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"E o Vencedor É", hoje com Judite França, Anselmo Crespo e António Costa. Bem-vindos. Vamos falar de autárquicas, de Passos Coelho, do apoio a Susana Garcia, do não apoio a Marques Mendes e, claro, da decisão, no caso Anjos, Joana Marques. Anselmo Crespo, esta era uma decisão expectável e, deixem-me já fazer aqui outra pergunta, desejável?
A segunda parte, no meu caso, sim, desejável. A primeira, expectável. Com a justiça portuguesa eu nunca sei muito bem. Eu achava que tudo se encaminhava para esta decisão, mas até saber a decisão de fato, nunca dei por garantida que fosse esta. Quando começou este julgamento, disse uma coisa que mantenho, agora pareço aquelas pessoas que citam a si próprias, mas vai ter que ser. Disse uma coisa que mantenho, que é: eu acho que os problemas de autoestima não se resolvem em tribunal, resolvem-se no psicólogo. E pareceu-me claramente, desde o início deste processo, que o problema dos Anjos era um problema de autoestima, mais do que outra coisa qualquer. Como neste momento, não é apenas em Portugal, no mundo inteiro, qualquer tema político, econômico, a flotilha, de humor, judicial, o que seja, quando nós emitimos uma opinião, ficamos logo de um lado da barricada. Ou estamos de um lado ou estamos do outro. Este também foi um caso desses. Só que neste caso eu até acho que foi por bem. Não tanto pela decisão judicial em si, mas porque isto nos permitiu fazer aqui uma reflexão um bocadinho mais ampla enquanto sociedade. E essa reflexão tinha basicamente duas posições: a posição daqueles que achavam que o humor, e nós estamos a falar de humor. Claro, no humor cabe a liberdade de expressão, mas apesar de tudo, eu separo os dois conceitos. Há a liberdade do humor e há a liberdade de expressão. E permitiu-nos fazer essa reflexão, porque de um lado nós tínhamos aqueles que defendiam que o humor devia ter limites, porque se magoar alguém, está a passar esse limite. E eu acho que esta conversa é uma conversa sem fim, porque o que me magoa a mim não magoa o António, o que magoa o António já não te magoa a ti, Ricardo, o que te magoa a ti, Ricardo, pode não magoar a Judite. E, portanto, acho que esta é uma conversa absurda. É uma conversa completamente absurda, que é própria de quem se leva demasiado a sério. Repare, eu amanhã posso ser alvo de um humorista qualquer, porque estou-
Estás em espaço público
Tenho espaço público.
Emite opiniões.
Emito opiniões e, portanto, eu não estou livre disso me acontecer. Mas eu digo isto com o mesmo à vontade com que digo: faz parte das regras do jogo. Faz parte do trabalho dos humoristas pegarem no material que eles entendem que pode ser objeto de humor e fazer rir as outras pessoas. A mim pode não me fazer rir, mas se fizer rir alguém, eles estão a cumprir um papel. E esta reflexão sobre o que nos magoa não é a mesma reflexão do que nos ofende. São duas coisas diferentes. Alguém comentava hoje nas redes sociais a dizer: "A liberdade de uns..." Aquele velho clichê: "A liberdade de uns acaba onde começa a liberdade dos outros." São duas coisas diferentes, é preciso nós termos noção. Não é preciso irmos à lei, mas aparentemente para estas pessoas nós temos que ir à lei. Uma coisa é insultar alguém, ter um discurso de ódio, tudo isso está tipificado. Coisa diferente é fazer uma piada ou fazer humor com alguém, ou com alguma coisa, ou com alguma situação. E tudo isto eu acho que é uma reflexão muito interessante, porque nos tempos que vivemos, se há 30 anos me dissessem que nós íamos estar agora a debater isto, eu achava que era impensável, mas aparentemente nós estamos a regredir enquanto sociedade e não estamos propriamente a evoluir-
Estamos muito polarizados
...enquanto sociedade democrática. Mas já que temos que ter este debate, é importante lembrar que são coisas diferentes. E eu acho que esta decisão judicial, eu lamento que isso tenha que ir a um tribunal para a justiça dizer uma coisa que devia ser do senso comum. Acho que esta decisão judicial ajuda nesse sentido, de explicar àqueles que acham que o humor, se magoar, deve ser criminalizado e deve ser censurado, que é, no fundo, aquilo que os Anjos estavam a pedir. Deve ser criminalizado, censurado, aplicando uma coima, neste caso de 1 milhão, porque não dois ou porque não três. Acho que isso é útil que fique claro para toda a gente, que não vale a pena nós levarmos demasiado a sério e que não vale sobretudo a pena achar que a liberdade é um círculo fechado onde só cabem as nossas próprias limitações.
Mas, António, Portugal continua a ser o país do respeitinho é muito bonito. Acho que não deixamos ainda de ser esse país. Esta decisão será bem entendida pela generalidade dos portugueses?
Eu creio que sim. Eu não sei se concordo contigo totalmente.
Ou aqui também há um fenômeno. A opinião pública ficou com a Joana Marques, não é?
Sim, por isso é que eu digo. Eu não sei se concordo contigo.
A maioria ficou com ela.
Enfim, se é que podemos também, é verdade, enfim, resultar do que aparece na-
É um achômetro.
Sim. Tiramos aqui uma medida do que vamos ouvindo nas redes. E por isso é que eu digo, eu não sei se as pessoas ainda estão nessa de o país do respeitinho. Enfim, para o bem e para o mal
O contexto mediático e público em que vivemos também assume contornos muito diferentes do que era há 10, 15 ou 20 anos. Isto foi julgamento. Eu também não posso dizer em consciência que não tenho que reconhecer o direito de quem se sente ofendido a recorrer para a justiça. O que eu teria esperado, provavelmente, é que a justiça perante a queixa tivesse considerado desde logo que não fazia sentido-
Que não era precedente
...precedente chegar isto a tribunal.
Que é uma coisa que o tribunal-
Mas aqui é uma questão cível.
Não, mesmo assim, o tribunal pode decidir que não é precedente. Mas não é uma coisa que se faça muito em Portugal. Normalmente aceita-se tudo.
Apesar de tudo, a decisão tem o seu lado positivo. Perante esta decisão: "Ainda bem que foi a tribunal." Não é que faça jurisprudência, a jurisprudência faz-se noutros fóruns, noutras hierarquias de justiça, mas apesar de tudo, cria aqui um precedente sobre o que é razoável ou não é razoável discutir em tribunal sobre liberdade de expressão ou humor. Acho que depois de passarmos à fase, não sei se indignação talvez seja excessivo, mas uma eventual indignação sobre o que estamos aqui a discutir. Estamos em tribunal a discutir o humor e à fase de: "Ainda bem que discutimos, porque isto permitiu criar este quadro que a partir de agora necessariamente permite." Como eu te dizia, não me parece que estejamos ainda na fase do respeitinho é muito bonito, mas ainda assim dá conforto para uma liberdade de expressão suportada numa decisão de tribunal, e eu acho que isso é positivo.
Judite, vou pegar nisto. Isto pode ter consequência tanto para criadores como para ofendidos, ou seja, pode libertar uns e condicionar outros?
Eu acho que os ofendidos ficam mais condicionados a partir de agora. O que é normal, porque se nós olharmos para aquilo que aconteceu aos Anjos desde que eles começaram este processo, percebe-se que hoje seriam os últimos.
Eles já tinham perdido.
Já tinham perdido desde o início, mas talvez não imaginassem as consequências que já tiveram. O último espetáculo do qual vi imagens dos Anjos, a plateia estava praticamente vazia. Portanto, eu acho que hoje em dia eles já não tomariam esta opção, já não tomariam esta atitude. Agora, se pode libertar, eu acho que nós temos humoristas muito libertos em Portugal e acho que vão continuar a seguir o mesmo caminho. E atenção, há uma série de humoristas, nomeadamente o Ricardo Araújo Pereira, que têm processos em tribunal.
Pois, este ganhou também uma expressão até inusitada.
Eu acho que foi pelo valor.
Será? Terá sido pelo valor? Talvez. Tivemos dois ou três dias em que tivemos uma presença deste caso no espaço mediático inusitada.
Mas também os testemunhos que fomos ouvindo, as consequências, eu acho que no fundo também podem ter contribuído para alimentar este caso.
E não se esqueçam que um dos critérios do jornalismo é o caricato. O caricato aplica-se aqui, tudo nisto era caricato. O menos caricato no meio disto tudo até foi a própria piada, porque o resto a piada fez-se sozinha.
Sim, eu, por exemplo, fui daquelas pessoas que ainda não tinha visto o vídeo no YouTube.
E foste ver assim depois.
Fui ver.
Também não fazia ideia do que tinha acontecido.
Também não. E isso deve ter acontecido com tanta gente, com centenas de milhares de pessoas, porque de repente o vídeo passou a ter 1 milhão de visualizações, e não tinha antes. De facto, acho que os Anjos estão muito arrependidos ao dia de hoje. Já estavam arrependidos quando isto começou e se transformou numa bola de neve, porque também houve uma defesa muito bem organizada da Joana Marques.
Também no espaço mediático.
Também no espaço mediático, mas não é feita, é normal, porque de repente todos os humoristas disseram: "Epá, se isto pode acontecer, isto não faz sentido." E portanto, de facto, os Anjos não tiveram quem os defendesse.
Desculpa, quem apareceu a defender os Anjos, pelo menos das figuras mais mediáticas, ainda caiu mais no ridículo. Eu vi comparações com as vítimas palestinianas em Gaza para defender os Anjos, porque o país se indignava com quem estava a morrer em Gaza e não se indignava com os ofendidos Anjos. Vamos todos ter noção. Volto a dizer, as pessoas só se podem estar a levar demasiado a sério. Não há outra explicação.
Vamos a uma nota para este caso, Judite? Vais dar nota a quem?
Vou dar 20 à juíza por ter tomado esta decisão e por aquilo que eu li do acórdão, até achei mais simples do que outros acórdãos que já li.
O acórdão tem 37 páginas.
Estou a dizer mais simples, a linguagem é mais simples.
Deviam ser todos assim. Eu, por acaso, ia dar 20 à liberdade de expressão.
Golas, dois 20. Essa é uma crispa. Estava na esperança que fosse um pouco.
Queres que eu faça uma nota moderada?
Sim, por favor. Até 2300. Não, até 20, vá.
Não, eu vou dar um 10 aos Anjos por uma razão, porque eu espero mesmo que isto sirva para eles perceberem o erro que cometeram, mas sobretudo
Porque eu acho que eles merecem continuar a carreira deles e levantar-se depois deste episódio. Não lhes desejo mal nenhum e tenho imenso respeito pela carreira que eles têm. Portanto, dou um 10 aos Anjos na esperança de que eles um dia possam ter um 20.
E até agora ainda não sabemos se vão ou não recorrer desta decisão.
O que se sabe é que não vão recorrer, porque discordam.
É o que indicia.
Indicia, mas que aceitam a decisão.
Vamos esperar mais um pouco. Vamos deixar aqui um tema pendurado da primeira para a segunda parte, mas temos também de falar disto: Anselmo Crespo de Passos Coelho, que ontem apareceu na campanha autárquica para apoiar a candidata Susana Garcia, à Amadora.
Podemos ver o copo meio cheio ou o copo meio vazio. Podemos dizer que ele apareceu para apoiar Susana Garcia ou podemos dizer que ele apareceu para desapoiar Luís Montenegro. Depende de como é que queremos ver esta entrada de Passos Coelho.
E não apareceu em Lisboa.
E não apareceu em Lisboa. Aliás, ele disse que talvez eventualmente aparecesse em Sintra, que é o concelho dele, mas que não tencionava aparecer muito mais durante a campanha. Enfim, eu acho que Passos Coelho, como aparece muito raras vezes, quando aparece, obviamente, provoca impacto. Ele próprio sabe isso. Acho que ele escolhe muito bem as intervenções e a forma como as faz de cada vez que aparece. Acho que ontem foi mais um exemplo disso, mas foi sobretudo um exemplo de que Passos Coelho está longe da reforma política.
Judite?
Eu acho que o facto de Passos Coelho ter dito claramente ao Expresso que não vai apoiar Marques Mendes, eu acho que isso prova que, de facto-
Não sente a obrigação de apoiar.
Não sente amarrado. Isso prova que está pouco preocupado com o candidato oficial do PSD ou com o PSD sequer. Está pouco preocupado com o PSD e está pouco preocupado com Luís Montenegro. E eu acho que para Marques Mendes, numa altura em que era preciso cerrar fileiras, não é nada bom. E, portanto, quando Passos Coelho admite até deixar tudo em aberto, até apoiar outro candidato ou não apoiar ninguém e deixar o voto para o silêncio, para o momento da urna, eu acho é que a omissão é um problema para Marques Mendes. Ou seja, ter a omissão de Passos Coelho desajuda, porque há uma franja.
Instala-se a dúvida.
Então há uma franja do PSD que é ferrinho de Passos Coelho.
Sobretudo com André Ventura na corrida.
Exatamente.
Sobretudo com André Ventura.
Instala-se essa dúvida.
Mas também com Cotrim Figueiredo. E acho que isto é, de facto, para a dispersão de votos para Marques Mendes, sendo que esses ferrinhos de Passos Coelho se sentem agora desobrigados a votar Marques Mendes.
Vamos voltar a este tema no arranque da segunda parte, até porque ainda não ouvimos o António Costa sobre isso e depois na segunda parte vamos à nota para esta aparição de Passos Coelho na Brandoa. Podemos tomar assim na segunda parte, porque estamos quase em cima das 18h30 e está na hora de atualizar as notícias. Segunda parte de "E o Vence Doré?", com Judite França, António Costa e Anselmo Crespo. António, ficámos aqui em pulgas para saber o que é que tu pensas da aparição de Passos Coelho na Brandoa.
Olha, eu se calhar vou contrariar aqui. Sempre que Pedro Passos Coelho aparece, diria teses para todos os gostos. Já vai que há o facto que ele aparece pouco e, portanto, cria aqui uma certa animação política. Eu não sei se talvez porque na minha vida profissional dou mais atenção às economias do que à política, talvez vejo isto de uma forma um bocadinho diferente. Mas arrisco dizer que a participação dele nesta campanha é mesmo por causa da Susana Vieira, desta candidata.
Garcia.
Perdão, Garcia.
Não troques mais nomes, por favor.
E é mesmo.
Acho que é a atriz brasileira, não a Susana Vieira. Um grande beijinho para ela.
Houve alguém que trocou? Acho que não troquei mais nenhum, foi não?
Não, tu não.
Mas acho que apareceu por causa desta candidatura. Não apareceu para mandar recados a ninguém, nem a Luís Montenegro. Nós sabemos que ele não tem espaço mediático porque não quer ter. Será seguramente o político português com mais convites para aparecer em conferências, em eventos, em entrevistas, em tudo e mais alguma coisa. E parece-me que até a forma como aparece e o que diz, nomeadamente há pouco sublinhavam do PSD, é que, de facto, nesta altura, eu acho que ele nunca saiu da política, no sentido em que ele não está na política ativa, não participa, mas ele é um político. A política está nele, ele não saiu da política, mas a política não saiu dele. E, portanto, não sabemos o que é que vai acontecer daqui por um ano, dois, três, o que é que vai acontecer a este governo. Enfim, e eu acho que ele nunca deu sinal de que nunca, nem que Deus o deixe à terra. Acho que nunca disse tal coisa. Os que disseram também não valeram de nada. Os que disseram não valeram nada. Mas o próprio, não tendo dito, mantém essa porta aberta e eu creio que isso é sempre uma possibilidade. Mas não é uma possibilidade no sentido de estar aqui a avaliar calendário. Não é assim que leio. Curiosamente, está a fazer 10 anos que ele saiu do governo. Do poder, da oposição, na verdade, da oposição, não do governo, líder do PSD.
Eu tenho a expectativa de que depois das presidenciais possamos ter um Pedro Passos Coelho com um tipo de intervenção diferente.
Espera aí. Disseste 10 anos? Não. Foi em 21.
Ele saiu? Não.
Em 21, depois das autárquicas. Ele ainda ficou como líder da oposição.
Não. Foi em 17.
17, desculpa, tens razão. Desculpa, erro meu.
17.
Estava a fazer 15, 2015, 25. Sim, tens razão.
17. Eu diria que há aqui o ciclo destas legislativas, que apesar de tudo, é um ciclo que não se sabe se vai durar quatro anos, mas presumivelmente quatro anos.
Para lá caminha.
Para lá caminha. E o ciclo das presidenciais, que é um ciclo de cinco anos, vem um novo presidente. Ele remeteu-se ao silêncio, nomeadamente sobre as presidenciais, disse que não, e na verdade, ninguém acreditava, até que se definiram os candidatos e de fato não apareceu. E portanto, neste ciclo de 10 anos, vai se completar, não são 10 anos, são oito anos e meio. É um ciclo que eu acho que vai encerrar, vai permitir perceber que vai haver um novo Pedro Passos Coelho a fazer esse período de nojo da oposição e de fora da atividade política. E aí, sim, eu acho que é evidente que as diferenças que tem em relação a Luís Montenegro são óbvias e evidentes. Em relação a Carlos Moedas, eu diria que são mais óbvias e evidentes. Vai ter o seu espaço. Neste contexto em particular, mesmo com as leituras, a intervenção que ele fez uns dias antes sobre o estado da saúde e o que se vai gastar, diria que as faria em qualquer circunstância e não exatamente a pensar num calendário político de regresso ou de criar problemas ou dificuldades a Luís Montenegro ou outros. A Marcos Mendes é o mesmo. Manifestamente, diria que se calhar abstém-se, chega lá e vota em branco, mas não me parece que Marcos Mendes seja o candidato que possa publicamente apoiar, mas também Marcos Mendes, quando o próprio era primeiro-ministro e líder da oposição, também não foi particularmente simpático. Portanto, também não devemos esperar uma grande animação com a candidatura de Marcos Mendes.
E temos nota para esta participação de Pedro Passos Coelho na campanha, Anselmo?
Eu, apesar de tudo, dou um 14 a Pedro Passos Coelho, porque eu acho que ele tem, apesar desta distância toda desde que se afastou, eu acho que ele continua a ter um peso muito significativo no partido, por um lado, mas até mais do que no partido, no país. E acho que ele está sendo muito inteligente na forma como tem gerido esta travessia.
Disseste bem. Acho que mesmo nesta altura, mais no país do que no partido. Porque o Montenegro ocupou o seu espaço.
Nós dizíamos sobre o almirante Coveia e Melo, quanto mais tempo ele tivesse calado, mais subia nas sondagens. E eu acho que estes silêncios de Passos Coelho, que vão sendo pontuados por estas aparições muito esporádicas e estas alfinetadas que ele vai dando, que tanto dão para encaixar em Luís Montenegro como podiam dar para encaixar num líder da oposição qualquer, mas que toda a gente sabe pra onde é que são direcionadas, acho que é uma gestão muito inteligente da parte de Passos Coelho. Acho que apesar de tudo, ele é um elemento válido para o país.
Exato. Eu dou-lhe um 15 pelo aparecimento, mas pelo que significa a participação cívica dele. Eu acho que é importante que ele participe, que dê a sua opinião e acho que de fato hoje não faz muito sentido que ele não partilhe com o país de uma forma estruturada e sem receio de que estou a participar porque quero isto ou quero aquilo. Não, é normal que um ex-primeiro-ministro com a relevância dele no contexto em que esteve e depois de tantos anos, que diga ao país qual é a avaliação que faz do estado em que o país está. E eu acho que isso é útil sempre que ele acrescenta alguma coisa, eu acho que é positivo.
Mas deu diferença.
Eu alinho o 14 do Anselmo.
E ainda temos de falar das autárquicas, e nomeadamente as autárquicas em Lisboa, e de Alexandra Leitão, que está disponível para falar com João Ferreira.
Para ligar a João Ferreira.
Apesar de algumas alfinetadas, mas estamos disponíveis para conversar.
É o chamado abraço de urso, porque aquilo que fez a João Ferreira foi basicamente dizer: atenção a um voto útil e votar em João Ferreira, mesmo as pessoas que não votam normalmente no PCP, mas que acham que João Ferreira tem a particularidade de ser um conhecedor dos dossiês da Câmara, ter tido debates em que se saiu muito bem. Para essas pessoas, não foi para os militantes do PCP, obviamente, foi para essas pessoas que a Alexandra Leitão falou e dramatizando o voto, esta é a altura para fazer, é a reta final, é a altura para fazer. Dramatiza naquela de por um voto se ganha, por um voto se perde, o que é importante, porque se calhar há pessoas que não sabem como é a eleição pra Câmara e é importante que se diga. E portanto, eu acho que hoje a Alexandra Leitão fez uma intervenção importante e enquanto isso, Carlos Moedas continua muito apagado. Não consigo perceber qual é a estratégia.
Hoje houve rua e há rua agora. Agora há um drink de fim de tarde a esta hora.
Mas nós ouvimos o Miguel Vitor Dias, foi uma rua com pouca gente, na Avenida República, enquanto as pessoas estavam a trabalhar. Portanto, mesmo a arruada provavelmente não foi escolhida muito bem. E por isso, na comparação, Alexandra Leitão, na próxima sondagem, minha aposta, vai aparecer mais descolada ainda de Carlos Moedas.
Tens uma nota?
Tenho uma nota pra Alexandra Leitão, vou lhe dar um 15.
Está dado o 15. António Costa, ainda queres falar de um prêmio que fica na gaveta, a decisão do Novo Banco de não dar prêmio aos trabalhadores pela venda.
Sim. Provavelmente o erro terá sido meu a não partilhar aqui Do tema, porque a decisão não é exatamente do Novo Banco, mas a decisão do dono.
Do dono, exatamente.
Que são os americanos do Lone Star, que chegaram a acordo para vender o Novo Banco por cerca de 6 bilhões de euros. A notícia é hoje divulgada através do sindicato, que teve uma reunião com a administração do Novo Banco e foi confrontada com isto. Sabe-se, e eu acho que bem, que o dono do Novo Banco criou um mecanismo mais ou menos sofisticado, mas que resulta num incentivo de que se o Novo Banco viesse a ser vendido por determinados valores, teria um acesso, teria um prêmio. Não é um prêmio direto, mas criou-se uma sociedade, a sociedade tinha uma participação. Foi um mecanismo estruturado ao nível do que se estrutura nestes bancos, nestes fundos internacionais, mas que resultava nisto: se vocês fizerem bem o vosso trabalho, têm um prêmio pela venda. E muito bem. Ora, é absolutamente incompreensível, eu diria até mesmo imoral, que o Lone Star chegue a esta fase com uma venda de 6 bilhões, depois de ter investido 1 bilhão de euros, foi o que investiu, e arriscou, é preciso dizê-lo, os outros bancos portugueses poderiam ter feito o mesmo, não fizeram. Arriscou. Mas a verdade é que entrou em 2017, quando havia banco. O banco, como nós sabemos, o BES faliu em 2014, a venda foi feita em 2017. No entanto, houve um conjunto de centenas, milhares de trabalhadores, são muitos, são três ou quatro mil trabalhadores do Novo Banco, que seguraram o Novo Banco numa situação muito difícil, nós sabemos. E a gestão da altura, que enfim, que teve cada uma o seu papel. Passaram seis anos, os resultados foram, de facto, extraordinários. Também é preciso dizê-lo, muito assente em conjuntura que beneficiou todos os bancos. Os bancos, nos últimos dois ou três anos, tiveram resultados extraordinários, no sentido muito positivos, também por causa dos juros, do aumento de juros e do que isso beneficiou a atividade da banca. Faz parte. Também quando os juros são negativos, como foi, também se pressiona os bancos. E chega-se a esta altura, os gestores, e bem, volto a dizer, através desse mecanismo, têm um prêmio e é dito aos trabalhadores: não têm nada. Ora, eu que sempre defendi, e defendo, uma economia de mercado e os fundos, ouvi muitas vezes dizer que quando este fundo entrou, que era um fundo abutre. Eu não gosto da expressão, porque é ofensiva, porque estamos a falar de investidores que arriscam o seu dinheiro, porque o dinheiro vem de algum lado, é de investidores que põem num fundo, que depois aplicaram para gerir este banco. Mas eu tenho que reconhecer hoje, perante esta decisão deste fundo, que, na verdade, foi um abutre vestido de cordeiro, porque faz muito mais valias. De facto, são gigantescas. E fez o trabalho, não é isso que está em causa. E que perante a possibilidade, eu diria, moral e ética de devolverem aos trabalhadores que contribuíram para este resultado, uma pequena parte que é absolutamente irrelevante para os valores de venda do banco. Estamos a falar, se calhar, 25, 30, 35, que fossem 50 milhões de euros por todos os trabalhadores.
Repete lá só a diferença. Compraram por mil milhões e venderam-
Venderam por 6 bilhões. O risco foi deles, é preciso dizer. Isto é, a fatia leão disto tinha que ser deles, porque foram eles que arriscaram. Os bancos portugueses poderiam ter feito o mesmo e não quiseram arriscar em 2017. É preciso que isto fique claro. Mas que no momento da decisão sobre a venda, e a venda tem dois pontos importantes. Eu acho que é imoral, acho que alguma coisa tem que ser feita. Não sei se legalmente, mas há aqui um aspecto que é importante, é que a venda não está feita. E o Novo Banco tem outros acionistas, por acaso públicos, o Fundo de Resolução e o Ministério das Finanças, o Estado, leia-se o Estado, mas enfim, representado pelo Ministério das Finanças.
E podiam forçar-
E eu acho que é importante que se saiba o que é que o Fundo de Resolução e o Ministério das Finanças acham desta decisão. E que não fosse o próprio acionista, o americano, que está de saída, que está numa de: "Eu agora já vendi, não quero saber disto para nada, vou-me embora e os franceses que compraram que se amanhem com os trabalhadores". Mas o banco teve resultados. E teve resultados até muito puxados por conjuntura. Poderia ter, e muito bem, a sua administração, e eu digo, o acionista americano e os dois acionistas portugueses, o Estado, Fundo de Resolução e Estado, terem decidido atribuir um prêmio, através dos resultados que criaram, qualquer empresa dizendo: "Isto correu tão bem, chegamos ao final de um ciclo, vamos lá distribuir um prêmio." Acho isto péssimo.
Só queria, para concordar com o António, dizer duas coisas. A primeira é que nada disto teria sido possível sem os trabalhadores do banco. Eu sei que a administração tem muito mérito, e eu não retiro nenhum mérito às administrações que conseguiram levar o Novo Banco a este ponto, mas que diabo, as administrações estão aos comandos, mas depois há toda uma cadeia para baixo de pessoas que estão a dar a cara. Mas a segunda coisa que eu acho que tornava ainda mais justo que os trabalhadores recebessem o prêmio é: aqueles trabalhadores e aqueles que foram os que lá ficaram, passaram por muito. Desde a queda do BES até chegarem a este ponto, eles passaram por muito.
Era um banco condenado.
Basta que nós imaginemos que a nossa empresa, onde nós trabalhamos, tenha que enfrentar, como muitos deles tiveram que enfrentar e dar a cara aos lesados e àqueles que eram o front desk do BES e depois do Novo Banco. Portanto, acho que isso tornava ainda mais justo esse prêmio.
António, a tua nota só para fecharmos.
Eu dou um três ao fundo americano e mesmo para terminar, o CEO do fundo americano, que foi escolhido pelo fundo americano e que está em funções, é CEO do Novo Banco, é um dos, e muito bem, contemplados pelo prêmio. Mas que se saiba, até agora, vai continuar como CEO dos franceses. Foi essa a decisão que os franceses comunicaram ao mercado. Eu quero perceber em que condições é que fica um CEO para lidar com aqueles trabalhadores recebendo este prêmio e não sendo ele o decisor, o decisor foi de cima, mas tendo que trabalhar e continuar a trabalhar com estes trabalhadores que não vão receber nada.
Obrigado, António. O Vencedor regressa amanhã, nunca para, de segunda a domingo. Amanhã temos edição de fim de semana, é às 10h30 da manhã deste sábado.