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Este é o Som do Ivens Sourei das manhãs 360, que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. E Carla, esta segunda-feira está conosco o Miguel Pinheiro. Começamos a semana a assinalar os oito anos do incêndio de Pedrógão Grande. Damos também nota a Mário Centeno e a António José Seguro, que ontem apresentou a candidatura à Presidência da República. Miguel, merece uma boa nota António José Seguro?
Merece. Acho que o discurso foi bom. Nota cênica, usou também teleponto, tal como Gouveia e Melo. Utilizou melhor, utilizou aquilo de forma natural, mais prático. O que ele lhe correu bem? Ele conseguiu focar-se naquilo que o distingue e que ele quer que o distinga, que é a dimensão ética. Ele falou da seriedade, falou da necessidade de ter um presidente íntegro, com uma dimensão ética à prova de balas, estou a citá-lo. E de fato, António José Seguro é apontado como alguém que nunca se deixou arrastar pra conivências, por exemplo, com José Sócrates, sempre manteve distâncias e agora acentua isso. Ele conseguiu virar o jogo a favor dele em relação aos problemas que está com o PS. Até agora, aquilo que dizíamos era: será que ele vai sequer conseguir o apoio do PS? Ele que foi secretário-geral do PS, será que vai conseguir o apoio do próprio partido? Ele virou o jogo dizendo: "Eu não quero apoio nenhum de partido nenhum". Ele diz: "Esta candidatura não é partidária nem nunca será". E por isso aquilo que era um problema passa a ser uma virtude, que é ele apresentar-se como um candidato que não tem nada a ver também com os partidos, tal como Gouveia e Melo. Usou um outro bom argumento, que é o velho argumento que foi inicialmente teorizado por Mário Soares, que usou a expressão, foi Mário Soares que a usou primeiro, de que os presidentes não gostam de colocar os ovos todos no mesmo cesto. Ou seja, na altura tínhamos um governo de Cavaco Silva, aliás, até uma maioria absoluta de Cavaco Silva, e Mário Soares dizia: "Bem, o presidente tem que ser de outra área política. Não ponha os ovos todos no mesmo cesto, divida o poder". E António José Seguro recuperou essa expressão dizendo: "Bem, agora há um governo de direita e há uma maioria de direita até no Parlamento, é preciso não pôr os ovos todos no mesmo cesto, vamos ter um presidente progressista", por assim dizer. Também se distanciou de Marcelo Rebelo de Sousa, o que hoje em dia é indispensável pra quem se quer candidatar a presidente, e concentrou-se nas críticas a Gouveia e Melo, ao dizer que ele, Seguro, não tem de aprender o que deve fazer no cargo já enquanto o ocupa, porque tem, apesar de tudo, experiência política, a colocar-se como grande defensor do Estado social contra o aumento dos gastos em defesa. Isto independentemente do que nós pensarmos sobre isto. Mas é inteligente ele colocar-se nessa área, apareceu com apoios militares, enfim, focou-se naquilo que é importante, que é Gouveia e Melo. Os outros candidatos neste momento não interessam. Depois teve um azar. Isto realmente na vida, depois as coisas que nós concentramos. É que no momento em que ele diz, eu estive a assistir isso na televisão, e há um momento em que ele diz que defende um país onde a política não se encontra separada da ética, nem a ética separada da política, que é uma boa frase. Mas o que é que aconteceu? Qual foi a maldade que lhe fizeram? É que o realizador, neste momento, decidiu focar a audiência onde estava e mostra o Lacerda Saldo. Portanto, o ex-secretário de Estado da Saúde, que é daquela zona e que saiu nas circunstâncias que se conhecem, e que apoia António José Seguro, e vê-lo no momento em que ouvimos isto, de fato foi-
Um azar mesmo
...foi um azar. Vamos chamar de um azar. Mas de resto, acho que correu muito bem, eu daria um 15 a António José Seguro. Foi um discurso profissional. Agora vamos ver pra onde é que isto cresce ou não, mas foi um começo com um bom discurso.
Um bom discurso também, foi assim que o acompanhaste, José Manuel?
Sim, foi assim que eu acompanhei. Acho que não foi apenas um bom discurso, foi perceber-se que há coisas ali que podem funcionar e outras que nos deixam um pouquinho perplexos. O que é que pode funcionar? Por exemplo, a ideia, o slogan, que é muito simples, mas é um bom achado. Seguro Portugal é um bom achado, indiscutivelmente. Porque não joga com ambiguidade, no sentido que joga com o nome dele, mas ao mesmo tempo procura transmitir a ideia de segurança, que não é óbvia quando nós estamos a falar de António José Seguro, não surge imediatamente. Depois, eu concordo com o Miguel no que ele diz, que os aspectos em que ele pôs o foco são relevantes. Acho que naquilo que ele pôs o foco, afastou-se pra não dividir A que interessa punir é um bom soundbite. Há mais alguns bons soundbites noutras matérias, designadamente as questões relacionadas com tudo o que tem a ver com ética. De facto, aí ele tem um ativo, é indiscutível que tem um ativo, independentemente das imagens que possam mostrar ou não. Ele, em vários momentos na sua vida parlamentar, na forma como se afastou de José Sócrates e tentou combater essas influências, indiscutivelmente tem um ativo. O que não quer dizer que não tenha uma ladeira muito inclinada para subir, mas talvez menos inclinada do que pareceria à partida. Nós ontem notámos que havia muito poucas pessoas do Partido Socialista, ou melhor, não havia ninguém da direção do Partido Socialista, havia muita gente do Partido Socialista, ou antigos dirigentes afastados, ou militantes de base, mas não havia dirigentes atuais. O que, para já, não é bom nem é mau. É talvez mais bom do que mau, porque a direção atual não está a viver os seus melhores dias, a direção futura ainda tem que fazer o seu caminho, portanto, veremos o que se passa.
Isso até é bom para Seguro nesta fase, porque ele assim pode até reforçar a ideia de uma candidatura à margem dos partidos.
Independente. Sim, à margem dos partidos, portanto, eu acho que ele também virou isso a seu favor. E creio que também ao contrário do que se diria aqui uns tempos atrás, eu acho que ele tem sobre Marques Mendes a vantagem de não ter estado na televisão, ou melhor, de ter chegado à televisão e ter saído logo. Portanto, ele praticamente chegou à televisão agora, nem se deu por isso ainda e já está de saída, o que me parece, face ao cansaço que existe relativamente a esta forma de fazer política. Há a perceção de que Marques Mendes é o Marcelo dois, o Marcelo com menos brilho, menos alcance. Isso dá-lhe alguma vantagem. Não sei se é suficiente para vencer o handicap do conhecimento. António José Seguro é uma pessoa menos conhecida do que Marques Mendes, porventura menos popular num primeiro momento, mas creio que ao mesmo tempo mais facilmente se afirma pela sua distância relativamente, por exemplo, a Gouveia e Melo do que Marques Mendes. Por isso, eu creio que não sou tão generoso como o Miguel, mas mesmo assim dou um 14 a esta entrada na corrida eleitoral.
Estás quase perto do Miguel. O Miguel dá 15.
O Miguel deu 15, eu tirei 14,5. Se eu disse que é bom, para 13 é só suficiente. Eu acho que foi bom. Pelo menos eram as escalas do meu tempo, agora está tudo baralhado. Mas no meu tempo o 13 era o suficiente mais e o 14 era o bom menos. Ficou pelo menos.
E estamos aqui, parece mesmo a ver quem poderá ser o candidato que poderá levar Gouveia e Melo a uma segunda volta, não é? É quase nessa corrida que parece que se está aqui a falar ou de Seguro ou de Marques Mendes.
Sim, é muito importante isso.
É por aí. Bom, então um 14 para António José Seguro. Paulo, ainda não percebi se queres falar do incêndio de Pedrógão e dar nota a isso ou a Alzira Luís. Parece-me que é a Alzira Luís que queres dar nota.
Sim.
Ou mais ou menos. É melhor contar a história.
É melhor contar a história que está no Público. De facto, amanhã vão passar oito anos sobre os incêndios de Pedrógão, foi no dia 17 de junho de 2017. E oito anos depois, e apesar de todas as atenções mediáticas, a quantidade de instrumentos que foram criados ao longo deste tempo, sobretudo logo após os incêndios, a romaria constante de políticos, o presidente da República, governantes, por aí fora, a Pedrógão para assinalar o incêndio. Há pelo menos uma pessoa, tal Alzira Luís, que ainda não tem a casa reconstruída. Bom, isto é mais uma daquelas peripécias de burocracia excessiva, do Estado que não se entende e que dá nisto. Ela tem 81 anos, a casa ardeu, na altura foi salva por uma nora, que a tirou de casa. Desde então está à espera que a casa seja reconstruída. Ainda não foi reconstruída. Ela, entretanto, teve que se mudar, obviamente, para uma casa arrendada, numa aldeia próxima de Moredos, e nos primeiros anos, os 150 € de renda ainda eram suportados pela Segurança Social. Mas o apoio foi interrompido em 2021, portanto, há quatro anos que esta senhora, Alzira Luís, está a suportar obviamente o custo da renda de uma casa que o Estado devia ter reconstruído e não reconstruiu. O próprio presidente da Câmara de Castanheira de Pera, António Henriques, fala de um processo kafkiano. Isto tudo porque a casa dela entrou no Fundo Revita, que foi criado pela altura pelo governo para gerir os donativos. Vocês lembram-se da onda de solidariedade do país todo e os milhões e milhões de euros que entre concertos, recolhas de fundos e por aí fora, os portugueses de uma forma genérica deram para, no fundo, tentar a reabilitação da zona, mas nem isso funciona. O Revita foi criado, de facto, em articulação com os municípios Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande. Andou também a tutela a saltar entre ministérios, atualmente está no Ministério do Trabalho. É gerido por um conselho de gestão que envolve o Instituto da Segurança Social, a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, com pessoas indicadas pelas Câmaras de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, e pelas instituições particulares de solidariedade social e associações humanitárias do distrito de Leiria. Portanto, obviamente, tanta gente, tantas entidades que é preciso ouvir, que têm que se pronunciar para gerir, no fundo, isto não podia correr bem. O autarca diz que a casa está em construção há 10 meses, finalmente, e não é por falta de dinheiro, porque o Revita no final do ano passado ainda tinha 1 milhão e 300 mil €, mas a família desta senhora diz que é mentira, a obra está parada porque o empreiteiro ainda não recebeu os últimos pagamentos. Bom, um daqueles casos em que o Estado tropeça nele próprio, não se entende e deixa estas coisas para trás. Bom, tinha sido que nas romarias que os políticos de vez em quando fazem a Pedrógão já tivessem resolvido o assunto, isto é, empurrando ou dando aquele toquezinho que às vezes é necessário. Mas só queria deixar essa nota. De facto, passam oito anos e estas coisas vão sendo esquecidas, muitas vezes problemas burocráticos, e deixar aqui mais a nota, de facto, tantas entidades muitas vezes a mexer nestas coisas acabam depois por dar nestes embróglios que não resolvem nada.
Nota, Paulo.
Vou dar uma nota boa à Alzira Luís. Vou lhe dar um 16 pela resistência e pode ser que ela, apesar dos 81 anos, consiga regressar à sua casa reconstruída.
Um 16 então para a Alzira Luís, faz amanhã oito anos. Bruno, por que queres trazer aqui Mário Centeno?
Até ligando à questão de António José Seguro e da candidatura presidencial, ontem não estiveram lá figuras da direção do PS. Acho que algumas estão à espera que Mário Centeno avance.
Ainda?
Sim, ainda, porque o mandato de Mário Centeno como governador do Banco de Portugal termina a 20 de julho. Em princípio, o governo não irá reconduzir Mário Centeno no cargo de governador. E dentro do PS há quem esteja a fazer pressão e a dizer publicamente que Mário Centeno deve continuar no cargo, mas eu acho que não querem mesmo que Mário Centeno continue no cargo. Querem é que haja um caso por Mário Centeno.
Que seja visto como uma vítima.
Exatamente, para depois avançar já com essa força para a candidatura a Belém. Honestamente, acho que é o candidato desejado por uma boa parte do PS. Mas eu queria aproveitar para fazer uma espécie de balanço do tempo de Mário Centeno como governador do Banco de Portugal. Eu acho que Mário Centeno gostou tanto da política que continuou a ser político no cargo de governador do Banco de Portugal, o que é mau para as instituições, porque acho que contribuiu para uma certa degradação da ideia de independência das instituições, desde logo ao passar diretamente do Ministério das Finanças para o Banco de Portugal.
Esse é o pecado original, não é?
Claro, começa logo aí. A partir daí, tudo o que fosse dito, tudo o que ele dissesse seria analisado a essa luz. Mas o Banco de Portugal é o regulador, precisa de independência e equidistância e precisa que o governador não seja só, mas pareça também independente e equidistante. Não está lá para ser capacho do governo, mas também não é uma força da oposição. E eu acho, sinceramente, que Mário Centeno gostou tanto da experiência política como Ministro das Finanças que quis continuar a política noutro cargo e por outros meios. Aliás, viu-se também quando mostrou a disponibilidade para substituir António Costa, sem sequer ir a eleições como primeiro-ministro. E acredito, por isso mesmo, que ele está a pensar candidatar-se a Belém e o melhor que lhe podia acontecer é se o governo, tudo indica como acontecerá, não o reconduzir no mandato de governador do Banco de Portugal. Honestamente, acho que é isso que uma parte do PS quer. Acho que ainda não estão satisfeitos, muito longe disso, com esta candidatura de António José Seguro. Não sei como é que será entendida a candidatura, a acontecer, de Mário Centeno por parte da esquerda, porque aquilo que se tem dito é que é preciso uma candidatura que una, que consiga federar a esquerda toda. Não sei se Mário Centeno, apesar de ter sido o ministro das Finanças do governo de José Sócrates, tem essa simpatia toda junto de alguns setores da esquerda, nomeadamente do PCP e do Bloco de Esquerda. Mas tem, ao mesmo tempo, essa imagem do ministro das Finanças de um governo que foi bem-sucedido, que aguentou os quatro anos, e que foi tão bem-sucedido que acabou por dar uma vitória eleitoral ao PS e também à esquerda, reforçou a maioria de esquerda em 2019. Portanto, tem essa vantagem, Mário Centeno. Não sei se será suficiente para conseguir agradar a toda a esquerda, mas acredito que a uma parte significativa do PS irá agradar, certamente, e estou convicto de que ele irá avançar no caso de não ser reconduzido no cargo de governador do Banco de Portugal.
Fica aqui uma aposta.
Sim, fica uma aposta.
Ele já disse que não, é arriscadíssimo isso.
É arriscado.
Mas pronto, fica aqui.
Tens as probabilidades contra ti, Bruno.
Está bem, pronto, vamos lá, é um bom desafio.
Não vamos desequilibrar este momento.
A minha nota vai para o Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, e aí é uma nota negativa, é um sete.
Um sete, então.
Carla, posso aproveitar 30 segundos para lançar o meu candidato presidencial?
Quem é?
O que eu acho que vai avançar, o Bruno acha que Centeno.
Acha que é Centeno. Quem é que tu achas?
Eu acho que ainda vai avançar Paulo Portas. Acho que à medida que as sondagens mostrarem Marques Mendes a derreter, ali mesmo em cima da linha da meta.
Avança Paulo Portas.
Avança Paulo Portas.
E tu achas que isso vai dividir ainda mais o eleitorado da direita, não é?
Paulo, eu sei lá se é bom, se é mau, eu não faço ideia.
Não, é bom nas contas deles, Marques Mendes, Paulo Portas, BML.
Acho que este é o cenário ideal para Paulo Portas, que é o candidato do PSD que não descola.
E alguém vai ter que avançar, então. É isso.
Alguém tem que avançar.
Ele anima-se assim.
Enfim, vamos ver.
Vamos ver. Estão aqui dois nomes marcados.
Duas apostas.
Duas apostas. Muito bem.
Podemos ganhar os dois.
Amanhã aposto 50 cêntimos contra vocês.
Uma não impede a outra. E o vencedor regressa para a segunda edição, mais logo, na Tarde Política da Rádio Observador.