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E o vencedor é: está com a Rádio Observador. Estamos também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje escutamos a Judite França, o Nuno Gonçalo Poças e o Anselmo Crespo. Bem-vindos. No nosso menu contamos hoje com o desgaste das instituições em Portugal. Temos falado disto ao longo desta semana. Também as audições parlamentares que se estão a preparar e as pontas soltas que deixou Luís Neves. Vamos começar precisamente por isto. Nuno Gonçalo Poças, boa tarde. Com as explicações de ontem, Luís Neves caminhou para uma positiva ou continua a chumbar no teu crivo?
O meu não interessa muito para isto.
Não, isso é o que nós queremos ouvir.
É o que estamos aqui a fazer.
Eu tenho mesmo dúvidas. Acho que o país se pode dividir mais ou menos em duas leituras. Uma delas é: no fundo, toda a gente se porta mais ou menos da mesma maneira, toda a gente faz um jeito, toda a gente se rasca. E até há um certo mérito no tipo que arranja coisas.
É gente como a gente.
Sim, é gente como a gente, exatamente. Depois, acho que pode haver outro lado disto, que é o meu, que é dar de barato, com alguma tristeza, para não chamar outra coisa qualquer, que é um facto que o país funciona assim, mas isso não é grande coisa. E que, ao mesmo tempo, nós passámos de uma espécie de situação em que o antigo regime, a ditadura, se aguentava muito e seria pouco contestado socialmente, porque estes mecanismos das informalidades, da cunha, do favor, do jeitinho, era uma espécie de cultura que estava institucionalizada e que favorecia, de certo modo, toda a gente, os de cima, os de baixo, cada um à sua escala, mas no fundo, toda a gente ganhava alguma coisa com isso. Toda a gente ligava ao primo que tinha chegado algures na vida: "Tenho um filho, um sobrinho, que precisa tal", e no dia a seguir apresentava-se numa repartição de finanças, ainda que fosse analfabeto, e começava lá a trabalhar. O país funcionava mais ou menos assim. Nas últimas décadas, aquilo que nós fomos transformando esta coisa que se chama administração pública ou a máquina do Estado, foi num sentido positivo, no caminho da transparência, dos concursos públicos, do mérito, da fiscalização, da responsabilização, etc. E eu acho que a sensação que muitos portugueses podem ter é de que esse caminho de democratização e de regras e Estado de direito se tornou uma coisa que é imposta aos de baixo e que depois há uma espécie de gente lá em cima que continua a viver quase que no antigo regime, em que essas informalidades são feitas com benefício ou sem benefício, ainda que seja do público. Tudo isto é bastante desolador, porque eu já tinha falado isto aqui há umas semanas, nós estávamos habituados a que discutíamos na praça pública, políticas públicas, guilhotinávamos um ministro ou não, "este senhor não tem capacidade". O caso Sócrates e todo o socratismo é uma coisa de outra galáxia e, portanto, vamos assumir que não é essa a prática corrente. Mas eu acho que nós entrámos agora numa espécie de ninho de vespas, em que de repente as atenções mediáticas estão viradas para a camada que está abaixo dos ministérios e que normalmente sobrevive a todos os problemas de políticas públicas e que de alguma maneira é assim que se comporta em quase tudo, para o bem ou para o mal, quando os fins são bons ou quando os fins são maus. São pessoas que fazem acontecer para um lado ou para o outro. E nós não sabemos muito bem. Significa que isto é uma espécie de democracia sem instituições, o que faz dela uma não democracia ou pelo menos uma democracia muito imperfeita. Significa que nós, neste momento, somos uma espécie de Estado, que o é porque tem um povo e tem um território, mas eu não estou absolutamente seguro de que tenha um poder político, porque há aqui uma conversa em cima desta mesa. Nós temos um problema com o Estado e a administração pública e com a maneira como as instituições lidam umas com as outras. Quando o Luís Neves foi anunciado, eu estava aqui e acho que entre várias coisas, uma delas a questão do conflito de interesse, outra coisa que eu tenho ideia de ter falado era do facto de o Luís Neves, enquanto diretor da PJ, pela voz de alguns magistrados do Ministério Público e pessoas mais ligadas à investigação criminal, com quem eu tenho o péssimo hábito de falar, me diziam que o Luís Neves era o tipo que fazia acontecer coisas. E quando era preciso, elas aconteciam, para o bem ou para o mal. E algumas eram boas e outras coisas eram más. Isso numa pasta como a Administração Interna, que como as outras pastas de soberania ou de Justiça, como a Administração Interna, a Defesa, a Justiça, onde os partidos não conseguiram nunca medrar como medraram pela Segurança Social, pela Educação, pela Saúde, etc. Talvez, vou ser um bocadinho ingénuo ou benevolente e achar que, de facto, se calhar era bom ter ali um tipo que fazia acontecer coisas e que punha aquela gente na ordem. O problema é que um país normal, uma democracia normal, não é assim que pode funcionar.
Mas os problemas que nós estamos a ter aqui não é com o que ele terá feito no cargo de ministro.
Não, que é pior.
Sim.
Que é pior. É porque se ele nunca fosse ministro, nunca ninguém tinha sabido nada disto. E esse é que é o problema. É porque tudo aquilo que está abaixo da camada dos ministros, nós olhamos para isto e quem é que é capaz de duvidar que isto não acontece por todo lado? Quem é que arrisca? E quem é que arrisca, ao mesmo tempo, dizer que as justificações quanto a isso foram dadas por Luís Neves: "Eu fiz mal, mas até foi por bem." Ou: "Eu, se calhar, não devia ter feito bem assim, mas pronto, agora vou corrigir e está tudo bem." Quantos de nós é que acham que teriam umas coisas ilegais lá por casa, ou que tinham feito umas coisas não muito legais, ou que tinham causado dano aqui ou ali, não teríamos as nossas consequências? O fiscal da câmara ia nos poupar à destruição ou ao pagamento de uma multa ou qualquer coisa assim do gênero? Socialmente, estaríamos dispensados desse escrutínio, dessa fiscalização e dessa responsabilidade? O que me faz imensa confusão é, tem-se discutido imenso isto, mas há certos sinais que eu não consigo perceber, ou se calhar consigo e não quero, por que é que José Luís Carneiro ontem foi falar com o primeiro-ministro e sente necessidade de falar ali dois minutos a correr antes do Luís Neves falar, em vez de fazer como os outros todos, como normalmente se faz. Que é como os jogos de bola, a gente vê primeiro e fala depois. E por que é que José Luís Carneiro agora, afinal, hoje, 24 horas depois, fala dos médicos de família. Sim, já sabemos que não há médico de família. Nós temos um problema de instituições e de soberania quase em cima da mesa. É a democracia que aqui está em causa. E para quem esteve tanto tempo com a democracia na boca, e que o André Ventura é isto e que o André Ventura é aquilo, e que nós temos que defender a democracia, eu acho que o PSD e o PS estão a fazer um grande favor ao André Ventura. Não sei se eles fizeram uma aposta, se têm um acordo qualquer pro dia em que o André Ventura puder governar, que toda a gente caia em qualquer coisa com ISS e que fique mais ou menos tudo na mesma. Não sei se há uma espécie de acordo para isso. Sei que há coisas muito estranhas que se passam. Eu não percebo por que o ministro das Obras Públicas, na semana em que tinha o ministro da Administração Interna debaixo de fogo, por causa de um problema que não lhe dizia absolutamente respeito nenhum, teve necessidade de sair em defesa pública dele, completamente a despropósito. Não percebo. Ou se calhar percebe e não quer ver. E também não percebo por que o Presidente da República não diz nada. Também gostava que dissesse alguma coisa. Já sei que é uma posição muito difícil, é um caso mesmo muito melindroso. É muito complicado isto, mas as pessoas são eleitas para lidar com coisas difíceis, embora se tenha convencionado nos últimos 10 ou 15 anos de que qualquer tipo pode ser primeiro-ministro ou presidente da República ou qualquer coisa assim do gênero. Mas não dá. E aquilo que nós estamos a ver todos os dias à frente dos olhos não é nada que não se soubesse, não é nada que as pessoas não percebam que é assim mais ou menos que funciona, mas de repente estamos a levar com isto como um pano encharcado na cara, porque estava lá para baixo, ninguém agora sabe muito bem o que é que se passa. Eu não estou nada descansado com isto. Já nem digo ao Luís Neves, nós depois podemos cair outra vez naquela coisa do: se ele se safou, se não safou, como é que as pessoas vão olhar para isto lá em casa, como é que não vão, se as pessoas vão olhar para aquilo e tal. "Isso é normal, o homem até é um duas." Mas eu também estou muito farto dessa conversa, porque lá saber o que as pessoas pensam lá em casa. Me preocupa-me é que isto esteja neste estado. Se as pessoas gostam, é um problema delas. Eu não gosto, não estou muito confortável.
Anselmo, de facto, aqui nessas explicações de Luís Neves, há a parte pessoal, do tanque e da piscina, há a parte que lhe toca enquanto líder da PJ das declarações de rendimentos e há, depois, esta parte da atuação que envolve todo o outro lado. Mas há aqui partes desses esclarecimentos em que Luís Neves quase dá a entender que não é possível liderar a PJ de outra forma. Não sei se ficas com esta percepção de que foi sempre pelo bem e as coisas resolveram-se, poupou-se dinheiro e resolveram-se situações.
Eu acho que a mensagem principal de Luís Neves é: "Eu não sou um vilão." Essa era a mensagem subjacente a todos os casos que o estavam a envolver. Mesmo quando errei, não errei por mal, não errei com dolo. Essa era basicamente a mensagem que ele queria passar, essa e a de que a obra dele, ou o passado dele, ou o currículo dele deviam valer alguma coisa num momento como este, em que ele está debaixo de fogo e em que claramente foi apanhado em falta em várias coisas. Eu também vou dividir a forma como eu acho que, não sei se o país, mas as reações que saíram à conferência de imprensa de Luís Neves, entre a forma como os moralistas viram esta conferência de imprensa e a forma como aqueles que de fato estavam à espera das explicações para depois poder tirar uma conclusão, viram esta conferência de imprensa. E eu acho que no caso dos moralistas era um bocadinho indiferente o que Luís Neves dissesse ontem. Ele podia dizer o que ele quisesse. Ele podia ter entregue 10 dossiês, podia ter entregue os papéis todos, podia ter explicado tudo, podia ter demonstrado que não falhou em nada, que os moralistas achariam sempre o mesmo que achavam antes dele dar as explicações. Isso também é uma coisa muito portuguesa: a informalidade, o desenrascanço e o moralismo. Porque os mesmos moralistas que acham que toda a gente
Que faz obras em Portugal, tem fatura e contrato. Eu ouvi pessoas na televisão dizer: "Como não tem contrato?" Porque de certeza que cada vez que chamam um empreiteiro lá a casa, tem um contrato.
Nem é obrigatório sequer.
Nem sequer é obrigatório, mas eu ouvi comentadores na televisão rasgarem as vestes porque Luís Neves não tinha contrato. E portanto, esses moralistas eu acho que era indiferente o que Luís Neves dissesse. Agora, para quem olhou para aquilo que Luís Neves disse ontem, na tentativa de chegar a uma conclusão, é impossível achar que Luís Neves é um santo e que não fez nada de errado. É óbvio que ele fez coisas erradas, umas ele assumiu, outras ele não assumiu, mas não deixam de ser erradas na mesma. Mas também acho um exagero dizer que Luís Neves é desonesto, como já ouvi várias pessoas dizerem.
Eu acho que ele até é bastante honesto.
Desonesto nem é no discurso. Que é desonesto, que é uma pessoa desonesta, quer dizer, que a forma como ele geriu a Polícia Judiciária foi uma forma desonesta, que a forma como ele fez as obras. Acho um exagero, sinceramente. Acho que Luís Neves, por isso é que o brincavam é gente como a gente. Cometeu erros. Acho que muitos desses erros não são desculpáveis na medida em que ele tinha a obrigação pelo cargo que ocupava, mas agora também pela formação. Luís Neves é jurista.
Sim.
Tinha a obrigação de saber mais do que o cidadão comum. E portanto acho que os erros que ele cometeu devem ter penalizações diferentes. Se não é um tanque, é uma piscina, e se foi feito sem licença, a Câmara de Odemira deve agir em conformidade. Espero que aja em conformidade.
Mas deixa eu pôr aqui uma coisa em cima da mesa.
Diz.
Quem é que acha que um presidente de câmara, sabendo que o diretor nacional da PJ tem uma casa que está lá com uns trabalhos, ia enviar lá uma fiscalização para saber se estava tudo em ordem e eventualmente não estivesse e aplicar uma coima?
A câmara nem sabia que ele estava lá a fazer um tanque.
Está bem, mas devia saber.
Pelo menos foi isso que eu ouvi o presidente da Câmara de Odemira dizer: "Nós não sabíamos que aquilo existia lá." Que aquilo, a piscina, porque aparentemente a ilegalidade está na piscina.
Mas nem a eventualidade de saber.
Sim, eu admito sim.
É que o problema não é Luís Neves.
Nuno, mas neste país é mais relevante, é mais importante seres diretor da PJ do que ser ministro, claramente.
Claro.
Enquanto Luís Neves foi diretor da PJ, nenhuma das fontes que forneceu à comunicação social nas últimas semanas se deu ao trabalho de pôr cá fora nada.
Claro.
Porque se calhar tinham medo de Luís Neves como diretor da Polícia Judiciária, como teriam do Nuno Gonçalo Poças se fosses tu o diretor da Polícia Judiciária.
Eu não sou muito autoritário.
Não é esse o ponto.
O ponto é o cargo.
É que tu podes fazer coisas acontecerem. E como ministro, não.
Não. Bem pelo contrário.
Passas a ser um alvo a abater. Como ministro passas a ser um alvo a abater. É isso que explica que estas notícias não digam respeito a nada que Luís Neves tenha feito enquanto ministro. Mas enfim, isso é outra discussão. Só mais uma nota sobre-
Sim, para depois irmos às notícias.
Só mais uma nota sobre a prestação de Luís Neves de ontem. No final do dia, Luís Neves, o que tentou demonstrar foi que cometeu erros, mas que esses erros não foram com o tal dolo de que eu falava há pouco.
Pelo contrário, foi a bem do Estado.
Foi a bem do Estado. E atenção que eu também acho que nós não podemos meter tudo dentro do mesmo saco. Há casos e casos. O argumento que ele dá, por exemplo, para o tema do reboque, é um argumento financeiro que eu não consigo comprovar. Quer dizer, eu não consigo saber se é verdade ou não é verdade que a Polícia Judiciária não tinha 150 mil € para mandar destruir aquilo. Não consigo, não tenho forma de saber se aquilo é verdade ou não.
Há mecanismos legais para destruir.
Portanto, tenho que tomar para já esta versão como verdadeira, até que alguém me explique, afinal, há outros mecanismos. Já ouvi muita gente a dizer: "Não é possível." Ainda agora ouvi a Maria Amorim Lopes dizer: "Não é possível, não faz sentido." Sei lá se não faz sentido. Eu não sei qual é a dotação financeira que a Polícia Judiciária tem. Por acaso já falei com um membro da Polícia Judiciária, a propósito de outra coisa, que me explicava exatamente que não há espaço físico para manter um atrelado daquele tamanho e que não havia, de facto, dotação financeira para conseguir destruir aquilo. E portanto, eu tenho que dar isso por clarificado. Agora, o problema é: que avaliação é que nós fazemos disto tudo? Achamos que os erros de Luís Neves são tão graves que ele não tem condições políticas para continuar como ministro? Ou achamos que aquilo que ele fez ontem é uma espécie de mea culpa e aceitamos que ele errou, vai tentar corrigir os erros, aqueles que ainda são possíveis de corrigir, e pode manter-se como ministro, porque apesar de tudo, ninguém faz até agora uma má avaliação dele como ministro. Hoje as redes sociais lembraram-me, e eu termino com isto, que Passos Coelho, quando era primeiro-ministro, saiu uma notícia a dizer que ele não tinha pago a Segurança Social durante um período de tempo.
Cinco anos.
Sim. E aparece uma declaração de Passos Coelho, pública, a explicar exatamente o mesmo que Luís Neves explicou sobre as declarações, dizer: "Eu não tinha consciência que isto era para pagar, que isto estava em falta. A Segurança Social também não me notificou e, portanto, agora que tenho consciência que é para pagar, vou pagar." É exatamente a mesma coisa. Acho mais estranho no caso Luís Neves ele não saber que tinha que entregar uma declaração de rendimento, até porque ele próprio assume que tentaram explicar ao Tribunal Constitucional que não era preciso.
O desconhecimento da lei não aproveita a ninguém.
Mas é esse o meu ponto.
Vale nos dois casos.
Mas pedimos demissão também de Passos Coelho quando era primeiro-ministro.
Também é o caso dos bidões
Não, eu estou só a dar este exemplo pra explicar isto.
Mas eu acho que o caso é muito pra lá dele.
Sim.
Já vamos continuar.
Para explicar isto, que é: qualquer dia uma pessoa inscreve-se numa JS qualquer, numa juventude partidária, e sobe diretamente a ministro. Ou então começam a fazer ministros em laboratório, pode ser uma solução.
Ficaram notas por atribuir. Anção, começo por ti. Que nota para o ministro da Administração Interna?
Olha, eu acho que lhe podia ter corrido bem, mais ou menos ou mal. Acho que não lhe correu mal, também não lhe correu bem, correu-lhe mais ou menos. Acho que as falhas que ele teve não são propriamente apagáveis facilmente, portanto eu vou pra negativa, mas dou-lhe um nove, porque apesar de tudo, acho que ele conseguiu explicar muita coisa.
Nuno Gonçalo Passos? Eu dou um cincozinho à democracia. Cincozinho.
Coitada da democracia.
Não está grande coisa. Muito bem. Temos mais temas também nesta edição de "Eu Venço or És". Judite de França.
Eu salto Luís Neves, porque ontem acompanhei o Luís Neves ao minuto.
Já falámos muito dele e certamente vamos continuar a falar. Há um prémio Nobel da Economia que fala sobre Portugal hoje, que dá aqui algumas indicações, que talvez possa ajudar também neste caso do Luís Neves, algumas delas.
Algumas ajudavam, de certeza.
E ajudavam numa série de outros casos que têm marcado a atualidade ao longo dos últimos anos.
Isto é um estudo do Nobel de Economia de 2024 e do economista e professor Nuno Palma, e foi encomendado pela CIP e apresentado hoje em Lisboa e a ideia central é esta: Portugal não precisa de dezenas de reformas dispersas, precisa de uma só prioridade que arrasta as restantes, tornar o Estado cumpridor de prazos. E a métrica escolhida foi os tribunais administrativos e fiscais devem decidir em 90 dias. Hoje uma decisão pode demorar mais de dois anos, um recurso mais de 1000 dias, que é cinco vezes a mediana europeia, e uma decisão final do Supremo Tribunal Administrativo pode demorar quase uma década. Portanto, isto tudo seria reduzido para 90 dias. E a meta, a ideia era que seria atingida progressivamente, com monitorização semanal, relato público. E depois os juízes que ultrapassassem o prazo seriam alvo de inquérito do Conselho Superior de Magistratura e o desempenho passaria a contar pra progressão na carreira. É tudo bastante refrescante.
Portanto, o prémio Nobel da Economia diz que se resolver o problema da Justiça, dos prazos da Justiça, resolve-se.
É a primeira coisa a resolver. Depois isto é por arrasto.
Sim.
A ideia é que isto seja por arrasto. Se a Justiça for rápida, força câmaras, força agências ambientais, força entidades que são lentas a acompanhar este ritmo.
Melhora a concorrência.
Melhora a concorrência e, portanto, de repente poderíamos ter um Portugal bastante diferente daquele que temos hoje em dia.
Uma utopia.
Não acho que isto seja utópico para Portugal.
Não é utópico, é revolucionário, se quiserem.
Para Portugal não é?
Não, eu acho que nós somos capazes de chegar a isto. Basta querer. E era preciso começar por fazer, de facto, uma grande reforma na Justiça, mas isso não é novidade pra ninguém. É preciso ter vontade pra a fazer.
E não achas curioso que seja talvez a única área da governação onde, de facto, os partidos não têm grandes desentendimentos?
Não têm desentendimentos.
E que não se faça rigorosamente nada.
Mas também não têm nenhuma vontade de mudar.
Pois, mas por quê?
Por quê, Nuno?
Essa é que é essa.
Isso dá a entender que estão de acordo com o estado de coisas.
É provável.
Ou é tão difícil de mudar que nem se sabe por onde é que se há de começar.
Não é difícil de mudar. Primeiro, eu acho que há uma coisa muito importante, que é: antes disso, era importante que toda gente que exerça cargos políticos tivesse o discernimento e o bom senso de perceber que não pode sofrer de diarreia legislativa. E, portanto, o Parlamento e os governos têm que parar com esta coisa de encher o Diário da República online diariamente com novas coisas, com uma alteração aqui, uma alteração ali, uma alteração aqui. Agora fazem não sei o quê. Depois fazem um anúncio. Claro, porque todo o idiota que fez uma carreira, de repente quer chegar ao governo ou ao Parlamento e diz: "Eu tenho trabalho pra mostrar, eu fiz coisas, eu pensei não sei o quê". Não pensou nada, às tantas é uma teia e é por isso que eu acho a dificuldade essa. Por isso é que eu acho que é difícil fazer um prazo tão rápido, tão curto pra uma coisa dessas, pra resolver processos administrativos, sobretudo. Por uma razão: é porque o tempo que se demora a interpretar a lei que está em vigor. Epá, boa sorte a um juiz, ainda que se contratem 10 mil juízes agora, de repente, pra decidir tudo muito rapidamente. Boa sorte ao juiz a que lhe calhem processos onde se tenha que discutir, por exemplo, um licenciamento de um terreno que tem uma reserva ecológica nacional, uma reserva agrícola nacional, uma renatura 2000, um parque natural não sei do quê, que depois tem o PDM, depois tem um índice de construção de 0,8, que tem não sei o quê. É insuportável.
E que faz parte de uma herança e que está a passar entre uma série de pessoas.
Isto não dá, porque nós vivemos numa teia legislativa, num ordenamento jurídico, e esse é outro ponto importante, que é: neste momento, eu acho que o desconhecimento da lei não faz muito sentido que não possa ser aproveitado pelos cidadãos, porque boa sorte a alguém que consiga acompanhar o ritmo a que o Diário da República trabalha em termos de publicação.
Sim, mas os cidadãos não podem alegar o desconhecimento da lei.
Quantas vezes não tenho pessoas a perguntar-me: "Posso fazer isto ou aquilo?" Eu não sei, depende.
Ontem podia, hoje pode ser que não.
Não sei, depende. Temos que ver. Quer dizer, não sei, há alterações a todo o tempo, do Mais Habitação, das alterações ao regime jurídico da urbanização e edificação, não sei o quê, depois há uma alteração aqui, outra alteração ali. Quer dizer, o código laboral. Vão ver as páginas da Procuradoria-Geral da República e tem lá as atualizações todas. E aquilo é uma lista interminável, porque é quase à média de uma por ano
Como é que se sobrevive nisto? Como é que os tribunais decidem uma coisa destas? Aí, se calhar, podemos dar o salto a seguir ou então fazemos ao contrário. Também pode ser revolucionário, o governo tem que decidir tudo à pressa e decidam tudo. Depois logo se vê. Pode ser que depois as coisas mudem, mas eu percebo o lado revolucionário disso, façam qualquer coisa.
Façam qualquer coisa ou então Portugal nunca vai crescer. Essa é a conclusão. Defendem outras coisas, por exemplo, em matéria fiscal, defendem alterações. Na educação e na saúde têm uma sugestão fantástica que é a colocação de professores devia depender não só da residência ou do tempo de serviço, mas também premiar o desempenho. Ou seja, na colocação de um professor ou de um médico, passaria também a valer o desempenho como professor.
Se for mau professor, vai para um sítio que não queira?
Fica pior colocado numa tabela. Se tiver má nota, fica pior colocado numa tabela. E não tem o acesso que tem um bom professor que fica na parte superior da tabela e pode escolher a área.
Eu acho que a avaliação do professor é um dos fatores que conta, não é o único.
Não, não é o único, mas também não dizem que é o único.
Conta anos de carreira. A avaliação também entra na ponderação.
Eu acho que o que entra na ponderação é a avaliação que tu tens.
Devemos discutir é se a avaliação é bem feita ou mal feita, isso são outros quinhentos.
Não, eu acho que o que conta na ponderação é a avaliação que tu tens do teu curso.
Não, isso também, eu não tenho a certeza, mas tenho quase a certeza que isso também entra.
Não sabia.
Mas eu estava a ouvir e estava a me lembrar de Maria de Lurdes Rodrigues e a última vez que se tentou fazer uma alteração à avaliação de professores.
Sim.
E o que aconteceu? 150 mil professores na rua.
E eles sugerem isto também. É verdade.
E Maria Lurdes Rodrigues pra rua.
Claro. E isto também é sugerido na saúde. Também o médico, consoante a sua avaliação.
E tu não achas graça que a primeira frase ou das primeiras coisas que eu li sobre o estudo é que já chega de fazer diagnósticos do país, não é? E depois há todo um diagnóstico. E depois também há lá soluções, mas já chega de diagnósticos, vamos só fazer aqui o diagnóstico. O problema é este. O que o Nuno dizia e o que tu dizias, quer em relação à justiça, quer em relação a essas áreas, depois ainda há um outro fator em que é preciso pôr Portugal aqui na equação, que é corporações.
Sim.
Boa sorte. Boa sorte a tentar mexer na justiça.
E a administração pública.
E a fraqueza dos sindicatos do Estado.
Juízes, advogados, funcionários judiciais, you name it. E a seguir, educação, sindicatos, por aí. Ordens. Quando as ordens se meterem ao brulho.
Corporações, lá está.
Isto é um país inteiro que pede reformas, exceto naquilo que afeta a sua vida.
Exatamente, claro. Toda a gente quer reformas, desde que não seja para si. Eu não quero mesmo voltar ao tema Luís Neves, mas cruzar com aquilo que o Nuno dizia na primeira parte, na intervenção dele, a propósito de Luís Neves, que é: há de fato aqui um problema, sobretudo no Estado, mas já agora eu acho que isso está a alastrar ao privado, isto já não é apenas um problema do Estado, que é tu neste país é tão difícil fazer coisas que tu ou encontras bypass para as fazer. Não estou a falar da vida do dia a dia de cidadãos, não estou a falar das obras lá em casa, estou a falar de avançar. É tão difícil, precisamente por isto, pela teia legislativa, pelas corporações, pelos fatores de bloqueio, aliás, este estudo fala exatamente dos fatores de bloqueio, que depois, inevitavelmente, tem que se encontrar aqui uns atalhos. E depois quando se encontra esses atalhos, há uns que são apanhados e há os que não são apanhados. Basicamente, hoje em dia em Portugal, se fores pro governo, vais ser apanhado. Se não fores pro governo, não és apanhado. Eu acho que há uma fórmula. E o Nuno Palma tem essa tese e eu corroboro, que é: vai ser possível fazer alguma coisa quando acabar o dinheiro. Eu tive essa esperança em 2011.
E fez-se alguma coisa.
E fez-se alguma coisa. E agora estamos a precisar outra vez que acabe o dinheiro. Quando acabar o dinheiro, as pessoas estão mais disponíveis pra coisas, vão sangar e não sei o quê, e somos todos coitadinhos e tal, e as troicas, aquelas coisas todas, e os capitalistas, especuladores, não sei o quê, e os abutres, e pessoas que gostam de fazer mal às outras, mas é assim que se vai fazendo alguma coisa. Foi assim que a Primeira República também caiu. Judite, que nota?
Eu vou dar uma nota ao estudo e vou dar uma boa nota ao estudo, porque aquilo que eu pude ler, que saiu na comunicação social, tinha aqui mais pra dizer, mas é muito interessante, vale a pena ler aquilo que foi saindo e vou dar ao estudo um 17.
Para rematar, para terminar também, queres falar sobre um pedido de órbita?
Tu acabaste de dar um 17 a um prêmio Nobel, não sei se tens noção.
Eu acho que-
Para ele não fica convencido.
Eu acho que é sempre possível fazer melhor.
A Judite é muito exigente.
Estás aí ó Robinson, não sei o quê.
Judite, mesmo para terminar. A Ordem dos Advogados falou sobre o acesso à universidade.
Sim, e fez um parecer que diz aquilo que qualquer pessoa com bom senso já percebeu, que é: não se pode seriar e colocar estudantes num concurso nacional quando uma parte deles ainda não tem sequer uma classificação oficial. E a Ordem diz que o que melhor protege a igualdade é suspender já os prazos da primeira fase. Acrescenta um argumento que devia ser um ótimo argumento, que é: pode dar-se o caso de haver, espalhados pelos tribunais administrativos de norte a sul, cada um a decidir por si, processos com critérios diferentes. Ou seja, isto pode gerar litigância, como é evidente, e aquela desigualdade que se quer tanto evitar, acaba-se por conseguir fazer exatamente essa desigualdade, mas com carimbo judicial. Entretanto, os próprios reitores já vieram dizer que estão abertos à possibilidade de adiar o concurso de acesso ao ensino superior e não se percebe por que manter um prazo artificial, em vez de conseguir que todos os estudantes estejam de fato em pé de igualdade. Eu acho que adiar o concurso não é um capricho apenas. À Ordem dos Advogados também eu dou uma boa nota por este parecer. E vou dar um 16.
16. Está quase ao nível do Nobel da Economia.
Está quase.
Está feito e o vencedor é: