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Ilvense Dourén, Rádio Observador, à Judite França juntam-se hoje o Pedro Benevides e o António Costa. Bem-vindos a todos. Vou abrir os respetivos microfones para que se possa ouvir os nossos convidados. E nesta edição vamos olhar para o reconhecimento do Estado da Palestina por Portugal, também para a renúncia de Gabriel Mithá Ribeiro ao lugar de deputado no Chega e ainda vamos falar dos avisos do Conselho de Finanças Públicas sobre a economia portuguesa. O Conselho de Finanças Públicas está um pouquinho mais pessimista do que estava há cinco meses. Neste Ilvense Dourén também vamos falar sobre autárquicas, vamos falar sobre o debate de ontem entre os principais candidatos à Câmara Municipal do Porto, debate ontem na SIC, e nada melhor do que uma ilustre filha da terra do Porto para puxar do tema.

Eu também sou.

Desculpa, e o António, dois.

Não tão ilustre. Mas sou filho da terra.

Se me permite.

Significa que percebemos partes do debate que outras pessoas não perceberam.

Exato. Ajudem-nos lá, guiem-nos lá pelo debate, por favor.

Há ali coisas que são muito específicas que as pessoas podem não apanhar à primeira. Mas o essencial...

É isso, é que a ERC não quis frente a frente. Aliás, obrigou aqui as televisões a ter mais participantes em debates, as televisões e não só, rádios de prestígio também. Mas na prática tivemos o frente a frente, Judite, não foi isso?

Sim, tivemos um debate polarizado entre os dois principais candidatos, o que eu acho que faz sempre sentido e eu acho que teve muito interesse, porque são duas visões diferentes para a cidade, pelo menos no que diz respeito à habitação, que é um dos principais problemas da cidade do Porto. Houve ali momentos em que até José Sócrates foi chamado ao debate, que foi o momento em que Pedro Duarte achou que precisava de atacar Manuel Pizarro, porque antes disso tinha dito uma frase que Manuel Pizarro decidiu repetir. E houve ali um momento em que Pedro Duarte pensou: "Ah, disse uma frase que não devia ter dito."

Quem nunca?

Mas depois pensando melhor, não há problema nenhum com a frase que Pedro Duarte disse. Pedro Duarte diz que há duas visões da cidade, uma visão mais densa da cidade, com mais habitantes e por isso mesmo mais construção, necessariamente, e uma cidade com menos construção, ocupando as casas que estão vazias, e há muitas casas vazias na cidade do Porto, com mais espaço verde, menos betão. A verdade é que a primeira interessa àqueles que foram expulsos da cidade e que querem regressar. A segunda interessa àqueles que estão na cidade e esses é que são os eleitores de Pedro Duarte e de Manuel Pizarro. Portanto, esse problema ficou resolvido. Eu acredito que Pedro Duarte tenha pensado durante um segundo se a coisa correu mal, mas acho que não lhe correu mal nesse aspecto. Repara, Pedro Duarte quer ocupar essas 20 mil casas desabitadas e Manuel Pizarro quer construir bastante e construir com a ajuda dos privados, o que é sempre muito interessante. O PS está já aqui, também em Lisboa, construção com a ajuda dos privados, portanto, deixou de ser tabu. Pelo menos isso deixou de ser tabu.

Pelo menos é a gente olhar pra oferta.

Sim.

É preciso mais casas no mercado.

Mais casas, exato. Sendo que o PS também piscou o olho ao governo central, que também gostava que o governo central financiasse ali parte desse projeto.

Claro. Também. Todos querem que o governo central financie parte.

A novidade, de facto, são os privados.

Diz.

Conclui.

Ia falar da questão da segurança, porque aí estão os dois muito alinhados e depois ia fazer só uma breve referência ao candidato do Chega, porque é um candidato preparado, que é uma coisa pra qual nós não estamos habituados.

Vamos ouvir a opinião do António também sobre o debate.

É interessante, eu diria que vai ser um processo eleitoral que vai durar mesmo até o último dia. Percebe-se.

São muitos candidatos, pode haver uma grande discussão de votos.

Eu devo sublinhar a minha estranheza por não estar o vice-presidente da Câmara atual e candidato à Câmara, Filipe Araújo. É um pouco estranho.

É uma justificação que na prática, legalmente colhe, porque o movimento objetivamente não está representado na Câmara.

Só me vá ver, em Lisboa isso aconteceu e o Chega foi convidado a estar presente no debate.

Mas isso é uma decisão editorial.

Editorial. Mas apesar de tudo, Filipe Araújo não esteve presente, mas é um ausente que pode decidir mesmo quem vai ganhar. Por quê? Porque percebe-se que entra muito eleitorado Pedro Duarte e vai se ganhar ou perder por um voto, literalmente, nas câmaras é mesmo assim. E que tendo em conta este quadro, o desempenho de Filipe Araújo, pra já em funções, porque é o vice-presidente e aparece quase como se fosse o presidente, porque está em todo lado permanentemente. Enfim, não faz nada que todos os outros não façam em cada momento, seja no governo central ou nas autarquias. Portanto, foi um debate equilibrado. Percebe-se que o tema da segurança, eu acho que estão mais de acordo, mesmo tentaram em alguns momentos arranjar desentendimentos, que são na verdade mais artificiais do que parecem. Percebe-se a tentativa de Pedro Duarte trazer uma visão um pouco diferente face a Manuel Pizarro Que também é do Porto, mas que já concorreu três vezes.

É um veterano.

Portanto, é um veterano, que tem um discurso muito alinhado com o que fez nos últimos anos. Pedro Duarte tenta aqui um novo ensaio, mas não sei se isso é suficientemente diferenciador para que, no final do dia, o voto num grande bloco central de eleitores não resultem, gostam mais pessoalmente, pela questão de perfil, de um ou de outro. E uma nota final para Miguel Corte-Real, que de facto parece estranho que nós estamos a dizer: "Olha, temos aqui um candidato que sabe, teve boas intervenções, muito práticas no tema da mobilidade".

Resta saber se esse tipo de comportamento, vou dizer assim, colhe ou não colhe junto do eleitorado do Chega.

Sim, mas percebe a cidade. E, portanto, também teve uma intervenção. Mais uma vez, vai ser determinante o resultado pessoal.

Pedro, só acho que ele talvez tenha, apesar de estar preparado, talvez tenha falhado ali numa parte que é quando ele comparava ou colava o PS e o PSD ao executivo de Rui Moreira. Eu não sei se isso é uma coisa má necessariamente para os eleitores, porque Rui Moreira teve sempre bons resultados nas várias candidaturas e, portanto, não tenho a certeza que ele tenha conseguido isso. Pedro, e achas que, ao contrário do que pode acontecer em Lisboa, em que haverá certamente uma leitura política mais abrangente sobre um PS que não está bem ou um PSD que não está, enfim, vamos ver o que é que vão ditar os resultados. Achas que os resultados do Porto serão, eu vou dizer isto assim sem querer ofender ninguém, mais autárquicos e menos políticos, ou não? Acho que vai ser difícil não se fazer uma leitura política do que resultar das eleições do Porto, porque é uma câmara fundamental e neste momento, partindo-se do princípio que a disputa vai ser entre PS e PSD, é o que tudo indica, e já agora, o debate de ontem também mostrou que é exatamente isso que vai acontecer. E foi bom, porque apesar de tudo, o critério editorial veio ao de cima, apesar das obediências todas àquilo que a ERC impôs. E de fato aquilo que nós todos que vimos aquele debate tiramos foi uma disputa entre dois homens, eles próprios fizeram questão que a coisa fosse entre um e outro. Sendo que a câmara poderá voltar para as mãos do PSD ou para as mãos do Partido Socialista, eu diria que vai ser difícil não haver uma leitura. Mesmo, por exemplo, que haja uma derrota de uma força política em Lisboa, se ganhar no outro lado, acho que vai ser difícil.

Não, eu acho que, se bem percebi a tua pergunta, eu acho que o voto vai ser mais autárquico. Isto é, não vai ser ditado, como é muito em Lisboa, pela dimensão da intervenção do governo ou da relação do presidente da câmara com o governo.

Eu também não tenho a certeza que em Lisboa as pessoas votem exatamente assim.

Há mais, diria, em termos de pesos.

Vamos voltar seguramente a questões autárquicas neste "E o Vencedor É". Agora precisamos de uma primeira ronda de notas para o debate. Judite?

Eu dei notas a todos e, portanto, a Pedro Duarte um 15, a Manuel Pizarro um 14, a Miguel Corte-Real um 13, Sérgio Aires 14 e Diana Ferreira um 12.

Não sei se vocês têm, Pedro.

Eu dou um 15 ao debate.

Um 15 ao debate.

Porque o debate foi um bom debate.

Eu daria a Pedro Duarte e a Manuel Pizarro um 15, precisamente porque polarizaram o debate e fizeram aquilo que idealmente se queria fazer ali, que era as duas principais forças políticas. E Pedro Bruno Vítor, temos agora de falar do candidato à Câmara Municipal de Pombal.

Eu estou muito focado nas autárquicas.

Um ex-deputado do Chega, Gabriel Mithá Ribeiro, que abandonou o lugar no Parlamento, sai, e o Chega não dá grandes explicações. Isto poderá estar relacionado com o facto de Mithá Ribeiro ter apelidado Isabel Moreira, deputada do PS, de feminazi e diabólica, ou não terá nada a ver com isto?

Não faço ideia. E não faço ideia porque o Chega não deu nenhuma explicação. O Chega apenas anunciou hoje, através de um comunicado, que este deputado ia sair a seu pedido e que ia ser substituído por este deputado. E ponto final, parágrafo. E não há mais nenhuma explicação. Nós sabemos que Gabriel Mithá Ribeiro é candidato autárquico, precisamente em Pombal. Sabemos que teve esses problemas com esse discurso insultuoso para com Isabel Moreira, que foi oficialmente sancionado pelo Parlamento. Não sabemos se está relacionado com isso ou não. Sabemos que Gabriel Mithá Ribeiro-

Em tempos passados, teve problemas com André Ventura também.

Com o próprio André Ventura. Ele chegou a demitir-se de funções institucionais no partido quando André Ventura tomou conta do gabinete de estudos, creio eu. Portanto, sabemos que houve já desentendimentos com André Ventura, sabemos que houve este problema no Parlamento, sabemos que mesmo esta questão autárquica em Pombal também houve ali alguém que tentou passar-lhe a perna, etc. Não fazemos ideia de qual é a razão para que ele tenha decidido sair, se é para se dedicar, pode ser uma coisa muito simples, como quer dedicar-se 100% à minha candidatura autárquica e tenho a certeza que vou ganhar.

E se saber se ia, não é? Se fosse isso, não é?

Pois, a questão é que nós não sabemos nada.

A ausência de explicação é ela própria uma explicação.

É estranho que um líder que está sempre a dar entrevistas constantemente e está sempre a falar todos os dias e está sempre a propor comissões de inquérito ao primeiro escândalo e a pedir transparência e a dizer que os políticos são todos iguais, acontece isto e não se sabe nada. E, portanto, eu só estou aqui a registar um silêncio.

Judite?

Eu acho que não faz sentido nenhum que não se tenha sabido qual é a razão, se calhar ainda se vai saber. Agora-

Ser otimistas, sim

...o Chega perde um deputado também ele bem preparado.

Importante, e é um nome importante no partido. Pedro, vamos à nota para Gabriel Mithá Ribeiro ou para o Chega, não sei quem é que tu queres dar a nota.

Eu acho que vai ser para o Chega, porque o parente que estava a criticar, não estava. O silêncio às vezes é bom. O Chega fala muito e, portanto, acho que este silêncio é de-

É de ouro?

É de ouro. Portanto, um 18.

Um 18 para o silêncio. Já voltamos para a segunda parte do "E o Vencedor É". Ainda vamos falar sobre o reconhecimento do Estado da Palestina e ainda do pessimismo do Conselho de Finanças Públicas sobre as contas para este ano. António Costa, esta tarde o Conselho de Finanças Públicas mostrou-se mais pessimista em relação à economia portuguesa do que há cinco meses, seis meses, mais ou menos. O que é que destacas? Já agora, ajuda-nos aqui a perceber que pessimismo é este.

Em vez de pessimismo, eu diria realismo. Um realismo contextualizado.

Quando o realismo é assim chato, a gente diz pessimismo.

Mas é mesmo realismo, eu acho que Nazaré Costa Cabral tem nos habituado a análises muito consistentes da situação econômica e, sobretudo, orçamental do país. Vem basicamente dizer uma coisa importante: é conclusão. Não há margem no orçamento de 2026 para descida de impostos. O contexto é exigente e mesmo admitindo que corra tudo muito bem, o Conselho das Finanças Públicas antecipa um crescimento bastante mais modesto, econômico mais modesto, em necessidade de 1,9% e 1,8%.

A anterior previsão era 2,2, não é?

2,2. E mais modesto que a do próprio governo, como nós sabemos. Isto leva-me, num rápido parêntesis, a sublinhar que talvez os governos devessem deixar de fazer previsões econômicas, porque os governos não controlam o andamento da economia. Controlam políticas.

Nem são desinteressados.

E, portanto, há países que têm, aliás, entidades independentes a definir as metas de crescimento com base em informação pública e feita de forma independente, para que os governos depois façam as suas opções políticas, mais impostos, menos impostos, mais despesa, menos despesa, em função dessa perspectiva. Quando os governos começam a arbitrar a necessidade de pôr o crescimento da economia um pouquinho mais para cima, um pouquinho mais para baixo, em função de decisões políticas, começam a jogar com variáveis que não controlam. O governo controla a despesa. E se controlar a despesa, já podemos agradecer, porque é ótimo. E se controlar bem, ainda melhor. E tem, obviamente, pressupostos. Os pressupostos do governo, e que já foram anunciados ainda no início deste ano e depois das eleições, são pressupostos, diria, mais otimistas do que aqueles que hoje o Conselho de Finanças Públicas antecipa, quer para este ano, quer para o próximo. E, portanto, o que é que o Conselho diz? A economia e os excedentes têm sido muito suportados no bom comportamento do mercado de trabalho. Muito emprego, logo, muitos descontos para a Segurança Social, obviamente também IRS, em subidas de cobrança de impostos muito acima do que o crescimento nominal da economia. Mas no quadro atual, e com uma execução para 2026 muito impactada, muito afetada positivamente, com efeitos positivos, mas também com efeitos mais difíceis de gerir do ponto de vista de despesa, que é o PRR, o famoso PRR, que o governo nos promete que vai executar tudo. Mas vivemos este paradoxo. Se calhar, o Joaquim Miranda Sarmento gostava que não se executasse tanto, porque executar tudo são 3000 milhões que pesam muito na despesa e pressionam as contas públicas. Portanto, o ministro das Finanças num chapéu quer que se execute muito, no outro, se calhar, não quer que se execute tanto. Não o vamos ouvir seguramente a dizer que não quer que se execute aqueles fundos do PRR, mas neste quadro, é preciso dizer também que o Conselho de Finanças Públicas já foi mais pessimista em matéria de finanças públicas do que é hoje. Há poucos meses apontava para um déficit de 1%, agora aponta apenas, eu apenas estou a fazer o sinal, as plicas, os aspas.

Estão a ser feitas aspas com dedos neste estúdio.

Com 0,6, mas ainda assim é um déficit. O governo propõe-se, e o ministro Joaquim Miranda Sarmento já anunciou o objetivo de um saldo orçamental marginal de 0,1. Também não é porque podemos ter um excedente de 0,1 que a nossa vida vai mudar. Mais importante, e apesar de tudo estes avisos, que eu creio que são avisos que seguramente o ministro das Finanças os leva a sério, há um aspeto positivo, apesar de tudo, que é a continuada descida do peso da dívida em relação ao PIB. Nós olhamos para a França, olhamos para Itália, olhamos para a Grécia e dizemos: "Epá, antes que isto corra mal, é melhor mesmo que a nossa dívida pública continue a baixar e que nós sejamos outra vez uma espécie, não vamos ser tanto, mas quase, um bom aluno em matéria de dívida pública."

Pedro Benevides, só para fecharmos isto, porque ainda temos de ir ao teu tema sobre o Estado da Palestina. A proposta do orçamento do Estado estará nessa altura, se não fechada-

Desejavelmente.

Praticamente fechada. Pelo menos está a ser discutida com os partidos. Ainda poderá haver alguma influência.

E o ministro diz que é uma boa proposta.

Achas que ainda haverá alguma influência destes avisos?

Não te ia ser a sucesso o contrário.

Eu tenho dúvida. Sim, exatamente.

Ou fazer uma má proposta. Este ano da variável, uma má proposta.

Nesta sequência, eu ia dizer que ainda estou aqui a refazer-me do choque, tive que beber aqui mais um pouquinho de água, por o governo ter perspectivas mais otimistas do que entidades independentes quando avaliam o estado da economia.

Estavas à espera, pois não?

Não estava à espera, ainda estava aqui a tentar recuperar um bocadinho o fôlego. Honestamente, não sei se estes avisos vão a tempo de entrar na proposta orçamental.

Vão.

Pelo menos na execução, depois haverá sempre cuidados, até ao final do ano, haverá sempre formas de contornar a coisa, é aquilo que tem sido a nossa prática. E como esta também se repete, este excesso de otimismo relativamente àquilo que vai ser o desempenho da economia por parte dos governos em funções, eu diria que nós vamos assistir ao filme do costume, que é as metas, porque o António falava aqui de não é por 0,1 a mais ou 0,1 a menos, quer dizer que as nossas finanças públicas vão entrar em colapso. No entanto, há ali um efeito psicológico e político e de alguma propaganda, que é teres um déficit não é igual a teres um excedente marginal.

Nada disto conta ainda com o aumento de despesa na defesa, não é?

Digamos que essa é uma das limitações deste exercício.

Não conta com isso, nem conta com descida de impostos.

Eventual descida de IRC ou até descida de IRS. Portanto, há algumas limitações, mas se contar e os riscos, obviamente que adensa as dificuldades de execução. No fundo, eu acho que é mesmo mais importante, e eu acho que Nazaré da Costa Cabral merece uma nota muito positiva.

Então vamos à nota, António Costa.

Porque ela diz basicamente: "Não se ponham a inventar com descidas de impostos sem saber como é que está a conjuntura e a despesa corrente primária como é que se vai comportar."

Fica dado esse 14. Vamos avançar para outro dos temas fortes destes dias, o facto de Portugal avançar com o reconhecimento do Estado da Palestina. Pedro Benevides, isto até provocou uma cisão, se lhe pode chamar assim, no interior do governo, porque o CDS não concorda com esta ideia. Achas que é uma decisão precipitada, Pedro?

Eu não sei se é precipitada. Eu confesso que não percebo os desenvolvimentos das últimas semanas.

Esta é a diferença do comentário, que é um comentador que diz... Eu estou a brincar contigo, estou a meter contigo, como é óbvio.

Um comentador que não percebe nada disto, é isso. É exatamente isso que eu estou a dizer. Eu não percebo nada disto. Eu não sei o que o outro se demitiu, não sei porque é que o governo toma estas decisões. Eu vim aqui beber água desta caneca lindíssima do Observador.

Estava só a te provocar, como é óbvio.

Não, é que por acaso o meu comentário vai mesmo nesse sentido. Eu gostava que o governo tivesse explicado por que esta decisão foi tomada. O governo ou o Presidente da República.

Porque os próprios pressupostos que estavam elencados não foram todos cumpridos.

Não foram cumpridos. O argumento de que Portugal sempre defendeu a solução de dois Estados não é um argumento, porque isso é, para já, verdade. Nós defendemos sempre a solução de dois Estados.

Sempre defendemos o bem-estar das pessoas.

Das pessoas. Mas a questão é: essa solução de dois Estados tinha que ter pressupostos que ontem, ouvindo o ministro dos Negócios Estrangeiros falar sobre como estão garantidas as condições para a Autoridade Palestiniana. Estão garantidas em que sentido? A Autoridade Palestiniana, neste momento, está num reduto, não tem poder efetivo sobre aquela região.

Isso é verdade.

Aquela região está tomada pelo Hamas. A saída do Hamas, reformas para haver eleições também já rapidamente. Quer dizer, tudo isto parece num mundo de fantasia, quando o que nós vemos diariamente é uma realidade completamente diferente. Estamos a ver a guerra a níveis, nalguns casos impensáveis. Estamos a assistir todos os dias a notícias de números de vítimas avassaladores, planos de Israel para ocupar mais território. Portanto, tu nem sequer tens, neste momento, um território com fronteiras definidas. Que Estado vai ser este, o da Palestina? Há quem diga: "Bom, isto é uma forma de pressionar Israel." Pressionar Israel em quê? A partir do momento em que Portugal reconhece o Estado da Palestina, acontece o quê? É que não acontece nada de especial.

É uma decisão sem consequências práticas, pelo menos para já.

É uma decisão que não é compreensível. Ninguém nos explicou o que mudou na nossa política externa para, de repente, em plena guerra, com a situação no estado em que está, sem conseguirmos adivinhar qual é que vai ser o futuro daquela gente, daquele território, Portugal junta-se a um grupo de países e passa a declarar a Palestina como um Estado independente.

António, achas que é uma decisão que fica bem, que vai em linha com outros países?

Parece que foi tomada por causa disso, porque fica bem.

Mas por que fica bem agora e não ficava bem o ano passado ou há dois anos?

Obviamente. E vamos lá ver. Tens implícito que é neutra desse ponto de vista, não tem impacto. Eu admito até que seja negativa.

Pois!

Não exatamente a de Portugal de forma isolada, mas este movimento, neste contexto. É evidente que eu acho que é importante dizer que é possível dizer que o que se está a passar com a operação de Israel em Gaza vai para lá de todos os limites e dizer, ao mesmo tempo, que o Hamas é um grupo terrorista e que tem que ser eliminado. Não é preciso estar de um dos lados, no sentido em que parece que se dizemos uma coisa, temos que dizer necessariamente a outra. Não, não é. É possível dizer as duas coisas e dizer que é obviamente desejável uma solução de dois Estados, e eu não sei, e aqui junto-me aqui ao Pedro, não sei.

Está a criar as palavras, Ricardo. Estás a engolir as tuas palavras.

Se esta medida ajuda mesmo nestes aspectos.

Quando alguém vier aqui, com certeza, isto vai dizer: "Estás aí nessa bazófia."

Eu sei que isto pode não ter soado, mas é um elogio, Pedro. Isto é um elogio.

É que, verdadeiramente, isto ajuda alguma coisa aos palestinianos?

Sim.

Vamos lá ver, parece bem. Aliás, soubemos por uma declaração do governo francês que íamos tomar esta decisão. Foi anunciado primeiro em Paris, o que é uma coisa estranhíssima ou insólita, para não dizer outra coisa. E depois dizemos assim: "Ok, alinhemos com alguns dos nossos parceiros internacionais com quem queremos estar." Mas no final do dia, estamos a contribuir realmente para que isto avance para alguma coisa? Não creio. Infelizmente.

Não sabemos o que Israel vai fazer e Netanyahu vai fazer com esta pressão internacional.

Só uma frase. Percebo tudo o que disseram. A alternativa de não fazer nada perante aquilo que se está a passar, parecia-me muito pior.

Portanto, achas que é preferível dar este sinal agora, é isso?

Sim, acho que é preferível dar algum sinal agora.

A Judite está a colocar a questão nos termos certos, porque, de facto Portugal e outros países da comunidade internacional tinham aqui um problema que é: o que fazer perante aquilo que se está a passar?

Nada.

Nada é um problema, mas isto eu também acho que é um problema, porque acho que foi tomada de uma forma completamente amadora, sem uma explicação cabal. Nós temos anos de política externa relativamente à Palestina, nunca pusemos em causa a solução de dois Estados, que do meu ponto de vista também me parece razoável para tu conseguires ter ali uma solução de paz. A questão é que todos os pressupostos, incluindo aqueles que o próprio governo português impôs e listou como condição para o reconhecimento da Palestina, não estão todos garantidos.

Eu quero citar rapidamente, para fechar, o Pedro Gomes Sanchez, que escreveu um belo artigo no "Expresso" nos últimos dias sobre isto, dizendo: "Há quem insista que reconhecer o Estado da Palestina é um imperativo moral." Na verdade, parece que é este, e agora sou eu a dizer, não o Pedro. E ele próprio diz que não é. O reconhecimento a um Estado não é um gesto de compaixão, é um ato jurídico e político com consequências. Ora, que consequências é que esperamos? Eu percebo, Judite, que não fazer nada também não é solução. Fazer isto parece que nos descansa a todos do ponto de vista do nosso estado de espírito. Já fizemos alguma coisa, quando realmente isto eu acho que é quase não fazer nada.

Quando ouvimos o ministro dos Negócios Estrangeiros dizer ontem: "Exortamos do fundo do fundo dos nossos corações." Isto é diplomacia, isto não é declarações de amor nem é coisas sentimentais.

Diplomacia é realismo.

Exatamente. Faltou um bocadinho de racionalidade e, sobretudo, explicação. Explicarem-nos a nós porque é que mudámos de posição nesta matéria. A minha nota vai ser um 18 para o CDS, porque mesmo estando nesta coligação, deixou no ar as dúvidas que no fundo são as dúvidas que eu também tenho sobre este processo.

Fica 18 para o CDS. Muito obrigado, Pedro Benevides, António Costa e Judite França. E o "Vencedor" regressa amanhã.

Eu vou levar umas coisinhas para a próxima vez. Pode ser, Ricardo?

Sim, pode. Eu estou a querer que sim.

Eu empresto. Obrigado, António.

O "Vencedor" regressa amanhã às 08h30 da manhã, nas manhãs 360 da Rádio Observador.