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Olha quem é ele. Não te via há séculos. Ainda no outro dia estive a ver fotos nossas na universidade. O que é feito de ti? Está tudo bem? Ninguém te põe os olhos em cima.
Às vezes, basta um reencontro para percebermos o quanto nos afastamos dos outros e de nós próprios. No meio de tanta gente, descobrimo-nos sós. Vivemos rodeados de gente, de ecrãs, de notificações, mas há dias em que parece que ninguém nos ouve. Dias em que o silêncio faz mais barulho do que tudo o resto. E é aí que a solidão entra, discreta, invisível, mas com um peso que pode transformar-se em tristeza persistente, isolamento, sofrimento e até depressão. "Eu Posso Ser" é um podcast Observador em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, uma série de cinco episódios sobre saúde mental com base na coleção de livros "Pela Sua Saúde: Saúde Psicológica e Bem-Estar". É narrado por mim, Sofia Ribeiro, com banda sonora original da MAR. Episódio quatro: "Eu Posso Ser Mais Positivo". A solidão e a tristeza são experiências humanas universais. Todos as sentimos em algum momento da vida. Ainda assim, não têm definições consensuais. A tristeza pode ser vista como uma emoção adaptativa, ou seja, uma resposta natural do nosso corpo e mente a algo que nos magoa ou desafia. Uma emoção que nos acompanha ao longo da vida, podendo ser momentânea ou permanecer por horas, dias ou meses, tendo, nesse caso, impactos físicos, biológicos e psicológicos. Pode representar uma oportunidade de reflexão, sendo, portanto, benéfica em episódios curtos, mas também pode ser associada a um problema de saúde mental. Já a solidão, sendo uma experiência comum ao longo da vida e, por vezes, também adaptativa, é um sentimento subjetivo de isolamento que pode surgir mesmo na presença de interações sociais. A solidão persistente pode implicar consequências negativas na saúde mental e no bem-estar. Quando esses sentimentos se prolongam, quando se tornam permanentes, podem deixar marcas profundas. É nesse momento que deixam de nos proteger e passam a ser sinais de alerta, explica Gina Tomé, autora de "Tristeza e Solidão".
Todos nós, ao longo da nossa vida, estamos tristes em alguma área, em alguma parte da nossa vida. Quando começamos a deixar de ter vontade, de ter motivação para fazer aquilo que gostávamos de fazer, para estar com os amigos, para estar com a nossa família, para ir ao parque, para sair de casa, até para ir trabalhar, é que começa então esta linha que nos deixa um alerta. De repente, quero estar mais e mais tempo isolada. Começa então o alerta para essa tristeza patológica.
A tristeza pode ter um papel importante. Ajuda-nos a processar mudanças, a aceitar perdas e a fazer pausas, mas quando se instala, rouba-nos energia e o sentido e deixamos de encontrar o caminho de volta. A solidão, por sua vez, não é o mesmo que estar sozinho. O isolamento é não ter ninguém por perto. A solidão é sentir que ninguém nos compreende, mesmo rodeados de gente. É a ausência de ligação, o não se sentir visto. Um relatório da Gallup de 2023 indica que 17% das pessoas em Portugal se sentem moderadamente ou muito sozinhas. Números que revelam um retrato silencioso do país, um retrato ao qual ninguém está imune, como explica Gina Tomé.
Há vários estudos, por exemplo, da resiliência, que tentam realmente ir identificar quando é que a pessoa parte, digamos, parte no sentido de cai. Portanto, quando é que eu deixo de ser resiliente? E as situações de vida, nestes estudos, refere-se que as situações negativas de vida têm muito impacto e que vão acumulando. Pode ser isso ou pode não ser. Portanto, se calhar a intensidade da situação, se calhar o momento em que nós estamos a passar, mas sim, pode acontecer a qualquer um. A saúde mental é algo que o ter é ótimo, mas ninguém está livre de não ter saúde mental a qualquer momento da vida.
Segundo o mesmo relatório da Gallup, as mulheres reportam níveis mais elevados do que os homens. Uma em cada cinco sofre com solidão. Viver sozinho, ser viúvo ou ter menor escolaridade são alguns fatores de risco. Para os mais jovens, os indicadores também não são otimistas. Falamos de uma geração com relações mais frágeis, mais ansiosa. E a tendência começa ainda mais cedo. Segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde e da Universidade de Lisboa, publicado em 2022 Os adolescentes portugueses estão mais infelizes, mais irritados e mais tristes do que há quatro anos. A percepção de felicidade caiu de 82% para 72%, entre 2018 e 2022. E o número de adolescentes que dizem sentir-se infelizes subiu de 18% para 28%. São dados que mostram o que as escolas e as famílias já denunciavam. A tristeza está a começar cada vez mais cedo, como confessa Henrique de Sousa, informático de 27 anos.
Um dos maiores choques foi, mesmo antes do Covid. Sempre fui uma pessoa que gosta de se ocupar e não gostava muito de estar em casa, só porque gosto de ter atividades e estar lá fora. Acho que foi o maior choque, ou seja, há o estímulo do dia a dia e de repente há um estar fechado. Eu acho que essa foi uma das fases mais duras, que foi o feeling de se sentir comprimido a um quarto, a uma casa. Nesse caso, acabou por ser um quarto, porque a pessoa depois já passa os dias a estudar remoto, etc. Então ficávamos ali fechados. Acho que foi isso o maior choque. Foi o oito para o 80. Estamos ali, parece não há um amanhã. O amanhã vai ser como hoje, o dia a seguir também. Ou seja, o sentimento de isolamento veio lentamente, porque nos inícios, nas primeiras semanas, eu lembro-me que até havia muita iniciativa de toda a gente, de posts no Instagram, histórias da malta a fazer as danças. Até me lembro do "Não te preocupes, o comboio nunca vai parar". E eu lembro-me de estar a ouvir isto, o comboio não para.
A pandemia de Covid-19 não veio ajudar. Bem pelo contrário, criou um isolamento forçado, ao mesmo tempo que nos mostrou que precisamos uns dos outros e que a nossa capacidade de viver a tristeza como passageira está intrinsecamente ligada com a vida e com a ligação aos outros. Mas tem de ser uma ligação real, como afirma Gina Tomé.
O Covid veio realmente mostrar que nós precisamos, todos, nós somos humanos, portanto, precisamos desta conexão social. De repente, nós estamos aqui todos muito virados para nós próprios. Por outro lado, veio nos trazer esta dependência maior das novas tecnologias, que por um lado ajudou-nos naquele momento, mas que também nos isola deste contato que nós precisamos, deste contato presencial. Que nós precisamos enquanto seres humanos, porque nos falta esta interação, esta conexão presencial. Nada como um abraço, nada como um toque, nada como o olhar, o poder olhar para a pessoa para conseguir interpretar até aquilo que a pessoa quer nos dizer. Nós estamos a perder aqui algumas competências, que não deveríamos perder e que vão nos fazer muita falta, e vemos isto nos mais jovens, desta relação que é interpessoal e presencial, que nos faz realmente muita falta. Não é a quantidade de pessoas que eu tenho à minha volta, mas é a qualidade da relação que faz esta diferença.
Conectados, sim, mas não necessariamente ligados. Vivemos entre mensagens, chamadas, ecrãs, mas muitas vezes sem um olhar verdadeiro, sem presença. No fundo, a solidão é também uma questão de qualidade de ligação. Não é o número de amigos, é o tempo de verdade que passamos com eles. E a empatia, essa capacidade de nos vermos nos outros, é o que mantém o tecido humano vivo. Talvez seja aqui que tudo começa a mudar. A empatia é o que transforma o estar, em estar com. E a tecnologia, que supostamente nos conecta, não substitui a proximidade real, como conta Henrique de Sousa.
A videochamada, por si, eu não sentia que substituía o contato físico. E portanto, havia aquele sabor azedo de: "Nós estamos no Covid. Não dá mesmo para ir fazer coisas." Não é um chocolate, mas é doce. Portanto, acho que funciona. Mas, por outro lado, engana um bocadinho a cabeça, porque a pessoa depois sente-se sozinha. Nós agora temos muitos aparelhos que nós sentimos a necessidade de ir ao bolso, não só dá distância como dá uma falsa presença. Somos seres físicos, gostamos muito de ter contato físico e de interpretar as outras pessoas visualmente.
Mais do que um sentimento, a solidão tem que ser vista como um desafio coletivo. Se em 2023, o relatório The Global State of Social Connections, realizado em 142 países, conclui que quase uma em cada quatro pessoas no mundo se sente muito ou razoavelmente sozinha. É evidente, não é um problema individual, é global. Por onde começar, então? Pela família? Claro. Mas também pelas escolas, garante Gina Tomé.
As escolas, por exemplo, são um contexto que nos pode ajudar muito. Se falarmos naturalmente das nossas emoções, trabalharmos este autoconhecimento em casa, na escola, naturalmente, não vamos chegar aos jovens dos 13 e 29 anos com uma solidão enorme ou com sentimento de tristeza ou com ansiedade. Sim, a empatia é tudo. Como é que eu me relaciono com o outro se eu não for empático? Por que não ensinamos as crianças a brincar? Antes de proibir os telemóveis, vamos criar jogos durante o recreio. Nós estamos aqui a pensar que esta mudança precisa de uma coisa enorme. Não, às vezes, pequenas coisas fazem toda a diferença. Nós vivemos nas cidades, cada vez mais em prédios, em apartamentos, não conhecemos os nossos vizinhos. Os espaços verdes. Isto é uma alteração. Se calhar, se tivéssemos mais espaços verdes, estávamos mais na rua, menos em casa, convivíamos mais, criávamos mais redes. Esse tipo de comunidade é que nos faz falta.
A solidão pode ser um vazio que dói tanto e que se transforma em algo mais profundo. A tal tristeza que deixa de ser uma emoção adaptativa e momentânea e que permanece, com impactos físicos, biológicos e psicológicos. Sinais que Raquel Sampaio, advogada, reconhece bem.
Os primeiros sinais foram o choro, que vinha, parecia-me, do nada. Eu lembro perfeitamente de uma primeira circunstância de eu ter ficado com vergonha, assustada, foi quando numa aula, no meu liceu, acho que no 10º ano, tive vontade de chorar descontroladamente e saí pela sala de aula. E enquanto aquele peso não me saía, o choro continuava. Nalgumas instâncias, o choro às vezes é um alívio e naquele caso era. Por isso, esse foi o meu primeiro sinal de todos, foi o sinal de que algo não estava bem. Mas naturalmente eu tinha 15 anos. Apesar de, como eu disse, ter alguma experiência familiar com o assunto, não sabia o que fazer com isso. Não sabia como melhorar. Acho que nem sequer pensava que tinha de melhorar. Na altura, eu acho que eu pensava que isto era uma mistura de adolescência, dúvida, incerteza, insegurança, fraca autoestima. Na verdade, acho que nem tinha este vocabulário, mas de facto era uma coisa que, para mim, naquela altura da vida, vinha do nada. E esse foi o meu primeiro sinal. Mais tarde, mais adulta, os primeiros sinais, agora conhecendo-me bem, os meus sinais e os sinais da própria doença, da depressão, o meu primeiro sinal é sempre o sono. Não, tristeza não é depressão. E no meu caso, apesar de eu ter falado do choro, a coisa manifesta-se mais pela apatia. Por isso, para mim, o verdadeiro sintoma é o desinteresse pelas coisas de que eu gosto.
É preciso aceitar a tristeza como uma parte natural da experiência humana. Não é uma falha, nem é algo que devemos fugir. O problema não é sentir tristeza, é tentar suprimi-la a todo o custo. Ter medo das emoções negativas ou transformá-las sempre em sinais de doença, pode ser em si um fator de risco. A tristeza ajuda-nos a processar perdas, a reorganizar prioridades, a encontrar novas formas de seguir em frente. O autoconhecimento é fundamental neste processo, revela Raquel Sampaio.
É possível, com este quadro, sentires tristeza. É uma emoção bem diferente daquela complexa confusão e mistura de emoções que é a depressão. E é possível, porque para mim, a tristeza vem sempre agarrada a uma circunstância da minha vida. Para mim, a emoção tristeza vem agarrada a uma causa, enquanto que a depressão não vem. E o alívio primeiro começa pelo autoconhecimento, que é nós conhecermos precisamente qual é o meu sintoma, para depois, em vez de reagir como sempre reages, nomeadamente ficar na cama, o não fazer e ir procurar ajuda. É quase como se nós estivéssemos numa piscina, só que fôssemos crianças e estivéssemos sempre a afundar. Um diagnóstico e uma terapia conjugada, no meu caso, com farmacologia, parece que são aquelas boias que damos às crianças para elas conseguirem estar na piscina. E é isso exatamente que eu sinto. Foi a procura de várias soluções. Não há qualquer tipo de comparação entre a vida que eu tenho em depressão e a vida que eu tenho controlando-a.
Por vezes é mesmo preciso pedir ajuda para recomeçar, como explica Gina Tomé.
O nosso amigo é nosso amigo, ajuda-nos, e ajuda muito esta conexão. Claro que sim, mas um técnico, um profissional de saúde mental, pode nos dar essas estratégias e ajudar-nos a sair deste caminho, que se não encontrarmos esta ajuda, se não procurarmos esta ajuda, vai ser um caminho mais penoso. Quanto mais tarde procurarmos ajuda, mais difícil será depois sair deste caminho. É conhecer o nosso limite e procurar logo ajuda.
A solidão é inevitável, mas não tem de ser permanente. Da mesma forma que posso normalizar momentos de tristeza e encará-los como oportunidades de crescimento, talvez tudo comece por um simples gesto, perguntar a alguém com sinceridade.
Está tudo bem contigo?
"Eu Posso Ser", o novo podcast do Observador Lab. Um podcast para ouvir em cinco episódios, narrado por mim, Sofia Ribeiro, com banda sonora original de Amaro. Uma parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.