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Temos já conosco também Miguel Morgado, militante do PSD, um apoiante de Paulo Rangel. Miguel Morgado, começo por lhe perguntar qual é o seu grau de otimismo em relação ao desfecho desta noite eleitoral?

Olá, boa noite. Otimismo? Eu nunca tive essa relação com as eleições, de pessimismo ou de otimismo. Com toda a franqueza, nunca tive. Desde que me comecei a envolver nessas coisas mais na primeira fila, por assim dizer. Acho que estou moderadamente otimista. Sei lá, é uma resposta minimamente aceitável. Acho que estou moderadamente otimista.

E pegando naquilo que o José Manuel Fernandes falava sobre a questão da elaboração das listas, Rui Rio já fez questão de dizer que vai manter tudo, independentemente do resultado desta noite, vai se manter nos cargos e vai cumprir tudo à risca. Isto pode ser um problema na elaboração das listas de candidatos a deputados para as eleições de 30 de janeiro?

Eu acho que não vale a pena falarmos agora. Daqui por umas horas saberemos quem é que é o presidente do PSD. Pode ser Rui Rio, pode ser Paulo Rangel. Eu acho que não vale a pena estar a discutir uma situação hipotética, que presumo que o Rio Rio, daqui por umas horas, continuará a ser presidente do PSD, porque se ele perder as eleições, isso nem se coloca. Eu acho que nem vale a pena estarmos a fazer esse tipo de considerações. Com toda a franqueza.

Não vai ser mais um foco de conflito até à saída, até ao congresso, se Paulo Rangel ganhar?

Se o Rui Rio ganhar, isso é um problema que não se coloca. É ele que ganha, é ele que vai decidir com a equipa dele quem é que vai, quem é que não vai. Se ele perder, não vai ser ele a pôr-se lá a fazer as listas e deixar de fazer as listas. Quer dizer, isso não existe. É como se vivêssemos no terceiro mundo. Não, acho que não. Fazem-se esse tipo de pressões sobre os militantes do PSD para os levar a considerar que, se calhar, só vale a pena votar no Rui Rio. Mas quer dizer, isso daqui a umas horas acaba tudo.

Miguel Morgado, para si, qual é o grande desafio que Paulo Rangel poderá enfrentar? Além de António Costa, calculo.

Mas o Rangel tem que ganhar as eleições não é?

Exato.

Não ganha as eleições internas do PSD. Tem que ganhar essas eleições diretas. Daqui por umas horas saberemos se ele ganhou ou não. E se ele vencer, tem que vencer António Costa e tem que vencer o Partido Socialista. E o desafio político substantivo é apresentar ao país uma equipa e uma proposta política que seja uma alternativa verdadeira ao Partido Socialista, quer o Partido Socialista como partido hegemônico no país, na sociedade civil, nas estruturas do Estado, nos grandes centros de decisão do setor privado, ou com a ajuda dos seus aliados de extrema-esquerda, vai dar no mesmo. Quer dizer, o grande propósito é o de Paulo Rangel conseguir então constituir uma grande proposta na qual os portugueses se revejam, uma grande proposta nacional, e que seja isso, que seja diferenciada da do Partido Socialista, quando este está ou não está aliado à extrema-esquerda.

Com uma marca inequívoca de centro-direita, é isso?

Eu nunca me preocupei se devia ser de centro-direita ou se devia ser de outra coisa qualquer. O que eu digo é que deve ser uma proposta alternativa à do Partido Socialista. O Partido Socialista, dos 26 anos, governou 20. O fracasso dessa governação é uma espécie já de evidência em todas as áreas da governação, em todas as áreas das políticas públicas, em todas as áreas da sociedade portuguesa que nós possamos imaginar. Isso não se tem traduzido no triunfo do PSD como alternativa ao Partido Socialista. Em parte por nossa responsabilidade, pelo PSD nunca ter conseguido organizar uma mensagem, uma proposta política que seja persuasiva para os portugueses, mas também os últimos quatro anos, convém dizer, independentemente dos resultados das eleições de hoje, os últimos quatro anos foram muito lesivos a esse respeito. Rui Rio e a sua equipa fizeram tudo para diluir a identidade do PSD, a vocação do PSD e a função do PSD no nosso sistema político. A função do PSD no nosso sistema político não é ser o partido minoritário de uma coligação formal ou informal com o Partido Socialista. É dar a oportunidade aos portugueses de ter uma alternativa ao Partido Socialista quando as coisas com o Partido Socialista correm mal. Os portugueses têm o direito de ter uma alternativa. Na minha opinião, correram muito mal nos últimos 26 anos. Mas vamos admitir até que para a maioria do país não correram mal os últimos 26 anos de estagnação, corrupção, degradação institucional, foram uma maravilha. Mesmo que admitamos isso, é o próprio sistema democrático que requer que haja uma alternativa para, no futuro, os portugueses poderem, dentro da moderação, dentro do grande espaço democrático nacional, ter uma alternativa. Se isso não acontecer, o PSD falha a sua vocação. O Rui Rio nunca percebeu isso, espero que o Paulo Rangel perceba.

Miguel Morgado, nós ouvimos Paulo Rangel aqui esta semana em entrevista à Rádio Observador e já percebemos que ele não quer para já abrir o jogo em relação ao que poderá acontecer a 31 de janeiro se as eleições não permitirem uma leitura muito clara daquilo que vai ser a arrumação dos partidos no Parlamento. A hipótese de governar em minoria, com governo minoritário, com acordos pontuais com outras forças políticas, incluindo o Partido Socialista, é para si uma possibilidade que deveria ser assumida ou não?

Mas essa possibilidade foi a possibilidade que o PSD propôs em 2015, quando não era nem Rui Rio nem Paulo Rangel o presidente do PSD, era Pedro Passos Coelho. Não, mas isso devia ter sido o rumo da democracia portuguesa, de normalidade da democracia portuguesa. Quem acabou com isso foi António Costa, foi o Partido Socialista. Essa pergunta tem que ser colocada é ao Partido Socialista, não é ao PSD.

António Costa já deu a entender que se entenderá com o que for preciso, não é?

Não, não foi essa a pergunta.

Ele disse que era a maçaneta. Ela é a maçaneta, não é a fechadura.

Não. Peço desculpa. Nós estamos a falar do cenário em que o PSD vence as eleições sem maioria absoluta.

Exato.

O que eu estou a dizer é que o Partido Socialista que tinha a obrigação, que era uma espécie de tradição histórica da nossa democracia, de viabilizar, pelo menos experimentalmente, não era para sempre, mas experimentalmente. Foi isso que o PSD fez vezes sem conta quando o Partido Socialista não tinha maioria absoluta no Parlamento. E António Costa, para sobreviver politicamente, convém recordar a história. Para ele sobreviver politicamente, senão nunca teria sido primeiro-ministro, teria ido para casa, ninguém se lembrava dele. Ele decidiu fazer uma aliança com a extrema-esquerda e não viabilizar um governo, na altura com o CDS também, evidentemente, mas que não tinha maioria parlamentar. Portanto, se me pergunta se a 30 de janeiro os portugueses decidirem dar a vitória ao PSD sem maioria absoluta, se me pergunta se o PSD deve formar governo viabilizado por acordos com os outros partidos, isso é que se perguntar aos outros partidos se querem viabilizar ou não. Em primeiro lugar, tem que começar a perguntar ao Partido Socialista. Agora, o ponto fundamental aqui não é saber o que é que se passa no dia 31 de janeiro com o Partido Socialista. Paulo Rangel acho que já foi bastante claro sobre isso. Não há entendimentos com o Partido Socialista de qualquer espécie. Uma coisa é o Partido Socialista não fazer uma moção de censura imediata, mobilizar a extrema-esquerda para derrubar um governo minoritário do PSD, como feito em 2015. Outra coisa é o PSD agora estar preocupado a dois meses das eleições. Se deve fazer as coisas de maneira a se entender com o PS no dia 31 de janeiro. Acho que isso é a última coisa que se deve considerar. O que se deve pensar desde já é preparar uma proposta política na qual os portugueses revejam que seja diferente do Partido Socialista. E os portugueses decidam se querem a alternativa do PSD ou se querem a alternativa do Partido Socialista. Esta escolha fundamental, escolha que seja clara, é isso que eu acho que deve estar presente no dia 30 de janeiro. E acho que se o PSD fizer isso, independentemente se ganha ou perca, faz um favor à democracia portuguesa.

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