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Este é o Som do Ivens Sorea das manhãs 360. Nos próximos minutos damos notas aos principais protagonistas da atualidade e por isso, Carla, hoje juntam-se a nós o Pedro Jorge Castro, que já aqui está conosco em estúdio, e a Ana Sanles. Finalmente há um primeiro-ministro indigitado e que foi mesmo o Montenegro, mas foi preciso esperar pelo fim da contagem dos votos da emigração para que essa formalidade fosse cumprida. Vamos começar precisamente com os resultados da emigração. Há uma grande diferença em relação aos resultados de há dois anos. Ana, o Chega foi o partido mais votado e Santos Silva já não é deputado e, portanto, nem será presidente da Assembleia da República.
É verdade, lá vai Santos Silva agora dar aulas. Eu trago este tema também porque eu só dou notas a coisas que acontecem antes da meia-noite, sou como a Cinderela. Eu estou a brincar, eu sei que era importante Luís Montenegro chegar hoje a Bruxelas já como primeiro-ministro. Agora aguardamos uma apresentação do novo governo, dia 28 às duas da manhã.
Está bem de hora, está quase bem pra nós, pra quinta da manhã.
numa discoteca.
Não é nada que não estejamos habituados.
Esse slot estava reservado sempre pro Orçamento do Estado, e até isso já nos últimos anos...
E na pandemia também houve conferências de imprensa depois da meia-noite, se bem se lembra.
Mas não vai ser agora, não é?
Mas vamos a Santos Silva, acho que merece por tudo o que nos deu nos últimos anos, e refiro-me a este programa especificamente, e não ao país. Santos Silva sai pela porta pequena. Há uma grande dose de simbolismo nesta derrota, uma grande dose de humilhação. Santos Silva até pode tentar vestir o fato da humildade, assumir que a derrota é pessoal, como fez ontem à noite na entrevista que deu à SIC Notícias, mas tem que assumir mais do que isso, e mesmo que não o faça em público, espero que o faça pra dentro, agora que vai ter tempo quando voltar às suas aulas. Claro que a vitória do Chega nos círculos da emigração tem e deve-se a uma imensidão de fatores. Alguns mérito do Chega, como a vitória na Suíça, sabemos que houve um contato próximo do partido com essa comunidade. Fora da Europa, por onde concorria precisamente Santos Silva, houve o peso dos bolsonaristas no Brasil, mas o PS e Santos Silva têm de olhar pra além disso nesta derrota. Santos Silva alimentou isso tudo. Não digo que seja o grande responsável pelo crescimento do Chega, mas é um dos responsáveis, tem a sua quota parte. Santos Silva assumiu uma cruzada contra o Chega, uma missão pessoal, e o presidente da Assembleia da República não pode ter missões pessoais, não pode instrumentalizar o cargo, não pode pôr as suas ambições à frente do cargo, não se pode comportar como se fosse um deputado do seu partido. Se teve razão em algumas das posições que tomou? Teve, não esteve sempre mal, mas claro que o Chega teve comportamentos lamentáveis, censuráveis, insultuosos no Hemiciclo, mas houve muitos casos, e nós lembramo-nos disso, em que Santos Silva não soube respeitar o seu papel, o seu dever de neutralidade, independência. Houve muitas vezes em que entrou em diálogo com André Ventura, assumindo-se ali como uma espécie de guardião do bem contra o mal, com sobranceria, que não era o seu papel e que ia muito além do comando ao regimento. E claro, do outro lado tinha André Ventura, que soube cavalgar isso. Ventura não joga com as regras e era uma batalha perdida antes de ter sido começada. Pronto, e agora Santos Silva vai ter que encarar o seu grande pesadelo, que é ter 50 deputados do Chega nas bancadas da Assembleia da República nos 50 anos do 25 de Abril, e ver André Ventura a cantar uma vitória que certamente lhe terá um gostinho especial de vingança. Na entrevista de Santos Silva ontem à noite na SIC Notícias, tirei uma nota positiva, digamos assim, também pra não ser tudo mau, e que acho que tem que ser a grande lição que o PS tira destas eleições, foi quando Santos Silva disse que há um óbvio hiato geracional entre quem vota no PS e quem começou agora a votar. Ele disse uma frase engraçada, disse algo como que temos que ser capazes de comunicar com os mais jovens se não queremos que a nossa ideologia acabe num museu. É uma conclusão óbvia, olhando pros resultados, mas que o PS e até o PSD deviam levar muito a sério e dedicar-se a estudar isso nos próximos tempos, não sei, criar um grupo de trabalho interno. As próximas eleições, as europeias, vão ser mais uma pancada pro PS neste campo e não vai haver tempo pra nada até lá. E acho que até vai ser interessante ver as tendências de voto não só dos jovens, mas dos muito jovens.
Ainda vamos ver se Santos Silva não aparece na lista.
Sim.
Mas olha, ele foi esperto pela rapidez de reagir ontem. Porque assim leva com isso tudo de uma vez.
E matou o assunto.
Leva com isso tudo de uma vez.
E desaparece.
Se fosse reagir hoje, amanhã lá estávamos nós aqui a falar dele.
E falamos dele durante umas horas, durante um dia, e fica já tratado. Mas concluindo só na questão das lições das europeias, há países que vão testar o voto aos 16 anos, a Bélgica e a Alemanha são um exemplo disso. E remetendo um bocadinho pra essa lição, acho que é interessante que os partidos tradicionais olhem realmente para dentro e façam uma reflexão se não querem, como disse ontem Santos Silva, acabar num museu. E, portanto, se posso dar já a minha nota.
Então vamos à tua nota.
Pra Augusto Santos Silva não pode ser uma positiva, vai um sete
Para o ainda presidente da Assembleia da República.
Ainda, mas não vai ser de forma nenhuma. Isto, Pedro, é sobretudo uma derrota pessoal? É uma derrota do Partido Socialista?
Não, eu acho que pela forma como Augusto Santos Silva se expôs no cargo de figura número dois do Estado, pela forma como levou isto muito além daquilo que se esperaria de um presidente do Parlamento, obviamente tem um peso mais pessoal ainda do que-
Do que a derrota para a direita, a derrota política
...sim, do que a derrota para o Partido Socialista. Sim, acho que tem que ser pessoalizado aqui. Ele diz na entrevista A: "Foi feita uma aposta grande", referindo-se a si próprio. Uma derrota grande também dele.
Até porque admite que o tempo já não é de pensar na Presidência da República.
Sim, acho que a política dá muitas voltas, mas se viesse a ser ele o candidato da área socialista à Presidência da República, seriam favas contadas para os adversários.
Sim. O tempo é mesmo de perceber como é que Luís Montenegro se vai relacionar politicamente com o Chega e com o Partido Socialista. É o grande desafio político.
Para a alta política, eu tentei procurar referências da alta cultura e logo a primeira que surge é o "After Hours", o "Nova Iorque fora d'Horas" do Scorsese. Infelizmente, não há grandes pontos de contato entre a trama do filme e aquilo que nós vivemos neste momento. Eu espero que Luís Montenegro e o país tenham um destino menos atribulado do que o do protagonista do filme. Portanto, não dando para ser Scorsese, tenho que ir para o Marco Paulo. Lamento.
Vais cantar?
Não vou cantar, estejamos descansados, mas fui às letras e à letra óbvia. Tudo aquilo que está a acontecer tem potencial para refazer o hino de um dos principais êxitos de Marco Paulo, que é o "Tenho Dois Desamores". Quem nada sabe, nada é. Isso pode se manter e tenho a certeza de qual eu gosto menos. Eu não vou levar isto tão longe para dizer se é o PS ou o Chega a Leiria Morena, estejamos descansados.
Depois saber quem é quem nisso também.
Mas depois tem uma parte aqui que na letra original diz: "É melhor amar as duas sem uma e outra saber, pois enquanto ninguém sabe, somos felizes os três." E que é exatamente ao contrário. Luís Montenegro casou-se com o CDS, depois anunciou uma paixão alargada por uma possível relação a três com a Iniciativa Liberal, que depois não teve força para aparecer na cerimónia e no enlace. Ainda se fala se vão ter ministro ou não vai ter ministro no governo, mas as indicações que temos para já é que não. E agora está forçada esta relação e esta negociação permanente com o PS e com o Chega. Sendo que toda a gente está a ver, isto é quase como se fosse uma regulação de poder parental sem papel, em que é impossível assinar qualquer papel e assinar qualquer acordo e para todas as decisões sobre o futuro da criança, que na verdade somos nós todos, e é o país, toda a gente vai estar a ver o que é que cada um vai fazer. Sendo que cada vez que Luís Montenegro se aliar ao PS, o Chega vai fazer uma fita, cada vez que tiver que se apoiar no Chega, Pedro Nuno Santos vai fazer uma fita. A vantagem disso é o facto de estarmos todos a ver e estamos sempre aqui no risco iminente de novas eleições nestes próximos meses. Isso é um risco real. Vejo muito otimismo nesta narrativa do PSD e da AD, de que é preciso resolver estas coisas que são mais ou menos consensuais. Se fosse assim tão fácil, isto já estaria resolvido. Apesar de tudo, há sinais de possíveis compromissos. Eu acho que Pedro Nuno Santos foi esperto na forma como saiu de Belém, mas não estamos a contar com todos os imponderáveis. Quer dizer, casos e casinhos, eu faço ideia. Vamos ver que figuras é que vão estar associadas ao governo. Greves, contestação nas ruas, podemos contar com o máximo disso. PCP, Bloco, enfim, os sindicatos não têm nada a perder neste momento e vão radicalizar a luta ainda mais do que fizeram no governo de maioria absoluta do PS. Luís Montenegro vai viver aqui entalado permanentemente e isto vai ser difícil. Ontem, na primeira saída dele de Belém à tarde, ainda antes da indigitação formal, eu não sei se vocês repararam, pareceu-me que ele já saiu com um peso em cima. Não disse nada de errado, mas já tinha um peso. Isto vai acontecer. Agora vou tentar tratar disto e não vai ser fácil. Não vai ser fácil, obviamente, também ninguém esperaria que fosse fácil, nunca é, mas nestas circunstâncias é particularmente complicado. Eu recordo só a soma total dos deputados do Parlamento, 80 para a AD, 78 para o PS, 50 para o Chega. Isto quase faz lembrar aquelas medidas do programa da Fiat París de 86/66.
Das coisas tu te lembras, é impressionante, Pedro.
Tenho muitas referências de cultura pop.
Exatamente. Tu não te lembras disto?
Referências culturais.
Eu não lembro, mas ela havia lembrado do programa da Fiat París.
Quando falaste em Marco Paulo, ainda pensei que ias citar o Tarzan e Mania.
Vamos ver como é que evolui esta relação entre eles. Mas olha, o meu vencedor no meio disto tudo é o Manuel Magno Alves, que é precisamente o candidato do Chega, que foi eleito pelo fora da Europa e que derrotou Augusto Santos Silva. Um desconhecido, porque ascende a isto depois do escândalo do ex-deputado do PSD, que foi excluído lá por causa da bronca de Angola, o Maló de Abreu. E este Manuel Magno Alves é um perfeito desconhecido, mas que é uma figura muito influente em São Paulo. Tinha um cargo aqui que era diretor de relações com o mercado do Instituto de Excelência Operacional em Cobrança. Pronto, ele veio cobrar e cobrou o lugar de Santos Silva, infligiu esta pesada derrota.
E por isso vais dar-lhe uma nota.
Vou lhe dar um 11.
Um 11. Tudo isto acontece assim, ou a indigitação, Paulo, acontece ali pela calada da noite. Era mesmo assim?
Pois, aparentemente era preciso.
Não te explicou o porquê?
Sim, explicou de alguma forma
Não directamente porque é que estava ali àquela hora.
Mas desgraça para os jornais em papel, quem diz isto?
Claro, não puderam ou arriscaram. Nem sei como é que fizeram.
Fizeram até à hora do fecho desta edição. A esta hora esperava-se ainda.
Que é uma coisa surreal. Mas quem ontem aterra aqui ao final da tarde, meio da tarde em Portugal, e assistisse a este lufa-lufa duas vezes da Luís Montenegro a Belém, da segunda vez à 00:17, olharia para isto sem saber o que se passou nos últimos meses e pensaria: "Bem, estes tipos são mesmo rápidos a resolver isto. Porque querem despachar logo tudo e não vamos dormir sem ter isto fechado." Acho que é certo que andamos nisto há quatro meses, 140 dias, mais de quatro meses. E eu acho que todo este processo eleitoral, eu estou a falar disto hoje, porque a partir de hoje já ninguém mais vai falar disto. Portanto, tudo aquilo que são as agruras do nosso processo eleitoral ficam nas calendas, mais ninguém vai resolver, mais ninguém vai alterar. Até à próxima eleição voltamos novamente a falar destas coisas todas.
E seguramente não vai ser uma prioridade.
Não vai, seguramente. Estamos cheios de burocracia e de regras estúpidas que provavelmente, e quero acreditar, já fizeram sentido em 75, 76. Um país que estava a experimentar pela primeira vez a democracia, que eram outros tempos, mas agora estamos cheios de regras, regrinhas, prazos, a Constituição, isto e aquilo, que não servem para nada, muitas delas. Que às segundas, quartas e sextas, todos tentam cumprir à risca com um hiperformalismo, mas depois às terças, quintas e sábados fura-se e é o informalismo e o presidente da República umas vezes chama partidos, outras vezes chama coligações, umas vezes espera pelos resultados oficiais e a homologação dos resultados finais, coisa que eu acho que ainda nem aconteceu, talvez, a publicação dos resultados. A contagem terminou ontem àquela hora. Outras vezes não precisa disso.
A publicação dos resultados é só esta sexta-feira.
É só esta sexta, pois. Umas vezes é preciso esperar pelos resultados publicados, outras vezes já se indigitou o primeiro-ministro, porque já se tem uma ideia dos resultados, o formalismo não está feito e portanto andamos nisto. Isto de facto é penoso. E acabamos por resolver estas coisas muito à portuguesa, que é um desleixo, deixa andar, não há pressa nenhuma e depois chegamos à beira do prazo para entregar o trabalho e fazemos uma direta, tudo muito mal amanhado para entregar à professora no dia seguinte, porque senão ainda temos uma negativa. O voto dos imigrantes, 37% de votos nulos. Votaram 333 mil pessoas, 122 mil votos nulos. Há aqui um problema, como é evidente, e é fácil culpar a falta de literacia ou a falta de atenção às instruções dos imigrantes quando há 122 mil pessoas, mais de uma em cada três, que se enganam.
E é por causa do uso do envelope errado. É inacreditável.
É porque alguma coisa está mal e é bom que seja a logística eleitoral a assumir que tem que fazer de outra maneira, tem que explicar de outra maneira. São 122 mil pessoas que se enganam. O problema não pode ser delas. Temos que ter essa humildade. Se há um tipo de vez em quando que entra em contramão numa autoestrada três vezes por ano, isso provavelmente o problema é daquelas três pessoas. Se há dezenas de pessoas todos os dias que entram numa autoestrada em contramão, provavelmente naquela entrada há um problema de sinalização que as pessoas não percebem. E portanto, é preciso ter a noção. E depois a questão da representatividade também. Os imigrantes, os tais 333 mil eleitores elegem quatro deputados. Santarém com 250 mil, elegem nove. Portanto, há aqui um problema de falta de representatividade também dos imigrantes. Bem sei que são muitos os recenseados agora, desde que se fez o recenseamento automático. São poucos, muito menos aqueles que participam na eleição, mas ainda assim foi uma subida muito grande da participação de imigrantes, o que é uma ótima notícia. Aliás, como também a queda da abstenção cá no país, dentro de fronteiras, também é uma boa notícia. Mas há aqui problemas para olhar para a representatividade. Há o tal milhão e tal, não chega a meio, mas mais de um milhão de votos, os tais que não elegem ninguém, que são desperdiçados. Portanto, são aquelas sobras dos vários círculos e devia-se pensar no tal círculo de compensação, como aliás existe nos Açores. Continuamos com a tralha do dia de reflexão, coisa absolutamente absurda, que permite os abusos como o que a CNE teve este ano, que foi estender o dia de reflexão. Tentou estender o dia de reflexão da eleição dos Açores para todo o país e proibir a campanha e proibir a apresentação de um programa eleitoral que estava previsto para esse dia, nomeadamente da IL, e que os jornais noticiassem, os media noticiassem. Portanto, o pequeno poder, aquilo que eu chamo o poder do porteiro de discoteca, com o devido respeito para os profissionais do setor, que a CNE basicamente tem, aquele pequeno poder que para a prova devida tenta exercer ao máximo, atropelando tudo e mais alguma coisa, naquela janela temporal em que o país se lembra que eles existem e eles também se lembram que existem. E tudo isto, de facto, é um processo a merecer uma revisão de alto a baixo. Há aqui muitas matérias em que há um consenso alargado em termos políticos.
Vem devagar imigrante.
Vem devagar imigrante. Mas é verdade.
O Pedro hoje está muito farto dos clássicos da cultura pop.
Exatamente. E eu imagino que o PSD e o PS vão ter mais que fazer nos próximos tempos para isto, mas depois vem o choradinho habitual da qualidade da democracia, dos eleitores cada vez mais desligados da política e por aí fora. Acho que devíamos facilitar isto tudo e ter um país um bocadinho mais ágil. Queres um voto? Queres uma nota já? Um voto não, uma nota.
Quero uma nota. Hoje que se vai falar disto pela última vez nos próximos tempos.
É verdade, até à próxima eleição. Dou um 16 ao eleitor, porque o eleitor é quase a figura do imigrante, se quiseres. Vem devagar o eleitor.
Um 16 depois-
Desta vez no envelope certo.
Para o eleitor. Vamos mudar de tema, José Manuel Fernandes. Voltas à questão do CES e de Boaventura Sousa Santos. Não terminou este episódio depois das conclusões do trabalho da comissão independente. Há agora um grupo de mulheres a exigir a saída de Boaventura Sousa Santos do CES
Carlos, não acabou e não pode terminar, não deve terminar. Eu queria, primeiro que tudo, dar os parabéns a este grupo de 13 denunciantes que desta vez assumiram com o nome, fizeram um abaixo-assinado ontem em que dão a cara, isso é importante. Mas isso também só foi possível porque, para todos os efeitos, este relatório do CES foi um passo importante na boa direção. E agora, na minha perspectiva, o CES tem que ir um pouco mais longe, tem que continuar a fazer este caminho e como estas denunciantes sugerem ou reclamam, deve expulsar, afastar, como quiserem, Boaventura de Sousa Santos, porque não é apenas por aquilo que ele fez ao longo de todos estes anos, é também pela forma como ele reagiu a este relatório de 114 páginas sobre o que se passou naquele centro de investigação. E a forma como Boaventura de Sousa Santos reagiu, dizendo que estava aliviado, porque afinal de contas aquilo não era uma condenação criminal, digamos assim. E depois que estava era preocupado pelo CES se preocupar com o assunto, é um sinal de que ele continua a viver nos anos em que nasceu, que era a primeira justificação que ele deu para o seu comportamento.
Tem a ver com a mentalidade da geração.
Outra cultura, outra mentalidade e tal, e ele aparentemente é prisioneiro dessa mentalidade e seguindo os seus próprios ensinamentos, é preciso libertar-nos de mentalidades antigas e, neste caso concreto, era bom afastá-lo. Por isso eu quero dar uma nota positiva a estas 13 mulheres, não só pela frontalidade da sua posição hoje, mas sobretudo por terem dado a cara. Acho que nestes processos é sempre importante haver um momento em que se dá a cara. Admito que na primeira fase isso fosse muito difícil, está-se a tornar mais fácil e isso é positivo. Portanto, para estas mulheres do CES, algumas delas já ex-CES, eu dou um 14.
E algumas até estão no ativo.
Algumas estão no ativo.
Sim, algumas delas não são portuguesas e estão fora do país. Há uma que é deputada num estado alto brasileiro.
Sim, passaram por ali, basicamente.
Passaram por ali, mas outras estão cá. São portuguesas e estão cá. E continuam a ter um trabalho acadêmico. Enfim, não estive a ver o que cada uma delas faz. Pelos nomes, percebe-se que há uns nomes que são estrangeiros.
Mas algumas estão mesmo a trabalhar no centro, o que torna provavelmente a posição mais difícil.
Já percebemos que aquilo funciona de uma forma muito endogâmica. Com os relacionamentos pessoais que devem ser muito fortes. Também me espanta muito o silêncio absoluto da Universidade de Coimbra. Aquilo não tem uma reitoria? Estás a rir. Qual é a relação formal da Universidade de Coimbra instituição com o Centro de Estudos Sociais, instituição, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra? Portanto, haverá ali um relacionamento, não sei se é hierárquico, isto é, se há ali um dever de reporte em termos formais.
Penso que não é hierárquico. Dentro das universidades não há relações hierárquicas, mas há seguramente conversas.
Hierárquicas não, não dizia sequer se temos o direito a reportar ao reitor. Mas digo em termos institucionais, a prestação de contas do CES é feita a quem?
Estas mulheres pedem explicações não só à Universidade de Coimbra, mas também ao Ministério do Ensino Superior e às autoridades judiciárias. Portanto, teria de haver consequências deste relatório.
Eu penso que sim. Não sei se alguns destes crimes ou dos possíveis crimes estão ou não já abrangidos por terem prescritos. Porque às vezes estes crimes têm um tempo de prescrição relativamente curto, eu não sei, não sou jurista. Mas seja lá como for, eu creio, até porque alguns deles são crimes públicos, que o Ministério Público não deveria ignorar. No mínimo, não deveria ignorar. Mas também devo dizer que uma parte do caminho pode ser feito pelas próprias vítimas. Propõem dirigir-se ao Ministério Público e fazer queixa, até porque agora que já deram a cara, isso talvez seja mais fácil de fazer.
Percebemos que não acabou o assunto e pelo menos agora estas mulheres não o vão deixar morrer. Fica um 14 para elas, precisamente atribuído pelo José Manuel Fernandes. Amanhã temos uma nova ronde de avaliações no "IUven소ré". Até amanhã.