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Há 50 anos, um país que saía exausto de mais de quatro décadas de ditadura e de uma longuíssima guerra colonial decidiu escrever o mapa do seu futuro. Não foi um ato simples. Foi um exercício de coragem coletiva e de lucidez rara, porque quem vem de onde vínhamos podia perfeitamente ter cedido à dor, ao ressentimento e à revanche. Em vez disso, escolheu construir, escolheu um texto que fosse maior do que qualquer um dos seus autores. Esse texto chama-se Constituição da República Portuguesa e o que a torna tão extraordinária não é o consenso que a produziu, é a amplitude que conseguiu. Foi aprovada por gente tão diferente como Marcelo Rebelo de Sousa e Álvaro Cunhal, como Helena Roseta e Natália Correia, como António Arnaut e Afonso Dias, pessoas que discordavam em tanto e que, ainda assim, encontraram um chão comum. Porque perceberam que entre o mais fervoroso dos republicanos e o mais dominicano dos frades, entre José Saramago e Agustina Bessa-Luís ou Vasco Pulido Valente, existe uma comunidade que só se realiza no reconhecimento da sua própria pluralidade. A Constituição não é, por isso, um roteiro de partido, é uma ideia de convivência escrita na língua de Camões e de Amílcar Cabral, um texto que une, imune ao sectarismo de trincheira. Essa geração de constituintes conheceu os horrores da guerra e da ditadura. Conheceu a perda como nenhuma outra. Por isso, só podia posicionar Portugal como um país europeu, ator pela paz, pelo direito internacional, pela dignidade de todos os povos. É por isso, com naturalidade, que vejamos um português a liderar as Nações Unidas. António Guterres não é um acidente da história, é a consequência da nossa história democrática e constitucional. Os constituintes perceberam também que a democracia política sem democracia social e económica fica incompleta, que ao direito ao voto tinha que corresponder uma casa, que à participação tinha que corresponder acesso à saúde, à segurança social e à escola. Que a liberdade de dizer o que se pensa só existe inteira quando inclui a de ouvir o que nos incomoda. Perceberam o que as sufragistas portuguesas, Beatriz Ângelo e as suas companheiras, já sabiam quando a República as traiu. A liberdade que não chega a todas e a todos não merece esse nome. Mas um país não se faz só de texto, faz-se de gente e nós temos tanta. O cardeal Tolentino Mendonça, numa das nossas horas mais difíceis, quando o medo e a incerteza da pandemia nos invadiam, explicou-nos como é possível amar um país. Deu-nos as palavras para o que já sentíamos, mas que muitos de nós não conseguíamos dizer. Essa capacidade inesgotável de entreajuda e de mobilização, que vimos nos médicos e enfermeiros, nos agricultores, nos motoristas, nas professoras, nos vizinhos que faziam as compras para os mais vulneráveis. Essa capacidade é a expressão da força de um país inteiro. É essa capacidade inesgotável, teimosa, que aparece sempre, mas sempre que parece que não há mais nada, que nos protege e que nos une. Todos por todos, assim cuidamos de um país. A nossa tarefa, 50 anos depois, é por isso desconfinar esse patriotismo solidário, a pedagogia constitucional, dar-lhe nome, forma e futuro, porque Portugal não é apenas o que já foi, é o que a sua gente extraordinária, na sua teimosia de se organizar e de se levantar de braço dado, é capaz de ser. Com a humildade de carregar o legado e com a coragem de não fingir que já chegamos ao destino. Com a saudade adiantada do país que ainda não somos, mas podemos ser e que um dia vamos ser. Obrigado.

Muito obrigado, Fabián Figueiredo.

Sr. Presidente, uma nota final antes de terminar, uma palavra que não pode ficar por dizer. Cinquenta anos da Constituição são também 50 anos sem o padre Max e a Maria de Lourdes Correia, mortos por uma bomba carregada de ódio no próprio dia em que a democracia se tornava. Todos os democratas aqui presentes, a larguíssima maioria do povo português, são a prova viva que não vos mataram, semearam-vos.

Agora sim, o final da intervenção de Fabián Figueiredo, a querer também marcar este momento com esta referência ao padre Max. Fabián Figueiredo, que discursa imediatamente antes de Paulo Núncio, líder parlamentar do CDS e depois de uma notícia do Jornal de Notícias ter dado conta de que terá sido a mando de um antigo deputado do CDS que o padre Max acabou por ser assassinado