Em França, como em Portugal, as manifestações, os vandalismos e os confrontos das últimas semanas não são apenas a prova de vida de uma extrema-esquerda que, como sempre, procura na rua a força que lhe falta nas urnas. São também a certidão de óbito de uma política que as oligarquias europeias acreditaram ser infalível: a do “centrismo”, de que Emmanuel Macron foi, desde 2017, o poster boy.
No power point, tudo deve ter parecido tão certo, que a ninguém na sala terá ocorrido que alguma coisa pudesse correr mal. Era muito simples: entre a esquerda e a direita, formar, com a gente sensata de ambos os lados, um “centro”, perante o qual todas as alternativas estariam destinadas a parecer “extremistas”. Esse centro prometeria continuidade, mas com mudanças, e renovação, mas com limites. O seu princípio proclamado seria a “estabilidade”. O seu segredo seria a distribuição de benesses pelo Estado. Não tendo maioria, governaria fazendo entendimentos à esquerda e à direita. Talvez não suscitasse entusiasmo, mas inspiraria o suficiente conformismo.
Porque correu mal? Porque esta governação, que promete estabilidade política, precisa ela própria de estabilidade financeira e social para funcionar. Ora, esta estabilidade já não existe em França, como não existe no resto do Ocidente. As políticas sociais criaram défices e dívidas que agora alimentam a inflação. O caos migratório encaminha a Europa ocidental para os conflitos típicos dos Balcãs ou do Médio Oriente. Os confrontos entre as grandes potências exigem despesas militares para que falta orçamento. Perante tudo isto, o centrismo, com o seu culto dos compromissos, tomou o aspecto da indecisão num tempo em que era preciso ser decisivo. A prudência revelou-se, afinal, uma máscara da cobardia. Sem surpresa, as opções de voto, ao contrário do que prometia o power point, desviaram-se para os “extremos”. Em França, espera-se uma disputa final da presidência entre Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon; em Portugal, são o PS e o Chega que discutem o primeiro lugar nas sondagens.
Macron tem talvez a desculpa de que em 2017 o centrismo ainda parecia uma boa ideia. Luís Montenegro e os seus não têm desculpa, porque em 2024 o fiasco do centrismo em França já era notório. Terão percebido agora porque é que convinha que tivessem tentado organizar a maioria de direita no parlamento com base num programa coerente de reformas? Não se tratava de romper “linhas vermelhas” ou de imitar “geringonças”. Tratava-se de viabilizar uma governação reformista, uma vez que o PS não estava, como não está nem estará, disponível para reformas. Tratava-se, acima de tudo, perante a vaga caótica dos acontecimentos, de recuperar um certo grau de iniciativa para o regime.
Em vez de isolar os que estavam à sua direita e à sua esquerda, o centrismo isolou-se a si próprio. A agitação da extrema-esquerda expôs agora esse isolamento. Em Portugal, o PS ainda ampara o governo, enquanto cresce nas sondagens, mas de resto está na rua com a intifada, à espera de ser o futuro voto útil dos agitadores. O Chega aplaude a polícia de um modo que o centrismo governamental não se permite, mas vacila na “lei das rendas”, porque não quer comprometer a sua reputação de campeão de todas as contestações. A Iniciativa Liberal condena a polícia, porque não se consegue libertar do desejo ansioso de estar sempre ao lado dos “jovens”, mesmo dos que querem o fim da economia de mercado. Ninguém sabe o que pode sair de tudo isto, e esta incerteza, desorientação geral e esgotamento de possibilidades são talvez o pior efeito da experiência centrista.