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Os portugueses, todos nós, fomos surpreendidos esta semana por um processo judicial com suspeitas muito graves que determinaram a minha demissão. Sem me querer substituir à Justiça, em que confio e que respeito, não posso deixar de partilhar com os meus concidadãos que a apreensão de envelopes com dinheiro no gabinete de uma pessoa que escolhi para comigo trabalhar, mais do que me magoar pela confiança traída, envergonha-me perante os portugueses e aos portugueses tenho o dever de pedir desculpa. Mas peço também a todos os portugueses que não confundamos de maneira nenhuma a responsabilidade individual de quem quer que seja, que só à Justiça cabe investigar, e punir, se for o caso, com o que é e deve ser o exercício da ação governativa. Faço-o hoje para que Portugal não desperdice oportunidades estratégicas para o seu desenvolvimento e, sobretudo, para que futuros governos não percam instrumentos de ação política que são essenciais à atração do investimento, à valorização dos nossos recursos naturais e ao pleno aproveitamento das infraestruturas de que o país dispõe. Permitam-me sublinhar três ideias fundamentais. Em primeiro lugar, é dever dos governos a atração de investimento empresarial, designadamente promover a atração de investimento estrangeiro. Orgulho-me que nestes oito anos o investimento direto estrangeiro ter alcançado € 56.000 milhões, investimento que contribuiu para a criação de mais de 640 mil novos postos de trabalho, dos quais 495 mil qualificados. O esforço da atração de investimento, designadamente a concessão de incentivos financeiros ou a aplicação de regras especiais a projetos classificados como de interesse nacional, tem de decorrer com total transparência. Por isso, esse esforço é regulado por lei, depende de avaliações técnicas exigentes por entidades colegiais, está sujeito a fiscalização e nunca pode resultar de mera decisão arbitrária ou discricionária de qualquer membro do governo. A todos aqueles que têm depositado confiança para investir em Portugal, quero aqui dizer que hoje e sempre o investimento empresarial é desejado, é bem-vindo e será bem acolhido. Em segundo lugar, gostaria de sublinhar que a simplificação de procedimentos promove a transparência. Tal como para a vida dos cidadãos, é também essencial para as empresas a redução da burocracia e a eliminação dos custos de contexto no investimento. Nesse sentido, o meu governo iniciou em 2021 um Simplex do licenciamento, que foi objeto de ampla e participada discussões públicas e que se traduziu, em primeiro lugar, na simplificação do licenciamento ambiental, que já está em vigor desde o início deste ano e, mais recentemente, na aprovação da simplificação do licenciamento da construção de habitações e do licenciamento industrial, diploma que já foi enviado a Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, para apreciação e desejável promulgação. A simplificação promove a transparência, a burocracia promove a opacidade. Em terceiro lugar, quase sempre o interesse público na atração de investimento exige a harmonização com outros interesses públicos tão ou mais relevantes, como são a preservação de valores ambientais, o desenvolvimento regional, o bem-estar das populações ou a garantia da salutar concorrência entre empresas, o que exige negociação, articulação, concertação. Aos diversos organismos da administração pública cabe, naturalmente, a defesa do interesse público próprio que lhe cabe prosseguir. Ao governo, enquanto órgão máximo da administração pública, a qualquer governo, compete assegurar a devida articulação entre os diferentes organismos e procurar assegurar que o resultado final é a melhor satisfação do interesse público no seu conjunto, ou seja, a melhor harmonização dos diferentes interesses públicos em presença É assim, por exemplo, que o licenciamento da exploração de minas de lítio em Montalegre ou em Boticas foi sujeito a um estudo de impacto ambiental e os concessionários foram obrigados a cumprir as condições impostas por esses estudos, seja para a localização mais adequada da refinaria, de modo a assegurar a preservação do lobo-ibérico, seja para assegurar as necessidades de abastecimento de água, seja para a construção de uma nova via necessária para ligação à autoestrada. Esta exigência de compatibilização das diferentes dimensões do interesse público é particularmente crítica e particularmente exigente em Sines. Com efeito, aí convivem a ambição oficializada desde 1971 de fazer de Sines um grande polo de implantação industrial concentrada com o nosso maior porto de águas profundas e também um parque natural, já criado em 1995 e com a proteção ambiental sucessivamente reforçada por decisões tomadas em 1997, em 2019 e em 2020, com a classificação como zona especial de conservação. Deste modo, todos os projetos em desenvolvimento em Sines, designadamente o centro de dados, que é o maior investimento estrangeiro realizado em Portugal desde a instalação da Autoeuropa, têm sido obrigados a respeitar a zona especial de conservação, bem como os valores ambientais identificados dentro da própria zona industrial. Em Sines, por outro lado, a intensidade de projetos em curso e pré-anunciados exige que a Rede Elétrica Nacional realize avultados investimentos no reforço da rede elétrica. Para garantir a todos igualdade de oportunidades e maximizarmos o potencial de investimento, o governo lançou um procedimento concorrencial que permitirá precisamente planear com segurança os investimentos que são necessários na Rede Elétrica Nacional e que obrigou também à redistribuição de direitos de utilização da rede, que já estavam concedidos a privados, mas ainda não utilizados, de forma a aumentar a disponibilidade de rede para os investimentos que estão anunciados. Como disse no início da minha intervenção, cabe às autoridades judiciárias investigar e punir, se for o caso, qualquer comportamento individual ou de alguma empresa que seja ilegal ou criminoso. Respeito e confio na Justiça e todos os organismos da administração central. Qualquer membro do governo, a começar por mim próprio, daremos às autoridades judiciárias toda a colaboração que seja necessária, quando e sempre que o entenderem necessário e útil. O que hoje quis aqui explicar, porque é meu dever esclarecer as opções políticas do governo para promover o desenvolvimento do país, é aquilo que os portugueses têm direito a saber. O meu entendimento que atrair investimento, valorizar os nossos recursos naturais e dar máxima utilização às infraestruturas de que dispomos, eliminar burocracia, preservar os valores ambientais, promover o desenvolvimento regional e o bem-estar das populações são prioridades políticas deste governo que exigem determinação, obviamente, que sempre e sempre no estrito respeito da lei. Dizer, como sempre tenho dito e quero agora repetir, à Justiça o que é da Justiça e à política o que é da política, também significa que aos futuros governos de Portugal, quem quer que sejam os primeiros-ministros e quem quer que sejam os seus membros, tem de ser garantida a liberdade da ação política para prosseguir uma estratégia legítima, desde logo, a que vier a ser sufragada pelos portugueses no próximo dia 10 de março. Muito obrigado pela vossa atenção e estou disponível para responder às perguntas que os senhores jornalistas queiram colocar.
Sim, boa noite, senhor primeiro-ministro, Tiago Contreras da RTP. Como sabe, houve um sorteio de perguntas, cabe-me sintetizar aqui a primeira vaga. Para além de qualquer esclarecimento adicional que pretenda fazer, eu gostava de lhe perguntar se acha que está a aproveitar o seu cargo para, com estas explicações, de alguma forma estar a condicionar o processo judicial em andamento. O que é que vai dizer ao presidente da República na próxima terça-feira? Há grande expectativa sobre estes dias que vamos vivendo. Se João Galamba tem condições para continuar no governo e se ainda houver abertura, também comentar a presença da sua mulher, Fernanda Tadeu, aqui neste local, nesta altura, não é usual nestas circunstâncias, sem querer entrar aqui na esfera da intimidade, se acha que também pode esclarecer esta circunstância. Obrigado.
Acho que há gestos de carinho que não carecem de explicação, só gratidão. Como é sabido, eu não gosto de expressar muitos sentimentos em público e, portanto, manter-me-ei. Quanto à segunda questão, é sabido que eu pedi uma conversa com o senhor Presidente da República, o senhor Presidente da República marcou a reunião para a próxima terça-feira às 17h30, e obviamente é com o Presidente da República que trarei a conversa, e não através da comunicação social, com todo o respeito que tenho pela comunicação social. Não estou a interferir em processo judicial nenhum. Não conheço o processo judicial, a não ser aquilo que a comunicação social tem divulgado. Fui surpreendido de saber que sou envolvido também num processo judicial e fiquei ontem a saber, pelo comunicado que foi divulgado, que apesar de correr em foro separado, demorará o tempo que demorará todo o outro processo, aguardará a apreciação da prova, que será seguramente exigente por todo o outro processo, e portanto, significa que esse processo durará seguramente muito tempo. Mas quando alguém me quiser ouvir num processo judicial, sabem onde eu estou e chamar-me-ão pra eu dizer o que tenho a dizer em qualquer processo judicial, desde logo que eu saiba sobre o que é que se trata a meu respeito. Mas eu não quis falar sobre o processo judicial, nem estou a falar sobre o processo judicial. Esse, o das responsabilidades individuais, é a Justiça e só a Justiça que cabe apurar. Só fiz uma referência concreta, não para me substituir à Justiça, como disse, mas porque se tratando de uma pessoa que eu escolhi e nomeei num ato de confiança, entendo que é meu dever expressar aos portugueses que o fato de ter sido apreendido esses envelopes me envergonha e que devo pedir desculpas aos portugueses por esse fato. Coisa completamente distinta daquilo que é a apreciação judicial de atos individuais, é um conjunto de ideias que eu creio que é preciso, desde já, clarificar. E neste momento estou muito à vontade pra clarificar, porque já me demiti de primeiro-ministro, já anunciei que não serei candidato a primeiro-ministro e com a duração previsível deste processo judicial, com grande probabilidade, não exercerei nunca mais qualquer cargo público. O que eu não posso deixar é deixar pairar junto da opinião pública a ideia de que os governos não têm o dever de atrair investimentos, de que não é um dever dos governos combater a burocracia e agilizar os licenciamentos. A ideia de que quase sempre qualquer investimento exige a compatibilização com outros interesses públicos. Eu fui muitos anos presidente de câmara e sei como era necessário compatibilizar direitos de construção que já estavam constituídos, que eram direitos de particulares, e a garantia de manter a liberdade visual para que o corredor verde entre o Palácio da Justiça e Monsanto não fosse só um espaço físico, mas fosse também um horizonte visual. Como era necessário compatibilizar, tantas vezes difícil, a ambição dos empresários da noite de verem os seus horários prolongados e o direito ao sossego dos seus habitantes. A vida como primeiro-ministro é muito semelhante. É muito importante pro país que continuemos a atrair investimento. É muito importante que o país seja capaz de desenvolver todo o seu potencial industrial. Nós sabemos que a indústria também tem externalidades negativas e temos que compatibilizar. O país, que é um país que tem poucos recursos naturais e que tem agora um minério, que é um minério estratégico pra transição energética, como é o lítio, não se pode dar ao luxo de não aproveitar esse lítio. Isso implica, obviamente, mitigar o impacto que isso tem e os inconvenientes que isso tem nas populações. É necessário que quem promove esses investimentos cumpra aquilo que foi decidido no estudo de impacto ambiental, seja dizendo que a refinaria não pode ser aqui e tem que ser ali, porque senão afeta o lobo-ibérico, ou para dizer que para o bem-estar das populações, é fundamental construir uma nova estrada para que o tráfego induzido por essa mineração possa chegar diretamente à autoestrada sem perturbar as populações. E é dever das entidades públicas promover o diálogo, a negociação, a concertação pra assegurar que o conjunto destes interesses públicos, a existência do investimento, a valoração dos recursos, o bem-estar das populações, os valores ambientais, todos sejam protegidos. Isso não se faz só por decreto, nem por magia. Faz-se dialogando, e isso é muito importante. E quis dar o exemplo com três casos, que têm sido casos muito referidos esta semana, da exploração de duas minas de lítio e com a instalação de um centro de dados, a necessidade de fazer essa concertação. E chamar a atenção de que Sines é uma realidade muito particular. Em 1971, exercia as minhas funções o professor Marçal Caetano. A generalidade dos portugueses hoje nem se lembram da sua existência e, porventura, alguns não sabem sequer da sua existência. E em 1971, quando foi criado o gabinete da área de Sines, e foi projetado Sines, foi projetado e pensado como o grande polo da indústria pesada do país e do seu desenvolvimento Foi isso que levou ao investimento da criação de um porto que tem uma importância estratégica fundamental para o nosso país. É um dos maiores portos de águas profundas de toda a Europa, é o porto de águas profundas na Europa mais próximo das rotas do Atlântico para quem vem das Américas, para quem vem das Áfricas e, portanto, tem um valor estratégico da maior importância. E apesar de se saber desta vocação industrial, apesar de saber do potencial que este porto e esta infraestrutura acarretava para o desenvolvimento daquele território, a verdade é que em 1995 foi criado um Parque Natural do Sudoeste Alentejano, que conflitua com a zona industrial ou a zona industrial conflitua com o parque natural, qualquer que seja o ponto de vista. Depois disso, foi criada mesmo uma zona especial de conservação que densificou a proteção dos valores ambientais. Ora, tudo isto, naturalmente, conflitua. E o que é que nós temos que fazer? O que nós temos que fazer é reduzir a dimensão do conflito e poder encontrar as formas adequadas a que não desperdicemos um investimento. Por exemplo, este investimento que, repito, é o maior investimento direto estrangeiro que o país vai ter desde a instalação da Autoeuropa, com a preservação, que é necessária, da zona especial de conservação. É fácil? Não. E se houve divergências de posições entre diferentes entidades públicas, com certeza, é natural. Qual é o interesse público que o Porto de Sines quer maximizar? Quanto maior o tráfego marítimo, melhor. É essa a sua função. Qual é a função da AICEP, a nossa Agência de Investimento e do Comércio Externo, que gere a zona industrial e logística de Sines? Maximizar aquela zona industrial, atrair para aquela zona industrial o maior número e o mais volumoso que seja possível de investimento. É essa a sua função. Qual é a função da Agência Portuguesa do Ambiente ou do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas? Conservar os valores ambientais. Cada um cumpre bem a sua função, procurando proteger o interesse que lhe está confiado. Qual é a função de um governo? E por isso os governos existem, como órgão máximo da administração. É procurar articular essas diferentes posições e ver como é que, simultaneamente, maximizamos a utilização do porto, aproveitamos ao máximo a zona industrial, sem sacrificar aquilo que são os valores ambientais que têm de ser preservados. E isto significa ação política. Não é ação delegável a nenhuma competência técnica, porque aos técnicos compete fazer a sua avaliação própria. Agora, a ação política tem que ser preservada. E, portanto, no momento em que cesso as minhas funções, em que não está no meu horizonte, nem creio que no horizonte de ninguém, que volte a exercer qualquer cargo executivo, entendi que era muito importante sublinhar, e no momento em que ninguém sabe quem será e de quem será o próximo governo, que esta ação política e esta atividade da ação governativa é essencial de todos termos presente. E é também necessário dar uma palavra de confiança àqueles que decidiram investir em Portugal, àqueles que têm previsto investir em Portugal, e dizer-lhes com confiança que não têm que ter medo de investir em Portugal, porque nós somos um Estado de direito onde a lei se cumpre, mas onde criamos condições para atrair e acolher o investimento. E dizer também aos diferentes organismos da administração que não é o facto de haver lei e de estarmos todos a obrigar ao estrito cumprimento da lei, que isso nos deve colocar na situação da paralisia do medo de violar a lei. Não, nós temos que cumprir a lei, nós temos que saber cumprir a lei, mas a lei não se cumpre na paralisia da decisão. Cumpra-se no rigor da decisão. E é isso que eu quero dizer a todas e todos aqueles que servem a administração pública portuguesa, é que o vosso primeiro-ministro, enquanto primeiro responsável pela administração pública, diz: "Tenham confiança em vós, tenham confiança na vossa capacidade de aplicar com inteligência a lei, não inventem problemas onde os problemas não existem, não se protejam com burocracia onde podemos ter maior simplicidade e tenham confiança e não tenham medo de decidir, porque isso é a função que todos nós temos e respondemos, naturalmente, pelos atos que cada um pratica."
Sr. Primeiro-ministro, Felipe Santa Bárbara, aqui em nome das rádios, queria também perguntar-lhe sobre o timing desta declaração. Não é muito habitual a um sábado à noite uma declaração ao país. E perguntar-lhe se já disse aqui que é seu dever não deixar pairar algumas ideias na opinião pública, mas tendo em conta que essas ideias vieram, em grande parte, por algumas fugas da Justiça, se não acaba por trazer para a política aquilo que neste momento é da Justiça. E nesse sentido, também perguntando pelo timing e tendo em conta as suas declarações agora, se já recebeu feedback sobre eventuais investidores, está preocupado, de facto, com quebras no investimento estrangeiro, cortes de rating do país para fazer com tanta celeridade este esclarecimento. Obrigado.
Não, não temos nenhuma quebra do rating do país, porque felizmente o país tem hoje contas públicas sólidas. Temos este ano um excedente orçamental e estamos em condições de aprovar um orçamento que prevê um segundo excedente orçamental no próximo ano. Não é coisa pequena. Como sabe Nos últimos 50 anos, só em 2019 o país teve um excedente orçamental. Vamos ter agora o segundo, para o ano o terceiro, e isso significa que estamos numa trajetória sustentada da redução do nosso endividamento. Não me passa pela cabeça, nem tenho qualquer receio quanto ao rating. Mas acho que, obviamente, é importante, neste momento, a todos aqueles que têm intenções de investir em Portugal, dar uma palavra de confiança de que Portugal quer investimento, o investimento é bem-vindo, será bem acolhido, será bem acompanhado e terá todo o apoio para, dentro do escrupuloso respeito da lei, irmos ultrapassando problemas que se colocam, porque sempre se colocam quando há qualquer investimento. Relativamente à questão que colocou, eu não posso partilhar do pressuposto, porque se referiu a fugas da justiça, e se assim fosse, a pergunta não me fazia sentido. Aquilo que eu disse, e repito, é que eu não tenciono interferir no processo judicial, a não ser na medida em que o processo judicial me envolva a mim. E respeito, obviamente, o juízo que os magistrados fizerem sobre aquilo que é a atuação de A, B, C ou D da minha atuação. E por mim, repito, nada me pesa na consciência. Mas a razão pela qual efetivamente decidi fazer esta comunicação num sábado à noite é que, ao ver o diferente noticiário, fui verificando que, para além dos casos concretos, dos quais eu não trato, pressupunha-se uma ideia que me parecia muito perigosa: a ideia de que os governantes não devem agir pra atrair investimento, que os governantes não devem agir pra resolver problemas que surgem na execução dos investimentos, que os governantes não devem agir pra simplificar os procedimentos burocráticos. E essas são ideias que eu acho que são perigosas pro futuro do país e com a liberdade de quem vai deixar de governar, mas com a preocupação de que quem venha a governar não se sinta inibido, nem seja limitado naquilo que são instrumentos fundamentais da ação política, entendi que era meu dever de consciência falar às portuguesas e aos portugueses, explicar às portuguesas e aos portugueses, o que significa ter opções e o que significa a ação governativa em três dimensões que aqui quis sublinhar.
Aqui a resposta do senhor primeiro-ministro às perguntas dos jornalistas, que continua.
Como na quinta-feira à noite já assumiu que tinha sondado o professor Mário Centeno na eventualidade de não haver eleições antecipadas e de prolongar a legislatura até o fim. Agora, o que se passa é que depois dessa sua declaração, há várias forças políticas que já pediram a demissão do governador do Banco de Portugal, porque considera-se que está em causa a sua independência. Aquilo que eu pergunto ao senhor primeiro-ministro é: que solidez tinha, que fundamento tinha quando sondou o professor Mário Centeno para chefiar um possível novo governo? Em que medida isso pode ou não ter sido uma precipitação da sua parte, senhor primeiro-ministro?
A minha preocupação era habilitar o senhor Presidente da República com uma alternativa a colocar o país, a três anos do fim de uma legislatura, a dissolver um Parlamento, e a irmos de novo pra um processo eleitoral. O mundo vive um quadro de inúmeras incertezas, conflitos, situação econômica e, em minha consciência, acho que havia a necessidade de encontrar alternativas que fossem alternativas à dissolução da Assembleia da República. Por isso, falei ao senhor Presidente da República e agi com conhecimento do senhor Presidente da República. Entendi, e creio que não estarei particularmente isolado neste meu entendimento, que o professor Mário Centeno preenche três requisitos da maior importância: tem sólida experiência governativa, merece o respeito, a consideração e a admiração da generalidade dos portugueses, mesmo daqueles que não concordem, porventura, com as suas opções, e em terceiro lugar, muito importante, tem reconhecimento e credibilidade internacional, e esse é um fator essencial quando, nesta semana, a notícia de que o primeiro-ministro de Portugal se demitiu associado a um caso de corrupção fez primeira página em muitos jornais estrangeiros. E acho que era importante podermos ter rapidamente um primeiro-ministro com grande reconhecimento internacional, grande credibilidade internacional, que foi presidente do Eurogrupo e, portanto, fosse uma mensagem pro mundo de que Portugal tinha encontrado uma solução governativa de probidade, respeito, consideração e de elevada competência. Como sabem, eu não gosto de revelar em público conversas que são particulares, seja com o Presidente da República, seja com outras pessoas, seja designadamente com o professor Mário Centeno. Apresentei a proposta, conhecia que o professor Mário Centeno só daria uma resposta definitiva, naturalmente, depois de falar com o Presidente da República, depois de conhecer as condições de governabilidade que tinha e depois, desde logo, saber se a comissão política do Partido Socialista também corresponderia à minha proposta, mas o diálogo com o Presidente da República seria obviamente essencial. É sabido que o Presidente da República fez outra opção, portanto, essas conversas não prosseguiram e nunca houve uma resposta definitiva, naturalmente, por parte do professor Mário Centeno.
O Primeiro-Ministro aqui a justificar de ter avançado com o nome de Mário Centeno para o substituir no Governo. Ouvimos agora a continuação das respostas dos jornalistas.
Disse aqui que há uma ideia perigosa de que os governantes não podem agir para atrair investimento para Portugal. A minha questão é sobre os não governantes que terão agido e que são próximos de si. E queria perguntar se Diogo Lacerda Machado e Vítor Escária foram autorizados por si a falar em seu nome para resolver problemas em projetos, como por exemplo, relacionado com o centro de dados de Sines. Queria também perguntar-lhe sobre o ministro João Galamba, se vai mantê-lo até o fim em funções. Há uma norma do código de conduta que proíbe a governantes receberem ofertas acima de €150. Segundo o Ministério Público, o ministro recebeu uma oferta superior. Queria saber se deve ser penalizado imediatamente por isso. Obrigada, boa tarde.
Sobre o ministro João Galamba, como eu disse já, pedi uma conversa ao senhor Presidente da República, a conversa está marcada. Conversarei com o senhor Presidente da República terça-feira, às 17h30. O meu chefe de gabinete, professor Vítor Escária, é uma personalidade com sólido currículo acadêmico, em quem eu depositava natural confiança para o exercício das funções que exercia. Desconheço qual é a versão que ele tem relativamente aos factos que tenho visto imputados na comunicação social. Uns são do meu conhecimento, outros são do meu absoluto desconhecimento, mas como não tive a oportunidade de falar com ele, não conheço a versão dele, só conheço a versão que tem surgido na comunicação social e, portanto, não me substituirei à Justiça a fazer juízos sobre a forma como agiu neste caso. Há, porém, uma situação concreta, que já tive a oportunidade de referir, que essa está comprovada, e que independentemente da valoração que a Justiça venha a fazer sobre essa matéria, me impôs, a mim próprio, uma imediata avaliação. A apreensão no gabinete do professor Vítor Escária de envelopes com avultadas quantias de dinheiro, mais do que trair a minha confiança, é para mim algo que me envergonha profundamente perante os portugueses e por isso pedi desculpa, e que determinou a minha imediata decisão de demitir, como demiti, o professor Vítor Escária. Quanto ao conjunto de matérias que ele será acusado, só ele as conhecerá, as poderá responder e, sobretudo, só a Justiça a poderá avaliar. Quanto ao doutor Diogo Lacerda Machado, há muitos anos que ele não colabora neste gabinete, não tinha qualquer mandato da minha parte para fazer o que quer que seja neste caso que eu tenho visto referido no jornal. Nunca falou comigo a respeito deste assunto em circunstância alguma e, apesar de eu, num momento de infelicidade, ter dito que ele era o meu melhor amigo, aquilo que é a realidade é que um Primeiro-Ministro não tem amigos, e quanto mais tempo exerce, devo dizer, aliás, menos amigos tem. Mas em qualquer dos casos, queria aqui deixar isso claro, o que o doutor Lacerda Machado tenha feito ou não tenha feito neste processo, nunca o fez com a minha autorização, com o meu conhecimento, com a minha interferência e nunca falou comigo sobre este assunto. Muito bem, desejo a todos uma boa noite de sábado e um bom fim de semana a todos. Muito obrigado.
O Primeiro-Ministro aqui a finalizar as suas respostas aos jornalistas, acaba esta declaração e estas respostas a falar de Lacerda Machado. Diz que não colabora no gabinete do Primeiro-Ministro há muitos anos e diz também que não o mandatou para absolutamente nada. Termina também dizendo que um Primeiro-Ministro não tem amigos e quanto mais tempo exerce, menos amigos tem. Diz que Lacerda Machado nunca agiu com autorizações do Primeiro-Ministro António Costa, que começou esta declaração ao país a pedir desculpa pelos envelopes de dinheiro de Vítor Escária, o chefe de gabinete, diz que mais do que magoado, está envergonhado. Diz de novo que foi surpreendido por este processo judicial. Lembrou também neste discurso que os investimentos não podem resultar de uma decisão arbitrária de membros do Governo, aqui para dizer que as decisões tomadas pelo Executivo têm justificações técnicas. O Primeiro-Ministro diz que os projetos de investimentos exigem também a compatibilização de vários interesses públicos, aqui a falar sobre os negócios de lítio e de hidrogênio que estão em causa nesta investigação da Justiça. António Costa esteve algum tempo a responder às perguntas dos jornalistas nesta intervenção. Disse também que é muito provável, com grande probabilidade, são as palavras utilizadas por António Costa para dizer que não vai exercer nunca mais qualquer cargo público e justifica que fez esta declaração devido a ideias perigosas para o futuro do país que estavam a circular nos meios de comunicação social.
Inês Batista aqui em direto da residência oficial do Primeiro-Ministro, onde ouvimos esta declaração de António Costa, uma declaração com mais de meia hora e com direito a responder algumas perguntas