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É nosso convidado nesta emissão especial, Augusto Inácio. Augusto Inácio que jogou com Fernando Gomes no Futebol Clube do Porto. Inácio, boa tarde, bem-vindo ao Observador. Que memória guarda de Fernando Gomes?
Boa tarde. Notícia triste esta. Complicada, porque eu semanalmente falava com ele por telefone para perguntar como é que ele estava, como é que ele se sentia e me sentia sempre muito animado. Mas ultimamente, com este AVC, não conseguia falar com ele, sabia que ele não estava bem e a coisa aconteceu hoje. A gente nunca espera uma coisa dessas, mas as coisas estavam muito complicadas para o lado dele. Memórias de um grande jogador, de um grande colega, um grande capitão, um goleador nato, alguém que deu muito ao futebol português e, acima de tudo, era um jogador que há poucos hoje em dia, pelo faro, pelo feeling que ele tinha dentro da área para marcar gols. É realmente uma perda muito grande para o futebol português, mas guardo na memória realmente boas coisas dele e mesmo depois de ele ter saído e de eu estar no Porto, mantivemos sempre uma excelente relação e ele tinha uma excelente relação com toda a gente, praticamente.
Era uma figura consensual, pelo menos no seio do Futebol Clube do Porto, era uma figura consensual e querida dos adeptos.
Não só. Querida é dos adeptos, muito querida, diria eu, mas eu quando digo consensual, não é só no universo Porto. É também no universo dos outros clubes, do futebol português, porque era uma pessoa que não agredia ninguém, não tocava ninguém. Simplesmente era educado para com todos e tentava manter essa imagem. E por isso mesmo é que as pessoas gostavam muito dele.
O período de domínio do Futebol Clube do Porto, conseguido com José Maria Pedroto, também teve a marca de Fernando Gomes. Os gols de Fernando Gomes também ajudaram o Futebol Clube do Porto a consolidar a posição no panorama do futebol português.
Naquela altura, o Porto passou por um período muito complicado, que até chamaram aquilo o verão quente. Quando Pinto da Costa é presidente do Porto e regressa ao clube o treinador José Maria Pedroto, Fernando Gomes estava no Gijón, em Espanha, voltou e aí que o encontro, o Fernando Gomes, depois de 1982. Época 82/83, é quando eu vou para o Futebol Clube do Porto e encontro o Fernando Gomes. É aí que começa a construção do grande Porto, do Porto grande campeão nacional e também depois mais tarde campeão europeu. E esse começou a ser realmente o desenho para esse grande Futebol Clube do Porto, onde, claro, estava o Fernando Gomes, que era o nosso goleador e que muito, mas muito ajudou. Até dizia que era o bom de família de nós, porque nós tínhamos prémios de jogos e ele marcava gols e com os gols dele, embora nós trabalhássemos dentro do campo, mas a bola entrar dentro da baliza, era ele que os fazia. E ele realmente ajudou e muito, como todos nós, mas ele mais do que ninguém, ajudou e muito a que o Porto fosse aquilo que é hoje, um grande clube nacional, mas também um grande clube europeu.
Augusto Inácio, imagino que tenha sido um momento marcante para Fernando Gomes e para a carreira de Fernando Gomes enquanto futebolista, aquela ausência da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus no Prater de Viena, em 1977.
Sim. Ele e o Lima Pereira. Eu diria que se alguém merecia estar naquela final, por aquilo que lutou, por aquilo que ajudou o clube a estar naquela final, era realmente o nosso capitão, Fernando Gomes. Simplesmente ele teve uma lesão grave num treino e não pôde ir, mas não deixamos de ganhar pelo clube, pelo Porto, mas também por ele, porque se não fossem os gols dele, nós não estamos a viver aquele momento. Por isso foi uma lástima ele não estar.
A lesão foi há poucos dias, se bem me lembro, dessa final.
Exatamente, foi num treino. E ele fraturou o péon ou a tíbia e não pôde ir. Mas esteve sempre com a gente. Ele, mesmo estando fora, mesmo estando em casa, mandava mensagens e falava conosco, dando-nos força. Não estava presente fisicamente, mas esteve sempre presente espiritualmente.
Na carreira, destaque também para o fato de ter conquistado por duas vezes o título de Bota de Ouro. É também por isso que é conhecido por Bota?
É isso mesmo. É por isso mesmo, porque muitos de nós chamávamos o Nando, era o Nando, diminutivo de Fernando, Nando. Mas depois de ele ter ganho as duas Botas de Ouro, a gente já o tratava por bi. O bi isto, o bi aquilo. E ele gostava, porque era um mim merecido, porque ele conquistou aquilo. Claro que teve a ajuda dos colegas, como é evidente, mas a maior fatia é toda dele, porque é realmente um dos jogadores a marcar gols e fez disso realmente um grande goleiro da Europa.
Inácio, chegaram a jogar um contra o outro, depois quando o Inácio rumou ao Sporting, chegou a jogar contra Fernando Gomes?
Eu a primeira vez que joguei com o Fernando Gomes, posso lhe dizer que era eu o júnior do Sporting e era ele juvenil do Futebol Clube do Porto e naquela altura o campeonato de juniores decidia-se numa final e foi em Coimbra, um Sporting-Porto em Coimbra. E ele como juvenil foi jogar pela equipe do juniores. E nesse jogo nós perdemos 1 x 0, essa final. E quem marcou o gol? Claro, o Fernando Gomes. E foi aí que eu o confrontei pela primeira vez. E depois fui confrntando algumas outras vezes, poucas, mas as memórias que eu guardo melhor, claro, é aquelas com que ele jogou pela minha equipe, nesse caso, pelo Futebol Clube do Porto. Já quando ele foi para o Sporting, eu já não estava lá.
Era um jogador difícil de marcar? Ainda tem memória desse jogo dos tempos de júnior?
Eu uma vez dei uma entrevista e disse isto: eu tenho uma beagle e a beagle tem um faro muito grande para as coisas. E ele tinha aquele faro para o gol. Ele podia estar a dar-se à marcação muito bem, mas depois quando a jogada se desenvolvia, ele praticamente fintava os defesas que estavam a marcar. E ele fingia que ia para um lado, depois ia para o outro. Claro que isto também tem muito a ver com treino, tem muito a ver com a situação de saber onde a bola ia ser colocada, mas o goleador muitas vezes tem aquela coisa de que tem a percepção de onde é que a bola vai ter antes da bola ser lá colocada. E isso era o grande trunfo dele. Ele realmente marcou muitos gols na antecipação aos defesas e por isso era um jogador difícil de marcar.