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Está no ar mais um "IU Vensoré". Para além de nos ouvir na rádio, também nos pode ver. É só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, esta terça-feira estão conosco o José Manuel Fernandes e a Ana Sanles. Sobe o tom da campanha para a Câmara de Lisboa. O Banco de Portugal tem um novo governador, mas começamos por assinalar o 7 de outubro. José Manuel, contigo. Por que queres marcar esta data? José Manuel.

Quero marcar esta data porque as pessoas têm que ter noção de que o 7 de outubro não foi apenas uma coisa pequena, no sentido em que nesse dia, além de mais de mil mortos causados pela invasão, porque foi verdadeiramente uma invasão do sul de Israel, a maior parte, quase totalidade desses mortos, foram pessoas, alguns que estavam a assistir uma festa, uma festa até com cara de pacifista, que eram habitantes de kibutz, quase todos eles até bastante situados na área do pacifismo israelita, e que foram mortos apenas por estarem ali, por serem judeus ou por trabalharem para judeus. Houve também alguns que eram trabalhadores, por exemplo, nepaleses ou vindos de europeus e que foram mortos, foram raptados, aconteceu-lhes de tudo. Não vou estar a recordar o que se passou nesse dia, só que hoje estão convocadas para três cidades portuguesas, três manifestações, aparentemente todas elas a celebrar o massacre. É celebrar o massacre. Há uma que não sei quantas pessoas poderá ter, não consegui perceber bem qual é a origem disto. Estes grupos muitas vezes são grupos anônimos. Não são grupos, são coletivos. Sim, coletivos. Desculpa lá. São coletivos, exatamente. A gente tem que dizer isto como deve ser. Um chama-se Guilhotina e esse convoca uma manifestação para Lisboa, para o Rossio, para o Marquês de Pombal. Aparece aqui um nome que não sei quem é, Francisco Ric, a dizer que o 7 de outubro devia ser celebrado como marco da luta anticolonial, do dia em que os filhos e os netos das vítimas romperam os muros da maior prisão do mundo e tal, por aí adiante. Glória às Al-Qassam. Al-Qassam são as brigadas do Hamas. Glória aos mártires da resistência palestiniana e por aí adiante. Este está convocado para Lisboa, depois há uma outra convocada por um coletivo pela libertação da Palestina. Essas são convocadas para o Porto e para Braga, com a seguinte palavra de ordem. Os cartazes ou os posts nas redes sociais dizem: "Queremos a vossa raiva. Não precisamos mais da vossa simpatia, queremos a vossa raiva". Isto está convocado uma para Braga, outra para o Porto. Fui ver o que é este coletivo, o que eles defendem. Entre outras coisas, defendem: consideramos a Palestina do rio até ao mar. Não reconhecemos as fronteiras do Estado sionista. Defendemos o total desmantelamento desse projeto. No fundo, somos radicais, queremos ir à raiz do que levou à criação da ocupação. Trabalhamos para..." Por aí adiante. É literalmente uma defesa, neste caso aqui sem disfarces, da expulsão dos judeus da Palestina. Absolutamente assumida e dita em nome de tudo. Da luta anticolonial, luta anticapitalista, todas as lutas possíveis e imaginárias. Curiosamente, o símbolo deste coletivo é uma fatia de melancia, não sei bem por quê. Reúne as cores da bandeira. Sim, reúne as cores da bandeira palestiniana. Tem aqui o preto, tem o vermelho, tem o branco, tem o verde. Essas manifestações não sei se vão ter alguma expressão. Apenas queria assinalar que em Itália manifestações semelhantes foram convocadas, nomeadamente para Bolonha. Bolonha é tradicionalmente um dos bastiões da esquerda italiana, aliás, tem um presidente da Câmara eleito pelo Partido Democrático, é o grande partido da esquerda italiana, eleito, de resto, com uma votação muito expressiva. E esse presidente da Câmara, juntamente com o ministro da Administração Interna, proibiu a manifestação sem espinhas, digamos assim. Eu não sei se em Portugal estas manifestações pediram as devidas autorizações que têm que pedir à Câmara de Lisboa, neste caso, à Câmara de Braga, à Câmara do Porto, se a polícia está avisada, se não está avisada, mas como aqui se vê, isto não é apenas manifestações em defesa da Palestina ou em defesa de Gaza. Isto são mesmo manifestações a apelar à violência e a apelar a tudo aquilo que seja- A glorificar o massacre, basicamente. Glorificar o massacre. Para quem as convoca, eu dou um zero. Para quem, aparentemente, está a passar entre os pingos da chuva e nada a dizer, esperando que não aconteça mais nenhuma tragédia como aconteceu no fim de semana passado, eu espero para ver o que é que se passa e não dou, por enquanto, nada. Fico à espera de ver o que é que se passa durante o dia de hoje.

E para já, um zero à iniciativa da marcação dessas manifestações. Entretanto, o Banco de Portugal tem um novo governador, Ana, que prometeu mudanças na instituição.

Sim. Estou a pensar no tipo de mudanças, porque chegamos ao fim de uma era estranha, uma curta era do Banco de Portugal de Mário Centeno. Curta, mas intensa, acho que podemos todos concordar nesse ponto. É o fim de uma era, vamos ver, porque Centeno vai continuar a pairar como consultor do Banco de Portugal, o que traz aqui um elemento de novidade e que cria esta expectativa. Acho que não tanto pela passagem do cargo em si, que é desde logo uma das discordâncias entre o governador que entra e o governador que sai. Álvaro Santos Pereira disse logo que não o faria, mas Centeno é da casa há algumas décadas, é de uma criação diferente, digamos assim, e eu também não consigo julgá-lo completamente por isso. Mas dizia que esta transferência de poder, que já de si foi pouco pacífica, gera alguma expectativa sobre o que vai ser a convivência de Álvaro Santos Pereira com Mário Centeno, pela própria personalidade que conhecemos a Mário Centeno e passámos os últimos 10 anos a conhecê-la. Centeno era um técnico praticamente desconhecido quando António Costa foi buscá-lo para fazer o programa económico do PS, depois convidá-lo para ministro e o resto é história, já conhecemos, faz exatamente 10 anos por esta altura, creio eu. E Centeno parece que se apaixonou pela ribalta e pelas atenções e parece que até se surpreendeu a si próprio nesse lado de gostar de aparecer e de ser uma figura pública.

E bem-sucedido enquanto isso.

Exatamente. E passou a alimentar-se também um bocadinho disso. E o Banco de Portugal nunca foi propriamente um chuva de estrelas. Sempre foi uma instituição de burocratas, de técnicos, coisa fechada, e Centeno até muito se especulou se teria ou se terá o seu projeto político. Enquanto governador chegou a ser uma hipótese tornar-se primeiro-ministro, até há poucos meses falávamos do seu nome como possível candidato à presidência da República, por isso acho que vai ser interessante ver o what's next, o que vem aí para Centeno. É um homem novo, não tem 60 anos. Neste papel de consultor não pode fazer o que quer, tem regras a cumprir, mesmo em termos de comunicação, é um código de conduta do Banco de Portugal que terá de cumprir e que não duvido que cumpra, tendo em conta a sua devoção à instituição, para a qual até escreveu um poema, como ficamos a saber. Mas também, sobretudo, a sua devoção a si próprio e à grande obra que acha que deixou no supervisor. Álvaro Santos Pereira chega aqui como outsider total, o que lhe pode dar, eu acho, um bocadinho de trabalho inicial e vai dar, mas também acho que lhe dá algumas vantagens, e até mais do que desvantagens, sendo Centeno o seu antecessor. E ontem alguém dizia aqui na rádio, julgo que foi Miguel Pinheiro, que Centeno trazia aquela carga melodramática consigo em tudo aquilo que estava envolvido. Uma simples reunião de conselho de administração tornava-se numa novela rocambolesca e eu não sei qual é que será o tom do mandato de Álvaro Santos Pereira. Acho que fez um discurso bom. Não tão apolítico quanto dizia que ia ser, falou da questão dos preços da habitação, por exemplo.

E bem.

E bem.

É um problema que pode ser sistémico.

Exatamente, com bons indícios sobre as tais garantias de independência, da contratação de diretores por concurso, da quebra de ineficiências, mais abertura às pessoas. Portanto, eu não sei que tipo de governador é que Álvaro Santos Pereira será. Acredito que teremos menos drama. Espero que tenhamos menos ego, menos vaidade e se calhar também menos resistência ao escrutínio. Até eu dou a nota no final.

Acompanhando a Ana na análise que ela fez, de facto, sobre Mário Centeno, tecnicamente é inquestionável a preparação dele para o lugar, como para ministro das Finanças, ele já deu provas a esse nível e não é esse ponto. A ideia que dá agora é que o Banco de Portugal para Mário Centeno foi uma transição para outra coisa qualquer, que claramente ele quer. Ele quer e isso ficou denunciado quando ele esteve disponível para eventualmente o nome dele ser apresentado ao presidente da República para suceder a António Costa, e também esteve disponível de alguma maneira para deixar durante alguns meses o nome dele na lista dos eventualmente presidenciáveis. E só depois, passados uns meses, é que ele veio dizer, depois de ponderar, e ele pensou no assunto, depois de ponderar, dizer que não estava disponível. E, portanto, claramente Mário Centeno está aí para as curvas, como se costuma dizer, para aquilo que a política lhe der, o que o PS quiser, porque penso que será sempre na área do PS que ele vai, no fundo, continuar a sua carreira política, e fica agora ali num posto de retaguarda no Banco Central. Nunca é bom quando numa organização há uma mudança de chefia e o chefe anterior permanece. Nunca é bom. Mas o Banco de Portugal tem um bocadinho essa prática também, Mário Centeno aí não vai sair a estrear esta prática, sendo que também não é normal no Banco de Portugal haver uma fricção tão grande na passagem de testemunho. Já tinha havido um bocadinho quando o próprio Mário Centeno sucedeu Carlos Costa. Eles não tinham propriamente a melhor relação, nós sabemos, até por problemas e divergências nas funções anteriores de Mário Centeno.

Mas aqui há o aumento do segundo mandato que não aconteceu.

Não aconteceu, claro, e claramente numa fricção também com o governo, porque nesse caso, o mandato de Mário Centeno começou mal, e começou mal a partir do momento em que ele faz uma transição direta do Ministério das Finanças para o Banco Central. Eu acho que Álvaro Santos Pereira esteve muito bem Por exemplo, numa questão simbólica que é o querer que a tomada de posse fosse no Banco de Portugal, no Museu do Dinheiro, que é logo ali ao lado, e não no salão nobre do Ministério das Finanças, que era a prática até agora. O salão nobre do Ministério das Finanças punha logo ali uma carga de tutela política sobre o governador ou a administração que estava posse e, portanto, isso simbolicamente fez muito bem. Acho que fez muito bem ao assinalar também a questão da habitação, que pode ser sistémica, se houver algum problema. Nós sabemos o peso do imobiliário e da habitação nos balanços dos bancos e, portanto, o setor financeiro.

Que lembramos bem da última crise.

Lembramos bem da última crise, que teve muito a ver com isso também. E portanto, a habitação, estes preços e os problemas que ocorram nesse mercado são uma preocupação constante para quem quer zelar pela estabilidade do sistema financeiro. E eu acho que Santos Pereira também está bem a dizer que vai propor uma revisão da Lei Orgânica do Banco de Portugal, vai modernizar a instituição, vai querer que as contratações de diretores e diretores adjuntos passem a ser por concurso. Por quê? Porque apesar de toda a evolução que o Banco de Portugal fez nos últimos anos, com Mário Centeno, mas também com Carlos Costa, no sentido de se tornar uma instituição mais aberta, a comunicar melhor, a prestar mais contas, a trabalhar áreas como, por exemplo, a literacia financeira, que são uma grande diferença em relação àquilo que acontecia antes, que era uma instituição altamente majestática, num pedestal. Aliás, antes disso, mesmo na área da supervisão, o Banco de Portugal muitas vezes comportava-se mais como líder da Associação Portuguesa de Bancos do que propriamente como um regulador. E depois tivemos os problemas que tivemos, e eu acho que esse período foi até Vítor Constâncio. Apesar de toda essa mudança, de ser uma instituição muito mais aberta hoje, ainda tem muito pra andar. E nas questões das contratações, há uma espécie de endogamia no banco, isto é, as pessoas fazem carreira no banco, uns escolhem só os outros, de alguma maneira. Os administradores escolhem os diretores, que por sua vez passam a administradores, depois nomeiam os novos diretores, e por aí fora. E, portanto, há ali ainda uns tiques de uma instituição que é muito opaca. As questões salariais, promoções e por aí fora são pouco escrutinadas. Por exemplo, a decisão da nova sede, eu acho que é uma questão que deve ser questionada. O Banco de Portugal precisa de gastar 200 milhões de euros num edifício no centro de Lisboa? Por quê? Não precisa.

Nota para o novo governador ou para o ciclo que termina?

Eu quero dar ao novo governador, Álvaro Santos Pereira, pelos temas que elencou e por esta promessa também, de alguma forma, de fazer uma modernização do Banco de Portugal e da questão.

Quanto é que dá?

Dou um 14.

Um 14. Era exatamente a nota que eu ia dar também a Álvaro Santos Pereira pela forma como entrou. Muito bem, então dois 14 para o novo governador. Bruno, e olhando pra campanha autárquica, Lisboa está ao rubro, se calhar, onde menos se pensava que seria, que é entre as coligações da esquerda.

Sim, quer dizer, isso já é um clássico.

É um clássico a forma como estão a ocupar o tempo.

É, e muito dedicados. Aqui é questões internas da esquerda, por assim dizer. É bom lembrar que em 2021, a esquerda entrou completamente fragmentada. Ou seja, fragmentada, não, cada um por si. Correu cada um na sua própria pista nas eleições autárquicas 2021 em Lisboa. Este ano já temos tido a oportunidade de ver alguns cruzamentos improváveis e alguns encontros improváveis. Marisa Matias ao lado de Rui Tavares a fazerem campanha. Também já vimos o PAN ao lado do PSD noutras autarquias, na campanha a outras autarquias. Mas as autárquicas permitem aqui umas ligações e uns duetos improváveis políticos. Aqui nestes duetos, tercetos ou quartetos, depois falta o PCP pra a união da esquerda ser total, seguindo aquilo que tem sido uma estratégia do partido, sobretudo desde que as coisas com a geringonça eleitoralmente não correram a favor do PCP. Estamos já muito longe do tempo do António Costa, "só não governa se não quiser". E o PCP parece que de então pra cá tem torcido muito a orelha e agora voltou a esta ideia do orgulhosamente. Só acho que, também já disse aqui anteriormente, tem todo o direito de o fazer e estrategicamente até pode ser o melhor. Apresentou um candidato em Lisboa, não vou estar a discutir os outros candidatos noutras autarquias, mas em Lisboa, de facto, apresentou um candidato preparado, um candidato articulado, um bom candidato. E isso parece incomodar ainda mais a esquerda ou a coligação liderada pelo PS, que ontem até José Luís Carneiro teve muita dificuldade em lembrar-se que o PS não concorre sozinho, concorre em coligação com os outros partidos de esquerda. Mas o PCP tem todo o direito a seguir esta estratégia, não só por uma questão estratégica, mas por acreditar que é o melhor e tem um bom candidato. E a coligação não tem resistido à tentação de atacar o PCP. E eu acho que pode estar aí o segredo, não da vitória, mas da eventual derrota da coligação, que é este afã de criticar o PCP Pode ser prejudicial à coligação de esquerda. Eu acho que estava na altura de arrumar esta questão. Aliás, se calhar já é tarde demais, já estamos a menos de uma semana das eleições e por esta altura a coligação de esquerda, liderada por Alexandra Leitão, já devia ter arrumado esta questão do PCP. Eu sei que vai-se fazer o apelo ao voto útil, mas de não estar sempre a conduzir a discussão para o facto de o PCP não estar lá. No outro dia o João Ferreira dizia que tinha sido o presente ausente no programa de Ricardo Araújo Pereira, em que estiveram frente a frente Alexandra Leitão e Carlos Moedas. Essa ausência pode ser sentida, é notada na coligação, torna-se ainda mais visível se a coligação estiver constantemente a chamar a atenção para essa ausência do PCP. O PCP não faz parte, não vale a pena gastar mais munições em atacar o PCP, é concentrar-se em Carlos Moedas, mas provavelmente há indicadores, os elementos da coligação, que podem sugerir a importância de ainda ir buscar votos ao PCP. Eu não sei se vão buscar alguns votos ao PCP neste momento. Para já não sei quantos votos terá o PCP, mas estava na hora de se concentrarem no adversário, que é Carlos Moedas, e nas suas propostas próprias. E ainda por cima, Alexandra Leitão está com outro dilema. Ela fez um grande esforço nos últimos tempos para se desligar, descolar aquele rótulo de radical e agora tem aqui um Bloco de Esquerda que, por um lado, beneficia de um certo sobressalto com esta questão de Gaza, mas por outro, pode voltar a empurrar não só a candidatura de Alexandra Leitão para esse lado do radicalismo, como pode ter aqui um efeito que eu acho que é até o mais temido pelo PS, que é o de motivar o eleitorado de Carlos Moedas. Algum eleitorado que poderia não estar tão motivado para votar em Carlos Moedas, encontrar aqui nesta onda recente do Bloco de Esquerda uma motivação adicional para votar em Carlos Moedas. Portanto, eu vou dar à coligação, lembrando José Luís Carneiro, que é uma coligação, que não é o PS a concorrer sozinho, vou dar uma nota negativa, um oito, porque o tempo está a esgotar-se, também para nós. O tempo está a esgotar-se para deixar de atacar o PCP e concentrar-se noutros alvos.

Estão a gastar as balas no alvo errado e o Vencer é Regressar mais logo na tarde política.

Que começa a seguir ao jornal das 18h. Esta terça-feira dão notas a Judite de França, o Alexandre Borges e o Pedro Benevides. Assim que acabar, chega o Alberto Gonçalves com o "Ideias Feitas", começa às 18h50.