Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O anúncio não é propriamente uma surpresa. Já algum tempo escolhido por Henrique Gouveia e Melo para confirmar que é candidato de Belém, provoca algum espanto. A quatro dias das eleições legislativas, o antigo chefe de Estado-Maior da Armada revela em entrevista à Rádio Renascença que vai formalizar o anúncio da candidatura no próximo dia 29 de maio. É tema deste explicador. Convidámos Duarte Marques, é diretor de campanha de outro candidato presidencial, Luís Marques Mendes. Entrevista conduzida pela Vanessa Cruz e pela Judite França.
Bem-vindo, Duarte Marques. Gouveia e Melo disse há um mês que não iria interferir na campanha para as legislativas. Anunciar agora, em plena reta final da campanha, parece-lhe que pode ser interferir?
Boa tarde. Como devem imaginar, não serei eu, como diretor de campanha de Luís Marques Mendes, a pessoa mais habilitada para avaliar o timing de Gouveia e Melo. Diria que os espectadores, ou os ouvintes, neste caso, não iriam ter isso em grande consideração. E, portanto, o meu papel hoje é um pouco mais de saudar o aparecimento e a confirmação da candidatura de Gouveia e Melo, com todo o espírito democrático, porque é mais alguém que diria que vem por bem, para ajudar a fazer desta eleição um importante debate político e para as presidenciais. Portanto, nesta primeira fase, a primeira palavra é de saudação. Bem-vindo à corrida eleitoral.
Mas convirá que, do ponto de vista estratégico e do ponto de vista de campanha, nós entendamos que o Duarte Marques tem uma opinião sobre o assunto. Aliás, imagino que as pessoas pensem: "O que pensará Luís Marques Mendes desta apresentação tão inopinada de Gouveia e Melo numa altura como esta?"
Na verdade, esta candidatura era o segredo mais mal guardado da pátria. Até porque nós, devo confessar, sem problema nenhum, nos vários convites que temos tido para participações em debates, em conferências, em visitas, dizem-nos muitas vezes também que já têm a confirmação ou já falaram com a candidatura do Gouveia e Melo, que já falaram com ele, que até já estiveram na sua sede de campanha, onde havia um calendário com as datas. Diria até que Gouveia e Melo, apesar de ser alguém que vai contra os políticos e que apregoa recorrentemente que é contra a forma habitual de fazer política, diria que já aprendeu os piores truques ou vícios da política, porque andou aqui quase a fazer de conta que não seria candidato ou que ainda não era candidato, quando tinha toda a máquina no terreno. E, portanto, é de saudar. Aqui a única surpresa, devo dizer, é o facto de ser neste período, depois de ter dito que não iria ser candidato, que não iria apresentar a sua candidatura durante o período eleitoral. A única surpresa é, de facto, essa. Mas também não vou dizer que vem interferir na campanha eleitoral. Acho que não me compete a mim dizer isso. E na verdade, também não consegui encontrar o racional para esta apresentação ou deste anúncio nesta altura das eleições.
Sim, porque a apresentação formal, oficial, vai ser feita no dia 29 de maio. Gouveia e Melo justifica com o cenário internacional e a instabilidade interna, o facto de ter decidido avançar para Belém. Esta questão da instabilidade, em particular, será uma crítica subliminar à forma como Marcelo Rebelo de Sousa exerceu a presidência?
Eu não sei se será isso ou não, mas a análise de Gouveia e Melo diz que o país precisa de alguém que possa ajudar a construir pontes e criar estabilidade no país. Ora, é precisamente essa a grande vantagem que nós vemos com que se apresenta Luís Marques Mendes, porque num cenário de grande incerteza, de grande fragmentação no Parlamento, em que é preciso alguém que ajude a construir pontes e não alguém que venha comentar ou venha tomar decisões, ou venha de chicote na mão para tentar pôr toda a gente no seu lugar. É preciso alguém que antecipe os problemas, que consiga sentar à mesa as diferentes partes, que consiga encontrar um caminho que conjugue as prioridades dos intervenientes, e portanto, alguém que consiga tecer consensos muito antes, se calhar, de os problemas se tornarem públicos.
Mas um caminho mais parecido com o que Marcelo Rebelo de Sousa trilhou ou diferente do atual presidente, como de resto, Gouveia e Melo até nesta entrevista à Renascença diz que vai ser muito diferente do presidente atual. E nós sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa tem um currículo grande de dissoluções enquanto chefe de Estado.
Os presidentes da República têm todos perfis diferentes e tiveram todos mandatos diferentes. Luís Marques Mendes já disse muitas vezes, aliás, de forma crítica de Marcelo Rebelo de Sousa, que há um conjunto de opções que deviam ter sido tomadas, ou de iniciativas, mesmo antes das questões se tornarem públicas. Ou seja, o papel do Presidente da República é muitas vezes de antecipar os problemas e fazer pontes. Não é depois de os problemas existirem, vir tentar consertar ou tentar tomar partido, ou tentar ajudar a explicar aquilo que aconteceu. E diria que a visão de Luís Marques Mendes como presidente é de um presidente que tem experiência política, que já esteve nos diferentes papéis, que sabe interpretar perfeitamente quais são os papéis de cada um, até onde é que podem ir, e com isso, com a sua experiência, com o seu conhecimento, e até com a sua qualidade como negociador, conseguir ajudar as partes a entenderem-se em meio à estabilidade do país. Eu acho que é isso que está em cima da mesa quando se fala de um clima de instabilidade na Europa e que se quer evitar em Portugal. Portanto, seja qual for o resultado eleitoral, o papel do presidente continua a ser importante, se calhar em dimensões diferentes do passado, mas se calhar será ainda mais decisivo naquilo que é a construção de pontes, não de chicotes.
Como director de campanha de Luís Marques Mendes está a considerar mudar a estratégia, tendo em conta que o adversário já é oficial?
Nós sempre soubemos que Gouveia e Melo era candidato, não há nada que se altere. Claro que há situações que vão surgindo ao longo da campanha e em função também daquilo que cada um vai fazendo, nós podemos reagir. Mas um candidato com o percurso de Luís Marques Mendes, com todos estes anos de experiência, com todo o seu passado, com todos os acontecimentos, as decisões, as reformas, tudo aquilo que já fez, fala por si, não pode de repente mudar de figura. É um candidato que todos conhecem. Se Luís Marques Mendes mudasse, seria bastante estranho. Agora diria que é um processo e é o momento de debater, de haver algum combate político também sobre aquele que é o papel do presidente e de esclarecer. Deixo até uma dica. Por exemplo, até dia 29 era bom que Gouveia e Melo aproveitasse a oportunidade, se é que não o faz na entrevista à Renascença, por exemplo, de explicar a sua posição sobre aquilo que foi a derrota que teve em tribunal no processo dos marinheiros, que foram no fundo usados por si para levar uma reprimenda pública, para a qual até levou um púlpito e chamou a comunicação social para humilhar os marinheiros que se rebelaram ou que supostamente não quiseram entrar a bordo de um navio com problemas. E a forma como o tribunal tomou uma decisão merece, exige explicações, exige perguntas, até porque não foram dados os devidos mais a esses marinheiros e a justiça não foi justa quando internamente os condenou na Marinha, sem que estivessem garantidas as garantias e as condições de defesa que o regime democrático e o Estado de direito exigem.
A partir de agora, Luís Marques Mendes vai poder desafiar Gouveia e Melo a explicar o que pensa sobre uma série de assuntos, nomeadamente esse que referiu agora. O almirante vai ficar mais exposto ao escrutínio a partir de agora?
Eu acho que isso é absolutamente normal e toda a gente já sabe que isso é uma consequência natural de quem se apresenta a eleições. É por isso que os políticos têm que estar acima de qualquer suspeita, obviamente têm que atuar com muita transparência e portanto diria que Gouveia e Melo também será escrutinado como qualquer outro. Aliás, quem não deve não teme, portanto, quem vai para a política deve estar preparado para isso, deve contar com isso. Agora, não pode é haver na política, e às vezes isso acontece de forma até bastante ingrata, é que escrutinam mais uns do que outros. E esse papel compete obviamente à comunicação social e aos órgãos de justiça que existem em Portugal também, mas sobretudo compete aos próprios atuarem com transparência e não terem medo do escrutínio, nem quando se apresentam a escrutínio público, poderem tomar as suas opções sem esquecer o seu passado e obviamente apontando para o seu futuro.
Agora que Gouveia e Melo é candidato, ou pelo menos diz que vai ser, já anunciou essa decisão. Há pouco dizia que como era o segredo mais mal guardado, que a estratégia de campanha já está definida de Luís Marques Mendes, mas tendo em conta que a apresentação da candidatura de Gouveia e Melo está marcada para dia 29 de maio, podemos ver Luís Marques Mendes nos próximos tempos mais activo. A campanha vai acelerar?
Eu admito que a campanha vai acelerar, não porque Gouveia e Melo se apresenta como candidato, porque de facto já estava em campanha há muito tempo. É normal que agora o espaço mediático seja mais ocupado por esta campanha. Luís Marques Mendes durante este período não fez campanha propriamente dita, continuou a aceitar convites e a participar num conjunto de ações, organizou algumas também, mas obviamente que não mereciam, nem era suposto, a atenção da comunicação social. Portanto, aquilo que agora poderá mudar é de facto o aumento do mediatismo da campanha eleitoral, que depois normalmente em período de eleições autárquicas deverá sofrer algum abrandamento também e após as autárquicas, sim, deverá ter um caminho longo até às eleições, para a primeira e para a segunda volta das eleições presidenciais. Eu diria que é normal. Decorre mais dos atos políticos e eleitorais do que propriamente das candidaturas que são apresentadas, porque de facto já foram apresentadas ou já são conhecidas. A única surpresa é que a antecipação para esta data do anúncio e também falta saber quem será de facto o candidato do Partido Socialista.
Sendo que 29 de maio é daqui a duas semanas e à partida, tendo em conta o resultado eleitoral, não sabemos qual é que será, mas tendo em conta o que vão avançando aqui as sondagens ou indicando as sondagens, pode também não estar resolvida a questão da governabilidade em Portugal em duas semanas. Vai a campanha para as eleições presidenciais continuar nestas duas semanas que se avizinham a retirar aqui protagonismo ao momento político que estamos a viver, que neste caso é do Parlamento e é do Governo?
Neste caso ainda não é do Parlamento, só depois das eleições.
Sim, mas a sua retiro às próximas duas semanas, não é?
Como é óbvio. Eu diria, nos tempos que correm, as campanhas mudaram um bocadinho e é normal que os candidatos a qualquer cargo se apresentem, o que é que eu faria se fosse eu presidente ou eu primeiro-ministro. E estando expostos por uma circunstância tão evidente do papel do presidente, eu diria que é normal que neste período próximo seja natural a curiosidade por parte da comunicação social de perguntar aos candidatos então se fosse o presidente, o que é que faria. Luís Marques Mendes já o fez várias vezes, já disse o que é que faria de forma diferente aqui e ali, e é normal que os portugueses, e através da imprensa, obviamente, tentem explorar esse campo, portanto perguntar a Luís Marques Mendes o que é que ele faria se fosse o presidente, apesar da sua condição de conselheiro de Estado, terá que ter alguma reserva, mas é normal que se pronuncie mais cedo ou mais tarde e que dê conselhos e que dê sugestões. E eu penso que é isso que revela. Isso é que pode ajudar, porque muitas vezes é importante o presidente ajudar a moderar as situações e encontrar caminhos. Neste caso, a decisão do Presidente da República, do professor Marcelo Rebelo de Sousa, que tem toda a legitimidade do mundo, pode ser importante em função daquilo que será o resultado eleitoral. Eu diria cada vez mais Temos um espaço político imediato em que os candidatos aos vários cargos se podem exprimir e dizer o que fariam naquele cargo se fossem presidentes. Aliás, muitas vezes isto em conversa, quando me convidam para fazer algumas conferências, que é normal que mais cedo ou mais tarde iremos ter candidatos a primeiro-ministro a antecipar claramente quem serão os seus ministros mais fortes nas áreas cruciais ou que estão em debate no país, como forma de argumentar que tem uma equipa melhor do que a outra e os portugueses poderem votar não só no programa eleitoral, mas também nas pessoas em quem vão confiar para esse mandato. Isso parece que no futuro será um caminho evidente e nas casas presidenciais será curioso perguntar o que cada presidente fará. Recordo que na sua primeira apresentação, aliás, na altura quando anunciou Luís Marques Mendes saudou Gouveia e Melo, ele disse logo, Gouveia e Melo disse logo naquele texto que escreveu no Expresso, que se fosse presidente dissolveria o Parlamento caso alguma das promessas não fosse cumpridas. Portanto, como podemos imaginar, é por demais evidente que isso é totalmente absurdo e não faz sentido nenhum. E seria então causador de instabilidade, quando o país precisa é de um unificador, de arranque, que crie estabilidade e que faça pontes entre as várias áreas do Parlamento.
Falava da apresentação da candidatura apoiada pelo PS. Com este passo em frente de Gouveia e Melo, espera que os possíveis candidatos do campo socialista seja agora que também acelerem as suas apresentações? E peço-lhe uma resposta rápida, porque estamos mesmo a chegar ao fim do nosso tempo.
Eu diria que é normal que agora esse calendário acelere, também depende dos resultados, neste caso, depende do Partido Socialista, qual será o seu resultado e as consequências que isso terá na sua liderança. Mas creio que é um tema em que o Partido Socialista não poderá perder muito tempo. Admito que depois de estar resolvida a questão governativa, e para tal depende das eleições, e de facto deverá ser, mas isso cada um sabe da sua casa, qual é que será o timing ideal. Mas obviamente será um candidato conhecido antes do verão, não tenho dúvidas nenhumas disso.
Duarte Marques, muito obrigada por ter estado conosco neste Explicador. Obrigada.
Obrigado. Boa tarde.