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Bem-vindos à Última Chamada. Desafiamos os líderes partidários a fazer a última conversa do dia com os jornalistas do Observador que estão a acompanhar as caravanas eleitorais. Entrevistas sobre o atual momento político e também mais pessoais. João Cotrim Figueiredo atende o telefone a Gonçalo Correia no domingo, em casa, em Lisboa, pouco depois das 10 da noite. O líder da Iniciativa Liberal acredita que as propostas que apresenta estão a fazer o seu caminho e isso vai ser visível nos resultados.

Olá, Gonçalo, boa noite.

Boa noite, como está? Tudo bem?

Muito obrigado.

Olhe, queria lhe fazer aqui algumas perguntas, sendo que a primeira curiosidade que tenho é: nós já vamos a meio da campanha eleitoral. Como é que está de energia? Está muito cansado?

No fim do dia?

No fim do dia.

Não, não excessivamente. Nós começamos a campanha logo a seguir à convenção ainda no meio de dezembro, portanto, o acumular já vem de trás, mas não, o cansaço físico está bastante bem gerido, digamos assim.

Ok.

Não há nenhum exaustão extremo.

Ok. O João Cotrim Figueiredo tem feito campanha com uma quantidade maior de ações durante a manhã, durante a tarde. Tem conseguido desligar de noite ou a equipa de campanha não o deixa dormir, como dizia na CNN?

Há uma parte da equipa de campanha que não deixa dormir e depois há sempre coisas para planear para o dia seguinte. Agora, apanham, por exemplo, já estamos a pensar aqui no que vai acontecer na terça-feira, onde já estamos outra vez em Leiria, em Sangalhos, Oliveira do Bairro, Anadia. Portanto, há muita coisa pra terça-feira que tem que ficar planejada já hoje para poder estar no terreno. Portanto, é uma altura que apanha, como todas as pessoas imaginam. Há tanta coisa para preparar e planear com algum pormenor que não sobra muito tempo para relaxar, não.

Ia lhe perguntar se ao Balo não tem inveja dos eleitores neste momento e das pessoas com quem se cruza na rua.

Não é só, é toda a minha família só me vê com as viagens de campanha, portanto, tenho-me visto mais na televisão do que em casa.

Uma outra curiosidade. Há uns meses parecia muito improvável nós termos eleições antecipadas. E a minha dúvida é esta: para um partido pequeno, e eu digo pequeno em termos de estrutura, de anos de existência, de suporte de financiamento, daquilo que está para trás, preparar uma campanha eleitoral inesperada, que aparece assim sem aviso, é um desafio especialmente grande? Foi uma dificuldade extra?

Foi, tenho que confessar que sim, que é difícil. Tínhamos vindo de eleições autárquicas no final de setembro, que são sempre exigentes do ponto de vista da organização e dos cofres do partido. E depois, basicamente quatro meses depois, estamos no meio de outra campanha. Pelo meio, ainda tivemos uma convenção eletiva, em que em bom rigor, a comissão executiva que sai dessa convenção não sabia se ia continuar. Democráticamente, tínhamos que admitir a hipótese de haver concorrentes e de haver alterações. Também foi momento político importante e que consumiu tempo. E tínhamos todo um planeamento para 2023, se a legislatura tivesse durado até o fim. Entre outras coisas, havia uma revisão programática e das próprias bases que se exibiriam depois para o programa eleitoral, que tivemos que comprimir basicamente em dois meses e meio. E portanto, sim, foi exigente, quer do ponto de vista organizativo, quer do ponto de vista programático, quer do ponto de vista financeiro.

Perfeito.

Agora, se já demos provas de alguma coisa, foi de saber fazer muito com pouco e sabermos organizar rapidamente. E acho que também é um bom exemplo para outros partidos que têm mais estrutura e que acabam por não conseguir fazer campanhas tão focadas como a nossa.

Certo. O João Cotrim Figueiredo já disse, tem dito também nestes dias de campanha, que não comenta cenários, até pelas variações estarem dentro da margem de erro, mas também disse há dias que o divertia o facto de aparentemente haver mais partidos a lutar pelo terceiro lugar do que muita gente achava. Pergunto-lhe diretamente, a Iniciativa Liberal pode ficar em terceiro lugar no dia 30?

Sim, do ponto de vista estatístico, pode.

Acredita?

Acredito que é possível, não estou a fazer uma candidatura, não estou a entrar no mesmo jogo de pôr em bicos dos pés. O que eu acho que é importante assegurar durante uma campanha? Para já, uma consistência estratégica na abordagem. Nós definimos objetivos, eles não vão variando conforme os números do dia ou a incidência do dia.

Claro. É os 4,5% e os cinco deputados, não é?

Sim, se foram definidos com cuidado e com a perspectiva de uma análise bem feita, não é por uma questão conjuntural que eles devem ser revistos. Segundo, porque acreditamos, pelo menos no nosso caso, são as ideias e a qualidade das propostas que acaba por fazer o seu caminho. E isso exige tempo e persistência e uma certa coerência na forma como são transmitidos. E acho que os dias mais recentes, as semanas mais recentes, têm provado que isso é verdade. Nós conseguimos ir conquistando algum respeito, credibilidade e recetividade, porque falamos das mesmas coisas da mesma forma e de uma forma consistente. Portanto, isso acaba por convencer o eleitorado de que há aqui, de facto, uma alternativa que até agora não existia e que faz falta no contexto político português.

E nesses objetivos estão os cinco deputados. Algumas projeções indicam que até podem ser mais. Portanto, para ser o partido táxi, para usar aquela expressão comum, já não dará, já não chegará o táxi.

Agora já há táxis mini van.

Já há táxis mini van, mas já tem, pelo menos, também um autocarro de campanha para levar os deputados todos para o Parlamento.

O nosso famoso votocarro, se um dia houver um museu do liberalismo, estará certamente lá este votocarro. Isso, em princípio, será suficiente para o grupo parlamentar que se vai seguir. Agora também digo, e digo já com esta perspectiva estratégica e de longo prazo e histórica que o partido tem tido desde o princípio, que aconteça o que acontecer no dia 30, com o resultado dentro dos nossos objetivos ou até superior aos nossos objetivos, é apenas um passo num processo muito mais longo de tornar Portugal um país mais liberal. Será sempre um passo. Não nos verá triunfalistas ou eufóricos nessa noite, porque sabemos que é apenas um passo. Falta ainda muito.

Aqui também para terminar, o João Cotrim de Figueiredo também tem falado bastante do voto útil nos últimos dias, também tem sido muito questionado sobre isso. Mas isso também acontece porque há algum receio ou algum risco que sinta que possa acontecer um fenômeno semelhante ao que aconteceu em Lisboa, em que os liberais acabaram por, usando palavras suas, dar a vitória a Carlos Moedas, ou parece-lhe que os liberais não veem Rui Rio da mesma maneira como viam Carlos Moedas nessa eleição em Lisboa?

Acho que os casos de uma eleição autárquica e uma eleição legislativa nacional não são comparáveis, porque nas autárquicas, para começar, há três botins e portanto dá para perceber quem é que teria votado de outra maneira se não houvesse esse fenômeno de polarização. Neste nunca saberemos exatamente. Agora, se consultarmos no dia seguinte ou dois dias depois de serem eleitos na convenção de 12 de dezembro, já sabíamos que nos últimos 10 dias de campanha esse era o principal problema estratégico, e não é só da Iniciativa Liberal, é de qualquer partido que não são os partidos da alternância do costume. Esse problema estratégico íamos ter sempre. E portanto, foi por isso também que fizemos questão de tentar cedo marcar a diferença, quer na abordagem que tivemos nos debates, quer na própria forma de apresentarmos o programa e do detalhe com que o fizemos, para as pessoas perceberem que independentemente da solução governativa que saia de 30 de janeiro, é fundamental ter ideias como a da Iniciativa Liberal a influenciar a governação e a gestão do país, seja enquanto suporte de um governo, seja enquanto alguém que viabiliza o governo no Parlamento, seja mesmo enquanto oposição. Portanto, nessa medida, o voto útil que nós dizemos é ninguém mais traz ideias como a Iniciativa Liberal trouxe. Boa parte da agenda que tem estado em discussão somos nós que a trouxemos nos últimos dois anos e ninguém depois tem a vontade, o gosto de virar a página daquilo que têm sido duas décadas desgraçadas do nosso ponto de vista para a economia e para o país como um todo. E portanto, isso torna o nosso papel num futuro Parlamento, mais uma vez na oposição ou na situação, torna o nosso papel difícil de substituir. E é isso que eu gostava que as pessoas percebessem, que nestas eleições votar naquilo que se quer é muito mais importante do que votar contra aquilo que não se quer.

Ok, vou deixá-lo descansar que amanhã também tem uma arruada, vai ter que estar fresco para caminhar. Estamos combinados para amanhã?

Estamos combinados para amanhã, Gonçalo.

Muito bem disse. Prometo que será a última vez. Adeus.

Adeus. Um grande abraço.

Até amanhã. Obrigado.

Obrigado. Um grande abraço.

Na segunda-feira, depois de exibir o comprimido azul no programa de Ricardo Araújo Pereira, João Cotrim de Figueiredo volta a atender Gonçalo Correia depois das 10 da noite e em casa, em Lisboa. O líder da Iniciativa Liberal diz que o partido está num caminho ascendente e um dia pode chegar a ter um primeiro-ministro.

Estou?

Estou. João Cotrim de Figueiredo.

Olá, tudo bem?

Olá, tudo bem? Como está?

Como é que está? Bem, muito obrigado.

Estamos a conversar depois de ter ido ao programa do Ricardo Araújo Pereira na SIC. Divertiu-se a conversar com um estatista esta noite?

Diverti-me um bocadinho. Eu acho que o Ricardo Araújo Pereira tem uma ou duas costelas liberais e é sempre bom discutir com alguém inteligente. Mesmo que seja num registo humorístico.

Aquele momento do comprimido azul já está viral no Twitter. Qual era mais ou menos para...

Pois, era mais ou menos intencionado.

Exato. O Adolfo Mesquita Nunes anunciou esta noite que o apoia nestas legislativas. Já sabia que ele o ia fazer?

Sim, tivemos uma conversa à tarde em que ele me avisou que ia fazer esse endorsement e disse-lhe na altura, posso dizer aqui, que eu fico satisfeito, porque alguém com quem eu trabalhei, que me habituei a respeitar profissional e politicamente, percebeu que aquilo que estamos a tentar fazer de trazer renovação para as escolhas políticas e de pôr o crescimento como prioridade e ter uma agenda claramente liberal, é aquilo que faz falta nesta altura em Portugal. E porque nós temos esta energia reformista, este tal Viagra, que o PSD já não tem.

E que precisa.

E precisa, precisa bastante. E acho que sem nós, sem alguém que o explicasse, é difícil perceber como é que vamos ter menos Estado e mais pessoas em Portugal.

Acha que os antigos eleitores, militantes até do CDS, estão a perceber que neste momento um voto na Iniciativa Liberal é mais útil, está mais condizente com aquilo que acham? Parece-lhe que há essa tendência?

Eu espero que sim, porque tem sido também um dos nossos objetivos, mas não dirigimos especificamente a eleitores do CDS. Dirigimos a todos os eleitores que não se reveem no estado a que estas coisas chegaram e é na visão coletivista e estatista que tem predominado em Portugal. Ficamos é particularmente satisfeitos que pessoas que têm a craveira intelectual de Adolfo Mesquita Nunes possam também fazer eco dessa vontade e esperamos mesmo que os portugueses percebam que é importante votarem naquilo que querem e não só contra aquilo que não querem. E isso, neste caso concreto destas eleições, representa votar na Iniciativa Liberal.

Em 2019, nas legislativas, a Iniciativa Liberal teve 1,29% dos votos. Hoje discute-se já a hipótese da IL poder vir a sonhar com o terceiro lugar. Até onde é que acha que a Iniciativa Liberal pode crescer? O que é que acha?

Não é uma pergunta muito fácil de responder, porque normalmente quando os sistemas democráticos estão mais consolidados e as ideias liberais fizeram o caminho que em Portugal ainda não fizeram, muito por culpa de não ter havido um partido como nós, que é liberal, de facto, em toda a linha. O nosso grande objetivo é que as ideias liberais estejam no centro da agenda, que informem o debate político tanto quanto possível e se isso representar 20, 30 ou 40% um dia, pode estar na Iniciativa Liberal, pode estar em mais um partido de inspiração liberal. Não é tanto a percentagem da IL que neste momento me preocupa. Olhando para a frente, e nós temos esse hábito de fazer as coisas com horizonte largo e sempre dissemos que estamos numa maratona. Olhando para a frente, é tentar crescer o mais possível com coerência, portanto, não usar atalhos, não trocar as convicções por cargos, fazer aquilo que temos estado a fazer, convencendo as pessoas que as ideias são suficientemente boas e estão suficientemente testadas para merecer a confiança. E um dia mais tarde, logo se verá se isso conduz a um partido que nunca será catch all, penso eu, mas que terá uma expressão suficiente para acabar até por ser o líder da governação em Portugal. Gostava muito que isso viesse a acontecer, mas não faço nem profecias, nem previsões nesse sentido.

Certo. Eu ia perguntar se numa fase adiantada dessa maratona, portanto daqui a bastante tempo, algum tempo, se imaginava um cenário em que a Iniciativa Liberal, um partido liberal, pudesse estar a discutir uma vitória ou se num sistema político com dois partidos tão antigos, tão históricos como o PS e como o PSD, isso é utópico, é impossível algum dia chegar aí.

Não, não é nada utópico. Aliás, basta olhar para a história partidária de vários países europeus que mudaram radicalmente o seu xadrez e partidos históricos que, na prática, desapareceram mesmo nalguns casos. E sim, gostaria muito e acho que é possível, não é nada utópico pensar que um partido liberal, a Iniciativa Liberal, neste caso, que parte à frente e que tem feito este trabalho de desbravar caminho, venha um dia a liderar um governo em Portugal. Isso gostava muito que acontecesse.

Queria também clarificar aqui a ideia de que um voto em Rui Rio pode eventualmente ir parar ao PS, que já referiu. João Cotrim de Figueiredo também já perguntou a António Costa se viabilizaria um governo minoritário à direita que não tivesse o Chega e não teve resposta. Acha que Rui Rio devia fazer o contrário disso, se lhe aparecer à frente um governo minoritário do PS que não tenha o Bloco de Esquerda e o PCP?

Eu penso que o próprio Rui Rio já respondeu a isso e por isso é que eu digo que o único voto que de certeza não irá permitir a viabilização de um governo socialista é um voto na IL. E mais, as propostas políticas do programa do PSD e da própria estratégia de campanha têm-se baseado, sobretudo, na tentativa de não abanar muito o barco, de não romper, de não ser disruptivo, não ser verdadeiramente reformista.

Já fez algumas questões a António Costa que não tiveram resposta. Já perguntou diretamente a Rui Rio o que é que ele tenciona fazer se vencer, mas se não tiver maioria à direita sem o Chega?

Se a pergunta é se fiz essa pergunta diretamente, não, não fiz, mas tenho ouvido as declarações públicas e parecem-me demasiado dúbias. Eu acho que os eleitores têm a obrigação de votar sabendo aquilo que os partidos querem fazer com o voto que lhes é confiado. E no caso do PSD, não sabemos muito bem até que ponto o PSD vai, de facto, excluir o Chega das contas. E isso já está claríssimo do lado da Iniciativa Liberal. Já dissemos até que o PSD, se a aritmética assim o ditar, vai ter que escolher entre a Iniciativa Liberal e o Chega, porque os dois não terá, certamente. E gostaria que fossem igualmente claros relativamente ao que farão num governo com o PS e em que circunstâncias é que o farão e qual é a extensão desse acordo ou desse apoio, porque os votantes no PSD têm que saber se o seu voto vai, de facto, servir para mudar alguma coisa em Portugal ou se serve para ressuscitar este bloco central que parecia enterrado e que agora parece renascer e que não vai constituir nenhuma base para mudar verdadeiramente as coisas. E, portanto, por isso digo, um governo do PSD sem a IL é igual a um governo do PS.

Pensando no modelo que a Iniciativa Liberal tem para a educação, mas podia ser para a saúde. Se nós pensarmos numa escola com capacidade para ter 100 alunos em cada ano, havendo esta possibilidade de liberdade de escolha que a Iniciativa Liberal quer introduzir, imaginando uma situação em que de repente aparecem 200 pais a quererem matricular os filhos, como é que se escolhe os que podem entrar, os que têm vaga, e aqueles que apesar de escolherem aquela escola, não têm essa liberdade de escolha total, porque não existem vagas para todos?

No nosso modelo, as escolas que decidirem fazer parte daquilo que será a rede pública, entenda-se a rede financiada pelo Estado, mas prestada por quem faça parte dessa rede, sejam eles públicos ou privados, as escolas que o fizerem, que decidirem aderir, terão que simultaneamente aceitar um conjunto de condições e de critérios que passam, por exemplo, por não poderem recusar alunos e terem que aceitar um sistema de colocação por um conjunto de aplicação de critérios, um algoritmo, se quiser, que não depende dessas escolas. Portanto, não são as escolas a decidir os alunos que acabam por frequentar, são os tais critérios que aplicados de forma uniforme e transparente, acabam por constituir o conjunto de alunos que frequentam determinada escola.

Vou deixá-lo descansar, até porque esta terça-feira tem muitas viagens pelo país. Vai ser um dia de papa quilómetros. Portanto, bom descanso, João Cotrim de Figueiredo.

Muito obrigado, Gonçalo.

Boa noite.

Um grande abraço e um bom dia para vocês também.

João Cotrim de Figueiredo, líder da Iniciativa Liberal, entrevistado por Gonçalo Correia. A Última Chamada está disponível em podcast e pode ser também lida no site do Observador. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto