Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Os objetivos estão traçados. A CDU quer aumentar 100 mil votos e alargar o grupo parlamentar de quatro para seis deputados nas eleições legislativas do próximo domingo, 18 de maio. Para este explicador, na edição da Tarde Política, convidamos o antigo secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos. Uma entrevista conduzida pela Raquel Abecasis e pela Vanessa Cruz.

Muito bem-vinda à Rádio Observador, Arménio Carlos. Paulo Raimundo definiu hoje essas metas para este ato eleitoral. São alcançáveis, apesar de as sondagens não o indicarem?

Boa tarde. Eu creio que sim, até não são muito ambiciosas. Acho que são metas que são possíveis de atingir, considerando não só a reação da população portuguesa no que respeita às propostas da CDU, mas também o apoio que se começa a verificar em vários estratos da sociedade, nomeadamente na área laboral e social.

Como é que tem essas indicações? É por aquilo que vai sentindo na rua?

É por aquilo que ouço, por aquilo que vejo e por aquilo que sinto. Eu ainda na passada sexta-feira estive na Amadora e tive a oportunidade de verificar a forma simpática como a população recebeu o desfile da CDU e até a maneira como se dirigiram, quer ao secretário-geral, quer em relação a outros membros do PCP.

A CDU está hoje em campanha em Setúbal. É o distrito onde aposta as fichas para chegar a essa meta dos mais dois deputados?

Eu creio que em relação a isso, não lhe posso dizer, porque não discuti com ninguém, não tenho uma informação precisa.

Mas tem noção de onde é que podem conquistar votos.

O que eu posso dizer é onde a CDU intervém de uma forma mais ativa e onde tem um potencial de maior mobilização, naturalmente, é nesse e noutros distritos. E portanto, penso que aí é possível.

Beja, por exemplo, é um outro objetivo, porque nas últimas eleições ficaram a poucos votos de eleger um deputado e fazem uma grande aposta em Bernardino Soares, que é uma figura mais conhecida do partido.

Sim, também tenho essa opinião.

A CDU poderia ganhar junto do eleitorado se esclarecesse, como está de resto a fazer o Livre, que poderia estar disponível para um entendimento com o PS no pós-eleições?

Eu creio que a questão de fundo aqui não tem a ver com os entendimentos, tem a ver com as políticas que levam ou não aos entendimentos. E desse ponto de vista, eu creio que quem tem que clarificar que tem políticas e tem posições coerentes com a visão da esquerda é o PS e não o PCP nem a CDU.

E Pedro Nuno Santos não tem dado sinais que possam agradar à CDU?

Eu creio que em relação a questões estruturantes, não há grandes novidades da parte do Partido Socialista, nem em relação a posições anteriores no que respeita a condicionamentos, propostas e a ideias de avanços em várias áreas relativamente defendidas pela esquerda. E também os recentes acontecimentos o que provam é que o PS em determinados momentos foi corresponsável pela manutenção da AD no poder, até que a própria AD entendeu tirar-lhe o tapete. Pronto, é tão simples como isto. E desse ponto de vista, eu creio que neste momento, quem tem que clarificar se tem posições que apontam para eventuais convergências com outros partidos da esquerda no futuro, é o PS, porque não basta dizer que se é de esquerda. Para ser de esquerda tem que ser coerente e para ser coerente tem que se ser diferente daquilo que defende a AD.

Mas, portanto, neste momento não vê quaisquer pontos de contato entre aquilo que defende o Partido Comunista e aquilo que defende o Partido Socialista, mas não exclui que num cenário pós-eleitoral, e se isso for possível, que esse entendimento possa existir, havendo essa tal clarificação do Partido Socialista?

Eu acho que há ponto de contacto que neste momento é comum, que é a necessidade de criar condições para retirar a AD do poder. E aí há um ponto que é comum. Relativamente depois aos objetivos e às prioridades, essa é matéria que tem que ser discutida, mas eu creio que nestas coisas não devemos avançar demasiado sob o risco de depois deixarmos para trás coisas que se vão tornar problemas enormíssimos. Cada coisa no seu lugar. E dia a dia. E neste caso concreto, a primeira coisa que se tem que resolver é a clarificação dos portugueses, dos projetos, das propostas e das visões que os partidos à esquerda do PS e o PS têm para se apresentarem como alternativa, e não como alternância, ao governo do PSD/CDS. Essa é a primeira prioridade. Eu creio que essa é a questão central que neste momento importa discutir muito mais do que fazer corridas de mota ou fazer jogos de voleibol ou outras coisas quaisquer. Isso é só folclore para procurar atrair a atenção mediática, porque daí não sai nenhuma proposta, quer nem dos jogos de voleibol, nem das corridas de mota, não sai nenhuma proposta que identificasse ou sobretudo que esclarecesse os portugueses sobre aquilo que cada um pensava. Agora, o que nos interessa a nós, nesta altura, é discutir política, é discutir ideias, é discutir propostas e é pôr à consideração dos portugueses a possibilidade depois de optarem entre umas ou entre outras e, já agora, respeitar a decisão dos portugueses.

Arménio Carlos, estamos a entrar na última semana de campanha eleitoral e tem se intensificado o apelo ao voto útil por parte do líder do Partido Socialista. Teme que isso possa afugentar mais eleitorado comunista para evitar que haja uma vitória da AD?

Eu creio que esse é um problema de fundo, porque hoje está mais claro que o voto útil no PS poderá originar a manutenção do governo do PSD no poder. É só isso. Se dúvidas subsistissem nos últimos meses, isso foi claro. O que importa aqui é se o voto útil no PS para viabilizar políticas do governo do PSD, caso este venha a ganhar as eleições, se é isso que interessa aos portugueses ou, pelo contrário, independentemente dos posicionamentos político-partidários que cada um tem, optar por dar utilidade ao seu voto, de forma que quem entregue esse voto seja coerente, seja responsável e, acima de tudo, tenha seriedade e rigor para respeitar esse voto, que é o voto que defende os interesses de quem, neste caso concreto, lhe dá. Uma coisa é o voto útil. Voto útil, repito, para viabilizar políticas de direita, não é voto útil, é voto inútil. Dar utilidade ao voto é, independentemente, pessoas que nunca votaram na CDU poderem aproveitar esta oportunidade para defender os seus interesses e os seus direitos, darem esse voto à CDU, porque sabem que esse voto na CDU vai ter utilidade e vai ter eficácia, porque quanto mais força tiver a CDU, naturalmente, em melhores condições está de dar continuidade e sequência a esses desejos e a essa realidade.

E a entrada de Jerónimo de Sousa na campanha este fim de semana é útil para segurar o eleitorado que tem estado a fugir ao partido?

Eu creio que a participação de todos os camaradas e amigos que, neste caso concreto, se identificam com o projeto e dão o seu contributo para apoiar o projeto nestas eleições, são úteis. Todos, sem exceção, são úteis. Sejam membros do PCP, sejam pessoas que, não sendo membros do PCP ou militantes do PCP, se reveem e também apoiam este projeto da CDU. E acho que todos os que vierem são bem-vindos.

Esta entrada de Jerónimo de Sousa, apesar de ter acontecido, foi aqui um pouco discreta, não desfilou lado a lado com o secretário-geral do PCP. Poderia ter ajudado uma ênfase maior da parte de Jerónimo de Sousa estar ao lado de Paulo Raimundo?

Eu creio que a questão de fundo não está no facto de Jerónimo de Sousa estar ao lado do Paulo Raimundo, atrás ou à frente. A questão de fundo está na mensagem que Jerónimo de Sousa deixou em relação àquilo que pensa que deve ser o projeto da CDU e a importância deste projeto para resolver um conjunto de problemas com que hoje os portugueses são confrontados. Eu creio que isso é que é importante. É a mensagem e, acima de tudo, o rigor e a seriedade que é transmitida para dar esperança e confiança a que as pessoas possam votar na CDU, no quadro de continuidade daquilo que são as propostas e ideias para que Portugal possa avançar.

Arménio Carlos, o senhor foi sindicalista. Há um tema que entrou de rompante nesta campanha, que tem que ver com a greve na CP, que tem causado algumas dificuldades às pessoas que se deslocam para as cidades de comboio diariamente. O primeiro-ministro chegou a falar num abuso do direito à greve e a hipotéticas mudanças à lei da greve. Como é que viu estas declarações?

Eu creio que o que o primeiro-ministro devia dizer é que houve um abuso de poder do governo relativamente a um compromisso que tinha sido assumido entre a CP, empresa pública, e os sindicatos para resolver um problema laboral e social. E esse compromisso estava assumido entre as partes. E quem apareceu a pôr em causa e a ser responsável por todo este conflito, neste momento que está a prejudicar as pessoas, foi o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz. Porque foi o mesmo ministro que agora diz que está em gestão e, portanto, não pode aplicar aquele acordo, o que não é verdade. Isso não corresponde à verdade, mas é preciso recordar, Miguel Pinto Luz era secretário de Estado das Infraestruturas em 2015, quando dois dias depois de ter sido votada uma moção de rejeição contra o governo do PSD que levou à sua queda, foi este secretário de Estado, que hoje é ministro, que esteve envolvido, nessa altura, na privatização da TAP.

Mas nessa altura o governo não estava em gestão.

Desculpe, nessa altura o governo já tinha caído na Assembleia da República. Tinha sido aprovada uma moção de rejeição. Portanto, o governo não tinha condições do ponto de vista político para dar os passos que deu em relação à privatização da TAP. E foi isso que fez. E portanto, se há neste momento alguém que tem que ser responsabilizado e, neste caso concreto, identificado como autor deste processo ou deste conflito, isso é o Miguel Pinto Luz e é o governo do PSD/CDS. Portanto, não há razões nenhumas para alterar a lei da greve.

Mas da parte dos sindicatos não houve nenhuma falta de bom senso nesta greve?

Não, desculpe. Se há um compromisso que é assumido, há um acordo que é estabelecido e à última hora, o governo vem dizer que não aplica aquele acordo, alguém acredita que a administração da CP, quando assumiu o acordo com os sindicatos, não informou o respectivo ministério? Ninguém acredita nisso. Porque nós até sabemos e creio que, se calhar, a maioria das pessoas não sabe, mas há uma orientação de há uns meses desta parte, do governo, relativamente àquilo que devem ser as bases de negociação nas empresas do setor industrial do Estado. E para a CP também. Portanto, se a administração da CP assumiu um compromisso com os sindicatos, certeza que esse compromisso era do conhecimento do governo. Agora, o que não se justifica foi esta posição do governo, que está, neste caso concreto, a fazer o mal e a caramunha, ainda por cima, a responsabilizar outros que não têm a culpa de estarem de boa-fé, de terem assumido um compromisso e agora serem confrontados com a violação desse compromisso. Se há alguém responsável pela greve que se realizou, está a realizar na CP, é o governo e é contra o governo que as pessoas devem estar.

Mas e o responsabilizar, como o primeiro-ministro fez, o Partido Comunista por estar por trás desta greve, não teme que isso possa afastar eleitores que se sentem lesados com mais de uma semana de greve por parte dos trabalhadores da CP?

Eu não sei qual é a sua fonte relativamente ao facto de o PCP estar por trás desta greve.

Não é minha fonte. O primeiro-ministro é que sugeriu que o PC estava por trás desta greve.

Claro, não há nada melhor do que sacudir a água do capote e passar as responsabilidades para os outros. Aliás, qualquer pessoa bem-informada, e a Raquel é uma pessoa bem-informada e conhecedora deste tipo de situações, sabe perfeitamente que na CP existe um conjunto muito vasto de sindicatos que não têm conotações políticas ou partidárias com o PCP ou outros partidos políticos, nomeadamente de esquerda. Quando se chega a uma situação em que se consegue uma posição de clube, sindicatos que pensam de forma muito diferente em relação à defesa dos interesses dos seus representados, alguma coisa isto quer dizer. Quer dizer que o governo acabou por unir os sindicatos em relação a uma posição que tinham que assumir e assumir esta posição porque sentem-se enganados. Pura e simplesmente sentiram-se enganados. Há má-fé da parte do governo no que respeita a esta matéria. Havia um compromisso, o compromisso foi estabelecido entre a administração da CP e todos os sindicatos. O compromisso estava assumido e à última hora, o tal ministro vem dizer que não assume, porque neste caso em concreto, diz que está em funções de gestão. Quando em 2015 também estava em funções de gestão, porque o governo já tinha caído na Assembleia da República e não teve problemas em assumir, neste caso concreto, ou estar envolvido na privatização da TAP. Portanto, se alguém está a contar mal a história, esse alguém é o governo. E está a contar mal a história propositadamente, por isso é que é mais complicado. É que está a mentir aos portugueses relativamente a este processo.

Arménio Carlos, muito obrigada por ter vindo ao Explicador da Tarde Política, aqui a propósito da greve da CP e também sobre a campanha da CDU.