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Mesmo na geringonça, cultura, não houve praticamente mudanças nenhumas, numa altura em que seria mesmo propícia que toda a esquerda se unisse. Porque há esta ideia que a esquerda é muito amiga da cultura e, de facto, tem sido desilusão atrás de desilusão. Parece que inclusive é discutir o que quer que seja no Parlamento e que envolva cultura, uma chatice, porque o orçamento para a cultura, dentro de um orçamento de Estado, se formos olhar para aquilo tudo, o que equivale à cultura-

Uma fatia muito pequena.

Sim, e mesmo em termos de números num papel, há de ser uma coisinha ínfima. Portanto, não tem importância. O Tchekhov dizia, no "Tio Vania", o Astrov há uma altura em que diz: "Quando os países têm dinheiro, as artes florescem". E de facto, é preciso guita para-

Para sermos Paris.

Para ser Paris é preciso guita.

Cresceu entre dois mundos, um marcado pela floresta e pelo rio, outro marcado pelo palco e pelas luzes da cidade. Com o tempo, foi descobrindo que podia ser muitas coisas: ator, encenador, realizador, mas acima de tudo, podia ser alguém que observa e devolve ao público histórias que nos obrigam a pensar quem somos. Entre o riso e a dor, entre a sátira e a reflexão, construiu uma carreira que mostra que a arte é sempre uma forma de resistência e de humanidade. Um criador que gosta de contrariedades e que não teme mergulhar em temas difíceis. Alguém que acredita que a arte também é uma forma de intervir no mundo, sempre com a mesma inquietação de quem procura perguntas. Aliás, mais perguntas do que respostas. Ou será o contrário? Gonçalo Waddington, em "40 Minutos", bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Bem-vindo. Obrigado.

E agora também narrador do novo podcast plus do Observador, a eleição mais louca de sempre.

Exato.

Já lá vamos falar sobre isso, sobre este novo projeto. Aquando da pesquisa para fazer esta entrevista, para estar aqui contigo, de um ator duplamente nomeado agora para os Globos de Ouro, também já lá vamos.

E perdedor.

Sim, já vamos falar sobre isso. Há quem diga que és um bocadinho nerd. Por quê?

Uau! Há quem diga que eu sou um bocadinho nerd?

Sim, ou tu consideras-te nerd. Fui lendo assim umas coisas.

Não sei. Fui completamente apanhado por essa pergunta. Ou era essa a afirmação.

Se calhar porque te interessas por coisas mais diferentes, mais fora do comum ou da caixa.

Sim. Eu não ponho na cabeça que vou procurar coisas fora da caixa.

Exato.

Mas, de facto, há uma coisa que eu sei que tenho desde sempre, que é alguma inquietação em relação ao saber. Isto tem que ver com quando alguém fala de alguma coisa que eu não sei, e que são muitas coisas que eu não sei. Um tema qualquer, uma área qualquer. E particularmente se a pessoa falar com bastante interesse, se a pessoa for interessante, eu tendo a ir procurar e pesquisar, mais ainda se for na minha área de trabalho.

Do saber.

Do saber. Um dos benefícios de andar com estas coisas que nós temos, dos smartphones, normalmente até tiro notas, tenho que ir ver quem é este escritor, tenho que ir ver quem é esta realizadora, porque há coisas que eu não sei. Outra coisa que eu acho que posso dizer em relação a isso é que também quando faço as minhas coisas ou que escrevo as minhas peças ou os meus filmes, normalmente vou por caminhos que não são muito fáceis, mas não é um objetivo. Ou seja, o meu objetivo à partida não é: vou por este caminho porque é o mais difícil.

Não é procurar ser diferente.

Não, de todo. A primeira peça que eu escrevi chama-se "Albertine, o Continente Celeste". Eu quis que fosse baseada em "Em Busca do Tempo Perdido", do Proust. E sabia que eu não vou adaptar o Proust para uma peça de teatro, eu adoraria, mas tinha que ser um projeto megalômano, com muitas peças ou muitos volumes, muitos meses, o que for. Mas também não era isso que eu estava interessado. Lembro-me que eu estava à procura de uma sinédoche, o todo pela parte ou a parte pelo todo, mas algo ali naquela obra. E encontrei realmente no quinto volume, entre o quarto e o quinto, ou entre o quinto e o sexto, agora não sei, portanto, a Albertine prisioneira e depois fugitiva, que é uma discussão que o Marcel tem com ela e que lhe diz que ele basicamente a prende em casa durante muito tempo, muitos dias e que ama-a muito e está sempre fora e em festas. E quando está fora, pensa nela e acha que a ama muito, que linda. É igual aos quadros que ele leu sobre, mas nunca viu, aquele quadro deve ser lindo, mas quando a vê ou quando vê o quadro, percebe: "Isto, afinal, não é nada do que eu imagino". E há uma discussão em que ela diz: "Preferia muito mais que me desse dinheiro. Em vez de ir às suas festas, que me desse dinheiro para eu ir para a rua levar nu." E depois não acaba por dizer mais nada. E então essa discussão Que no fundo é a separação dos dois, para mim é o momento em que eu quero reviver. Ao ler o Proust percebe-se que aquela pessoa lia sobre tudo e mais alguma coisa e que tinha já para a altura conhecimentos muito avançados de cosmologia. Lembrei-me se o Proust fosse vivo hoje em dia, leria tudo sobre astrofísica. Pus-me a ler o Stephen Hawking e o Lee Smolin. Imaginei um Proust que hoje em dia tem vastos conhecimentos de astrofísica e cosmologia, isto, aquilo e aqueloutro, porque o desejo dele é voltar atrás no tempo e repetir aquela conversa para tentar perceber o que ela quis dizer com aquilo. Sim, se calhar por aí sou um bocado nerd.

Já viste a volta que demos para chegares a essa conclusão?

Se queres explicar para eu chegar aí.

Mas prova o ponto, não é?

Sim, mas o meu objetivo não é ser nerd. Não, eu acho que tem a ver com, estou-me a lembrar, por exemplo, quando era novo, os meus pais tinham uma aparelhagem de som boa. E tinham uns grandes fones também, muito bons. E quando eu estava sozinho em casa, lembro-me de pôr músicas e álbuns atrás de álbuns, só mesmo para ouvir música e ia descobrir, porque os meus pais tinham uma grande coleção, e muitas das vezes eu não sabia sequer o que ia ouvir, o que estava a ouvir e ouvia. E quando estava alguém em casa e se eu por acaso podia estar ali sozinho, deitava-me no chão e punha os fones.

Lembras-te o que ouvias nessa altura? Deve ser fascinante, essa parte de falares que tinhas muitos álbuns, muitas coisas para ouvir e que se calhar nem conhecias, não é? Muitos dos artistas.

Ouvia coisas, por exemplo, de música clássica que eu não gostava nada. Lembro-me de ouvir Stravinsky e achei aquilo estranho, mas curiosamente a coisa que mais me bateu naquela altura que eu ouvia era um álbum do Tom Waits, o "Blue Valentine". Aquele álbum era muito engraçado, porque a fotografia do álbum, a capa era bastante sensual, aparentava ser uma mulher deitada no capô de um carro e ele estava por cima, o Tom Waits a tirar a fotografia com uma luz incrível. E eu tinha sempre: "Será que hoje oiço ou não oiço? Porque não sei." Pensava que aquilo se calhar era música para adultos.

Sim. A capa em si podia dizer alguma coisa.

Quando ouvi aquilo, pôs-me numa zona que eu ainda hoje encontro e procuro muitas vezes e que é fácil chegar. Estou-me a lembrar disso, estou-me a lembrar de uns álbuns giros do Vangelis, mas era com o Jon Anderson, que era Jon and Vangelis, e que eu gostava muito daquilo, mas havia muitas coisas que eu já nem me recordo.

Mas essas marcaram de tal forma.

Marcaram. Tal como marcaram também, por exemplo, quando o meu irmão gostava muito de metal e heavy metal e não só, gostava de muitas outras coisas, mas eu também ouvia isso tudo. E íamos procurando coisas que eram mais difíceis de encontrar na altura, porque não era fácil mandar vir discos não sei de onde. Tínhamos que ouvir programas de rádio específicos que nos apresentassem alguma coisa e esperar que aqueles álbuns viessem para Portugal alguma parte.

Mas essa curiosidade é muito fascinante, porque agora nós com o streaming podemos ouvir e ver tudo aquilo que quisermos no momento.

Verdade.

E às vezes, se calhar, sentimos essa necessidade de querermos ser conduzidos, não é? Querermos ser surpreendidos.

Isso para mim é o lado mais chato, por exemplo, Spotify. Supostamente, eles conhecem o teu gosto.

Até te criam playlists, às vezes, mix do dia, por exemplo.

Sim, mas, por exemplo, para mim é quase sempre tudo focado no mesmo gênero. A uma altura, eu oiço muito o Bill Callahan e oiço muito Smog, que era a banda do Bill Callahan. Tal como ouvia e oiço Sam Kilmon, Mark Kozelek ou qualquer coisa. E às tantas só me davam, mas eu não oiço só isso, e oiço de tudo e mais alguma. E depois se eu por acaso passo algum tempo a ouvir, eu lembro-me a propósito de um projeto que eu tenho e que envolve música clássica, neste caso, aliás, envolve ópera e eu não sou grande conhecedor de ópera, portanto, estou a tentar me alimentar e estudar a questão. E estava a ouvir, realmente tinha uma playlist e estive durante uma semana ou duas a ouvir aquilo. E às tantas eu era só alimentado, o que é uma coisa um bocado falsa, porque a última coisa que eu quero é que me alimentem com mais do mesmo, por melhor que aquilo seja, porque depois entramos ali numa gruta que nunca mais saímos. A não ser que liguem a luz e a gente perceba os corredores.

Há mais coisas.

Há mais coisas. Acho que não tem a ver com FOMO, fear of missing out. Não tem a ver com isso. Tem a ver mesmo com do que é que estão a falar, o que se está a passar. E tenho a curiosidade de perceber por que eu nunca tinha ouvido falar disto, por que eu nunca tinha ouvido isto, por que eu não sei.

Porque aquilo te prende a curiosidade também, não é?

Sim.

Porque às vezes ouvimos coisas que à partida achamos: "Não sei o que é que isto é", e depois ficamos fãs.

Mas já me aconteceu muitas vezes Agora não tanto, mas ouvir certas bandas, certos músicos ou ler certos livros, certos autores. Isso não me está a entrar agora, não estou a conseguir, mas um dia, não sei por quê, e acontece muitas vezes. Acontece agora, muitas vezes ao ler ou ouvir coisas, deixar lá voltar àquilo, porque aquilo ficou-me na cabeça ou mesmo a sonoridade, ou a escrita, ou o filme. Deixa lá voltar e acontece.

Esta questão da aparelhagem é engraçada, porque não sei que idade tinhas na altura, mas tu dás voz agora a este novo podcast pela "O Observador", "A Eleição Mais Louca de Sempre". Falamos aqui de eleições de 1986 e tu na altura tinhas oito, nove anos.

Exato.

Tu lembras-te de alguma coisa desse tempo? Falava-se em casa sobre este tema específico?

Sim, falava-se.

Tens memórias dessa altura?

Tenho memórias.

Ainda sem antes perguntar-te enquanto narrador, mas desta narrativa.

Sim, lembro-me bem. Os meus pais, os meus avós paternos e os meus avós maternos viveram todos em Moçambique, sendo que os meus avós maternos nasceram lá. Nesse caso, o meu avô materno nasceu em Moçambique, a minha avó materna ou nasceu na África do Sul ou na Rodésia, agora Zimbabué. Posso estar enganado, não sei se ela foi para lá muito nova, mas o meu avô tinha uma coisa que era considerada em Moçambique branco de segunda, ou seja, certos trabalhos em que ele não podia evoluir, não podia ser diretor dos serviços não sei o quê. E os meus pais, os meus avós paternos emigraram. Quando voltaram todos, os meus avós paternos eram, de facto, retornados. Os meus avós maternos eram expulsos, de alguma forma. Os meus pais também não se sentiam retornados, os meus pais nasceram lá. Apesar de o meu pai ter vindo cá nascer e depois voltou outra vez com um ano, não me lembro bem. Mas uma das coisas é a relação com Mário Soares, a relação à distância.

Sim, claro. Pessoas anônimas e a figura.

Não era muito boa, porque toda aquela saída, o Tratado de Lusaka, que na ótica deles foi totalmente desrespeitado, ponto por ponto, e como muitos outros amigos e pessoas que eu conheci, que vieram, voltaram de Moçambique. Eles pura e simplesmente eram totalmente anti-Soares. Exceto o meu avô materno, que não sei por quê. Quer dizer, sei. O meu avô materno tinha um grande respeito por tudo que o Mário Soares fez, pela sua luta antifascista. E o meu avô, ainda por cima materno, tinha bochechas como o Mário Soares. Toda a minha família era pró-Freitas. Tinha os autocolantes e as bandeirinhas. Não sei se estou enganado, mas acho que havia mesmo autocolantes também para pôr no carro, tipo stickers.

Sim, é provável.

Eu lembro-me dessas coisas todas, tanto que no outro dia tirou-se umas fotografias aqui a propósito do podcast e eu vi todos os autocolantes, as bandeirinhas e as imagens.

E traziam-te alguma memória, não é?

Claro. Sim. Eu e o meu irmão e a minha irmã, mais tarde, moramos com os nossos avós paternos. A minha avó já tinha morrido entretanto e os meus avós paternos moravam no andar de cima. Era normal estarmos muitas noites juntos e o meu avô materno levava na cabeça: "Como é que é possível votar nesta pessoa que fez isso." E eu tinha um bocado de pena do meu avô, porque também cá por dentro eu tinha um carinho muito grande pelo Mário Soares, pelas bochechas do Mário Soares. Gostava daquele senhor.

Já com essa idade, já tinhas aqui uma espécie de empatia?

Uma empatia.

Uma ligação, se calhar.

Mas também pelo Freitas do Amaral, da Canção. Por mim, os dois ficavam juntos.

Uma coligação.

Sim. Também não compreendia. É normal, mas não gostava nada que o meu avô sofresse aquele bullying.

Sim, ficasse sozinho.

Claro que acabou ele a rir.

Pois.

Lembro-me bem, porque aquilo, para aquela altura, foi um fenómeno popular, pop.

Sim, mas é mesmo.

Está bem que eu era muito novo, se calhar não teria memória do que teria acontecido antes. Não sei, tanta gente a vibrar com aquilo. Não estamos assim muito distantes de 74. Não passou muito tempo. Para mim, obviamente, eu nem era nascido, mas para os meus pais, para aquelas pessoas, não tinha passado muito tempo.

Sim.

E aquilo pareceu-me uma coisa que as pessoas se calhar acordaram e animaram e isso foi importante. Tenho essa memória de que foi alguma coisa que mudou e que era importante, era colorido e era sonoro, de alguma forma. Que se fazia ver, fazia-se notar.

Tu tens esta perspectiva de criança, mas depois, e como dás voz a este podcast, "A Eleição Mais Louca de Sempre", tens a perspectiva enquanto narrador. Leste a história, conheces os seus contornos. Houve alguma coisa que te tenha surpreendido e que naquela altura não tenhas--

Quase tudo, porque era muito difícil ter noção daquelas

É uma realidade muito distante, porque com oito, nove anos não se tem a mesma perspectiva de alguém com 15, 16, por exemplo, naquela altura.

E mesmo mais tarde, quando eu apanhava alguma reportagem ou artigo que falasse sobre essas eleições, nunca nada tão aprofundado como agora quando eu estive a narrar, todos aqueles golpes palacianos e gente muito interessante. Das coisas que mais me fica é que aquelas pessoas eram dois políticos como não há muitos. Isto é muito giro dizer: "No meu tempo é que era." Não estou a dizer nada disso, mas se calhar não tenho informação suficiente. De facto, quando eu olho hoje em dia para o nosso panorama, e há obviamente exceções, mas políticos daqueles, com aquela formação humana, académica, política, inclusive, de história de vida. Eu tenho memória vaga, não sei se foi repetição, mas lembro-me dos debates Álvaro Cunhal e Soares. Depois vi mais tarde imagens daquilo, eram outras formas de esgrimir.

A mobilização era diferente.

Sim, obviamente, eles tinham também um passado.

As pessoas se calhar estavam mais acreditadas na altura com a política e, uma vez que vínhamos de 74, acreditavam mesmo que uma mudança podia existir.

Acreditavam, eu estou só a falar no meu ponto de vista. Não vou por aqui a falar de coisas que eu não tenho sequer arcaboiço para. Mas a minha questão é: quando eu os ouvia falar e debater, o pouco que ouvi, e especialmente quando os ouvi mais tarde, ou em repetições de coisas que apareceram. Eu lembro que era possível nós vermos esses debates nas RTPs Memórias, porque houve programas que falavam disso e encontrá-los na internet, no YouTube. Mas de facto, há um passado daquelas pessoas que é um passado de luta, um passado académico. Havia mais arcaboiço, e o facto de terem obviamente passado pelo que passaram, pelas suas lutas pela liberdade.

Alimentava esse

Também alimentava a propriedade que tinham para falar das coisas. E isso, de facto, é impressionante.

Gonçalo, vamos só aqui fazer uma curta pausa para as notícias. Já voltamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos" e para falar sobre este novo podcast Plus que dá voz. Até já.

Até já.

Segunda parte do "Em 40 Minutos", continuamos com o Gonçalo Waddington. E antes de avançarmos, e só para ficar aqui bem ciente, para quem nos vai ouvir pensar assim: "Então, mas ele está a dizer o nome dele errado." Não, é mesmo Waddington, não é?

Exato. Isto foi uma explicação que me deram. Tenho alguma pena de ter lançado esta questão do nome, mas foi o João que me perguntou: "Como é que se diz o teu nome?"

Exato.

E eu expliquei que havia, a uma dada altura, uma pessoa, um inglês, que me disse: "Atenção, o teu nome não é Waddington, é Waddington, é como a estação Paddington ou o ursinho Paddington." Agora, eu próprio dizia mal. Portanto, eu lancei esta questão e agora vou ter que mudar.

Há quanto tempo é que sabes a tua identidade?

Não me lembro há quanto tempo é que isso foi. Alguém me disse isso e eu nem me lembro quem, mas alguém me disse: "Não, atenção que isto se diz assim." Agora, isso está sujeito à discussão. Volta depois vem um escocês e diz-me, supostamente o nome tem origem nas Gales e diz: "Não, se calhar não é assim que se diz." Mas está tudo bem. E eu digo: "bora, mas é continuar a dizer como."

Lidas muito bem com isso, no fundo, sempre na descontracção.

Mas o nome é meu, atenção. Eu não o inventei, portanto, está tudo bem.

Estávamos aqui a falar no final da primeira parte do Podcast Plus, a eleição mais louca de sempre, desta ligação da tua família, tanto a Freitas do Amaral como também a Mário Soares. Para um ator, falamos aqui da questão de narrar um podcast, tu tens muito presente, se calhar, a questão da imagem, dar vida a personagens. Como é que foi mudar o chip, no fundo, narrar esta história e criar a imagem na cabeça das pessoas?

Ora bem. Uma excelente pergunta, à qual eu devia dizer: o "ora bem" foi para ganhar tempo.

Sim.

Há uma coisa que eu acho que isso tem a ver com leitura. Por exemplo, poesia. Eu gosto de ler poesia e de vez em quando até gosto de recitar poesia quando me convidam, quando há encontro, o que for. Mas há uma coisa que eu não gosto muito, e isso é igual a quem recita poesia ou quem faz certos tipos de personagem, que é passarem por cima ou tomarem todas as atenções. E às vezes é possível fazer isso com a voz, às vezes o excesso de musicalidade. Sei lá, querer marcar tudo muito bem. E às tantas, estamos a perder o essencial que é o ritmo, os silêncios, porque é tão importante as palavras que lá estão como os espaços vazios. E obviamente, o conteúdo aquelas palavras. Portanto, é preciso ter algum cuidado. Faz-me lembrar aquela anedota. Agora vou contar uma anedota, mas de facto é uma coisa muito especial para mim, eu acho que isso serve muito. Alguém está a fazer o Hamlet em palco e constantemente a ser assobiado. E às tantas ele está a meio do monólogo "ser ou não ser", e assoviam. Ele para e diz: "O que vocês querem? Não fui eu que escrevi isto." A questão é, muitas vezes estar ali a fazer coisas.

Sim.

Porque muitos atores às vezes fazem coisas e que estão a apagar totalmente e de alguma forma a querer ultrapassar ou sobrepor-se. E eu acho que isso é o que é importante aqui, quando se está a ler um texto e está a ler esta história, as pessoas têm que ficar tão empolgadas quanto eu ao ler aquilo. Eu quando li aquilo, aquilo está muito bem escrito, porque mesmo não estando musicado, porque eu quando estou a ler, a minha cabeça pode de facto musicar aquilo, que isso é a maravilha da leitura, cada um imagina as suas.

Tu fazes à tua maneira.

Claro.

Com certas diretrizes.

Exato. E aquilo estava muito bem escrito, eu sentia a tensão crescendo episódio por episódio, dentro dos próprios episódios. Portanto, o que eu quero é que as pessoas sintam o mesmo que eu senti. E é isso que eu faço nas peças de teatro, nos filmes, quando eu leio e vou fazer uma personagem, eu quero que as pessoas tenham a mesma sensação que eu tive quando eu estou a ler. Claro que eu imagino coisas e quero fazer coisas, mas mais do que tudo, é tentar fazer o que as outras pessoas me pedem. Que isso é das coisas mais interessantes. Sim, às vezes é verdade, nós apanhamos realizadores ou encenadores que não são pessoas muito interessantes do ponto de vista abstrato. Mas mesmo assim, a primeira coisa que nós temos que fazer é: alguém propôs um jogo e eu vou jogar aquele jogo. Há atores ou locutores que leem qualquer coisa e criam um jogo na sua própria cabeça e depois vêm jogar aquele jogo e propõem um jogo. Até pode acontecer. Alguém propôs outra coisa, a gente adapta as regras. Mas o que eu acho giro é, alguém propõe um jogo e diz mais ou menos quais são as regras e nós vamos jogá-lo. E dentro desse espaço, nós criamos coisas e eu gosto que façam isso comigo quando eu escrevo os filmes ou as peças e as faço. Há um jogo, há umas regras. E claro que a gente pode discutir um bocado os limites das coisas, e um ator poder entrar no universo de um criador é o mesmo que eu fiz aqui. Eu tenho que fazer isto o mais simples possível. E tentar, pelo menos. Porque eu lembro nós fizemos o primeiro episódio e a meio do segundo o João disse: "Acho que agora estamos lá em termos de-

Já estamos a destilar.

Sim. Já apanhamos o ritmo, já apanhamos a cadência certa ou o tom. Se calhar vamos voltar depois ao primeiro episódio. Então fizemos até ao sexto, são seis se não me engano, e depois voltamos a fazer o primeiro e ainda foi mais rápido, porque encontrámos ali o tom. O meu objetivo é, obviamente, e é engraçado, uma frase muito polêmica que chamava: "o trabalho liberta". Mas na minha área, o trabalho liberta, de facto, que é saber o texto, neste caso eu não podia decorar aquilo tudo, mas é saber as regras, saber o que eu tenho que fazer, é o melhor caminho para irmos ainda mais longe. O que me interessa a mim é como aqueles atores que: "ai não, eu quando faço uma personagem, eu esqueço-me de quem sou." Para mim isso é treta, porque se te esqueces de quem sou, então eu não me vou nunca afastar muito de mim próprio, porque se eu me esqueço de quem sou, eu não sei onde é que posso estar logo aqui à esquina. Enquanto que se eu souber onde é que está a Terra, e estiver pelo espaço, pelo menos eu já sei a que distância. Se eu souber onde é que está a Terra, pelo menos sei o quão longe estou. Mas se eu disser: "ai não, eu saio de mim e saio da Terra e não sei onde eu estou", posso estar a 2 m e fazer sempre as mesmas coisas.

Exato.

Sim, e normalmente é o risco da repetição e de fazer as mesmas tretas sempre. Pronto, já estou a divagar um bocado sobre esta questão.

Não, mas é importante perceber esse lado para quem está a seguir este projeto.

É ser objetivo e ir lá ao encontro do que querem. Claro que às vezes somos confrontados com pessoas que não sabem bem o que querem e depois aí cabe-nos a nós ser generosos ou não, e tentar ir fazer aquilo que nós imaginamos que seja e depois pomos todas as nossas ferramentas. E claro, depois apanhas uma grande parte de pessoas que são pessoas que sabem exatamente o que querem e que têm um universo. E para que eu vou estar a insistir numa coisa minha, que eu estou a imaginar, e perder a oportunidade de entrar no universo Que me é totalmente estranho e inclusive a fazer coisas que eu não estou habituado a fazer, como é o caso de chegar aqui à Rádio Observador ou ao Observador, aliás, e fazer um podcast e ler seis episódios de uma hora cada, que é uma coisa que eu nunca na vida fiz.

Mais um check, naturalmente.

Sim, mas é uma experiência.

Claro.

E de facto é preciso estarmos abertos.

É verdade. E já podem ouvir a "Leitura Mais Louca de Sempre", o novo podcast Plus do Observador. Redação original do Samuel Úria, que está ótima.

Como ainda não ouvi o primeiro, ainda não consegui ouvir. Mentira, ouvi no outro dia numa entrevista aqui no Observador, no programa da manhã, eles puseram um bocadinho ali em loop e aquilo era bastante interessante.

Está muito interessante. Narração do Gonçalo Waddington e o guião e as entrevistas são do Miguel Santos Carrapatouso, a sonoplastia do Artur Costa, que ajudou a embrulhar isto tudo e a tornar isto bom de se ouvir.

Exato.

Podem ouvir nas plataformas de podcast e também aqui no Observador, a cada semana um novo episódio. Entretanto, nós temos falado aqui um pouco de política. Este podcast leva-nos até este tema. Eu sei que és uma pessoa que se interessa por este tipo de temas. À data da gravação deste episódio, hoje é dia 3 de outubro, mas este episódio só sai no dia 12. Nessa altura, já foi entregue o Orçamento do Estado. Vai-se falar, em princípio, de uma área que te diz muito, da cultura. Uma área que para ti está de boa saúde, tem estado ao longo destes anos. Com a atenção necessária.

Em termos de pessoas, artistas, sim, nós estamos de muito boa saúde. Em termos de políticas e dinheiro, se calhar não tanto. Mas, primeiro que tudo, declaração de intenções, mais uma vez digo: acho que a última coisa que o mundo precisa neste momento é da minha opinião sobre o que quer que seja. Isto é uma atitude que eu tenho constatado, que é o excesso de opinião, que me incomoda de alguma forma, porque toda a gente fala de tudo e mais alguma coisa e, às tantas, é demais, a meu ver. Eu consigo falar, ou posso falar, da minha área, nas artes, do meu ponto de vista como criador, interveniente. Mas falando, por exemplo, de políticas ou política, acho que não tenho capacidade, não tenho informação suficiente. Há pessoas muito mais preparadas e muito mais informadas do que eu.

Mas isto não quer dizer que não tenhas uma opinião.

Obviamente. Daí a minha declaração de intenções. Mas há uma coisa que é inegável. Por mais políticas, melhores ou piores, há uma questão que é dinheiro. E as coisas precisam de dinheiro. E há um desinvestimento brutal nesta e noutras áreas. Falo, por exemplo, nas ciências. É impossível e não é por nada que, se calhar, há muitas pessoas que estão completamente desencantadas com tudo o que se passa ou que vão embora. O que é um facto, porque é muito caro viver em Portugal e o retorno é muito pouco. Eu lembro-me quando foi a nossa célebre Geringonça, que nós que falamos de 1% pra cultura. Se não estou enganado, 1% pra cultura tivemos com o Lucas Pires. Vá-se lá saber por quê. Não é de esquerda. É engraçado. Mas fala-se, se não me engano, nem França tem 1% pra cultura, mas tem muito mais do que nós temos. Mas nem com a Geringonça, portanto, de esquerda, eu como esquerdalhe das artes, assumido, mas que me interessa ler sobre tudo e mais alguma coisa, e dizer aquela célebre frase do: "Tenho muitos amigos de direita". Como se diz, também ajuda em casa.

Sim.

Mas uma das coisas que eu acho que é inegável é que mesmo na Geringonça, cultura, não houve praticamente mudanças nenhumas, numa altura em que seria mesmo propícia que toda a esquerda se unisse. Porque há esta ideia que a esquerda que é muito amiga da cultura, e de facto tem tido desilusões atrás de desilusão. Porque não? E porque parece que inclusive é discutir o que quer que seja no Parlamento e que envolva cultura, é uma chatice. Porque o orçamento pra cultura, dentro de um orçamento de Estado, se formos olhar pra aquilo tudo, o que equivale à cultura-

Uma fatia muito pequena.

Sim, e mesmo em termos de números num papel, há de ser uma coisinha ínfima. Portanto, não tem importância. O Tchekhov dizia no tio Vania, o Astrov há uma altura em que diz: "Quando os países têm dinheiro, as artes florescem". E de facto, é preciso guita pra sermos Paris. Pra ser Paris é preciso guita.

Tu achas que a inclusão também agora no ministério, que tem aqui, por exemplo, também a parte da juventude e do desporto, e isto na cultura também inserida dentro deste ministério, também não ajuda ao facto de que a cultura tenha a sua merecida atenção? Quer seja no orçamento ou quer seja em propostas que possam eventualmente surgir?

Lá está. É daquelas coisas que eu não sei se tenho...

Culpa minha de te estar a fazer esta pergunta.

Não, faz muito bem. Mas a ideia que passa, tendo em conta o historial destes últimos governos todos, e tendo em conta que de facto ainda são menos amigos da cultura em certas áreas, neste caso, este PSD, pelo menos, ou esta AD, o facto de encolherem aquilo e porem tudo nas mãos da mesma pessoa. A não ser que nos provem o contrário, que têm realmente um secretário de Estado para cada uma dessas áreas e que são pessoas altamente competentes, as quais eu não tive a oportunidade ainda de conhecer. Conhecer no sentido de ler sobre e ver o que está a passar, mas não augura nada de bom. Mas também ter um ministério específico para a cultura e de repente estão completamente manietados por outras razões. A principal delas é não haver dinheiro para aquilo que é preciso e para a quantidade. Não sei há quanto tempo, eu acho que foi ontem ou anteontem, que li sobre o impacto no PIB, as artes no PIB, neste caso europeu, depois a nível de cada país. Não é de todo aquilo que a maior parte das pessoas, e normalmente são pessoas que estão muito descontentes com a sua própria vida, e com razão, porque são pessoas que ganham mal e que não têm direitos, quase nulos, seus direitos cada vez mais delapidados. Porque estas coisas do fake news e não sei o quê, parece que é uma coisa que se inventou há pouco tempo. Fake news existe desde sempre. Alguém inventa mentiras para se espalhar.

Agora há um maior escrutínio, talvez pelas redes sociais. Há essa facilidade em conseguir encontrar incoerências.

Exato, e espalham-se, agora inventámos uns canais mesmo próprios só para espalhar. Tudo bem, essas coisas existem. Como eu vi alguém que dizia há muitos anos, no Porto aconteceu isso, que é alguém que dizia: "Por que dar este valor para esta peça de teatro?", que eu não sei quanto é que era 50 mil, 60 mil, mas isto dava para curar um paciente de não sei o quê ou para os tratamentos de... bem, se vamos entrar por aí. No dia em que começarmos todos a contribuir para o mesmo saco, aí depois podemos falar, porque obviamente se eu souber que estou aqui a fazer uma peça, mas ali ao lado está uma pessoa a morrer e que precisava deste dinheiro, não há mais solução?

Isso é um limbo permanente, quase.

Sim, mas isso é de um populismo, só que as pessoas ouvem isso e repetem. "Eu ando sem trabalho, lá estão estes." Como se andasse toda a gente a viver com o dinheiro dos subsídios. Mas então quantas áreas é que não têm o apoio e subsídio direto ou indireto? Quantos negócios, inclusive de multinacionais, é que há em Portugal com apoios diretos ou indiretos do Estado? Quantas áreas? O vinho, toda a área não tem apoios? Obviamente, tem apoios. Depois acontecem aquelas coisas que nós lemos e ficamos todos chocados. Não sei quantos milhões, não sei quantos litros. A agricultura, obviamente, tudo tem apoio, direto ou indireto. Tudo. Então, grandes grupos económicos também têm apoio direto ou indireto e vão se financiar no Estado.

No fundo, se formos avaliar, todas as áreas são sensíveis.

Obviamente.

E têm as suas carências.

Obviamente. E estamos todos a contribuir para o mesmo saco ou não estamos? Não pode haver é uns que são os ladrões. É, pelo menos, aquilo que eu sinto às vezes, e isso obriga ou faz com que haja um desinvestimento brutal. O que nós lemos, os desinvestimentos acontecem em muitas áreas, em todo lado, porque o dinheiro está cada vez mais concentrado numas áreas ou numas pessoas ou num grupo de pessoas. Porque o dinheiro existe, não está é conosco. Ou não está com algumas pessoas ou com algumas áreas.

Exato. Nós falamos aqui de cultura porque é uma área que te diz respeito e faz sentido falar.

Exatamente.

Vamos centrar-nos agora novamente na representação. A tua última novela, confirma-me, foi em 2011, "Laços de Sangue".

Exatamente.

Mas se bem que tu agora fizeste, eu penso que já foi gravado, um remake do "Ninguém como Tu".

Sim, que é uma série, supostamente, 20 episódios para a TVI com a Prime. E foi realmente um remake. Eu lembro-me de existir aquela novela, não a vi, mas lembro-me que era...

Do acontecimento que isso foi na altura.

Sim, lembro que foi um...

Transportava uma cassete, era algo deste gênero. No último episódio ia-se descobrir.

Isso passou-me totalmente ao lado. Mas lembro-me que aquilo foi, ainda hoje, quando se fala em novela, fala-se dessa novela.

Sim, exato.

Foi um acontecimento e eu fiz a personagem que é o António, que é: "Quem é que matou o António?"

Exato.

Portanto, foi interessante.

Estamos a falar que é uma série de 20 episódios, mas se calhar é daqueles projetos que têm uma linguagem mais próxima à novela, não é? Daqueles últimos que eu citei.

Eu próprio estou curioso para ver, porque uma das coisas que é totalmente diferente é mesmo a imagem.

Pois.

A imagem daquilo Portanto, a maneira de filmar os planos, a maneira como ele está decupado, não é de todo a ver com a novela, mas em termos de ritmo, às vezes, e de cenas, era parecido com a novela, em termos de ritmo, história. Portanto, eu estou muito curioso para perceber essa mistura, porque às vezes nós fazemos e eles mostram algumas imagens, vemos como é que está, mas não faço ideia de como é que essa mistura, em que é que vai dar.

E 20 anos depois, porque a série foi exibida em 2005, estava-se a recuperar 20 anos depois. Como é que isto tudo?

Sim, há atores lá, não sei se não é a Benedita Pereira, que tinha feito na primeira versão uma personagem e agora faz outra mais velha, obviamente.

Sim. Dalila Carmo participou na primeira, estou aqui a ver.

Sim, mas a Dalila não entra nesta versão, nem a Alexandra.

A Benedita Pereira participou, está aqui também.

Exato. Ela entra nas duas versões. É engraçado. Não sei se mais alguém também estará nessa situação, que é de ter entrado nas duas, mas lembro-me que a Benedita Pereira sim, essa foi uma das coisas que foi falada.

É para ver em breve. É um projeto que já está todo gravado.

Já. Foi tudo gravado no ano passado, até mais ou menos por esta altura.

É uma questão de tempo, então.

Acho que o que eu ouvi, o zunzum, é que é para daqui a muito pouco tempo.

Ok. Então fica no ar isto daqui a muito pouco tempo.

Exatamente. Acho que sim, daqui a muito pouco tempo.

Falando em projetos, também queria falar aqui de um que é inegável. Eu acho que as pessoas iam ficar chateadas comigo se eu não falasse, que é o projeto do Bruno Nogueira, do "Ruído".

Certo.

Que decorre num mundo em que rir é crime. E queria te perguntar : qual foi o sketch favorito que tu gravaste? Eu tenho o meu e já te vou dizer qual é, e tu se calhar já podes pensar qual é que foi.

Mas tu queres que eu diga primeiro ou tu dizes primeiro?

Não, diz tu primeiro.

É muito difícil estar a dizer isso, porque eu não me lembro de nenhum específico. Lembro-me de dois ou três muito bem. Outros que foram coisas que foram praticamente criadas ou resolvidas ali.

Pois.

Porque quando tu lês e tens de decorar uma data de texto, aquilo fica-te muito mais na memória, numa coisa mais aprofundada. Há uns que são coisas tão rápidas e que havia mais ou menos uma ideia, mas ele chega lá e olha, vamos mudar. Mas gostei bastante do jornalista, há um que é num jornal com o Miguel Guilherme. O Miguel Guilherme faz um jornalista um pouquinho mais-- não sei, lembro-me bem da padaria, que é uma coisa tão simples. E lembro-me de um que eu estava a ser entrevistado pela Rita Cabaço sobre coisas que já não se podem dizer, e que ele diz só que não tem filtro social e por aí vai. Mas há mais, agora alguns que eu nem me estou a lembrar.

Vou te dizer que o meu favorito, e é algo que me é querido, estamos aqui neste espaço, o das manhãs da rádio. É sem dúvida.

Não estava lembrado desse. Esse aí é o único post que eu tenho no Instagram, que é partilhado com a página do Ruído. Não sei se é com o Bruno, não percebi bem.

Possivelmente, sim.

Eu só aprendi essa coisa dos posts partilhados nesse. Portanto, deve ter havido outros posts partilhados em que eu não devo ter aceitado.

Sim.

Porque depois aparece uma notificação a dizer: "Fulano tal está a criar um post partilhado, tens que rever". Eu não devo ter revisto. Mas aquele, ainda hoje, tem mais-

E o mais engraçado é que há pessoas do meio, da rádio, assim como eu, que se reveem naquilo. E como vocês conseguiram fazer de um momento de humor algo completamente relacionado. Nós relacionamo-nos com aquilo, aquele momento.

Foi o Bruno que contava quando ele fez um programa qualquer da manhã, não sei qual é que era, acho que era rádio comercial.

Sim, posso confirmar.

E ele fez um programa da manhã durante algum tempo. Aqueles que ele dizia que era difícil, porque tinhas que acordar às 05h. E aquelas pessoas com quem ele estava já faziam aquilo há muito tempo. E ele vinha agitadíssimo, e eles estavam . E, portanto, quando havia um intervalo ou porque ia dar uma música, que aquilo era automático. Depois nem se falavam uns com os outros. Alguém vinha abrir a porta e dizia: "Está cá o..." E ele ficava: "O que está aqui a passar?"

Que linguagem é esta que eu não estou a entender.

Sim, mas os tipos estão todos deprimidos. Obviamente, aquilo é um exagero brutal daquele sketch, mas vem de qualquer coisa que eu acho que é bastante verdadeira, pelos vistos, e por isso é que toda a gente da rádio. Sim, de facto, é verdade, há muita gente da rádio.

Do meio.

Que está lá que comenta aquilo e diz: "Brilhante, olha nós".

É verdade. E depois também há aqueles icónicos da Gabriela Barros com o ASMR, que também se tornaram altamente virais.

Sim, eu gosto muito de um dela que é o: "O importante é que eu faça só um xixi", que é uma coisa muito parva. Esses do ASMR são muito bons. Aquilo tem coisas muito giras. E eu acho que não vi tudo, porque eu não vi praticamente nenhuma na televisão. Quer dizer, vi algumas, mas o que é giro é ir vendo.

Claro, porque depois há essa facilidade com as redes sociais.

Isso é o que eu acho mais. É como, por exemplo, eu não faço ideia, nunca soube, se a Porta dos Fundos existe como programa de televisão ou se é só uma coisa de YouTube. Eu nunca percebi, porque eu só via no YouTube.

Sou como tu. Também vi sempre no YouTube.

Pois. A primeira vez que eu vi na vida, há muito tempo, que foi o Mário Alberto, aquilo foi há muito tempo e foi no YouTube, porque alguém partilhou com alguém, vejam isto. E eu julguei que aquilo era um programa de televisão, que eles depois puseram, e se calhar foi isso. Mas nunca soube se existe ou não o programa de televisão, porque aquilo, de facto, na net é impressionante. E é um bocado como o ruído. Aquilo vai continuar, há de estar sempre. Tal como os videozinhos do "O Último a Sair".

Sim, eu ia por aí agora, porque tu fizeste o "O Último a Sair", foi há quantos anos já? 10, por aí, se calhar?

Não, acho que foi mais.

Foi mais? Eu posso confirmar também, mas foi um projeto que-

Não, mais.

2011.

Exato. Porque o Odisseia, nós estivemos quase para fazer os 10 anos, uma festa, e agora estamos a falar de fazer, celebrar os 11 anos do Odisseia, portanto, o "O Último a Sair" foi antes.

Faz 15 anos no próximo ano.

Sim, 15 anos.

Este ruído foi um outro bombom, tendo em conta o "O Último a Sair", porque tu na altura do "O Último a Sair", tinhas uma personalidade, enquanto ator. Saíste lá um bocadinho as pessoas a odiar-te. Tinhas uma personagem.

Sim. Era um tipo odioso.

Uma pessoa fácil de se odiar?

Sim.

Aquela pessoa que possivelmente se estivesse num reality show a sério, sairia logo na primeira ou segunda semana.

Sim. Aquilo foi muito giro, porque o Bruno convidou-me com muito tempo de antecedência. E depois fomos falando: "Olha, isto afinal estamos a escrever ainda, é só para tal". E quando ficou tudo fechado, eu disse: "Bruno, eu não vou poder gravar muito", porque eu tinha uma peça, já estava apalavrado. Aquelas decisões que foram tomadas três meses antes: "Olha, a data é tal". Quando vimos as datas, eles gravaram um mês, vamos imaginar, ou um mês e meio. Eu disse: "Eu só posso gravar uma semana ou duas". Ele disse: "Então, és o primeiro a ser expulso". Mentira, o primeiro a ser expulso, neste caso, foi o Marco.

Sim, icónico.

Na entrada. Mas és o primeiro que é votado a sair. Ok. E então nós tínhamos alguns guiões e o que é engraçado é que no primeiro dia de filmagem, ou nos primeiros dois dias, eles perceberam: "Não precisamos dos guiões". Não é não precisamos, é não podemos fazer os guiões. Se a gente vai fazer os guiões, mais os vossos improvisos todos, nós nunca vamos cumprir. Depois aquilo começou a ser só basicamente uns cabeçalhos, que é agarrar nas cenas que já existiam, obviamente, mas dizer: olha, vocês agora estão a ter uma discussão. Eu não me lembro nunca de ter dito o que quer que seja que tivesse guionado. Aquilo é: agora estão na cozinha e estão a discutir sobre-

Davam cenários.

Sim, havia histórias. Tu vais te chatear com aquela e depois eras giro tu, pronto, está tudo bem. E eu, como era o primeiro a sair, eu basicamente tinha carta branca.

Carta branca.

Sim, para fazer o que eu quisesse. Portanto, eu podia fazer o que eu quisesse e, de facto, foi aquilo que eu fiz. Fiz tudo. Eu pareço um porco, aquele gajo é um porco, que há muitos agora que nós vemos em certos e determinados partidos na Assembleia. Seria aquelas pessoas que não têm filtro, vergonha, nada, é um porco. E o que é curioso é que montes de gente, eu lembro-me de estar a trabalhar numa peça, um ano depois, talvez. Eu estava com o Bruno numa peça e ele estava a me mostrar o que era o Twitter, como é que o Twitter funcionava, o Twitter, não sei o quê. E então criei o Twitter, entretanto. E passada uma semana ou duas semanas, estávamos ainda na peça, porque tínhamos muito tempo, eu e o Bruno e mais uns outros no camarim, porque entrávamos só muito mais tarde, uma coisa com alguém. E ele falou: "Eu já criei uma". "Já criaste uma conta? Qual é que é o teu?" Sei lá como se chama aquilo. E eu mostrei. E ele: "Poxa, o nosso amigo Wellington já está num..." Aquilo era brutal, de pessoas a seguir e: "Epa, 'O Último a Sair'". Hoje em dia, ainda hoje, é: "E tu no 'O Último a Sair'". E que eu adoro e acho muito fixe, mas fico altamente comovido quando alguém me diz: "Bem, aquela série que vocês fizeram", e eu: "'O Último a Sair'. Não, o Odisseia". Que é uma coisa que fizemos a seguir e que para mim é das coisas mais, em televisão, é tipo Forex, é uma coisa incrível. E agora o ruído que apareceu, que eu já tinha feito com ele, os contemporâneos, a primeira temporada dos contemporâneos, que isso foi há mais tempo ainda, já não sei há quanto tempo. Portanto, já é uma relação de há muito tempo.

São muitos projetos, no fundo.

São muitos. E estivemos em teatro juntos.

Agora ainda dois que te levaram a nomeações nos Globos. Tu falas aqui como duplo perdedor, mas é sinônimo de reconhecimento, de talento e de trabalho.

Em cinema perdi pro João Pedro Vaz, que é uma coisa muito especial para mim, porque ele é muito meu amigo, eu conheço há muitos anos, portanto, está tudo bem. Perdedor, mas em bem, está tudo bem. Mas não deixa de ter piada. Fui lá ganhar juízo.

Mas também é sempre bom.

Obviamente. Ou seja, os prêmios Acho que não é preciso ficar-se muito chateado com os prémios que não se ganha. Eu não os criei. Alguém resolveu nomear-me para um prémio, é responsabilidade deles.

Exato.

E querem me dar um prémio? Ótimo, eu não os criei, eu não votei. A minha mãezinha, também já não está cá, não votou em mim, não sou eu. Se eu criasse um prémio e de repente eu o perdesse, aí é que se calhar eu ia ficar muito chateado.

Aí já seria pior.

Mas não. Aquilo é uma oportunidade para celebrar. São prémios de um canal, da SIC, aquilo é uma celebração e nós vamos lá, especialmente as pessoas que não trabalham na SIC, ou que já trabalharam e não trabalham, que é o meu caso. Nós vamos lá e celebramos e é uma oportunidade de ver-

Colegas também

... montes de gente que eu já não vejo há muito tempo. Está tudo bem.

E às vezes ter essas pessoas todas no mesmo espaço é difícil.

Sim, exato. E a parte mais divertida daquilo, para mim, é o antes, quando chego lá. Ainda por cima, deixou de haver durante dois anos, agora voltou a haver. Encontramo-nos antes e estamos lá todos no espaço a comer, a jantar e estamos a cumprimentar 50 mil pessoas e não vemo-nos há muito tempo. Esse lado é impagável.

Vamos terminar, este tem 40 minutos, já vai longo. Confesso que acabei por me estender aqui um bocadinho, mas a conversa está boa. Gonçalo Waddington, o que é que te inquieta?

O que é que me inquieta? Bem, a pergunta é difícil.

Se calhar algumas dessas inquietações já ficaram aqui patentes ao longo da conversa.

Sim, já ficaram aqui patentes. Lá está, aquilo que eu não sei e estou sempre à procura. Obviamente, há coisas que me inquietam, coisas que se passam no nosso mundo, com a nossa vida e que lá por eu não me manifestar, e particularmente não me manifestar em redes sociais, porque no meu caso redes sociais é para ver gatinhos ou para mostrar gatinhos, é para promover o meu trabalho. E há pessoas que o fazem e muito bem. Lá por eu não me manifestar, não quer dizer que eu não me inquiete. Mas, por exemplo, ontem houve uma manifestação muito grande de pessoas e acho que o ir, o estar lá e anónimo, acho que é uma coisa que eu prezo.

A propósito da questão de Ucrania.

Sim, a propósito da questão, porque é tão complexo, é impossível não estar empático com aquele sofrimento atroz. Obviamente, isto são coisas que me inquietam. Mas há as outras coisas que me inquietam e que acho que são do domínio da felicidade absoluta. Para mim, a felicidade absoluta é eu poder preocupar-me com esta nódoazinha que está aqui na minha camisa.

Nem a tinha visto.

Exato. Mas preocupa-me imenso. Caramba, eu pus esta camisa e está aqui esta nódoa. Eu acho que isto é a felicidade absoluta. Nós podermos preocupar-nos com as coisas mais comezinhas e menos importantes, que é esse o desejo que eu tenho para todas as pessoas que estão a sofrer no mundo. É que um dia estas guerras acabem e essas pessoas possam ter a mesma felicidade que eu, que é estarem preocupadas, porque essas pessoas olham eventualmente para mim e veem este beto que me fala de coisas que não interessa, mas de facto aquilo é que é a felicidade absoluta, estar preocupado com isso. Obviamente, isso me inquieta. E depois as coisas que realmente me inquietam é aquilo que nós falamos, é aquilo que eu não sei, é saber que eu tenho uma coisa ali para escrever e não sei bem como é que eu vou pegar. E isso é bom, é o que me inquieta.

Gonçalo Waddington, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Em 40 Minutos". Ouçam o novo podcast Plus, a eleição mais louca de sempre. Tem a tua voz e a banda sonora original é do Samuel Louria. Um abraço e até breve.

Obrigado. Até breve.