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Começamos esta emissão especial com a conversa com a Dulce Neto, jornalista do Observador, profunda conhecedora da realidade angolana. Tem uma série de reportagens de investigação intituladas "A Corte de Luanda", que investiga a rede de poder que se formou em torno do antigo presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Dulce, boa tarde. Bem-vinda a esta emissão especial. Foste tu que avançaste, em primeiro lugar, com esta notícia, a notícia da morte de José Eduardo dos Santos. Em que circunstância ocorreu esta morte?
Sabemos que ele morreu na clínica de Barcelona, onde está internado desde o dia 23 de Julho. Ele estava na unidade de cuidados intensivos, mas até ao momento não sabemos como é que foi tomada, ou por quem foi tomada a decisão, se é que foi tomada uma decisão de desligar as máquinas. Na última semana, nos últimos dias, temos vindo a assistir a uma guerra dentro da própria família do José Eduardo dos Santos, precisamente para saber quem e quando é que poderia ser desligada a máquina. Não sabemos se houve uma decisão ou se simplesmente o coração de José Eduardo dos Santos colapsou. Nesse caso, terão sido os médicos a ter a última palavra. Por isso, ainda é cedo para perceber como é que foi.
Como disse, Dulce, tu és uma profunda conhecedora da realidade angolana. Quem é este homem que hoje partiu?
José Eduardo dos Santos é uma figura importantíssima na história de Angola. Esteve à frente dos destinos de Angola durante 38 anos e esteve à frente de uma maneira muito férrea, digamos assim. Foi ele quem conseguiu trazer a paz para Angola depois de uma guerra civil intensa de 27 anos, e isso nós não podemos esquecer. Mas depois viu o seu legado manchado com as acusações de nepotismo e de corrupção. Mas podemos olhar para José Eduardo dos Santos de vários ângulos. Podemos dizer que ele foi o arquiteto da paz, como ele gostava de se autointitular, e como muitos o intitulavam. Eu recordo que houve uma altura até que houve um grupo que quis candidatá-lo ao Prêmio Nobel da Paz. Podemos olhar nesse ângulo, um homem que unificou o país, não há grandes movimentos secessionistas, se esquecermos o enclave de Cabinda, que criou um Estado. Ou podemos olhar para o homem que teve a grande oportunidade de fazer de Angola um grande país, que teve tudo ao seu alcance e que acabou por não conseguir fazê-lo. Mesmo a reconstrução de Angola, tudo que ele fez em termos de reconstrução de Angola, é olhado com muita crítica, porque fez muitas coisas, mas muitas coisas acabaram por não estarem bem feitas e serem de vida muito breve. Por isso, é uma figura interessante e é uma figura enigmática ao mesmo tempo, porque todas as figuras que são opacas, como José Eduardo dos Santos era, e esta palavra não é minha, é de um crítico do regime, o jornalista José Eduardo Agulusa, escritor, não deixam de ser enigmáticas e não deixam de ser muito interessantes na sua complexidade.
Essas diferentes facetas de José Eduardo dos Santos encontram reflexo na forma como a sociedade angolana olha para o antigo presidente de Angola? É uma figura que gera unanimidades ou que gera, pelo contrário, essas diferentes visões a que aqui fizeste referência?
Claramente gera divisões. Quando José Eduardo dos Santos sai do poder, e é importante dizer que ele sai do poder pelo seu próprio pé. Ele já estava muito desgastado. Já havia muitas revoltas na rua, ele já era muito contestado nas ruas, ele já era contestado mesmo à boca fechada e não tão à boca fechada. Já havia algumas pessoas que falavam mesmo isso dentro do próprio partido, um partido que é todo-poderoso, partido que está no poder, o MPLA está no poder há 46 anos e que é um partido-Estado. E nessa altura, ele já estava muito desgastado, já tinha críticas externas e críticas internas, dentro do partido e fora do partido. Ou seja, a herança dele, o legado dele, já começava a ser claramente contestado. Isto quer dizer que a sociedade angolana não é unânime sobre ele. Há divisões, claramente. Há aqueles que olham mais para o seu lado de arquiteto da paz e há aqueles que olham mais para o lado de corrupção, de nepotismo, de esbanjamento, de desvio do erário público, de favorecimento dos seus amigos, de uma clientela que lhe permitia manter o poder da sua família quando o povo, quando as pessoas estavam a morrer, quando não havia um bom sistema nacional de saúde, quando não havia infraestruturas, quando as pessoas tinham fome. Por isso, esta oposição entre a riqueza e a miséria Estar num país onde seria muito bom viver e acabar por se estar num país onde era muito mau viver e muito mau morrer. Por isso, há esta divisão. Isso não quer dizer que não haja alguma franja da sociedade que o louve e que até tenha alguma saudade dos seus tempos. Isto tem muito a ver também com o momento de crise económica que Angola tem vindo a passar e que faz com que alguma parte da população tenha aquilo a que se costuma chamar a saudade, ou seja, o sentimento da cebola do Egito. Recordar os tempos em que ao menos tinham pão na mesa, porque tinham esta ideia de que o pai-grande, de que José Eduardo dos Santos, apesar de tudo, lhes dava de comer. Há mesmo uma ideia de que quando havia fome, ele dava ordens aos seus generais e à sua poderosa filha, Isabel dos Santos, e vinham barcos cheios de arroz e outros alimentos e então se enchiam as prateleiras dos supermercados. Nas ruas de Luanda, eu estive lá em 2020, havia pessoas que diziam isto: "Ele pode ter sido ladrão, mas ao menos com ele tínhamos aquilo que comer."
Dulce, tu já aqui falaste na importância de José Eduardo dos Santos para unificar o MPLA. Antecipas alguma mudança nos-
Unificar o MPLA, sim, mas o país também.
O país também. Antecipas alguma mudança no xadrez político em Angola, por força do desaparecimento de José Eduardo dos Santos?
Não creio. A facção que o apoiava não tem assim tanto poder dentro do MPLA. Vamos ver que dividendos políticos João Lourenço pode tirar com um grande funeral de Estado, se assim acontecer, mas tudo indica que sim, que será nesse sentido, mas neste momento ainda não se sabe onde é que é o funeral. Essa era uma das questões que estava em disputa, se o corpo de José Eduardo dos Santos iria para Angola ou não. Penso que sim. Não é por acaso que é a presidência de Angola a comunicar a sua morte num comunicado à nação, de uma forma oficial. Agora é muito difícil perceber que efeito é que isto poderá ter nas eleições de agosto. As sondagens, as previsões, alguns estudos apontam para uma vitória, mas apertada, do MPLA. A UNITA tem vindo a ganhar terreno sucessivamente com esta sua nova direção. Ainda é cedo para tentar perceber o que é que vai acontecer.
Agradeço-te, Dulce Neto, jornalista do "Observador", profunda conhecedora da realidade angolana e que avançou em primeira-mão com esta notícia, esta informação da morte de José Eduardo dos Santos, aos 79 anos. Estava internado numa clínica em Barcelona, nos cuidados intensivos, desde o passado dia 23 de junho.