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Bem-vindos à Última Chamada. Desafiamos os líderes partidários a fazer a última conversa do dia com os jornalistas do Observador que estão a acompanhar as caravanas eleitorais, entrevistas sobre o atual momento político e também mais pessoais. Organizamos a ordem das conversas tendo em conta os resultados eleitorais de 2019. O PS não respondeu ao nosso convite e PSD e Bloco de Esquerda recusaram. A primeira na lista é a coligação CDU. João Oliveira teve a missão de substituir Jerónimo de Sousa e também João Ferreira. A jornalista Rita Penela apanhou o cabeça de lista da CDU Évora no trajeto entre Faro e Azeitão, onde dormiu de sábado para domingo. João Oliveira conta que devido à exigência extra da campanha, ficou com redobrada compreensão pela capacidade de resistência de Jerónimo de Sousa.

Estou.

Olá, boa noite.

Viva.

Como está?

Tudo bem.

Tudo.

Tudo bem. Eu estava a achar que me iam ligar de um telemóvel, por isso é que não estava a atender.

Não, precisamos fazer a gravação. A esta hora também não havia muitas hipóteses de o estarem a chatear, que já o dia vai longo, não é?

Estamos em viagem, portanto é tudo ainda parte da mesma jornada.

Ainda está a voltar a Évora, é isso? Diz-me que está em viagem, terminou agora o comício em Faro.

Terminou o comício em Faro, estamos a regressar para Azeitão, vou ficar em Azeitão.

Então diga-me uma coisa, que balanço, como é que foi hoje este dia? Como é que está? Muito cansado, ainda está com energia pro resto da jornada?

Vou-me aguentando. Já vão sendo algumas horas acumuladas.

É mais difícil fazer esta ronda nacional, está mais habituado à zona de Évora, do seu distrito. Pesa mais este esforço nacional.

Sim, os horários não são propriamente muito diferentes daqueles que faria se estivesse por Évora. Eventualmente à noite, não tão estendidos à noite, digamos assim, do ponto de vista das horas do dia consumidas com a campanha, não seria muito diferente. Naturalmente, a diferença das deslocações e todo o girar que envolve as deslocações faz alguma diferença. Tenho agora uma redobrada compreensão pela capacidade de resistência do Jerónimo.

É? Está mais solidário? E sente mais todas as vezes que lhe perguntaram se ele já estava cansado, agora que consegue perceber?

Pois, exatamente.

Quem acompanha a volta com ele também se cansa e se calhar é por isso que a pergunta se sustenta todos os dias.

Exatamente, tenho uma compreensão redobrada pela capacidade de resistência dele.

E como é que têm corrido os contactos? Não é que seja propriamente um desconhecido, obviamente, mas como é que tem sido a aceitação, que não é uma aceitação, é esta troca forçada devido às contingências que já se sabem, quer as de Jerónimo, quer as de João Ferreira depois, no início da semana.

Eu acho que tem havido um ambiente de unidade e de mobilização acrescida em função disso. Acho que tem havido, de facto, esse sentimento de que é preciso todos darem o contributo na medida das suas possibilidades. E acho que isso tem ajudado, o ambiente de campanha vai-se fazendo sentir isso no ambiente da campanha. Acho que isso é um elemento que ajuda ao bom ambiente que nós encontramos, em termos gerais, nos contactos que vamos fazendo.

A dificuldade acabou por unir mais, é isso? De alguma forma.

Eu não sei se acho que é uma ideia de, perante estas adversidades, termos todos que dar um bocadinho mais pra que elas possam ser ultrapassadas. Acho que isso se sente.

E em Évora acha que já há saudades suas, já toda a gente anseia por terça-feira, quando pode voltar ou ainda aguentavam mais um tempo sem o cabeça de lista?

Os meus camaradas e amigos candidatos têm-se desdobrado pra conseguirem colmatar a minha ausência e acho que pelas notas que tenho, isso tem sido conseguido e, de resto, têm sido também encontrados alguns elementos de apoios, alguns deles até inesperados, de pessoas que assumiram dar o seu apoio à CDU, também considerando essas dificuldades. Acho que isto vai sendo tudo um bocadinho em cascata.

Está mais otimista hoje, que é sexta-feira, do que estava na segunda ou na terça, quando lhe ligaram a dizer que teria que entrar em ação noutra pele que não só a dos debates e das idas à televisão, que também já tenho aqui uma pergunta pra lhe fazer sobre isso.

Sim, quer dizer, esse primeiro sobressalto foi um sobressalto com algum impacto, porque estava a chegar ao local onde tinha a iniciativa de campanha prevista em Évora e tive que voltar pra trás. Esse primeiro sobressalto foi, de facto, um sobressalto grande, que me deixou a pensar como é que a gente ia resolver todas as implicações que isso tinha. Mas agora ultrapassadas essas dificuldades, com a noção de que a circunstância em que eu estou a cumprir a agenda em que estaria presente o Jerónimo e que em Évora está a ser cumprida a minha agenda com outros candidatos, dá também alguma confiança relativamente ao andamento do trabalho e à mobilização, e à atualização que vou fazendo A forma como as coisas estão a ocorrer no distrito de Évora é boa.

Há bocadinho no comício aproveitou um momento, que nas redes sociais teve grande impacto e está a ser altamente comentado, da brincadeira que fez com o Ricardo Araújo Pereira. Aproveitou para mobilizar também ali um auditório bem composto. Não é a primeira vez que participa no programa, mas aparentemente teve aqui mais projeção. Acha que isso se prende com o facto de estar a fazer as vezes do secretário-geral e que está com uma maior projeção?

Eu acho que isso eventualmente traz algum elemento de curiosidade ou de interesse para ver se a substituição é feita nestas circunstâncias, se quem substitui o secretário-geral nesses compromissos, verdadeiramente corresponde às exigências que estão colocadas. Há claramente um elemento de curiosidade.

Acho que é um teste também.

Não, acho que é sobretudo um elemento de curiosidade. Que é perceber como é. "Era para estar o Jerónimo, deixa lá ver quem é que vem, como é que vem." E acho que isso é natural.

E vem bem?

Como?

Se vem bem, tendo em conta esta projeção toda e aquilo que está a receber de feedback, se sente que não defraudou expectativas, se é que as havia.

Deixe-me dizer-lhe uma coisa, aquilo que aconteceu naquele momento ontem no programa do Ricardo Araújo Pereira, eu julgo que não pode ser barómetro para muita coisa, porque naturalmente aquele ambiente descontraído eu julgo que facilita um pouco uma abordagem também mais leve até a questões sérias. Ou seja, é possível tratar de questões sérias de outra forma, mas eu julgo que aquilo que resulta daquele momento com ele, acho que acaba por ir muito além daquilo que verdadeiramente pode ser o alcance da mensagem do ponto de vista da mobilização para o voto. De qualquer forma, também é uma circunstância arriscada, porque apesar de ser um espaço de descontração e de brincadeira, há sempre o risco de pôr o pé em ramo verde. Portanto, há sempre ali um misto de cautela e descontração que tem que ser equilibrado. Naturalmente, o feedback que tenho tido desse momento é sobretudo um feedback de boa disposição e, portanto, como aquele espaço é de facto um espaço para haver boa disposição, acho que o objetivo ficou cumprido.

Olhe, não lhe vou ocupar mais tempo, sei que ainda está em viagem, desejo-lhe um resto de boa viagem e um bom descanso e amanhã de cedo nos encontraremos para continuar.

Obrigado. Bom trabalho.

Obrigada. Igualmente. Bom descanso.

Obrigado.

João Olivala, da CDU, numa primeira de duas conversas com a jornalista Rita Penela. Francisco Rodrigues dos Santos dormiu na guarda de domingo para segunda. Já passava da meia-noite quando atendeu o telefone à jornalista Beatriz Ferreira. O líder do CDS conta que fica para trás para conversar com os apoiantes e apesar do cansaço, não lhe falta energia.

Beatriz?

Estou, Francisco. Já chegou a Tela, então?

Já, acabei agora mesmo de chegar.

E veio a dormir na viagem de carro desde Matosinhos até à Guarda, foi isso?

Dormi a espaços para repor as energias, porque foi um dia longo e terminou hoje a primeira semana de campanha.

Mesmo assim, hoje foi um dia mais tranquilo relativamente aos restantes, porque tem tido dias muito preenchidos que só acabam à noite e começam muito cedo, mas hoje até terminou as ações de campanha relativamente cedo. Como é que se sente? Cansado?

Sinto-me cansado, mas com o sentimento de dever cumprido. Nós temos realizado uma média de quatro ações de campanha por dia. Hoje conseguimos distender no tempo as duas ações de campanha que tivemos, portanto, não foi tão concentrado o dia, mas é sempre uma altura em que nós gostamos de estar concentrados no contacto com as pessoas, ouvir os portugueses, conversar com eles, apresentar as nossas soluções e convém estarmos de corpo inteiro e colocarmos tudo aquilo que somos no que fazemos. E eu vivo estas campanhas com muita intensidade e também com muita alegria.

Mas ouvi dizer que ontem à noite ficou até muito tarde em Ponte de Lima, no jantar-comício. Ainda tem energia para uma noitada após tantos quilómetros?

Sim, energia tenho. E eu tenho uma particularidade no relacionamento com as pessoas. Eu gosto de não ter visitas de médico, nem passagens relâmpago por cada uma das terras. E ontem tínhamos cerca de 400 pessoas, talvez. E eu no final gosto sempre de conversar um bocadinho com elas, conhecê-las, perceber quem são, porque é que apoiam o partido, em que é que posso ser útil, quais são as suas expectativas. E entretanto, essa confraternização e o convívio deu-se até talvez entre a meia-noite e uma da manhã. Então eu prefiro que assim seja e dou-me também a conhecer e permite-me saber quem são as pessoas que estão conosco.

E o que é que vai fazer agora? Vai já dormir ou ainda vai preparar alguma coisa para amanhã?

Eu agora vou já dormir. O plano para amanhã já está definido. Tivemos tempo para gizar e planear atempadamente e agora é tempo de descansar para amanhã acordar com todas as forças e todas as energias para levar por diante mais uma jornada de campanha, que como sabe, é muito exigente.

Por curiosidade, o que é que jantou hoje?

Hoje jantei sushi, é verdade, no Porto.

Aqui em tom provocatório e também por curiosidade, e porque tem criticado muito o PAN, nunca provou tofu ou seitan ou soja? Tem alguma coisa contra?

Já provei.

Ah, já? E gostou?

Já provei. Já, e gosto. Gosto de tofu. Agora, eu defendo é uma base alimentar diversificada para não haver carências de proteína animal, nem deficiências alimentares, que depois comprometem a saúde das pessoas. Portanto, eu não condeno quem gosta de uma dieta vegetariana, mas enfim, eu gosto de ter uma alimentação mais diversificada. Há dias que sim, outros que não, mas já provei tofu e gosto, devo dizer.

E costuma comer assim com regularidade?

Não, não com muita regularidade. Já não como há alguns meses.

Às vezes o Francisco passa mais tempo nas viagens do que nas ações em si. Faz muitos quilómetros por dia. O que é que aproveita para fazer nessas viagens, uma vez que não é o Francisco a conduzir? Escreve discursos, liga à sua família, dorme, o que é que faz?

De tudo um pouco. Todas essas coisas que referiu eu acabo por fazer. Sou sempre eu que escrevo os meus discursos e tento estruturar e organizar os pontos que quero falar. Há dias que eu dedico mais aos idosos, nós temos o vale farmácia para pagar medicamentos ou o complemento de pensão no inverno para permitir aquecer as suas casas. Eu tento estruturar boas formas de comunicar estas ideias. Outro dia foi o cheque ensino, para dar liberdade de escolha às famílias. E tive aquela ideia de criar mesmo um cheque fictício para entregar aos jovens estudantes. Quando é questão da diminuição dos impostos e da carga fiscal, procuramos sempre ir ao encontro de empresários. Hoje foi, por exemplo, os da restauração, em que nós defendemos a redução do IVA para 6%. Enfim, procuro também engendrar as ações de campanha por forma a adequar a mensagem e o conteúdo aos destinatários, para quem nos queremos dirigir e também para tornar apelativa a mensagem para a comunicação social poder transmiti-la. Depois também falo com a minha família, sobretudo com a minha mulher.

Sim, ia-lhe perguntar, porque a sua esposa, a Inês, apareceu numa ou noutra campanha no início. Mas queria lhe perguntar se ela lhe costuma dar conselhos sobre o que dizer ou fazer.

Sim, ela é a minha maior confidente e conselheira. E acontece que nós estamos casados há seis meses e durante este período, sobretudo, nós já vamos na segunda campanha, portanto, o tempo útil de convivência em comum tem sido pouco. E para dele o resto, ela é uma companheira que eu conheci na política e que não se inibe de me dar os seus conselhos, os seus contributos, as suas sugestões. Ainda hoje falámos acerca da proposta que amanhã gostaríamos de falar, que é o vale farmácia para pagar todas as despesas com medicamentos aos idosos mais pobres. Ela disse-me que era um tema urgente, porque ela também é candidata pelo círculo eleitoral de Santarém, é dirigente do partido, vai no lugar não elegível e disse-me que hoje foi um dos pontos que foi mais tocado durante a ação de campanha que tiveram. De facto, há muitos idosos que não têm dinheiro para comprar os seus medicamentos e esse é um ponto-chave. E até a proposta da restauração. Ela sabia hoje que eu ia reunir com uma associação de empresários da área da restauração e disse-me que fazia todo o sentido atender às suas reclamações de baixar o IVA para 6% e criar linhas de crédito de apoio a estes empresários, porque hoje ela almoçou num restaurante onde vai há muitos anos e as pessoas estão com dificuldades em manter as suas casas abertas. Portanto, ela é, sem dúvida nenhuma, a pessoa que eu mais oiço antes de tomar as decisões mais importantes.

O Francisco tem ido a muitos mercados e também a algumas feiras. Queria lhe perguntar se se sente o Chiquinho ou o Chicão das feiras ou, neste caso, dos mercados.

Essa é uma boa pergunta. Aqui há uns tempos, na campanha das autarquias, um semanário me chamou o Chiquinho das Feiras. Isto é por analogia ao Paulinho das Feiras. Eu gosto de estar no meio do povo. Eu sou povo, eu venho de um interior do nosso país, sinto-me bem nesses ambientes. Há quem diga que filho de peixe sabe nadar, portanto eu gosto de estar junto das pessoas e tenho me divertido bastante. E esse epíteto, se for o Francisco das Feiras, o Chicão das Feiras, o Chiquinho das Feiras, qualquer coisa que seja junto do povo e ao lado das pessoas, eu gosto e sinto-me bem.

E também já vi que não gostou de ver André Ventura hoje com o casaco camuflado. Sentiu-se insultado?

Eu tenho muito respeito pelas nossas Forças Armadas e o uniforme é um elemento sagrado da simbologia militar e é preciso respeitá-lo, compreendê-lo e dignificá-lo. E não gostei da forma carnavalesca com que André Ventura decidiu envergar o uniforme militar. Acho que não vale tudo e é preciso respeitar as instituições.

Francisco, muito obrigada. Queria lhe perguntar se amanhã podemos repetir esta conversa.

Podemos, claro que sim, fica combinado.

Bom descanso para si. Obrigada, Francisco, e até amanhã.

Até amanhã.

Francisco Rodrigues dos Santos numa conversa com a jornalista Beatriz Ferreira. Seguindo o nosso critério, do mais para o menos votado em 2019. Inês de Sousa Real atendeu a chamada de Inês Ameixa numa noite em que conseguiu ir dormir a casa, por volta das 21h30. A líder do PAN lamenta e diz que tenta lidar com alguma frieza, com os insultos e também com as ameaças.

Estou?

Estou. Olá, Inês, tudo bem? Daqui Inês Ameixa da Rádio Observador. Boa noite, tudo bem? Vamos então fazer essa chamadinha de final do dia, a primeira de duas. E começava por lhe perguntar, Inês, já temos aqui uma semana de campanha oficial nos pés. Sente-se muito cansada? Isto está a ser cansativo para si? Como é que está a correr?

Bom, esta é a minha primeira grande campanha enquanto porta-voz do partido. Acho que sinto aquele cansaço bom de andarmos e termos o privilégio de estar pelo país. E tendo estado também ontem fora de casa, hoje ao chegar, evidentemente que aproveitei para matar saudades, não apenas da família, mas também dos meus animais de companhia, porque é sempre difícil quando estamos na estrada, não estarmos perto da nossa família.

Quantos animais é que tem, já agora, só por curiosidade?

Tenho dois animais, um cão e uma cadela, o Mikas e a Luna. O Mikas tem 11 anos e a Luna já tem 16 anos, está muito velhota e também bastante doente. E portanto, também acaba por ser uma preocupação minha durante a estrada, e acima de tudo também aproveitar o mais possível quando estou em casa com eles.

Mas o que é que a cansa mais nesta altura? É andar sempre de um lado para o outro, os dias muito cheios, é estar fora de casa?

Eu acho que é de facto muito animador e um grande privilégio nós podermos estar em contacto com as pessoas. Eu acho que tirando o cansaço físico que por vezes podemos sentir, de andarmos de um lado para o outro na estrada, e também esta é a campanha, ao contrário da maior parte dos atos eleitorais que temos tido, está a decorrer no inverno e, portanto, é um pouquinho mais fria do que o habitual. Mas ainda assim, não deixa de ser caloroso os momentos que temos na estrada, porque as pessoas têm sido muito simpáticas, têm sido muito cordatas e também acarinhada de alguma forma, e isso também ajuda a mitigar a distância que temos de casa.

E ainda vamos a meio, mas sabendo o que sabe agora, faria uma campanha destas novamente ou não?

Faria sim, eu gosto muito do contato com a população. Aliás, gosto mesmo muito de poder ouvir as pessoas, ouvir em primeira voz também as suas preocupações e aquilo que também são muitas vezes as próprias ideias, que ainda hoje me vinham dizer que era importante debatermos o voto eletrônico no nosso país para combater a abstenção e também por causa do receio que as pessoas têm agora neste contexto sanitário. É sempre muito interessante ouvir as diferentes sugestões que nos trazem estando na estrada e também sentir o carinho que muitas vezes têm e a identificação que têm com o nosso programa. E isso, de facto, é um grande privilégio, é muito gratificante.

E estamos aqui a fazer a chamada de final do dia. O que a Inês tem feito antes de se deitar? Ou o que faz antes de se deitar agora nesta altura em que está em campanha?

Nesta altura, temos que andar sempre um pouquinho com a mala às costas e portanto, acabo por ter que fazer e desfazer a mala. Mas para além desta parte mais do quotidiano da campanha, procuro sempre não só ouvir um pouquinho de música, ouvir um pouquinho de televisão para ver também as notícias, para além daquilo que vi ao longo do dia, e acima de tudo aproveitar também para ver se falta alguma coisa em casa. Também muitas vezes temos que aproveitar para dar um saltinho às compras, seja porque falta alguma coisa do dia a dia, para garantir que está tudo em funcionamento. E no meu caso também, tendo animais de companhia e trabalhando também o meu marido, acabo por vezes por ter que assegurar o pet sitting dos meus animais e portanto acabo também por ter que gerir depois essa parte do dia a dia.

Gerir também à distância.

Também gerir não só à distância, mas também tentar fazer o do longe perto.

E tem dormido poucas horas, acredito. Quantas horas é que tem dormido agora nestes últimos dias?

Temos dormido muito poucas horas. Aliás, eu cheguei há coisa de cinco minutos a casa, porque ainda andámos a pôr alguns cartazes que estavam em falta e amanhã vamos nos levantar muito cedo. Normalmente às 6:00 já estamos acordados para estarmos a fazer a estrada. Às vezes chegamos à 1:00 da manhã a Lisboa e portanto acabamos por nos deitar à 01:30, 02:00. Mas de facto, apesar de ser muito intensa uma campanha, é sempre muito gratificante podermos estar próximo das pessoas.

E quando acorda, coloca despertador ou tem, por exemplo, a ajuda das suas assessoras que lhe ligam? Como é que funciona?

Não, coloco o despertador, é minha total responsabilidade. E portanto, o único cuidado que eu tenho é tocar várias vezes o despertador, que é para se o primeiro falhar, o segundo acordar-me de certeza. E portanto, tenho que ter sempre esse cuidado, mas sou eu própria que coloco o despertador. E apesar, evidentemente, às vezes gostar de dar o salto da cama, tem que ser e fazemos, lá está.

Tem que ser. Custa acordar, mas depois é sempre a andar. Gostava também de lhe perguntar aqui também, agora falando mais da questão desta primeira semana de campanha, a propósito do episódio em Beja, que teve ao pé do aeroporto, que de alguma forma acabou por marcar esta última semana que passou. Agora com alguns distanciamentos já, assusta este tipo de atos? Teme que possam voltar a acontecer? Como é que agora com o devido distanciamento, olha para este tipo de episódios?

Olhe, eu acho que é sempre lamentável este tipo de episódios. Não me assustam na medida em que nós sabemos que estamos a defender aquilo em que acreditamos e que acima de tudo estamos a pedir uma sociedade mais empática e de maior respeito para com os animais. Mas acho que é um profundo desrespeito que alguém que tem uma visão diferente da nossa se sinta no direito de ofender ou de ameaçar uma mulher. E aquilo que eu noto muitas das vezes, ou pelo menos quando temos estes episódios e não é a primeira vez, já o tinha tido também em Alcochete e lá atrás, alguns meses atrás, logo quando me tornei porta-voz do partido, nas ameaças de morte que recebi, e precisamente sempre por causa da tauromaquia. E não deixa de ser curioso que chamam-nos de fundamentalistas e extremistas, mas as ameaças e as agressões e a ofensa à integridade física vêm sempre do outro lado. De facto, aquilo que eu noto é que é muito lamentável que alguém se sinta no direito de ofender de forma tão grosseira uma mulher, desrespeitar o próximo. E eu acho que em política não é esta a maneira que devemos estar. E eu recordo que este episódio também tinha membros de outras forças políticas, e portanto não acho minimamente correto. Nós podemos ter visões diferentes para a sociedade.

Vai tentando lidar naturalmente com esses episódios, é isso?

Tentamos lidar com alguma frieza, mas acho que é lamentável e como mulher não posso deixar de facto de sentir que ainda temos um longo caminho a percorrer para que pelo menos aquilo que é o debate de ideias não parta para este tipo de ofensas que de facto são absolutamente lamentáveis. Mas, por outro lado, aquilo que também sentimos na estrada é de facto um grande carinho por parte das pessoas, mesmo pessoas que por vezes podem não ser do nosso partido, e já nos aconteceu frequentemente.

Era isso que eu queria perguntar. No outro dia foi desafiada a coligar-se com o Partido Socialista numa visita a Évora. Hoje de manhã foi a vez de um eleitor social-democrata deixar esse repto para um acordo entre PSD e PAN. A Inês de Sousa Real tem sempre fugido a dizer quem é que prefere. Pergunto-lhe se na sua cabeça sabe quem é que preferia, tem isso bem resolvido, mesmo que não seja público ou não.

Não, eu sei o que eu preferia. Eu preferia ter um PAN que tivesse muito mais força no Parlamento para que possamos fazer avançar mais as nossas causas, porque sabemos que somos o partido que tem uma mensagem de futuro, uma mensagem preocupada com aquilo que é o combate à crise climática, com a proteção animal, com os direitos humanos e portanto sabemos que, de facto, aquilo que é a nossa forma também de fazer política pela positiva. Agora, em relação àquilo que é este repto das pessoas que nos acompanham na estrada e que se vão cruzando conosco, não deixa também de ser gratificante sentir que mesmo pessoas de outras forças políticas reconhecem o trabalho do PAN e que valorizam o facto de mesmo na diversidade, nós sabermos respeitar o debate e apresentarmos de forma positiva os nossos contributos e as nossas soluções para o país. E isso faz-nos sentir que somos relevantes e que estamos no caminho certo na nossa maneira de estar na vida política.

Muito obrigada. Espero que descanse agora para o dia de amanhã e para a viagem grande que vão fazer. Obrigada e boa viagem até à Covilhã.

Obrigada, e eu Inês penso que já aí esteja, se calhar.

Sim, já estou. Fiz a viagem ainda hoje para não acordar muito cedo. Obrigada.

Exato, um bom descanso, Inês. Até amanhã. Obrigada. Até amanhã. Com licença.

Inês de Sousa Real numa última chamada com a jornalista Inês Ameixa. André Ventura conversou com a jornalista Inês André Figueiredo perto das duas da manhã, na noite de sábado para domingo. O líder do Chega revela que todos os dias faz um balanço do que correu mal na campanha e está a tentar não perder o foco quando discursa.

Gostou?

Gostou? Olá, boa noite, André Ventura.

Olá, Inês. Como está? Tudo bem?

Boa noite. Tudo bem, obrigada. A campanha já vai a meio, já passou por 11 distritos em sete dias, muitos quilômetros de carro e a pé. O cansaço já aperta?

Já aperta e já se sente fisicamente, mas o ânimo para chegar ao fim da corrida e não só mantermos os excelentes resultados que as sondagens indicam, mas aumentarmos, são mais fortes do que isso. Mas vale a pena. Estamos num momento crucial da nossa história e vale a pena.

A campanha do Chega é marcada majoritariamente por duas ações: uma arruada por volta das 16h, um jantar comício à noite. De manhã, fica a descansar e a recuperar forças ou há uma campanha longe dos microfones dos jornalistas?

Não, há também alguns atos fora dos holofotes, mas sobretudo de preparação e de organização. Nós entendemos que as coisas devem ser a este nível e, sobretudo, já dentro do contexto do ato eleitoral, devem ser preparadas e organizadas. No essencial, o programa que os jornalistas têm é o programa público que nós fazemos.

Discursa muitas vezes já perto da meia-noite, às vezes até depois disso, os comícios acabam tarde. Por esta hora que estamos a falar, quando chega ao hotel, já acabou o trabalho ou ainda há coisas para decidir para o dia seguinte?

Não, ainda há coisas para fazer, sobretudo pegar no que aconteceu e ver o que é que correu mal, o que é que pode ser corrigido do ponto de vista da campanha, do ponto de vista organizacional, do ponto de vista logístico, do ponto de vista das redes, do ponto de vista da comunicação. Todos os dias é isto. Neste momento, já estamos a avaliar o que é que correu mal, o que é que tem que ser melhorado. Amanhã há a preparação para correr melhor.

Ao fim de uma semana, o que é que já correu mal?

Houve alguns eventos que deviam ter sido mais antecipados em termos de organização. Talvez nalgumas intervenções também pudesse ter tido maior foco em temas, que às vezes é um problema, temos três ou quatro temas que queremos abordar, mas às vezes perdemo-nos noutras coisas, fruto ou das notícias do dia, ou das circunstâncias, ou do ambiente. E já aconteceu, e eu tento corrigir. Estou a procurar cada vez mais ser mais focado até nos discursos e evitar fugas para outros universos e para outros contextos, que agora em campanha eleitoral não interessam tanto.

Muitas vezes vemos que sobe ao palco e que discursa sem qualquer papel. Hoje, por exemplo, tinha um papel, já é uma prova disso, é mais um sinal de que está a mudar a estratégia?

Não, não se trata sobretudo disso. Uma coisa é quando faço o discurso dito normal ou corrente, outra é quando quero apresentar alguns dados e números. E hoje queria, relacionados sobretudo com a dívida pública, e achei que devia fazê-lo com rigor e com dados. E entendi que a dívida pública devia ser apresentada com números, porque isto não é uma brincadeira, não.

Por falar em reuniões e em comitiva, o André tem uma equipa, um núcleo forte, muito duro, que é muito visível durante toda a campanha. Essas pessoas normalmente viajam sempre numa carrinha de nove lugares, mas o André Ventura aparece nas ações num carro com motorista, segurança. Por quê? Aproveita as viagens para fazer alguma coisa em específico, para estar mais resguardado?

Sim, para trabalhar também. Há preocupações de segurança que são acrescidas, mas sobretudo para trabalhar também. E a equipa, ela própria também ofertarem, aliás, é a escolha da própria equipa, poder viajar em conjunto para poderem fazer o planeamento também em conjunto e poderem trabalhar com sinergias. Da minha parte, porque eu chego depois aos eventos, eles são a equipa avançada, vamos assim, uma das equipas avançadas, chegam aos eventos, planeiam as coisas, interagem com as estruturas locais e ajudam muito no trabalho. Quando eu chego, já tenho uma série de inputs, de informação sobre o que é que se está a passar, sobre pontos importantes, sobre a organização, sobre a forma como decorrerá o evento, sobre uma série de coisas. Portanto, é uma ajuda muito grande que a comitiva me dá.

Nos últimos dias, as sondagens têm apontado para uma possível maioria à direita. Primeiro falou num virar de página, ali logo nos primeiros dias em Aveiro, salvo erro, após o debate da Nove. Quase todos os dias tem falado dessa possível maioria, tem tentado aproximações, até apelado à responsabilidade. Sente-se a falar sozinho?

Não, não sinto. Sinto que é o que vai acontecer e as sondagens dão-me a razão, porque ponto um, pode haver uma maioria à direita, isso não é claro. Não estou a dizer que o Partido Socialista está derrotado, eu acho que tenho muito realismo nas coisas, vamos ver. Ponto dois, acho que é evidente já que o Chega é parte fundamental dessa maioria.

Mas quando digo falar sozinho, é do outro lado, de não ter respostas àquilo que diz, de muitas vezes não ter resposta por parte dos seus possíveis parceiros?

Inês, ainda hoje vi, quando vinha para cá, uma entrevista que penso que é do Rui Rio, até a um jornal cabo-verdiano, não sei se é a transcrição de uma coisa que ele disse cá ou se foi mesmo para lá, a dizer que os debates mais importantes que teve foi com o Chega e com António Costa, portanto foi comigo e com António Costa, e que espera que uma parte importante do eleitorado do Chega tenha percebido que se deve votar no PSD. O que eu tenho tentado denunciar é essa hipocrisia de para dentro estar a vender uma coisa para o eleitorado, que o Rui Rio sabe que não é possível, que vai ter que contar com o Chega e que vai ter que lidar com as exigências do Chega. Eu prefiro ser realista, mesmo que fique a falar sozinho, e ser sério e verdadeiro com o eleitorado, do que andar a fazer o jogo que o PSD anda a fazer.

Hoje no "Começio da Noite", por exemplo, dizia que toda a narrativa política é feita à volta do Chega, tanto à esquerda como à direita, mas depois parece que ninguém quer falar. Sente-se preocupado com o possível cenário pós-eleitoral, em que não haja formas de entendimento, em que fique tudo sem saída?

Claro, isso preocupa, mas não é pelo Chega, preocupa-me por Portugal. Mas repare, até o Luís Montenegro, que entrou na campanha eleitoral hoje, a frase que fica é: "O Chega vai ter que decidir se apoia o governo do PS ou do PSD", como se isso sequer estivesse em questão. O Bloco de Esquerda diz que temos que votar no Bloco de Esquerda para derrotar o Chega e para imprimir uma derrota ao André Ventura. Tornou-se o ponto central e a direita parece preferir olhar para o lado, ignorar e fingir que não está ali, só que a vida não é assim e a realidade não é essa. As pessoas existem, os votos existem, as sondagens existem. Estar simplesmente a olhar para o lado e a dizer: "Vamos rezar para que isto não aconteça e vamos fingir que só nós os três conseguimos fazer a festa todos juntos", quando eles sabem que não haverá festa nenhuma, nem haverá maioria nenhuma sem o Chega. É trair o eleitorado e é mentir ao eleitorado. É isso que eu acho errado.

Deixe-me só fazer uma pergunta, estamos mesmo a terminar. A Iniciativa Liberal continua também a subir nas sondagens, está muito perto do Chega. João Cotrim Figueiredo disse que seria bom ter como terceira força política um partido não extremista, referindo-se ao Bloco, à CDU e ao Chega. Prefere lutar pelo terceiro lugar com a Iniciativa Liberal ou preferia travar esta batalha, como esteve muito tempo em cima da mesa, com o Bloco de Esquerda? E ainda está em cima da mesa.

É evidente que se tivesse que escolher, prefiro mais força na Iniciativa Liberal do que no Bloco de Esquerda. Isso é evidente. Ponto seguinte, isso para nós é indiferente. Nós queremos ficar em terceiro lugar, independentemente de quem derrotarmos. O que parece estar a construir-se é que com a Iniciativa Liberal a conseguir eventualmente mais votos que o Partido Comunista e com o Chega a conseguir mais votos que o Bloco de Esquerda, se o PSD conseguir encurtar a distância para o PS, temos o caminho para uma maioria de direita formada no Parlamento, porque à partida, PAN, Livre e mesmo o CDS não terão força para inverter esse resultado. E isso significa todo um manancial de oportunidades. Independentemente de ser a Iniciativa Liberal ou o Bloco, para nós o que é importante é ficar em terceiro, que é para sermos decisivos na construção do próximo governo e da próxima maioria parlamentar.

Suponho que queira ir descansar, também já é tarde. Antes disso, só uma pergunta final: qual é a última coisa que faz antes de se deitar?

Rezar.

Voltamos a falar amanhã. Boa noite, André Ventura.

Está bem, Inês. Obrigada.

Obrigada. Boa noite.

André Ventura numa conversa com a jornalista Inês André Figueiredo. Em 2019, Chega e Iniciativa Liberal ficaram separados por apenas 900 votos. João Cotrim Figueiredo atende o telefone a Gonçalo Correia no domingo, em casa, em Lisboa, pouco depois das 10 da noite. O líder da Iniciativa Liberal acredita que as propostas que apresenta estão a fazer o seu caminho e isso vai ser visível nos resultados.

Olá, Gonçalo, boa noite.

Boa noite. Como está? Tudo bem?

Muito obrigado.

Olhe, queria lhe fazer aqui algumas perguntas, sendo que a primeira curiosidade que tenho é: nós já vamos a meio da campanha eleitoral. Como é que está de energia? Está muito cansado?

Ao fim do dia?

Ao fim do dia.

Não, não excessivamente. Nós começamos a campanha logo a seguir à convenção, ainda no meio de dezembro. O acumular já vem de trás, mas não, o cansaço físico está bastante bem gerido.

Ok.

Não há nenhum exaustão extremo.

Ok. O João Cotrim Figueiredo tem feito campanha com uma quantidade maior de ações durante a manhã, durante a tarde. Tem conseguido desligar de noite ou a equipa de campanha não o deixa dormir, como dizia na CNN?

Há uma parte da equipa de campanha que não deixa dormir e depois há sempre coisas para planear para o dia seguinte. Agora apanhou, por exemplo, já estamos a pensar aqui no que é que tem de acontecer na terça-feira, onde já estamos outra vez em Leiria, em Sangaças, Oliveira do Bairro, Anadia. Há muita coisa para terça-feira que tem que estar planeada já hoje.

Pois.

Para poder estar no terreno. É uma altura que apanha, como todas as pessoas imaginam, há tanta coisa para preparar e planear com algum pormenor, que não sobra muito tempo para relaxar, não.

Ia lhe perguntar se à bala não tem inveja dos eleitores neste momento e das pessoas com quem se cruza na rua.

Toda a minha família só me vê quando há as ações de campanha. Eu tenho me visto mais na televisão do que em casa.

Uma outra curiosidade. Há uns meses parecia muito improvável nós termos eleições antecipadas. E a minha dúvida é esta: para um partido pequeno, e eu digo pequeno em termos de estrutura, de anos de existência, de suporte, de financiamento, daquilo que está para trás, preparar uma campanha eleitoral inesperada, que aparece assim sem aviso, é um desafio especialmente grande? Foi uma dificuldade extra?

Foi, tenho que confessar que sim, que é difícil. Tínhamos vindo de eleições autárquicas no final de De setembro, que são sempre exigentes do ponto de vista da organização e dos cofres do partido. E depois, basicamente quatro meses depois, estamos no meio de outra campanha. Pelo meio, ainda tivemos uma convenção eletiva, em que, em bom rigor, a comissão executiva que sai dessa convenção não sabia se ia continuar. Democraticamente, tínhamos que admitir a hipótese de haver concorrentes e de haver alterações. Também foi um momento político importante e que consumiu tempo. E tínhamos todo um planeamento para 2023, se a legislatura tivesse durado até o fim. Entre outras coisas, havia uma revisão programática e das próprias bases que se exibiriam depois para o programa eleitoral, que tivemos que comprimir basicamente em dois meses e meio. E portanto, sim, foi exigente, quer do ponto de vista organizativo, quer do ponto de vista programático, quer do ponto de vista financeiro. Agora, se já demos provas de alguma coisa, foi de saber fazer muito com pouco e sabermos organizar rapidamente. E acho que também é um bom exemplo para outros partidos que têm mais estrutura e que acabam por não conseguir fazer campanhas tão focadas como a nossa.

Certo. O João Cotrim Figueiredo tem dito também nestes dias de campanha que não comenta cenários, até pelas variações estarem dentro da margem de erro, mas também disse há dias que o divertia o fato de aparentemente haver mais partidos a lutar pelo terceiro lugar do que muita gente achava. Pergunto-lhe diretamente, a Iniciativa Liberal pode ficar em terceiro lugar no dia 30?

Sim, do ponto de vista estatístico, pode.

Acredita?

Acredito que é possível, não estou a fazer uma creditura, não estou a entrar no mesmo jogo de pôr em bicos dos pés. O que eu acho que é importante assegurar durante uma campanha? Para já, uma consistência estratégica na abordagem. Nós definimos objetivos, eles não vão variando conforme os números do dia ou a incidência do dia.

Claro. São os 4,5% e os cinco deputados, não é?

Sim, se foram definidos com cuidado e com a perspetiva de uma análise bem feita, não é por uma questão conjuntural que eles devem ser revistos. Segundo, porque acreditamos que, pelo menos no nosso caso, são as ideias e a qualidade das propostas que acaba por fazer o seu caminho. E isso exige tempo e persistência e uma certa coerência na forma como são transmitidos. E acho que os dias mais recentes e as semanas mais recentes têm provado que isso é verdade. Nós conseguimos ir conquistando algum respeito, credibilidade e recetividade, porque falamos das mesmas coisas da mesma forma e de uma forma consistente. Isso acaba por convencer o eleitorado de que há aqui, de fato, uma alternativa que até agora não existia e que faz falta no contexto político português.

E nesses objetivos estão os cinco deputados. Algumas projeções indicam que até podem ser mais. Portanto, para ser o partido táxi, para usar aquela expressão comum, já não dará, já não chegará o táxi.

Agora já há táxis mini vans.

Já há táxis mini vans, mas já tem pelo menos também um autocarro de campanha para levar os deputados todos para o Parlamento.

O nosso famoso votocarro, se um dia houver um museu do liberalismo, estará certamente lá este votocarro. Isso, em princípio, será suficiente para o grupo parlamentar que se vai seguir. Agora, também digo, e digo já com esta perspetiva estratégica e de longo prazo, histórica, que o partido tem tido desde o princípio, que aconteça o que acontecer no dia 30, com resultado dentro dos nossos objetivos ou até superior aos nossos objetivos, é apenas um passo num processo muito mais longo de tornar Portugal um país mais liberal. Será sempre um passo. Não nos verá triunfalistas ou eufóricos nessa noite, porque sabemos que é apenas um passo, falta ainda muito.

E aqui também para terminar, o João Cotrim Figueiredo também tem falado bastante do voto útil nos últimos dias, também tem sido muito questionado sobre isso. Mas isso também acontece porque há algum receio ou algum risco que sinta que possa acontecer um fenômeno semelhante ao que aconteceu em Lisboa, em que os liberais acabaram por, usando palavras suas, dar a vitória a Carlos Moedas, ou parece-lhe que os liberais não veem Rui Rio da mesma maneira como viam Carlos Moedas nessa eleição em Lisboa?

Acho que os casos de uma eleição autárquica e uma eleição legislativa nacional não são comparáveis, porque nas autárquicas, para começar, há três boletins e portanto dá para perceber quem é que teria votado de outra maneira se houvesse esse fenômeno de polarização. Neste nunca saberemos exatamente. Agora, se consultarmos no dia seguinte ou dois dias depois de terem eleitos na convenção de 12 de dezembro, já sabíamos que nos últimos 10 dias de campanha esse era o principal problema estratégico, e não é só da Iniciativa Liberal, é de qualquer partido, que não são os partidos da alternância do costume. Esse problema estratégico íamos ter sempre. E foi por isso também que fizemos questão de tentar cedo marcar a diferença, quer na abordagem que tivemos nos debates, quer na própria forma que apresentamos o programa e do detalhe com que o fizemos, para as pessoas perceberem que independentemente da solução governativa que saia de 30 de janeiro, é fundamental ter ideias como a da Iniciativa Liberal a influenciar a governação e a gestão do país, seja enquanto suporte de um governo, seja enquanto alguém que viabiliza o governo no Parlamento, seja mesmo enquanto oposição. Nessa medida, o voto útil que nós dizemos é: ninguém mais traz ideias como a Iniciativa Liberal trouxe. Boa parte da agenda que tem estado em discussão, somos nós que a trouxemos nos últimos dois anos. E ninguém depois tem a vontade, o gosto de virar a página daquilo que têm sido duas décadas desgraçadas, do nosso ponto de vista, para a economia e para o país como um todo. Isso torna o nosso papel num futuro Parlamento, mais uma vez na oposição ou na situação, difícil de substituir. E é isso que eu gostava que as pessoas percebessem, que nestas eleições, votar naquilo que se quer é muito mais importante do que votar contra aquilo que não se quer.

Ok, vou deixá-lo descansar que amanhã também tem uma arruada, vai ter que estar fresco para caminhar. Estamos combinados para amanhã?

Já combinámos para amanhã, Gonçalo.

Obrigadíssimo. Prometo que será a última vez. Adeus.

Adeus. Um grande abraço.

Adeus. Até amanhã. Obrigado.

Obrigado. Um grande abraço.

João Cotrim Figueiredo, líder da Iniciativa Liberal, entrevistado por Gonçalo Correia. Avançamos para a última conversa. Rui Tavares tenta repetir o feito de 2019 e procura eleger um ou dois deputados pelo Livre. A conversa com a jornalista Alexandra Machado foi gravada na terça-feira, perto das 11 da noite, e Rui Tavares insiste na ideia de unir toda a esquerda para governar nos próximos quatro anos.

Estou, sim.

Estou, Rui?

Sim.

Sim, boa noite. É a Alexandra, do Observador. E cá estamos para a última chamada do dia. Então, depois da vacina, como é que se sente?

Sinto-me bem. Praticamente nem me lembro que levei a vacina. Espero que amanhã também seja assim fácil, porque a segunda dose, na altura deitou-me bastante abaixo e não convinha nada que os últimos dias de campanha ficar como fiquei com a segunda dose. A certa altura fiquei até afónico. É mais ou menos a pior coisa que pode acontecer em fim de campanha eleitoral, mas mesmo assim valeu a pena levar a terceira dose da vacina.

Mas foi por autoagendamento, portanto, foi propositadamente na altura da campanha que foi levar a vacina. Qual é a mensagem?

Até deveria ter sido mais cedo. Eu autoagendei quando pude, só que depois recebi a mensagem a confirmar uma noite à 01:30, e portanto, já tinha adormecido depois de um dia de campanha no Norte, em Braga, e depois era impossível estar no cartaz para onde me agendaram naquele dia. Portanto, tive que adiar uns dias e na primeira oportunidade ir levar a vacina de reforço. Não passa nenhuma mensagem em particular, quer dizer, que as pessoas em Portugal não saibam já, que é a importância de nos vacinarmos. Na verdade, esta vacina não é exatamente um reforço. Cada vez mais se percebe que são as três doses necessárias para estarmos mais protegidos, nomeadamente com uma variante como a Ômicron, mesmo não sendo perfeito, faz uma enorme diferença em termos das consequências que a infecção pode ter. Mas felizmente esta é uma mensagem que a maior parte dos portugueses já conhece e portanto, só podemos reforçar essa mensagem sobre o reforço.

De qualquer forma, o dia foi dedicado à saúde. De manhã teve com o antigo diretor-geral de Saúde, Francisco George. Foi um apoio importante para a campanha do Livre?

Foi um apoio muito bem-vindo, até porque chegou de uma forma muito espontânea. Nós no Livre não temos andado à procura de apoios da maneira tradicional. As pessoas que nos querem apoiar entram em contacto conosco e foi assim que aconteceu. Na verdade, eu não sei sequer como é que o doutor Francisco George obteve o meu número de telefone. Ligou-me depois dos debates, escreveu-me primeiro e depois ligou-me, falámos e ele manifestou vontade de termos uma conversa sobre saúde. Disse que tinha lido o programa do Livre sobre saúde e que era globalmente coincidente com as suas próprias ideias para o Sistema Nacional de Saúde e o Serviço Nacional de Saúde, em particular. Portanto, a necessidade de deixar de suborçamentar o Serviço Nacional de Saúde, mas também de gastar melhor no Serviço Nacional de Saúde e em certos aspetos, racionalizar até custos. E esse foi um dos temas principais da nossa conversa com não só o doutor Francisco George hoje, mas também a ex-bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Maria Augusta Sousa. Também nos apoiou.

De qualquer forma, estão neste momento, segundo as estimativas, 1 milhão de pessoas em isolamento. Que efeitos é que isto pode ter no dia da votação?

Isso deveria ter sido previsto pela Assembleia da República antes de dissolvida. E não era difícil de ter previsto. Não era preciso uma enorme capacidade de antecipação. A Assembleia da República, antes de dissolvida, poderia ter revisto a lei eleitoral cirurgicamente, se posso usar este termo.

Vai propor, se chegar a deputado, a alteração da lei?

Eu creio que nós podemos pensar em várias coisas. Uma delas é que o voto antecipado não careça de inscrição. Simplificar o acesso ao voto antecipado. E só isso já seria uma enorme diferença. E também vamos propor que as pessoas que trabalham nas mesas de voto e que fazem um trabalho que cada vez está a ficar mais complexo, é importante que sejam repostos os pagamentos que foram cortados no tempo da Troika, porque a democracia custa dinheiro. É importante que tenhamos consciência disso. Não é muito dinheiro que ela custa, é das coisas mais baratas que fazemos no quadro dos gastos do Estado, mas tem que ser suficientemente valorizada pelo poder público para que as pessoas a quem estamos a pedir neste momento um esforço suplementar sejam devidamente pagas.

Hoje o dia voltou a ser marcado pela questão da governação e das coligações e das convergências, como o Rui gosta de dizer. Viu o programa do Ricardo Araújo Pereira, já que estamos agora em fim do dia? Teve a oportunidade de ver? Não.

Não vi, porque hoje tive a sorte de poder deitar os meus miúdos e, portanto, não vi televisão.

Foi uma pena não ter visto uma simulação do WhatsApp do Costa com o Bloco e com a Catarina Martins e com o Jerónimo de Sousa e na qual depois no final o PAN entrou para a dita coligação, mas o Livre não entrou. Vê alguma leitura nisto?

Eu creio que o LIVRE é o partido que desde sempre tem proposto estas convergências e portanto a partir do dia 31 estará lá. E aliás, é o único partido que, em vez de dizer que quer reunir com o PS, quer reunir com todos. Eu acho curioso que, por exemplo, o Bloco de Esquerda e o PS andaram de cadeias às avessas durante toda esta campanha e até antes. Todo este processo de colapso de negociações orçamentais. E agora, de repente, uns dias antes das eleições, diz o Bloco que quer reunir no dia 31 apenas e só com o PS. Repare-se numa coisa, se a ideia é ter força negocial para trazer o PS para a esquerda, o que faria sentido é que o Bloco, o PCP, o LIVRE, o PAN, todos os partidos que não sejam o maior partido de uma maioria à esquerda, reúnam previamente para encontrar os seus pontos de acordo em matéria, por exemplo, de proteção ambiental, proteção laboral e por aí afora, que é para depois terem mais força na altura de negociar com o partido maior à esquerda, que nesse caso lideraria o governo. Nós não nos podemos esquecer que chegámos a umas eleições, também porque houve uma falta a um dever de responsabilidade perante os portugueses ao falhar-se nestas negociações orçamentais. Houve uma falta de visão de futuro. E agora chegados às eleições é muito importante que com o nosso voto não se esteja a premiar quem teve essa falta ao dever de responsabilidade. Nós não andamos a brincar com a vida das pessoas, porque senão nada nos garante que daqui a uma semana o Bloco de Esquerda e PS não tenham decidido mudar de novo de ideias, desiludindo e desmobilizando o eleitorado à esquerda, que eles agora perceberam que estava a ficar desmobilizado e tentaram recuperar, voltando a uma atitude de diálogo. Eu acho que só o LIVRE oferece essa opção.

Rui, vamos esperar que não perca a voz desta vez. Obrigada pelo telefonema de fim do dia e voltamos a falar amanhã.

Amanhã veremos se a voz ainda cá está.

Exato. Obrigada. Boa noite.

Ok, boa noite. Bom descanso.

Obrigada.

Rui Tavares à conversa com Alexandra Machado. Esta sexta-feira transmitimos as segundas conversas com os seis candidatos que aceitaram o nosso desafio. O PS não respondeu e PSD e Bloco de Esquerda recusaram o convite. A Última Chamada está disponível em podcast e pode ser também lida no site do Observador. Eu sou a Maria João Simões. Até amanhã. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.