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Está no ar o "E o Vencedor É?", na Rádio Observador, edição de domingo, nas manhãs 360 de fim de semana, com o Gonçalo de Ropeira Sevada, jurista e colunista do Observador, e ainda o António Costa, publisher do jornal Eco. A condução deste "E o Vencedor É?" é contigo, Miguel Vilela.

Hoje vamos conversar e analisar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Vamos também falar sobre a libertação de presos políticos na Venezuela, notícia desta semana, da indicação de Mário Centeno para vice-presidente do Banco Central Europeu e também o tema que abre esta edição de "E o Vencedor É?", a última semana das presidenciais e é o tema trazido por António Costa. Quer expressar, António Costa, alguma expectativa em torno daquilo que vai acontecer nos próximos dias?

Bom dia. Não arrisco tanto, tendo em conta que há só uma sondagem, a sondagem diária, o tracking poll, ainda não apareceram outras sondagens que reforcem ou contraditam a tendência que se está a ver. Eu diria que há aqui duas ou três lições que se podem tirar. Face ao fato de existirem cinco candidatos realmente com condições para passar, eu diria que, talvez excetuando à esquerda o António José Seguro com os pequeninos candidatos à sua esquerda, a discussão nesta última semana não vai ser de voto útil, vai ser de convicção dos eleitores, começar a formar a convicção de quem realmente pode passar. Não no sentido de voto útil, eu diria o voto útil tem um significado um pouco diferente. Que é o grande não desperdiçar votos em relação a candidatos do seu universo muito pequenos e que acabam por não ter efeito. Aqui a natureza, eu diria, se calhar, expressava a utilidade do voto, mais que o voto útil. Eu diria que os eleitores vão olhar para estes cinco candidatos, ou para quatro, se quiseres, tirando António José Seguro, e começar a fazer sua escolha. E eu antecipo que as diferenças vão ser superiores àquelas que a sondagem, que o tracking poll nesta altura indicia. Por quê? Porque vai haver, antecipo eu, uma espécie de uma escolha de quem realmente pode ganhar. Qual é a expectativa? E a pergunta que se vai ouvindo é: quais são os dois que passam? E eu acho que o eleitorado vai ser confrontado com essa questão, não tanto de voto útil, mas nesse sentido da escolha de dois candidatos. O que se percebe muito rapidamente destes cinco? Eu vou arriscar dizer isto, com o risco que as margens são tão pequenas, parece mesmo fora da corrida. E não é apenas pela tracking poll, é pela dinâmica das campanhas. Por comparação com António José Seguro, há um dado que para mim é muito interessante. Luís Marques Mendes anda quase a pedir por favor ao PSD para se envolverem na campanha. Há uma curiosidade, olhando para estes meses, de fato há uma ironia, a política tem destas coisas, que é António José Seguro quase que tem que ter autorização aos líderes do PS pra aparecerem, porque agora é o contrário, é o PS colar-se à campanha, a aparecer, e nós nunca vimos, pelo contrário, é preciso dizê-lo, António José Seguro suplicar, a fazer alguma pressão política pública. Não é que tivesse grande peso para isso, mas a verdade é que a circunstância dos dois, que são apoiados pelos dois grandes partidos, mudou radicalmente no último mês e maio. E depois temos os do meio. Vamos lá ver, eu acho que é injusto, face a uma semana de tracking poll e à campanha ela própria e à evolução da eleição, dizer que é uma surpresa. Eu não valorizo tanto se está em segundo ou terceiro, João Cotrim Figueiredo. Acho que já seria uma injustiça dizer que isto é uma grande surpresa. A dinâmica da campanha, a percepção que nós vamos tendo, permite perceber que João Cotrim Figueiredo entrou por direito próprio, por mérito próprio, mais pela força da Iniciativa Liberal, como é evidente pelas votações do partido, na luta pela chegada à segunda volta. Não sabemos se vai chegar. Eu quase arrisco dizer que João Cotrim quase pode, nesta discussão, que como dizia não partilho muito, mas do voto útil, dizer que o voto útil lá à direita é mesmo em João Cotrim Figueiredo e não é em Luís Marques Mendes, que supostamente era o que centrava esse voto do centro-direita. Mas já não é provavelmente uma surpresa. Os debates não lhe correram particularmente bem, mas a campanha está a correr bem. Percebe-se o esforço que está a fazer no eleitorado mais velho.

Onde tem mais dificuldade em entrar.

Sim, sucedem-se visitas a lares e a instituições que têm ligações aos mais velhos e aos pensionistas. Depois, há aqui uma incógnita. Sabemos que há uma certeza, que é a base de André Ventura, pelo Chega, e são alinhados os votos do Chega com as intenções de voto que vamos vendo, e uma incógnita que é a Govêa Melo, que também está a fazer uma boa campanha, mas creio que tem um caminho difícil, porque percebeu que o caminho de entrada é mesmo à esquerda, centro-esquerda, sendo que vai buscar votos a toda a gente, é preciso dizê-lo, mas com o desgaste de menos, sobretudo a passar por Cotrim, Govêa Melo dá indícios de que está Que percebe que o caminho dele é mais à esquerda. Ora, mais à esquerda, parece que António José Seguro está cristalizado no seu voto. Obviamente que ainda há alguma diferença entre o voto do PS e o voto em António José Seguro. Pode haver aí uma margem, mas já não é muita. Na verdade, a diferença sobretudo está em Marcos Mendes, na AD, e por isso se percebe o voto em Cotrim Figueiredo. E portanto, eu diria que esta semana, para concluir, eu acho que os candidatos, mais do que atacar outros candidatos, vão ter que fazer valer o seu valor político. Percebeu-se que a estratégia de Gouveia e Melo, muito agressiva para Marcos Mendes, foi muito frutuosa no ataque a Marcos Mendes, mas não foi necessariamente muito útil na sua própria estratégia política.

Contribuiu para a descida das intenções de votos de Marcos Mendes, mas não para a sua subida.

Parece-me que os candidatos, e Cotrim Figueira tem feito isso, e se calhar isso explica alguma coisa. Se calhar vamos descobrir que temos um país diferente daquele que tínhamos e que há mais liberais do que aqueles que julgávamos existir no país. Eu estou a brincar, porque não acredito nisso, face ao que é a nossa sociologia política, mas veremos. Nós descobrimos um país diferente há cinco anos ou seis, com André Ventura, às tantas se Cotrim Figueira passar à segunda volta, e essa seria a grande novidade, passar à segunda volta, qualquer que fosse o seu adversário, descobriríamos que o país também mudou mais do que aquilo que pensávamos, depois de termos percebido que tinha mudado com André Ventura.

Que nota é que queres dar, António, a pretexto deste tema?

Eu dou um 14 à segunda volta, porque é muito difícil dar uma nota a cada um dos candidatos e, portanto, eu dou um 14 ao interesse na segunda volta esta última semana. Vamos ver.

A campanha termina na próxima sexta-feira, vamos a votos no domingo. Trazemos outro tema esta edição de "Ivens Doré" e foi um dos grandes temas desta semana: a aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Gonçalo Doroteia Sevada, o que se lhe oferece dizer sobre este acordo com contornos históricos?

Bom dia. Talvez comecemos pelo princípio. Este acordo começou por ser negociado em 1999 e para localizarmos os personagens era António Guterres, primeiro-ministro de Portugal, José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha, e Jacques Santer, presidente da Comissão Europeia. Era outro tempo, onde os acordos comerciais eram uma coisa em voga. Este tempo é contemporâneo da entrada da China na Organização Mundial de Comércio, etc. Portanto, o tempo era outro. E é curioso que, num tempo contrário a este tempo, este acordo seja finalmente aprovado. Algumas notas que me parecem importantes. O acordo foi de facto aprovado, portanto, nós estamos no passo dois, do ponto de vista institucional, em que ele foi aprovado pelo Conselho da União Europeia. Falta ainda a aprovação e a discussão por parte do Parlamento Europeu e a ratificação nacional dos Estados. E este ponto parece-me importante, por quê? Porque acordos comerciais, no contexto da União Europeia, não precisam de unanimidade, basta uma maioria, e essa maioria existiu, mas há países ditos grandes que estão contra. É o caso da Polónia e, sobretudo, é o caso de França. E há aqui dois ângulos que eu gostaria de pegar. Por um lado, a questão de França. Por que França faz isto? França faz isto com um presidente dito liberal, como Macron, em que do ponto de vista lógico e ideológico estaria favorável a este acordo, mas quando nós olhamos para os dois grandes blocos da oposição em França, Jean-Luc Mélenchon e Le Pen, também estão contra. E vai ser muito interessante acompanhar o que é que França vai fazer neste sentido. Eu sou favorável, obviamente, ao acordo, acho que é bom para Portugal, acho que é bom para a União Europeia, acho que é bom para o Mercosul, mas eu não ignoro as preocupações de França.

Quais é que são os riscos para França?

Vai haver sempre riscos num acordo comercial, há sempre players que ganham e há sempre players que perdem, mas isto é natural em qualquer abertura da economia.

Principalmente o setor agrícola em França.

É evidente que o setor agrícola em França, sobretudo aquele setor mais ligado à carne, pode, de facto, sair prejudicado.

Agropecuário.

Sim. Mas há vantagens evidentes neste acordo. O que aqui deixa de ser interessante é: por que Macron faz isto? Faz isto porque tem, pergunto retoricamente, uma posição de princípio contrária a este acordo? Diria que não. Ou para conter danos de política doméstica? E eu acho que essa é a resposta. Acho difícil que mesmo assim consiga contrariar o que quer que seja, porque o lobby agrícola em França é fortíssimo, e não sei se Macron está a tentar parar o vento com as mãos. Porque no mundo de 2026, um sinal político da União Europeia de não avançar com este acordo, de facto, é mau, porque nós não podemos estar mais de duas décadas para negociar um acordo comercial. Por mais detalhes técnicos, legais, regulatórios, etc, que existam ou que possam existir, é muito tempo. E vai ser muito interessante acompanhar a posição de França.

E há um aspeto, deixe-me só acrescentar, que seria absolutamente contraditório estarmos a criticar os Estados Unidos pelas suas práticas comerciais com Trump e não aproveitarmos este instrumento para vincarmos uma estratégia

Global contrária da proximidade entre mercados.

Por algum motivo, a maioria dos países europeus votou favoravelmente ao acordo, porque sabe que as suas empresas, as suas economias vão ganhar não só escala, como competitividade, como acesso a um mercado de praticamente 300 milhões de consumidores, e que tornará esta plataforma União Europeia-Mercosul, que na prática são quatro países, é o Brasil, a Argentina, Uruguai e o Paraguai, isto porque a Venezuela está suspensa desde 2016. Mas este acordo pode ser uma oportunidade, e eu acredito que é uma grande oportunidade para as empresas portuguesas, nomeadamente as que exportam vinho, azeite, conservas, têxteis, calçado, papel, indústria farmacêutica, componentes de automóveis, etc. Parece-me que o acordo é muito positivo, vai reduzir barreiras alfandegárias na entrada de produtos europeus no mercado destes quatro países da América Latina, e deve ser visto como um ponto positivo e finalmente uma boa notícia, que eu acho que a União Europeia pode apresentar e, sobretudo, que Ursula von der Leyen pode apresentar como uma vitória política sua.

E a nota é para a celebração deste acordo, para a posição de França?

Eu vou dar uma nota de expectativa ao que pode acontecer, portanto com alguma prudência, dou um 14, positiva, porque de facto há um acordo, com prudência para ver o que pode acontecer no contexto da ratificação nacional por parte dos Estados-membros.

Temos oito minutos, dois temas, e estamos debaixo de olho do regulador deste programa, o João Costa e Silva, por isso apelava à vossa capacidade de síntese. Mais um tema relacionado com a economia, Mário Centeno foi o nome indicado, está confirmado, nome indicado pelo governo para assumir a vice-presidência do Banco Central Europeu, tema trazido pelo António Costa. António.

É uma eleição.

É surpreendente esta decisão do governo?

Não, eu diria que é inevitável, mas é tirada a ferros. Percebe-se porque foi um anúncio na 23ª hora, por necessidade e por imposição política. Ninguém perceberia que o governo português não manifestasse seu apoio a partir do momento em que o próprio Mário Centeno, de resto, em declarações ao "ECO", se me permitem a publicidade, anuncia formalmente a sua disponibilidade para concorrer. E Mário Centeno tem a mesma hipótese, que é relevante. Desde logo, para o próprio, que eu não entro nesta discussão de que os cargos internacionais são muito importantes para os países. Enfim, tem alguma importância e por isso é que os países se batem por cargos internacionais, nesta coisa da geopolítica e geoeconomia, ter pessoas da nacionalidade nos sítios certos, não é exatamente para fazer favores, mas porque há uma visão que se transporta e que contribui para uma dinâmica de discussão. Mário Centeno apresentou-se no dia 8, formalmente com uma declaração. No dia 9 de manhã, dia do Eurogrupo, que formalizou as candidaturas, o governo anuncia ou confirma que apoia e que no Eurogrupo apoia formalmente Mário Centeno. Mário Centeno tem um bocadinho que mais presidenciais, tem cinco concorrentes, são seis. E se calhar um dos motivos que o leva a ser um candidato com possibilidades efetivas é que há muitos concorrentes do outro lado da União Europeia, entre finlandeses e bálticos, que tendencialmente dividirão votos no Eurogrupo e depois no Conselho Europeu. Por um lado, qual é o senão de Mário Centeno? Não é um governador em exercício. Isso também não é de somenos, porque dos cinco outros candidatos, quatro são governadores em exercício, em funções, governadores dos respectivos países. Depois há um nome que é particularmente forte, seguramente quem nos está a ouvir reconhecerá, que é Olli Rehn, que foi comissário europeu, foi ministro das Finanças e que é hoje governador do Banco da Finlândia. Um percurso não é muito diferente do Mário Centeno e com credenciais acadêmicas também fortes, como de resto tem Mário Centeno. Depois, nesta discussão política, o PPE tem mais peso, nomeadamente nos primeiros-ministros do Conselho Europeu. Não é maioritário nos ministros das Finanças, porque há países com coligações em que o ministro das Finanças não é do PPE, é do partido que está no PPE. Mas ainda assim, o PPE tem uma relevância e o PPE normalmente nestas matérias alinha-se de uma forma mais estruturada. Tem outro contra, que acabou de ser nomeado um presidente do Eurogrupo que é grego. E nesta geografia política europeia, ter um presidente do Eurogrupo grego e um vice-presidente do BCE português é uma coisa que deve causar algumas interrogações no centro da Europa.

Até porque iria substituir um espanhol.

E depois vai substituir um espanhol, que por sua vez substituiu um português, Vítor Constâncio, o que também não é propriamente um ponto a favor. Um ponto a favor que surgiu esta semana, não é oficial, mas é oficioso, mesmo pra terminar, é que a Espanha tinha a expectativa de poder ser candidata à presidência do BCE e Espanha não apoiaria Portugal se tivesse a expectativa de ter um presidente do BCE, por razões óbvias. Seria, de facto, o cúmulo termos, não era para nós, mas para a Europa, para o BCE, ter um português e um espanhol na liderança do BCE e da supervisão bancária e monetária europeia. Mas a Alemanha quer mesmo esse lugar e aparentemente Espanha terá dado indicação de que apoia Mário Centeno. António Costa envolveu-se muito e creio que Macron também vai apoiar Centeno, assim como a própria Alemanha. Centeno tem a mesma hipótese. Eu acho que é interessante esta união, esta coligação improvável e quase contranatura entre João Quinta-Sarmiento e Centeno, depois destes anos de tanta tensão pessoal e o Dom 14, diria a cada um deles, porque tiveram a capacidade de se entender no mínimo denominador comum para uma eleição que vai decorrer dia 19, a primeira votação, mas que provavelmente passará pra fevereiro pra uma decisão.

Falta só o último tema, que tem a ver com a libertação de presos políticos na Venezuela pelo regime. É tema trazido pelo Gonçalo d'Orteia Sevada, que terá a dizer sobre esta decisão.

Se nós olharmos para o que aconteceu no dia 3 de janeiro, parece que passou uma eternidade, mas, na verdade, passou uma semana e aconteceu, de facto, muita coisa na Venezuela nessa última semana. Há uma nova presidente e há, sobretudo, uma pressão por parte dos Estados Unidos nessa tal transição ou de caminho para essa transição. Já muito foi dito esta semana, mas importa recordar o seguinte: há dois tipos de transições que são possíveis. De rutura, um pouco como o 25 de Abril em Portugal, ou de transição pactada, como aquela que existiu na transição espanhola e que é vista como um sucesso de acordo, de pacto entre inimigos históricos ou entre bandos históricos, até o termo utilizado em Espanha. Talvez o meu lado otimista queira falar mais alto, mas aquilo que vimos na Venezuela na última semana, em alguns aspectos, pode nos dar alguma esperança de que o regime vai mudar e que será o próprio regime a mudar por obrigação externa. Há quem olhe de maneira muito taxativa para Delcy Rodríguez como um fantoche de Donald Trump. Eu prefiro olhar para a presidente da Venezuela como um instrumento dessa transição que os Estados Unidos precisam no terreno para contrariar, aliás, outro tipo de intervenções externas que aconteceram por parte dos Estados Unidos noutras décadas. Aquilo que está a acontecer na Venezuela é uma transição oficiosa ou oficialmente pactada com o regime. Caso contrário, não havia a libertação destes presos políticos. Portanto, algo de positivo, pelo menos, já aconteceu, que é a libertação de seres humanos inocentes, presos por delito de opinião, e que foram libertados, alguns deles estrangeiros. É muito curioso a forma como alguma imprensa tem estado a noticiar esta libertação, dando a Lula da Silva e a Zapatero os louros desta libertação. Não deixa de ser extraordinário que Lula da Silva e Zapatero foram dois dos políticos mais próximos do regime de Chávez e de Maduro, e que essa proximidade, nas últimas décadas, não garantiu a libertação de uma pessoa, e que foi precisa a intervenção militar dos Estados Unidos para que muitas destas pessoas fossem libertadas. Portanto, há uma nota que eu quero dar de esperança, uma nota positiva à libertação destes presos, que é um 18.

A nota atribuída pelo Gonçalo d'Orteia Sevada, que com o António Costa fizeram esta edição de "E o Vencedor É..." de domingo. Voltamos amanhã.