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Analisar a vitória de Portugal hoje com Cristóvão Norte, do PSD, e Paulo Lopes Silva, do PS. Contamos já daqui a pouco ter também Ricardo Reis, do Chega, que para já não está a atender-nos no telefone. Mas começando por si, Cristóvão Norte, disse que ia ver com a família o jogo, falou em sofrer. Sofrimento nem se viu, foi só alegria. Deu para perceber que a seleção trabalhou bem e a verdade é que não precisou de um novo pacote laboral para se tornar mais produtiva. Brincadeiras à parte, que análise é que faz desta vitória de Portugal?

Eu tinha feito o vaticínio que o jogo iria ser 4 x 1, mas devo dizer que isso foi mais uma manifestação de fé do que uma crença inabalável que tal seria o caso. Para mim, houve coisas hoje fundamentais que relançam a perspectiva da seleção ter um caminho longo, forte e afirmação de ambição neste mundial. E não foram só os gols, foram as alterações que se fizeram. Por exemplo, a equipe começou a jogar de forma mais vertical, mais ligada, abriu-se espaço ao Nuno Mendes para percorrer todo o flanco e ele consegue desequilibrar com a velocidade e com o poder de aceleração. O Cristiano Ronaldo, por exemplo, foi mais associativo, várias vezes fez tabelas, procurou as demarcações, como o primeiro gol ilustra claramente, e a forma de jogar da equipe foi radicalmente diferente. Foi a atitude, foi a forma e até foi ilustrada por um sentido de equipe que eu, na emissão antes do jogo, tinha sugerido que não estava à vista e isso era uma das grandes debilidades da equipe, mas justamente foi um dos elementos fundamentais. E eu vou ilustrar com dois exemplos que eu creio que dão um grande ímpeto ao balneário, criam laços de confiança que se calhar estavam prejudicados e abrem uma janela de esperança muito grande. O Cristiano Ronaldo, com todo o respeito, deve haver uns 10 anos que não abdicava de um livre na seleção. E eu não sei há quantos anos, talvez naquele hat-trick com a Espanha, tenha sido a última vez que ele tenha feito um bom livre na seleção.

E a verdade é que é também um ponto marcante precisamente do jogo, esse ato altruísta do Cristiano Ronaldo, que também teve um papel fundamental na representação, porque enganou a defesa adversária.

Mas deixe-me só dizer isto.

Claro.

No livre do Nuno Mendes, o Nuno Mendes faz, portanto o Nuno Mendes podia não marcar gol, o que está ali em causa é a atitude. Há um lance a seguir, numa falta lateral que ele costuma bater na baliza, e não sei se alguém do banco lhe chamou a atenção, ele deixou o Nuno Mendes bater o livre. Não é questão de ser gol ou não ser gol, a questão é a atitude, que é uma atitude mais gregária, menos individualista, e isso é fundamental para solidificar o espírito de equipe. Aliás, eu faço nos últimos 10 anos umas notas, se alguém quiser ir às minhas redes sociais, podem ir lá comentar. Há palpites para todo lado, mas terão melhores, outros piores. Mas faço sempre essa avaliação e uma das coisas que eu hoje achei fundamental na equipe não se expressa numa nota. É uma atitude de solidariedade, de entreajuda, de alegria com aquilo que quem vai à bola e nos substitui faz. E isso é fundamental em tudo na vida, numa família, numa empresa, numa equipe. E aqui, quando há este sofrimento, quando há esta pressão, quando há essas coisas todas, esse sentimento é fundamental. Não há uma equipe que consiga vencer, que seja tão superior às outras, que esse elemento que nós não conseguimos lançar a mão, que nós não conseguimos agarrar, não seja um elemento fundamental da afirmação dessa equipe. Isso é fundamental. Esportes coletivos vivem muitas vezes disso e aqueles que às vezes não têm tanta qualidade, mas conseguem superar pela abnegação, pelo esforço, pelo sentido de entreajuda. E isso eu hoje verifiquei em Portugal e é isso que me entusiasma para os próximos jogos. Até podemos chegar em 2 x 0 ou 7 x 0, não é isso que está em causa. Foi sentir isso, esse espírito de união. E isso é para lá deste jogo e ter repercussão.

Cristóvão Norte, vamos passar também a palavra ao Paulo Lopes Silva, deputado do PS. Acredito que tenha gostado, Paulo, do jogo da seleção. Grande vitória. Nos últimos tempos, vitórias celebradas pelo PS só mesmo as da seleção. Perdoe-me aqui a provocação. O que achou deste jogo também?

Deixe-me dizer-lhe que não é o único. O partido socialista também festejou uma vitória nas eleições presidenciais, que o partido também celebrou.

É verdade. Mas as presidenciais há o apoio do partido, não é o partido que ganha, neste caso.

Claro, foi o presidente, a candidatura unipessoal. Mas deixe-me só dizer, em jeito de brincadeira, que o Cristóvão Norte acertou, porque disse que era 4 x 1 e, de facto, foram quatro gols da seleção nacional e um da seleção do Marrocos.

É verdade, obrigado.

De alguma forma, dizer que teve alguma razão. Acima de tudo, foi de facto um jogo mais bem conseguido e sei que é um lugar-comum aquilo que direi, mas o resultado de Portugal de 1 x 1 no último jogo com o Congo e hoje de 5 x 0, não faz no último jogo Portugal a pior seleção do mundo, nem faz desta a melhor seleção do mundo. Portanto, este equilíbrio na análise de todos os momentos é também importante para que a seleção mantenha a cabeça no lugar e não nos deixemos, essencialmente nós, os adeptos, agora entrar numa emoção tal que de repente já exigimos tudo da seleção para que volte a fazer este resultado noutros jogos. Acima de tudo, de facto, é a alegria nacional desse momento. A seleção continua a ter esta capacidade mobilizadora de todos os Português e o facto de um resultado assim expressivo é sempre um momento também de maior celebração, porque além de um jogo bem conseguido, é um resultado com uma grande expressão e com alguns aspetos, como dizia o Cristóvão Norte, que deixam bons indicadores para o futuro, quer o ambiente que se parecia ver entre os vários jogadores nos momentos da celebração, nas decisões que foram tomadas ao longo do jogo e até de alguns jogadores que tiveram a oportunidade de entrar, como é o caso, por exemplo, de Rafael Leão, que é um jogador muito talentoso e que tem passado por um momento menos bom durante esta época, uma época menos bem conseguida, mas que entra na segunda parte, é capaz de fazer um gol, termina o jogo a sorrir. Tudo importante para ir acrescentando esses aspetos também anímicos nos vários jogadores que compõem todo o plantel nacional, para que no resto dos jogos que faltam, e esperemos que faltem vários até à final, possamos contar com os 11 que entram em campo, com os que entram no seu lugar e com aqueles que ficam no banco e mesmo a partir do banco são importantes para esse sentido de coletivo que o Cristóvão Norte destacava e que é de facto fundamental pra que a seleção tenha bons resultados.

Não posso deixar de levar aqui o desportivismo entre duas bancadas parlamentares que nos últimos tempos se uniam só mesmo por questões de seleção. Vai continuar assim, Paulo Lopes Silva?

Eu diria que não. O PS e o PSD ao longo das décadas que constituem a nossa democracia, em vários momentos se entenderam para questões fundamentais e a seleção nacional é uma questão fundamental. Deixe-me dizer, eu acompanho na Assembleia da República, coordeno o grupo parlamentar do Partido Socialista na Comissão de Cultura e Desporto. Nós ainda recentemente aprovamos de forma conjunta a nova lei do mecenato cultural, portanto pudemos convergir para uma ideia comum e pudemos evoluir para aprovar um diploma em conjunto com os contributos dessas duas bancadas. Nós normalmente estamos concentrados noutros temas que de facto temos divergido, e é natural, a política também é assim que se faz, mas quando há o interesse nacional acima de tudo, e a seleção tem sempre essa capacidade de gerar essa união, é natural que nos entendamos desta forma.

Cristóvão Norte, é muito bom para a memória muscular de união, da união entre as pessoas, também estes momentos de seleção, os mundiais, os europeus marcam sempre alturas de algum apaziguamento das tensões inerentes.

Não tenha dúvidas rigorosamente nenhum a esse respeito. As vitórias coletivas e sobretudo num tempo que tendencialmente é de maior polarização, onde por circunstâncias várias que não se explicam exclusivamente por matérias de relevo nacional, da responsabilidade do A, do B ou do C. São coisas às vezes maiores da própria evolução cultural e de sociedade. Essa argamassa do sentido de corpo, de partilhar a ideia de comunidade num sentido mais lato, política, de cidadania social, etc. Essas vitórias ajudam a melhorar, às vezes, pulsões de radicalizar coisas. Essas alegrias pra vida das pessoas fazem tão bem parte de uma sociedade que se equilibra melhor, que consegue lidar melhor com as coisas. Eu não tenho dúvida nenhuma, eu não quero pegar naquelas divisas do fato de futebol e Fátima, que já tiveram o seu tempo, mas devo dizer que obviamente, esses elementos agregadores em sociedades que se tornam crispadas, são elementos muito importantes até para realizar esse sentido de compromisso, que é um elemento fundamental do exercício da democracia. A democracia afirma-se no compromisso. Aliás, agora não me recordo quem, mas a democracia é a forma pacífica de resolver os conflitos. E portanto, haver esse relacionamento de tolerância, de reconhecimento do outro, é um elemento determinante para conseguir fazer sínteses. Ainda que obviamente haja antagonismos e haja perspectivas diferentes de ver o mundo, que têm tradução nas ideias políticas e nas posições dos e outros, mas procurando sempre salvaguardar esse elemento, até pela própria dignidade da sociedade de forma mais global. Isso é muito importante, ninguém tenha dúvidas disso.

Cristóvão Norte, deputado do PSD, também Paulo Lopes Silva, deputado do PS. Muito obrigado por se terem juntado à Rádio Observador para este momento de união pós-seleção nacional. Muito obrigado.

Obrigado.

Muito obrigado.

Contávamos também neste espaço falar com Ricardo Reis, deputado do CHEGA, que acabou por, depois de se ter comprometido a estar conosco, não aceitar o nosso convite ou pelo menos não estar presente. Fica também uma pergunta para que possa responder alguém do CHEGA, se assim entender, por escrito ou por áudio. Nuno Mendes e Rafael Leão marcaram hoje, Renato Veiga e Nelson Semedo ajudaram a mater a baliza a zeros, todos jogadores com ascendência cabo-verdiana, guineense e angolana. Em 2016, Éder, nascido em Bissau, na Guiné, marcou o gol que deu à seleção o então primeiro título da sua história. Era para saber se alguém do CHEGA é capaz de reconhecer que a imigração tem um papel fundamental pra a pujança da seleção. Não podemos ouvir uma resposta a esta pergunta, não esteve conosco Ricardo Reis do CHEGA. Contávamos ter representantes dos três partidos mais votados na Assembleia da República. Não foi possível. Fica por aqui este momento.