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Este é o som que dá o mote para as notas diárias que aqui na telefonia, todos os dias, os nossos avaliadores de serviço atribuem. Uma piada que levou a um julgamento, um bate-boca num parlamento regional e mais um estudo de opinião sobre as presidenciais. São temas para este "E o Vencedor É", com a Judite França, a Raquel Pecasis e hoje também o padre João Basto, que assina no site do Observador um artigo com este título: "Anáfora e dualidade na poesia dos Anjos". Uma anáfora, para quem não sabe, é uma figura de estilo que consiste em repetir a mesma palavra ou expressão no início das frases para enfatizar uma ideia.

Padre João Basto, bem-vindo. Tudo isto a propósito do julgamento que opõe os dois cantores à humorista Joana Marques. Chega a colocar uma questão que os nossos ouvintes também podem fazer nesta altura e que lhe vou devolver, que é: por que um clérigo está preocupado com este caso?

Olá, boa tarde, amigos. Estou preocupado com este caso como clérigo e como cidadão pela liberdade de expressão, porque eu quero que as ideias do cristianismo não sejam tidas como ofensivas e também gosto que as pessoas tenham liberdade de ter opiniões diferentes da minha sobre o cristianismo. E por isso estou preocupado com este caso, que opõe os Anjos à Joana Marques, e que me preocupa, porque a Joana Marques há um ano foi ao Vaticano e ouviu do Papa Francisco que se pode rir de Deus. E eu não quero que em Portugal se decida de tal modo que se possa rir de Deus, mas não se possa rir dos Anjos. E por isso estou um bocado preocupado, mas estou certo que nada vai acontecer à Joana Marques, na verdade.

Esteve a analisar, padre João Basto, à lupa as letras dos Anjos e chega à conclusão que, no fundo, esta obra poético-musical é o Dostoievski que Portugal merece. A que conclusões é que chegou?

Isso é um texto claramente humorístico. Na verdade, eu pego na ideia de que os Anjos criticam a Joana Marques dizendo que ela descontextualizou um vídeo e eu acho que a reparação merecida não é 1 milhão de euros, nem contextualizar só aquele vídeo, é contextualizar toda a obra poética dos Anjos. E quando nós olhamos para tudo, essa obra que percebemos é que eles repetem muitas vezes o mesmo tema. O esquema não é um esquema rimático preciso como o do Camões nem dos sonetos, mas é sempre o mesmo esquema. Eles estão sempre muito magoados, sentem muita culpa e pedem alguém que os perdoe. Por outro lado, são claramente pessoas que vivem uma ambivalência pessoal profunda, porque eles são aqueles, como eu digo no texto, que não esquecem nem perdoam, mas estão permanentemente a pedir que alguém lhes perdoe. Portanto, não sei qual personagem dos Anjos, também porque são irmãos, é que hoje também está a condenar a Joana Marques e se calhar outra até está a pedir perdão, que fez asneiras. Não sei ao certo.

Se houver uma condenação, estará o humor, a liberdade de expressão, no sentido mais lato, em maus lençóis?

Eu acho que sim. Não me parece que vá haver, porque o legislador em Portugal é muito amplo nesta matéria, ainda bem, mas nós colocámos aqui um conjunto de circunstâncias. Repare, nós no início do século, isso já foi referido hoje na Rádio Observador, tivemos o manifestante de Antas em que o Almada Negreiros diz, aliás, sobre essa personagem, Júlio de Antas, que morra. E ninguém se lembrou de prender o Almada Negreiros. É por isso que, por exemplo, o Gato Fedorento num sketch diz: "O povo cigano era todo para ir à vida", e ninguém o prendeu. Muito embora, se eu for aqui para a frente do seminário de Viana e for para o bairro dos ciganos e disser com uma G3 na mão: "O povo cigano era todo para ir para a vida", claro que eu vou ser preso por incitamento ao ódio e à violência. Portanto, eu acho que aqui, claramente, o grande problema é que estamos diante de uma infantilização das pessoas, não se compreender que há contextos para certo tipo de discursos, que existem metáforas, recursos estilísticos, e estamos aqui a entreter o país. E se calhar, como a Joana Marques disse, a perder um bocado de nosso tempo, quando isto são coisas básicas que ainda no exame do 12º ano desta segunda-feira, os alunos precisavam ter para tirar positiva, o que é pena. Mas claramente, parece-me que não há grande motivo. Mas é uma discussão que importa ter e importa retomar para dizer que a liberdade de expressão tem os seus limites, que é aqueles que estão incluídos na lei, que é a ofensa à integridade física, etc. Não estes.

Padre João Basto, convido a continuar connosco neste "E o Vencedor É". Vamos deixar a nota que vai dar para o fim, as notas da Raquel Pecasis e da Judite França. Raquel, desta piada que virou julgamento, vamos passar para um bate-boca que tem dado o que falar também na Assembleia Regional da Madeira, que é racializar o secretário regional do Turismo, Eduardo Jesus, pelos insultos a deputadas.

Que não vamos reproduzir aqui. E nem vamos reproduzir porque são impróprios para proferir neste horário e para proferir, no meu caso pessoal, por mim própria. São palavras que não costumo utilizar, nada contra quem utiliza, mas eu não costumo utilizar conforme os contextos. E exatamente esse é o tema, nem de propósito, que acabamos de falar do caso da Joana Marques, do caso de uma humorista que no âmbito da sua liberdade de expressão e da sua atividade profissional fez uma piada de que uns podem ter gostado mais, outros podem ter gostado menos, mas que está perfeitamente enquadrada naquilo que é a atividade da Joana Marques e aquilo que lhe é concedido como direito à liberdade de expressão e de opinião. E passamos para um contexto que é completamente diferente. Foi um episódio, para quem não sabe, que ocorreu esta semana, não sei se ontem, se anteontem, na Assembleia Regional da Madeira, é um bocadinho longe aqui de Lisboa, mas é Portugal E é o lugar onde a democracia se exerce na sua maior expressão, em que há um secretário regional do Turismo, que é o correspondente a um ministro regional, portanto, alguém que faz parte do governo regional, que no âmbito das suas obrigações, está no Parlamento Regional a responder a perguntas de deputados que têm como função fazer o escrutínio àquilo que é a atividade desse senhor. E há uma deputada que se levanta para fazer, como é sua obrigação, perguntas àquele secretário regional. E nós vemos nas imagens, porque penso que foi a RTP que filmou. O Miguel Viterbo Dias tem muito essa experiência. Há muitas coisas que não se dizem com o microfone aberto nas assembleias, mas que quem lá está, ouve. E, portanto, o secretário regional começa num chorrilho de impropérios, em vernáculo português da pior qualidade que existe, referindo-se à senhora ao mesmo tempo que ela lhe está a fazer perguntas.

E muito audível, muito percetível, até.

Muito percetível. As imagens são bastante claras e está nas redes sociais. Eu acho que qualquer pessoa que procure este episódio nas redes sociais vai perceber exatamente do que eu estou a falar.

O espaço é pequeno, deixa-me só dizer isto, e os outros microfones que estejam ligados estão a apanhar na perfeição o que está a dizer o secretário de Estado.

Certo, mas mesmo que não apanhassem, quem lá está com microfones desligados, ouve aquilo que se passa. E independentemente de ouvir ou de não ouvir, é a atitude do secretário regional. E aqui o caso é completamente diferente, porque este senhor foi eleito democraticamente, tem obrigações de acordo com a Constituição, deve ser escrutinado pelo Parlamento e não é admissível que uma pessoa que tem este comportamento possa continuar a exercer funções públicas, a gerir dinheiros públicos, a responder pela República Portuguesa, porque para todos os efeitos, ele é um governante da República Portuguesa, e um senhor que tem este tipo de comportamentos num lugar que é o espaço do exercício da democracia, não pode, não deve continuar em funções, seja de que partido for. E a propósito, eu trago este assunto aqui porque faço comentário não só aqui, mas noutros sítios, e vejo que no chorrilho das coisas que acontecem, não há espaço para falarmos disso. Mas houve, há uns meses atrás, quando uma deputada do Chega ofendeu uma deputada do Partido Socialista, isso correu todos os meios de comunicação social, consumiu horas de comentário, levou a tentativas de que o presidente da Assembleia da República tomasse atitudes rígidas, pediram-se sanções, tudo isso. E agora passa-se uma situação destas e como é na Assembleia Regional da Madeira e não tem ninguém do Chega envolvido, parece que não aconteceu nada. Eu acho que é absolutamente inadmissível que este senhor possa continuar em funções, que não haja uma pressão, quanto mais não seja social, e de todos nós comentadores, para que este senhor assuma as suas responsabilidades.

Eu estava aqui a googlar e a RTP Madeira noticia que, entretanto, pediu desculpa, Eduardo Jesus, a Rubina Real.

Não chega.

Diz que não teve a intenção de ofender em momento algum.

Isso não chega. E se ainda por cima diz que não teve a intenção de ofender, depois daquilo que nós ouvimos, é mais uma razão para ser erradicado da vida pública.

Até porque a primeira explicação que ele deu foi que eram apartes parlamentares que tinham que ser contextualizados.

E que estavam no dicionário.

Padre João Basto, não sei se viu esse vídeo e que apreciação é que faz?

Não, por acaso, não vi, nem estou muito por dentro da polêmica, sinceramente.

Pois, mas isso é que é triste.

Mas pode ser.

Não é por si. É porque não esteja no espaço público de forma que qualquer pessoa saiba aquilo que se passou.

Ontem foi a solenidade do Corpo de Deus e houve muitas missas e procissões. Mas a questão é que eu vou ver e qualquer coisa envio uma penitência para a Madeira.

Judite, vamos agora ao teu tema.

Sim, não sou a Judite. Só para as pessoas não se baralharem. A semana termina com um novo barómetro sobre presidenciais. Desta feita é da Intercampus para o Correio da Manhã, CMTV e Jornal de Negócios. E com este dado, que é a queda de Henrique Gouveia e Melo. Isto será o início de uma tendência ou pode ser um primeiro choque com a realidade, Judite?

Eu acho que pode ser as duas coisas. Pode ser um choque com a realidade e pode ser uma tendência, porque de facto é uma sondagem que não traz boas notícias a Gouveia e Melo. São os primeiros dados pós apresentação da candidatura e mostram que o almirante caiu 8,3 pontos percentuais em relação ao último estudo feito em março. Portanto, continua à frente da corrida, mas tinha 35,6 e tem agora 27,3 pontos percentuais dos votos destes inquiridos. Isto pode significar variadíssimas coisas. Uma delas é que a apresentação não foi o momento vencedor e que conhecer mais o almirante não é necessariamente bom. A tendência pode ser essa e o choque com a realidade pode ter sido agora, neste preciso momento. Eu confesso que achei, tanto a entrevista à TVI como a apresentação, bons momentos de campanha. Mas talvez a minha expectativa não fosse tão grande ou tão alta como a dos inquiridos.

Mas há um momento que eu acho que não correu bem ao Almirante, que foi o 10 de junho.

Foi, esse correu muito mal.

E admito que isso possa ter também aqui alguma influência.

E a escolha de reunir o estado-maior nacional?

Eventualmente, mas não aquilo que ele fez ou não fez, mas sobretudo a forma como politicamente geriu aquilo.

Sim. Eu ia referir-me ao 10 de junho exatamente porque acho que esse foi um mau momento. Não sei se tem tanto impacto ou não, mas medível, pelo menos por esta sondagem da Intercampus, é com certeza. Depois com isto, Marques Mendes sobe, o candidato que é oficialmente apoiado pelo PSD, sobe mais de 4,6 pontos percentuais e aproxima-se de Gouveia e Melo. Em terceiro lugar, aparece António José Seguro, que tem 11,8% das intenções de voto, mas o trabalho de campo foi feito entre 05 e 15 de junho, a apresentação foi a 15 de junho e isto não reflete ainda a apresentação. Nos lugares seguintes, André Ventura, Mariana Mortágua e António Sampaio da Nova, o que talvez diga agora a muitos socialistas que António Sampaio da Nova não tem hipótese de nenhuma. Já se existisse uma segunda volta, como os partidos antecipam, Gouveia e Melo parece bater qualquer um dos adversários, o nome é testado contra Marques Mendes e Seguro, mas volta a ter resultados inferiores aos de março. E isto também é relevante. E eu acho que, sinceramente, sem querer parecer que estou aqui a dizer "eu avisei", mas dizendo "eu avisei", Gouveia e Melo vai ter de se esforçar mais porque tinha melhores resultados antes de começar a dizer o que pensa. E isso propriamente deve deixá-lo a pensar.

Sendo que também ainda falta muito tempo para as presidenciais.

Pode faltar muito tempo para piorar.

Também há esse risco. Padre João Basto, tem acompanhado com interesse as presidenciais, ficou surpreendido com este barómetro?

Eu vi o barómetro de manhã. Eu ainda há uns tempos li aquele livro do Luís Paixão Martins, que comenta as sondagens, e parece-me acima de tudo que há bom sinal que o barómetro dá. Eu olho para aquilo que oiço e para aquilo que leio nos jornais e vem sempre muita certeza, quase a dizer o almirante Gouveia e Melo, o próximo presidente da República. Parece-me interessante que a sondagem indique que, se calhar, pelo menos neste momento, a tendência é que as coisas estão mais em aberto. E como o método socrático diz: "só sei que nada sei", e acho que isso é bom para o debate público quando há seis meses ainda para as presidenciais.

Sim, é verdade.

Raquel, entretanto temos o PS aqui a adiar a decisão do apoio a um candidato, neste caso António José Seguro, que é o único que avançou na área socialista.

Mas é muito curioso aquilo que o Francisco Assis disse hoje na Visite Suave, que é: as bases parece que estão com o Seguro, a parte institucional é que não está.

E essa é também a minha questão, porque eu acho que José Luís Carneiro tem aqui um grande desafio. Primeiro, o desafio de pegar no Partido Socialista neste tempo histórico e único, e tentar voltar a colocar o Partido Socialista no seu lugar na política nacional. Como grande partido, partido de governo, partido da alternância de poder, tudo isso está neste momento em jogo. E acho que ele tem que perceber uma coisa que não é fácil, mas que é essencial, do meu ponto de vista, que ele perceba para poder ter sucesso nos tempos que aí vêm, que não vão ser fáceis, até porque, obviamente, todos sabemos que há uma oposição silenciosa dentro do Partido Socialista, à espera que José Luís Carneiro assuma funções para lhe começarem a fazer a vida negra. Mas eu acho que ele tem experiência política suficiente para saber que é isso que se está a preparar e que já está a acontecer. Mas esse não é o maior desafio dele. O maior desafio dele é: ele tem um grupo parlamentar, ainda esta semana estive no Parlamento e nós olhamos para aquele grupo parlamentar e pensamos assim: o que é que o novo líder vai fazer com este grupo parlamentar, que está carregado da tralha do passado e de pessoas que têm intervenção pública e insistem no discurso que saiu totalmente derrotado nas últimas eleições. E depois, vemos nos meios de comunicação social figuras como Ferro Rodrigues, Santos Silva, Vieira da Silva, todas umas pessoas que estão coladas à razão pela qual o Partido Socialista chegou onde chegou. E portanto, se José Luís Carneiro chegar à liderança do Partido Socialista e usar estes senhores como conselheiros ou barómetros para tomar decisões, eu acho que o futuro do Partido Socialista não é fácil. Se não o fizer, ele vai ter uma vida difícil, mas eu acho que pode ter uma aposta com mais sucesso. Dito isto Acho que existir neste momento alguém que foi líder do Partido Socialista, que está apresentado como candidato e que é um moderado, independentemente dos resultados que venha a ter, parece-me que é uma solução muito mais evidente para José Luís Carneiro tomar como o candidato que o partido apoia, do que ir se pendurar num candidato do passado, como seja Santos Silva, ou ir apoiar um candidato vindo de fora do partido, com toda a esquerda do Partido Socialista que está completamente arrasada. Portanto, apesar do comentariado achar que o que ele deve fazer é não apoiar António José Seguro, eu, do meu ponto de vista, e pelos vistos as bases do Partido Socialista também, já perceberam que o que têm a fazer é apoiar António José Seguro.

O tal PS real.

E vamos então às notas de hoje. Começo por si, padre João Basto.

Eu vou dar um sete, com possibilidade de ir ao oral, porque eu gostava de conversar com esta pessoa, que é a Raquel Varela, de quem eu falo também no artigo. Raquel Varela ontem fez uma publicação no seu Facebook que tem, neste momento, mais gostos, mais comentários e mais partilhas que a de Joana Marques quando iniciou o processo dos Anjos, em que diz que Joana Marques tem pouco desenvolvimento das funções psíquicas superiores, que o humor é uma arma da utopia e que a Igreja odeia a gargalhada, sendo que o par da Igreja, neste caso, nesta frase, é o fascismo. E já que Raquel Varela é uma historiadora e uma socióloga, imagino que utilize o método histórico e sociológico para analisar a realidade, eu gostava que ela explicasse como é que fundamenta a afirmação de que a Joana Marques tem um humor que reflete um pouco o desenvolvimento das funções psíquicas superiores, e que também que me explicasse, fundamentando em algum autor credível, que o humor é uma arma da utopia e que a Igreja odeia a gargalhada, porque eu sou formador de seminário, sou padre há não sei quanto tempo e não tenho notado. Gostava de falar com esta senhora.

Nem foram esses os sinais recentes dados, por exemplo, pelo Papa Francisco quando recebeu vários humoristas.

É preocupante que uma pessoa no espaço público ponha como par da Igreja o fascismo. Parece-me um bocado desadequado, no mínimo. Portanto, gostava que esta senhora fosse comigo ao oral. Sou professor universitário, mas não me importava ter uma conversinha.

Judite, a tua nota?

Eu vou dar um nove a Gouveia e Melo, porque ainda há tempo para pensar melhor e pensar bem na estratégia que quer seguir.

Raquel?

Eu dou um zero a este senhor Eduardo Jesus para não dar abaixo de zero, esperando que ele desapareça rapidamente da cena política nacional e vou dar um 14 às bases do Partido Socialista que já perceberam aquilo que a direção ainda não percebeu.

Quatro notas, três avaliadores neste "E o Vencedor É". Muito obrigada, padre João Basto, por se ter juntado a nós. Convido os ouvintes da Rádio Observador a irem ao nosso site. Está por lá um artigo a propósito deste julgamento dos Anjos contra Joana Marques, assinado pelo padre João Basto. Há mais "E o Vencedor É" durante o fim de semana, nas manhãs 360 de fim de semana, depois das 10h30.