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O caso aconteceu este fim de semana: um homem com traumatismo craniano demorou cinco horas a ser transferido do Hospital da Covilhã para o Hospital de Coimbra. A demora justificada pelo facto do helicóptero de emergência da Força Aérea, à disposição do INEM, ser demasiado grande para aterrar no heliporto da Covilhã. O doente teve de ser transportado de ambulância até Castelo Branco para aí embarcar no helicóptero. São conhecidos os constrangimentos que afetam nesta altura o transporte aéreo de emergência médica. Será que está a colocar em causa a resposta em tempo útil aos doentes? É tema para este Explicador. É nosso convidado, Nelson Pereira, que dirigiu o serviço de urgência do Hospital São João e é atualmente diretor clínico do Hospital de Penafiel. Uma entrevista conduzida pelo Ajude França e pelo Miguel Videira.

Bem-vindo, Dr.º Nelson Pereira e obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começava por lhe perguntar se, à luz deste caso, está comprometida a resposta aos doentes que precisem de ser transportados através de meios aéreos.

Muito boa tarde e muito obrigado. Apenas uma pequena correção: neste momento não sou diretor clínico do Hospital Penafiel. Mas indo diretamente à questão que coloca, de facto, nós estamos hoje numa situação operacional, em termos de helitransporte, que é diversa daquela que tínhamos de forma regular e é eventualmente diversa daquela que seria a situação ideal. Nós temos há muitos anos um sistema de emergência pré-hospitalar, no que diz respeito a helitransporte, que está baseado em quatro unidades: em Macedo de Cavaleiros, em Viseu, em Évora e em Loulé, que cobrem as regiões geográficas que estão mais desprotegidas do ponto de vista quer da intervenção pré-hospitalar, com a atuação dos helicópteros no local dos acidentes, quer depois na transferência de doentes a partir de unidades de saúde menos diferenciadas do interior, nomeadamente como sabemos que acontece no nosso país, para depois para unidades mais diferenciadas, que têm mais valências e que têm capacidade para entregar o tratamento definitivo que as nossas vítimas necessitam. E a verdade é que por força destas circunstâncias, que têm sido públicas, nós neste momento temos uma resposta que está condicionada. Está condicionada durante o dia, porque temos, de facto, uma resposta que é diversa da que tínhamos, nomeadamente do ponto de vista da localização dos meios, que não estão todos situados nas regiões mais desprotegidas, mas sobretudo do ponto de vista do socorro noturno, uma vez que passamos da situação de quatro helicópteros disponíveis para uma única unidade, que está situada na região de Lisboa e que tem características muito particulares, nomeadamente a envergadura do helicóptero, do meio aéreo envolvido, que tem condicionantes de operação que fazem com que, de facto, e em termos muito práticos e muito concretos, a operação de emergência pré-hospitalar helitransportada esteja hoje aquém daquilo que era o standard habitual no nosso país.

Estas dificuldades condicionam a resposta que os médicos têm que dar em casos urgentes como este?

A resposta é naturalmente que sim, o que não quer dizer que, em caso concreto e perante um doente em concreto, não possa haver uma resposta alternativa que seja adequada. Mas é evidente que se temos apenas um helicóptero e um helicóptero que tem questões operacionais que o limitam, a resposta é necessariamente inferior àquela que tínhamos. E admitindo, como temos todos que admitir, que a resposta que está montada há muitos anos é aquela que é considerada adequada para a resposta aos nossos cidadãos, então claramente estamos aquém, numa fase que se espera de transição e muito curta ou mais curta possível, estamos aquém da resposta ideal e naturalmente que pontualmente isto pode traduzir-se numa resposta inferior àquela que seria a ideal.

Partindo da sua experiência no tratamento de casos de doentes urgentes, por norma, há noites em que se recorre a mais do que um aparelho, a um meio aéreo, um helicóptero para fazer transporte de doentes? Ou por norma, um helicóptero, que é o que temos atualmente, é suficiente?

A questão não se coloca apenas da existência de um ou mais helicópteros. Coloca-se na questão operacional concreta.

Sim, esta incapacidade, e fizemos referência a isso, a incapacidade do aparelho de aterrar no heliporto da Covilhã, o que de facto vem aqui criar problemas adicionais.

Tentando traduzir isto de forma mais concreta para as pessoas. Quando se pondera um transporte cuja indicação é inequívoca, que é de um hospital que não tem determinada valência, por exemplo, neurocirurgia, para outro hospital que tem essa valência, há um conjunto de situações que têm que ser equacionadas. Desde logo, quanto tempo temos para transportar ou levamos a fazer este transporte, quer por terra, quer em alternativa por via aérea, temos ou não temos uma equipa adequada para acompanhar esta vítima. A situação clínica pressupõe a existência de alguma contraindicação para o transporte aéreo, porque também há situações clínicas que o determinam e, portanto, a decisão do transporte e a decisão do meio mais adequado para o transporte é uma decisão clínica que tem que ser colocada doente a doente. Agora, quando temos apenas um helicóptero em todo o país, que obviamente está muito distante do local potencial da ocorrência onde está a vítima que temos que transportar, não é questão de ser só um, até pode só haver em média um transporte por noite, mas se esse um helicóptero está demasiado longe Do local onde a vítima potencial pode vir a existir, significa que o transporte a ser efetuado por via aérea não vai ser efetuado em tempo útil e, nesse caso, o transporte mais adequado será o transporte por via terrestre, em ambulância, de forma clássica, de forma que o tempo de transporte até ao destino seja o mais curto possível, porque estas circunstâncias-

E porque é que não terá acontecido isso desta vez? Os técnicos de emergência pré-hospitalar consideram que por via terrestre o trajeto tinha demorado menos tempo. Essas contas não são feitas quando se planeia o socorro?

Essas contas têm obrigatoriamente que ser feitas. E neste caso, nós temos, pelo menos, três entidades que têm a obrigação de ter feito essas contas. Não quero naturalmente fazer nenhum juízo sobre o caso em particular, mas quando há um hospital que tem um doente para transportar para outro hospital, esse hospital tem a responsabilidade de fazer essas contas. Quando o INEM, que é a entidade que é solicitada para fazer esse transporte, recebe o pedido, tem obrigatoriamente que fazer essas contas e decidir se é justificável fazê-lo por essa via ou então declinar, com base na questão operacional, que não seja essa a melhor forma de transporte e entregar à origem, ao hospital que tem o doente, a responsabilidade de operacionalizar o transporte. E aqui, por força da situação operacional em que estamos, existe uma terceira entidade, que é o Comando da Força Aérea, que tem também a obrigação, pelo menos, se não de tomar a decisão de fazer ou não o transporte, embora também o possa fazer porque tem equipas médicas a operar os helicópteros, pelo menos informar o INEM, que é a entidade que solicita o transporte, de quanto tempo esse transporte vai demorar, quais são os pontos de aterragem que vai utilizar, porque isso condiciona naturalmente o tempo total do transporte. E em função disso, quer INEM, quer o hospital de origem, com base em toda essa informação que certamente fluirá entre as várias entidades, têm a obrigação de tomar a melhor decisão operacional, que pode ser, não digo que seja ou não seja, mas pode ser a decisão de abortar o transporte aéreo e executar o transporte por via terrestre.

Dr. Nelson Pereira, de perante, corrija-me se estiver errado, considera que houve aqui uma errada avaliação do meio de transporte a que se deveria ter recorrido para fazer o encaminhamento deste doente?

Como digo, eu não conheço as condições específicas deste caso. Não sei que tipo de informação estava disponível e ao longo da fita de tempo, se a situação foi evoluindo ou não, no conhecimento que cada entidade tinha desta situação. Mas olhando para os factos de que um transporte que por via terrestre poderá durar cerca de uma hora e meia, ocorreu num período de cerca de cinco horas, alguma coisa naturalmente não foi ideal, embora seja naturalmente necessário avaliar concretamente todas as situações e circunstâncias concretas que ocorreram para poder ter uma opinião definitiva. Mas genericamente, dá ideia a toda a gente que alguma coisa não correu muito bem.

E no caso, trata-se de um traumatismo craniano. Qual é o impacto de uma espera de cinco horas até ser recebido nas urgências?

Mais uma vez, não faz sentido uma análise concreta da situação, porque nem eu, penso que a maioria das pessoas da opinião pública, não conhecerá as condições específicas deste caso. Naturalmente que a situação de emergência, quanto mais tempo decorre entre a colocação de um diagnóstico e a chegada a local que tenha as condições para o tratamento definitivo, melhor. Normalmente, o tempo correlaciona-se com o prognóstico dos doentes. Não quer dizer, de todo, que fique bem claro, que haja aqui qualquer indicação de que esse tempo maior que ocorreu possa ter impacto concreto na vida desta pessoa. Isso é algo que obviamente não digo, nem direi, nem penso que ninguém, a não ser as pessoas diretamente envolvidas na situação, poderão ter uma ideia.

Os constrangimentos a que estamos a assistir têm paralelo com outras épocas de que se recorde pela sua experiência?

Bom, já tivemos alguns momentos de interrupção do sistema de helitransporte, todos relacionados com as questões que surgiram, algumas até recentemente, dos concursos que não foram terminados em tempo útil e, portanto, há não muito tempo, houve também um período de interrupção do período noturno, em que não houve também os quatro helicópteros disponíveis. Portanto, esta é uma situação já recorrente e que de alguma forma importa para o futuro acautelar.

Causa-lhe alguma estranheza que assim seja, ou seja, não será possível encontrar uma solução que evite situações como aquela que agora estamos a viver?

Eu acho que em abstrato é sempre possível sermos surpreendidos por circunstâncias que não prevíamos e que levam a ter que tomar as melhores decisões possíveis, que é a isso que todos somos obrigados. Perante as circunstâncias do momento, por força de motivos até de força maior, que podem surgir, tomar as melhores decisões. Não digo que as decisões que foram tomadas de operacionalização nas bases que estão neste momento em uso, que não seja a melhor opção face aos circunstancialismos que estamos a viver. De facto, com base naquilo que nós sabemos, no tempo que demoram os concursos públicos internacionais, no tempo que demoram os vistos dos tribunais de contas, baseado em tudo aquilo que é o histórico deste tipo de circunstâncias e da dificuldade que Concursos desta natureza, pela complexidade e pela natureza extremamente complexa do ponto de vista logístico de que se reveste, sabemos que demoram muito tempo. Portanto, é fácil, embora obviamente muito indesejável, que em momentos determinados se possa não andar tão depressa quanto desejável e depois, a partir de certa altura, o processo administrativo da contratação pública em geral tem determinadas condicionantes que são absolutamente invioláveis, e bem, porque existem para segurança de todos, mas a partir de certa altura já não é possível queimar tempos e isso faz com que toda a gente se veja envolvida numa situação para a qual não vai encontrar uma resposta. Efetivamente, se nós não formos muito antecipatórios naquilo que é o lançamento dos procedimentos, o acompanhamento permanente da forma como as coisas ocorrem, é relativamente fácil de vermo-nos depois confrontados com situações operacionais indesejáveis como aquela que estamos a viver.

À hora que falamos é conhecida a primeira posição oficial do Instituto Nacional de Emergência Médica sobre este caso, com o INEM a sublinhar que, tendo em consideração os critérios clínicos do utente, os meios e recursos disponíveis e melhor habilitados a dar resposta naquele momento e outras variáveis com impacto no estado clínico do utente, entendeu-se por bem que o melhor seria transportar este mesmo doente através de um meio aéreo. Há cuidados prestados durante a transferência através de um meio aéreo que não são garantidos através do transporte por uma ambulância?

O transporte aéreo traz duas ou três potenciais vantagens. A primeira é o tempo. Esquecendo todas as questões logísticas de ativação do meio, de local de aterragem, etc., entre dois pontos é mais rápido fazer um transporte de helicóptero do que de ambulância. E isso significa que esse tipo de transporte pode ser benéfico e há bocado discutíamos a questão do doente muito grave, beneficiar de ter um transporte mais rápido. Mas a verdade é que este não foi o motivo, porque ele foi mais lento. Desde logo, há outra variável que pode justificar o transporte aéreo, que tem a ver com a estabilidade. O terreno, a viagem por terra, pode ser menos estável. E quando temos doentes com fraturas, com determinadas condições clínicas, pode ser mais interessante fazer um transporte por via aérea. Desconheço a situação clínica. E depois temos a questão da disponibilidade da equipa médica. Se não fosse o INEM a fazer este transporte, e neste caso a Força Aérea, por requisição do INEM, teria que ser a equipa médica do hospital de origem a fazer este transporte. Resta saber se esta equipa estaria disponível para o fazer e a qualificação que tinha para o fazer. Deve ter, portanto, na situação de base, todos os hospitais devem estar com capacidade para fazer este tipo de transporte e se foi essa a razão que foi pedido o transporte ou que foi decidido que o transporte ainda assim fosse por via aérea por falta dessa equipa, então é também uma inconformidade que vale a pena analisar. Naturalmente que as pessoas que estiveram envolvidas nestas decisões fizeram o melhor que puderam. Mais do que puderam, fizeram aquilo que acharam que era a situação mais correta e, portanto, não me surpreende que o INEM, nesta fase inicial, venha dizer que foi a melhor decisão. Agora temos aqui uma situação concreta, que vale sempre não escalpelizar, porque isso significa que temos que conhecer os detalhes da situação, mas que nos faça pelo menos refletir. Se um transporte que por terra de uma hora e meia se faz por helicóptero e dura cinco horas, então é algo que nós temos que pensar se de facto estamos a montar a resposta mais adequada para os nossos cidadãos ou não.

Doutor Nelson Pereira, estamos mesmo a terminar. O senhor chegou a ser apontado como possível presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica. À luz dos problemas que têm vindo a público nos tempos mais próximos, de alguma forma respira de alívio por não ter assumido essas funções?

Não há alívio no que diz respeito à emergência médica. Eu fui responsável nacional do INEM durante vários anos. Uma parte de mim vive ainda dentro daquele instituto e, portanto, não há alívio nenhum quando alguma coisa corre mal naquela instituição. Desse ponto de vista, a resposta é claramente não.

Consegue explicar, perceber, compreender a catadupa de problemas que têm afetado o Instituto Nacional de Emergência Médica? Há um problema de gestão?

Seria muito difícil em breves segundos analisar toda a complexidade do INEM, mas a verdade é que, e isso tem sido tornado público e é do conhecimento geral, há um conjunto muito sério de dificuldades de gestão que têm a ver com o próprio enquadramento legislativo, com a gestão dos recursos humanos, com a gestão de equipamentos e parque tecnológico. Há um conjunto muito vasto de dificuldades que o instituto vive há muitos anos e que se tem vindo a agravar e que, para bem de todos, urge naturalmente colidir.

Fica aí esse apelo. Doutor Nelson Pereira, muito obrigado por ter acedido ao nosso convite para participar neste Explicador da tarde política. Doutor Nelson Pereira, antigo diretor do Serviço de Urgência do Hospital de São João.