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Fazemos este debate num momento particular. Perante o anúncio de estagflação, um palavrão econômico para dizer que aumentam os preços, mas não os salários, a maioria absoluta do Partido Socialista chegou a este debate com um ruidoso silêncio. Nas 181 páginas do programa do Governo, zero referências ao problema da inflação. Mas é certo, o Primeiro-Ministro quebrou o silêncio no início do debate. E onde antes não existia uma palavra, há agora duas garantias. A primeira: ainda agora começou o aumento dos preços e o Governo já desistiu de aumentar os salários. A segunda, a solução do Governo para combater a inflação é esperar que passe. No momento em que as famílias olham com angústia para uma previsão de inflação superior a 4%, ouvimos o Primeiro-Ministro, orgulhoso, repetir que o problema agora apresentado é exatamente igual ao problema apresentado no momento em que a previsão da inflação era quatro vezes menor. Se o mundo mudou, o Governo ficou no mesmo sítio. Sr. Primeiro-Ministro, só desde que começou a guerra na Ucrânia, o preço do cabaz de bens essenciais aumentou mais de 5%. Repito, ainda agora entramos neste ciclo de inflação e o preço dos bens essenciais já aumentou 5%. Quer isto dizer que a vida da maioria da população, das famílias que já faziam contas a cada fim do mês, ficou mais difícil. Isto no mesmo momento em que a EDP, Galp, Pingo Doce e Continente distribuem mais de 2 mil milhões de euros em dividendos. A questão que se coloca é, portanto, sobre justiça. Perguntamos: o que é mais justo? Uma família pagar mais no supermercado para proteger os lucros da grande distribuição ou uma cadeia de hipermercados lucrar menos para proteger os rendimentos de uma família? O programa de governo dá a resposta errada a esta pergunta. Sem garantias de controle de preços e sem uma única medida para o aumento de salários, deixa intacta as margens de lucro das grandes empresas e passa a fatura da inflação toda para as famílias. A Jerónimo Martins ou a Sonae agradecem a simpatia enquanto distribuem lucros aos acionistas com uma única certeza: o único momento em que sabe bem pagar tão pouco é na folha de vencimento dos funcionários. Simpatia também neste debate para com a EDP, que ao que se sabe, continua sem pagar os impostos da venda de seis barragens à Engie e ainda leva a garantia de que nada lhe cortará os lucros caídos do céu. Diz o Governo que baixará a conta da luz com o pedido que fez em Bruxelas para impor tetos máximos ao gás. Nada contra, mas não conta a história toda. Toda a energia continuará a ser paga ao preço da mais cara, o gás. Quer dizer que, mesmo com o corte prometido, a energia produzida pelas barragens, por exemplo, continuará a ser paga quatro vezes acima do preço, já exagerado, de 2020. Por outro lado, não serão as energéticas a pagar a diferença entre o preço do gás e o teto máximo que o Governo diz agora que vai impor. Ou seja, essa diferença entra no sistema e acabará a ser paga pelos consumidores, que sabem já que pagarão, em qualquer caso, a energia muito mais cara do que pagavam em 2020. Neste debate, o ministro da Economia ainda aventou a hipótese de uma taxa sobre os lucros caídos do céu. Nesse caso, os ganhos extraordinários da EDP com as barragens, por exemplo, poderiam ser usados para baixar mais a conta da luz e neutralizar subidas futuras. Mas essa taxa teve uma vida muito curta. Não chegou a uma manhã. O ministro da Economia aventou a hipótese ao princípio da manhã, ao fim da manhã, já o ministro do Ambiente tinha deixado cair tal ideia. A EDP sorriu e os consumidores ficaram a saber que, de uma forma ou de outra, não se livram de pagar os lucros astronômicos e crescentes das elétricas com os seus salários cada vez mais curtos. Senhoras e senhores deputados, neste debate é bom não esquecer o papel da direita. Ouvimos de tudo, mas não ouvimos uma palavra da direita sobre quem está a jogar e a ganhar com a inflação. Ouvimos até uma deputada do PSD, num momento raro, assumir um erro dos anos da austeridade da Troika. O erro do PSD, disse, foi não deixar os funcionários públicos sem um ou dois meses de salário. Isto porque garantia a deputada, seria uma lição para o povo, uma pressinha. Ontem como hoje, o PSD só tem uma pressinha: cortar nos salários de quem trabalha para proteger a economia do privilégio. Uma referência às declarações de ontem, Mónica Quintela. Vale a pena lembrar que em 2002, houve um primeiro-ministro imbuído de espírito liberal que fez uma profecia: a liberalização dos combustíveis iria fazer baixar os preços porque, e cito: "A concorrência normalmente funciona a favor dos consumidores", fim de citação. Sabem quanto custava um litro de gasóleo em 2002? I67 cêntimos. Hoje está acima dos €2. A direita bem pode querer esconder o seu passado, mas o país sabe que terá havido poucas reduções de preço que tenham saído tão caras à carteira dos consumidores. E não deixa de ser extraordinário que uma direita liberal que se apresenta como nova Não tenha tido uma palavra sobre os oligopólios que estrangulam a economia. Liberais, mas pouco. Até os tão animados unicórnios e startups terão de pagar as rendas garantidas à EDP, porque aos donos disso tudo, nunca se faz a voz grossa. Sr. Primeiro-Ministro, a irresponsabilidade da direita não iliba as responsabilidades do Partido Socialista para responder ao país. E a resposta que propõe, por muito que lhe queira chamar de esquerda, não passa pelos testes mais simples. O Governo, no seu programa, abandona o objetivo do Serviço Nacional de Saúde garantir médico de família a toda a população e resigna-se à falta de professores na escola pública. É uma boa notícia para os privados. É uma péssima notícia para quem não os pode pagar e é uma péssima notícia para a democracia, que não dispensa as condições de igualdade que só os serviços públicos universais podem garantir. E volto ao início: quem paga esta crise? Há setores a especular e a ganhar milhões com a inflação. Assim continuará. Já os salários estão a perder a cada dia com o aumento de preços. Assim continuará também. Pode o Governo chamar-lhe um problema transitório, mas, na verdade, o mesmo António Costa que assegura que a crise é transitória, reconhece que o fim da guerra é imprevisível. Uma única certeza, portanto, com a recusa de atualização de salários e pensões pela inflação, o que o governo veio anunciar a este debate é o corte real de salários mais ou menos transitório por um período mais ou menos imprevisível, mas corte de salários. A garantia do bloco, pelo nosso lado, é que seremos oposição a este programa. Portugal defende-se com justiça na economia e com respeito por quem trabalha.