seja, considerados verdadeiramente os objetivos de cada um, parece-me que Seguro cumpriu melhor, porque conseguiu não se irritar, não se revoltar, não se indignar com o que Ventura diz e conseguiu também não ser esmagado. Conseguiu passar, de facto, goste-se ou não dele, uma posse de Estado e uma força, eu acho que esse lado foi talvez a maior vitória dele, uma força, uma resistência, uma tranquilidade, um sorriso no rosto, apesar de tudo perante as coisas que Ventura dizia. E Ventura diz coisas do gênero: "Já que você não serve pra nada, ao menos sirva para defender os portugueses." Diz coisas assim. É muito difícil uma pessoa não perder a calma com aquilo. E Seguro não perdeu nem a calma, nem o sorriso. E isso pareceu-me bem. Pensando quem é que está a conquistar que votos, e eu acho que há muito a dizer sobre isto e olhar os pontos, por exemplo, a norte tudo o que foi dito, mas eu acho que Ventura prega aos convertidos, não há dúvida que tem funcionado até aqui, ninguém sabe bem qual é o limite dos convertidos. Pode não haver limite. Agora, há outra coisa que nós sabemos objetivamente acerca de André Ventura e do impacto que tem, é que a taxa de rejeição a ele é enorme. E portanto, acho que determinado momento Ventura tem de pensar o que é que ele está a fazer crescer mais depressa, os fãs ou a taxa de rejeição. E Seguro, por outro lado, jogando para onde quer jogar, que é pra moderação e pro lugar de presidente, aliás, como ele dizia bem, algo do gênero: "Eu não vou chatear consigo, porque eu amanhã estou em Belém e preciso lhe receber como líder da oposição."
Daqui a quatro meses estou a recebê-lo.
Exatamente. E acho que Seguro nesse papel, eu acho que ele deve ter convencido mais algumas pessoas. Judite.
Olha, eu concordo. Desculpa, mas é verdade.
E depois o Pedro ecoa o Gaspar. Como é que ela vai fazer para discordar desse argumento?
Estou à espera da discordância do Pedro. Judite.
Está combinado.
Eu acho que, de facto, o melhor do debate acabou por ser a paciência de António José Seguro em lidar com aquela constante e permanente truculência de André Ventura, que a dada altura já estava um bocadinho exaustinado e repetia as mesmas frases. Porque eu acho que ele não estava à espera, de facto, André Ventura tira a paciência a um santo. Consegue, tem essa qualidade, essa capacidade. Aquilo é preciso ter-se alguma arte, não é qualquer um que consegue fazer. E António José Seguro não saiu do papel, a dada altura disse: "Pronto, fale, diga lá, desabafe, que o senhor precisa desabafar." E eu gostei muito da frase de quando André Ventura achou que podia atacar António José Seguro com o PS dos últimos 10 anos, ele disse: "Se quiser que eu dê o telefone de José Luís Carneiro, pode debater com o Partido Socialista." E depois utilizou uma frase muito boa e uma ideia muito boa que é: André Ventura está na eleição errada, não conseguiu responder ao facto de há seis meses ter sido candidato a primeiro-ministro e agora estar a concorrer pra presidente da República, prova de que as eleições presidenciais servem apenas para André Ventura ter mais espaço mediático, e acho que isso ficou claro. E portanto acho que Seguro esteve melhor por não se deixar arrastar no tom rasteiro, para fazer muitas aliterações com erres, de André Ventura.
Pedro Benevides.
Eu não concordo. Eu acho que nós tínhamos ali dois candidatos a fazer campanhas diferentes, de facto, e António José Seguro teve razão quando disse que André Ventura não estava a acertar na eleição, não era candidato àquela eleição. E, de facto, ele não é candidato àquela eleição. Ele é candidato a primeiro-ministro e isto é mais uma forma de fazer campanha eleitoral. Ponto. Dito isto, acho que já vimos André Ventura em melhor forma, mesmo assumindo que tem alguma coisa de admirável essa estratégia que ele leva para os debates, acho que já vimos em melhor forma. Acho que ele tinha três frases porque basicamente não tinha mais nada pra dizer, porque efetivamente esta campanha não é fácil para se fazer e portanto ele tinha ali aquelas três frases, despojou-as, repetiu-as e não acrescentou muito mais. Acho que ele teve bons momentos quando ele, por exemplo, falava daquilo que não é muito elegante na televisão, nem é muito respeitador do cargo, mas quando ele falava da conversa de chacha e da conversa do costume. E acho que ali tem um ponto, que é: nós continuamos a ver candidatos presidenciais com o mesmo tipo de narrativa que não diz grande coisa. Mesmo aquela história do pacto pra saúde, que António José Seguro levou. É uma coisa que ele próprio sabe que aquilo é uma coisa... pra já, o pacto em si não tem nada de extraordinariamente inovador. Portanto, eu penso que PS e PSD não discordarão nada do que lá está. A questão é que PS e PSD já estiveram ambos no poder e nunca houve pactos de coisa nenhuma e nunca fizeram nada daquilo que lá está ou tentaram fazer e nunca conseguiram. E, portanto, a conversa do pacto é uma conversa que soa a conversa do costume, pra não usar a outra expressão. O próprio António José Seguro sabe o quão difícil é haver entendimentos mesmo em situações limite, porque ele próprio fez parte de umas negociações com o PSD e com o CDS quando foi do tempo da Troika, por imposição do então presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, da chamada solução de salvação nacional ou compromisso de salvação nacional, que depois não deu em nada, ele esteve em negociações, mas aquilo não deu em nada. E portanto, ele sabe bem que estas coisas dos pactos entre os dois principais partidos é uma conversa que na verdade é quase conversa de salão, não tem aplicabilidade prática. Aquele lado que-
Mas quem achas que se saiu melhor no meio disto tudo?
Não, eu acho que quem se saiu melhor ali, só por esta razão, foi António José Seguro, porque ele efetivamente estava ali como candidato a presidente da República e André Ventura não estava.
Aliás, muitas das coisas que prometeu só podia prometer estando no governo, não é?
Claro.
Exatamente. E portanto, eu tenho dúvidas que André Ventura estivesse sequer bem preparado para aquele debate. Ele fez o número de circo do costume, nós já todos vimos isso. Não concordo também que António José Seguro tenha resistido, porque depois chegas à parte final do debate e aquilo era uma cena triste, um espetáculo triste em que os dois começavam a falar, o José Alberto disse: "Bom, eu tenho aqui uma questão que é: vocês têm as declarações finais, está combinado quem é que vai acabar". E eles continuavam ali a não dizer nada. Eles estavam para ali a discutir os dois, um com o outro, sem nada.
A desperdiçar o tempo.
Exatamente. Acho que André Ventura conseguiu dominar a agenda. Portanto, os tópicos que foram discutidos foram sobretudo conversa que André Ventura levava para pôr em cima da mesa. E portanto, eu só não lhe dou a vitória a ele, porque efetivamente ele não estava ali a fazer nada como candidato a presidente da República.
E há alguma expectativa para o debate de hoje? Marques Mendes, António Filipe, Judite de França, 21h.
Não tenho grande expectativa, confesso. Não estão no mesmo eleitorado e portanto terão a oportunidade para dizer ao que vêm, mas estão a falar para um eleitorado muito diferente, portanto escusão de estar com grande acrimónia entre os dois.
Queres dar nota ao debate de ontem?
Eu quero. Eu vou dar um 13 a António José Seguro e um nove a André Ventura.
E Alexandre, já agora peço-te já a nota para o debate de ontem, já volto à expectativa para o de hoje.
Claro. 14 para António José Seguro, 12 para André Ventura.
Qual é a expectativa para o debate de hoje?
A mesma que teria para um Coreia-Eslováquia.
Coreia do Sul ou Coreia do Norte?
Vá, do Sul. Abusado.
Podia ser um bom jogo. O futebol asiático contra o futebol europeu.
Choque cultural.
Pedro.
Eu tenho ótima expectativa, porque eu sou sempre a favor da democracia e dos exercícios de democracia.
Que sorte termos-te entre nós.
Vão obrigar-te a ver, não é?
As pessoas dizem-me isso muito: "Parem com isso."
Vão obrigar-te a ver.
Exatamente. E quanto à nota, queres a nota?
Quero.
Eu vou dar também um 18 aos espetadores que ontem aderiram a este primeiro debate e dizer-lhes: "Força, pessoal, têm mais 27 para-"
Já há números? Não sei.
Já há números desde manhã, Ricardo. És uma estrela da rádio, mas sabes que a televisão recebe amanhã. Não, foi o programa mais visto do dia.
Ok, pronto. Bom, vamos aproveitar que o Pedro Benevides é a única pessoa viva neste estúdio que já esteve tanto-
Pensei que era só isso que ias dizer. "A única pessoa viva neste estúdio." Eu pensei: "Vocês não estão assim tão mal, eu não concordo com os vossos argumentos, mas caramba".
Os nossos ouvintes vão perceber a importância deste momento. O Pedro Benevides, que é uma pessoa que eu aprecio e gosto muito de ver trabalhar e acompanho a carreira dele há muito tempo, é a única pessoa neste estúdio que esteve tanto no Clube Andorinhas como na Casa Branca.
Com Trump. Na Casa Branca com Trump.
Portanto, tu és o único com a capacidade para responder a esta pergunta: como é ir do Andorinhas até à Casa Branca?
Olha, é um percurso longo, difícil.
Basta sabes que estamos a falar do Ronaldo. Para não pensarem que ensandecemos.
Que é o meu cognome. Eu sou o Ronaldo das tardes da Rádio Observador. Chamam-me muito aqui nos corredores.
Isto era espetacular. Mas é mesmo, é verdade.
Estive efetivamente no Andorinhas Futebol Clube para fazer uma reportagem com as pessoas que conheceram o Ronaldo desde jovem. E quem diria que ele hoje iria estar na Casa Branca com o Donald Trump, onde eu por acaso também estive, com uma vantagem face a Ronaldo, é que eu apareci num tweet com o vídeo do Donald Trump. Eu apareço lá durante um frame, estou lá eu. E o Ronaldo ainda não apareceu em nenhum.
O Pedro tem este tweet pendurado em casa. Não, estou a brincar.
Pois tem. Está sempre a passar na televisão, portanto há pessoas a jantar em casa. E o Ronaldo ainda não apareceu hoje. Agora, a grande dúvida é: o que é que Ronaldo está a fazer na Casa Branca?
Exatamente.
Eu quando fui ao Andorinhas Futebol Clube foi porque ele tinha ganho um troféu. Será que ele está na Casa Branca porque foi um troféu levado pela Arábia Saudita?
Essa é uma boa pergunta.
Para exercer poder e mostrar o seu poder de que o dinheiro compra tudo. O Trump há de ser sensível a essa linguagem. Tanto que consta que o príncipe da Arábia Saudita está lá para comprar não sei quantos F-35, um investimento de milhares de milhões, etc. Já houve uma troca de palavras acesa com jornalistas por causa de uma pergunta relativamente ao assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, que terá sido feita a mandado do convidado de Trump, e Trump, que se bem nos lembramos, humilhou na Casa Branca Zelensky há uns tempos, ficou muito ofendido com a pergunta, a dizer que o jornalista estava a embaraçar o seu convidado na Sala Oval e ele aparentemente não gosta disso. De Ronaldo ainda não vimos. Sabemos que é um admirador de Donald Trump. Ele disse isso há cerca de 10 dias na entrevista ao-
Piers Morgan
...Piers Morgan, que eu não me estava a lembrar o nome, a dizer que ele é um homem que faz coisas acontecer e que ele admira pessoas assim, quer muito conhecê-lo. Atenção, isto pode ser apenas uma manifestação do poderio de Ronaldo, porque ele declara uma coisa-
E acontece
...que é ser recebido, quer encontrar-me com ele, e 10 dias depois isso acontece.
Portanto, é uma espécie de génio da lâmpada, Alexandre.
É uma espécie de sports washing. É o que é.
Sports washing. Sim, é um génio, já sabíamos isso. Da lâmpada, em particular, vamos ver. É muito gira a entrevista ao Piers Morgan. Eu só tinha visto os títulos na altura. Fui ler esta passagem, qual é a troca de palavras. E o Morgan diz: "Olhe, o Trump recebeu uma camisola de Portugal assinada por ti a jogar pela paz. O que é que quiseste dizer?"
Entregue por António Costa.
Exatamente. E o Ronaldo diz isto: "O mundo estar em paz é o nosso objetivo. É um dos que pode mudar o mundo, é o meu objetivo, é uma das pessoas mais importantes. Se nos pudermos ajudar", diz o Ronaldo, pronto, aqui a fazer a paz. Vamos lá, é isto que eles têm em comum, estes dois obrés. Depois ele diz: "Eu não vejo TV, não vejo notícias."
Uma curiosidade: o Trump foi dono do concurso Miss Universo durante muito tempo. Pode ser isso também que inspirou essas palavras.
Exato. Agora percebo, ele não só era o diretor, mas escrevia também os textos.
Seguramente.
Mas agora também percebo a ampliação da Casa Branca, porque aquilo podia não ser suficientemente grande para dois amores-próprios tão grandes quanto o Trump e o Ronaldo.
No Rose Garden. Judite.
Eu acho que é sports washing.
Quer explicar o que é o sports washing?
É uma forma de, com o desporto, e acho que o príncipe sabe disso melhor que ninguém, lavar bem a imagem de um país que tem muitos rabos de palha. E acho que não é propriamente um país conhecido pela sua democracia e pela sua liberdade de expressão, etc. E, portanto, acho que aquilo que Cristiano Ronaldo vai nesta comitiva, vai participar, serve um pouco para isso. Esse é um pouco o seu papel, infelizmente. Claro que Cristiano Ronaldo está muito contente por conhecer o Donald Trump. Ainda bem.
Há quem diga que isto também pode ter a ver com aquele processo na Justiça que não é muito favorável, que corre nos Estados Unidos.
Já foi arquivado.
Já foi arquivado o processo todo?
Eu acho que sim.
Terá havido um acordo, mas a ver vamos. Amanhã há mais. Vencedor aqui ao final da tarde. Obrigado, Pedro Bem-Vindas. Obrigado, Alcides Borges e à Judite. O Vencedor regressa amanhã pela fresca, às 08h30, nas manhãs 360, com promessa de análise da boa ao debate desta noite entre Marques Mendes e António Filipe.