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Explicador da Rádio Observador. Recebemos agora Pedro Costa, membro do Secretariado Nacional do PS, ex-presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique. Comigo está a Judite França para esta conversa com Pedro Costa.

Bem-vindo, Pedro Costa. Alexandra Leitão foi uma má escolha?

Muito boa tarde.

Boa tarde.

A Alexandra Leitão revelou-se, não sei se uma má escolha, mas claramente uma candidata incapaz de cumprir os objetivos que o Partido Socialista tinha para essas eleições. O Partido Socialista apresentou-se em Lisboa perante o presidente de Câmara, que fomos sempre qualificando como o pior presidente de Câmara que Lisboa já teve. As sondagens ao longo da campanha foram demonstrando precisamente isso. Mesmo a tragédia do Elevador da Glória, onde ninguém no Partido Socialista atribuiu culpas a Carlos Moedas, e também nos mostram os estudos de opinião, os eleitores também não o fizeram, mas deixaram a nu as suas fragilidades e a sua falta de liderança, a sua falta de projeto para a cidade. O Partido Socialista, perante isso, tinha que fazer apenas uma coisa para vencer as eleições. Eu disse à Rádio Observador, há alguns meses, que Alexandra Leitão dependia apenas de si para vencer as eleições em Lisboa. E depender apenas de si significava três coisas. Primeiro, demonstrar que a coligação que liderava não era uma coligação radical, e parece-me que neste ponto até foi bem-sucedido.

E Pedro Costa foi capaz de o fazer? Não, na sua opinião, não.

Sim, acho que sim. O problema está nos outros dois pontos. Era demonstrar que seria melhor presidente de Câmara do que Carlos Moedas, e eu acho que os eleitores não ficaram com essa percepção, e o que não ficaram, com certeza, foi com a ideia de que essa coligação de esquerda era uma alternativa para a cidade. Durante toda a campanha, a coligação não foi capaz de apresentar nenhuma ideia que marcasse o debate. Passamos vagamente pela ideia dos passes gratuitos. Aliás, que o PCP explicava, e bem, por que não era sequer uma boa proposta para a cidade.

João Ferreira esteve melhor do que Alexandra Leitão, por exemplo, nos debates e na campanha?

Incomparavelmente melhor, tirando na matéria de higiene urbana, onde João Ferreira tem uma visão errada e que só pioraria o estado da higiene urbana da cidade, que é já lastimável. É óbvio que João Ferreira demonstrou ter um projeto e soluções para a cidade, e isso está à vista nos resultados que teve. O Partido Socialista ficou a dever isso à cidade. E esse é o grande problema, mais do que um problema pessoal, e olhando para os resultados percebemos também isso, a diferença de Alexandra Leitão para os presidentes de junta em praticamente todas as freguesias da cidade é uma diferença muito considerável. Temos 15 pontos em Benfica, mil votos em Campo de Ourique. A diferença é brutal. O Partido Socialista precisava não só de uma alternativa que lhe permitisse ganhar a Câmara e afastar o pior presidente que a cidade já teve, como a cidade estava disponível para fazer. Era essa a dívida que o Partido Socialista tinha com a cidade, mas principalmente puxar para cima o resultado das Juntas de Freguesia. Teve o oposto. Teve uma candidatura que não agregou ninguém e puxou para baixo.

E a responsabilidade é de quem? É só de Alexandra Leitão?

Não será só de Alexandra Leitão, mas Alexandra Leitão disse, e eu concordo, que assume como sua a responsabilidade da derrota.

Agora vai assumir o lugar de vereadora, vai liderar a oposição na Câmara de Lisboa. Acha que o Partido Socialista deve dar total autonomia à Alexandra Leitão para decidir como votar?

Primeiro, assumir o lugar de vereador é uma escolha pessoal que eu compreendo, é eleição, o Partido Socialista apresentou-se a votos, esses votos concretizam-se em mandatos que são pessoais e cabe a cada um decidir o que fará com eles.

Ouvimos Alexandra Leitão dizer que o fará, que ficará como vereadora.

Eu também ouvi. Estou só a dizer, é uma questão pessoal, não tenho nenhuma opinião.

Mas acha que devia sair?

Não tenho nada inteligente a dizer sobre esse assunto.

Acha que devia sair? Não deveria sequer aceitar?

Sinceramente, não vejo por quê. Ou seja, se entende que tem um contributo a dar, acho que o deve fazer.

E a autonomia, como é que acha que o PS...

A autonomia, vamos lá ver, liderar a oposição não é uma questão proclamatória. Liderar a oposição exige ter a capacidade de denunciar o que está mal e ter a capacidade propositiva para resolver problemas. É esse o desafio que terão os vereadores do Partido Socialista e que espero que cumpram. Sobre a autonomia, dadas as minhas funções como dirigente nacional do partido, não tenho como acumular as funções de dirigente local do partido, mas aquilo que eu desejo como militante do PS é que a estrutura local tenha também esse espírito crítico e a capacidade de ter opiniões e construir em conjunto com os seus eleitos locais uma estratégia. E isto é verdade para os vereadores, para os secretários municipais ou para os eleitos das assembleias de freguesia, até para os presidentes de junta. Os partidos não são um conjunto de pessoas à procura de alguma coisa. Devem ser um conjunto de pessoas unidas em torno de uma ideia comum. Essa ideia comum é implementada de acordo com as ações de várias pessoas e, portanto, espero que haja uma coordenação política no Conselho de Lisboa. Aliás, se não houver, o risco que corremos é de repetir este desastre daqui por quatro anos.

Vamos falar de Loures, Lisboa acho que ficou bem claro. O sucesso de Ricardo Leão deveria obrigar o PS a uma reflexão?

Todo o PS, incluindo Ricardo Leão, deve fazer uma reflexão. Vamos lá ver. O Partido Socialista teve ontem um bom resultado É óbvio que não venceu as eleições e não vale a pena tentar inverter isto, mas teve 1.800.000 votos, que é um resultado muito próximo daquilo que teve há quatro anos. Não teve a maioria das câmaras, mas ficou a sete ou oito câmaras de o ter. Ganhou cinco capitais de distrito, o que significa praticamente duplicar o número de capitais de distrito que teve nas últimas eleições. Portanto, tudo isto são bons sinais, mas também há sinais para os quais temos que olhar com mais preocupação. Naturalmente, nas três áreas metropolitanas, Braga não é propriamente considerada uma área metropolitana, mas o chamado quadrilátero urbano, constituído por Braga e Guimarães, é uma área também, se não metropolitana, mas de grande densidade urbana, que deve ser encarada como tal, o Partido Socialista não teve bons resultados eleitorais. Um dos motivos que me parece que causa este desconforto é nestas zonas onde a habitação mais subiu e onde por isso mais pesa no bolso dos portugueses. E portanto, é preciso que olhemos para essas zonas e encontremos uma estratégia para que o PS-

E o PS não conseguiu falar da sua estratégia, das suas ideias para a área da habitação.

Eu acho que o PS tem que desenvolver essa sua estratégia. Acho que essa sua estratégia ainda está muito presa na ideia da construção e o problema é que as pessoas, em especial quando votam para as autarquias locais, têm um problema, que é o dia 30 de cada mês chega todos os meses e as pessoas continuam a ter uma renda para pagar. E enquanto andamos a discutir se o país pode construir 100 mil casas ou 10 mil casas, e as pessoas todos os meses têm renda para pagar, não estão, na minha opinião, muito disponíveis para ouvir as nossas teorias fascinantes sobre o mercado da construção civil. E portanto, aquilo que me parece é que o Partido Socialista deve sentar-se e encontrar um caminho comum. Tal e qual como eu dizia há pouco sobre a importância da coordenação política na concelhia de Lisboa, digo o mesmo sobre a importância da coordenação entre o PS a nível nacional e os seus autarcas.

Há uma má colaboração entre o PS nacional e os autarcas?

Não, não digo que haja uma má colaboração. O que eu digo é que a coordenação tem que ser melhor. Vamos lá ver, quando se diz que algo tem que melhorar, não quer dizer que seja má. Praticamente tudo na vida pode ser melhor.

Verdade.

O Ricardo Leão, que é um camarada sobre o qual o bom fundo e o bom coração e a dedicação ao louro eu não tenho dúvidas, tem uma forma de comunicar que não me parece a mim a mais adequada. E digo isto sendo amigo dele, aliás, já lho disse. Mas a verdade é que o Partido Socialista também não pode ficar à espera que os seus autarcas tenham um qualquer deslize para depois correr a julgá-los e dizer que por isto ou por aquilo não merecem a confiança, não representam os valores do Partido Socialista. Aquilo que se exige é uma coordenação política para que todos saibamos aquilo que defendemos e onde estão os nossos limites. O pacto autárquico, o manifesto autárquico que define as regras para a governação dos vários autarcas é um passo, mas que deve ser aprofundado. Deve ser aprofundado ouvindo os autarcas, integrando a visão dos autarcas nesses instrumentos, indo articulando para garantir que sabemos todos quais são as regras por que estamos a jogar.

Pedro Costa, peço desculpa interromper, mas temos que acelerar e gostaria de o ouvir ainda sobre outra matéria. Acha que o PS deveria avançar com o congresso com alguma brevidade? Agora ainda vamos ter presidenciais já no arranque do ano. Acha que seria útil ao PS ter um congresso já?

Bom, eu disse há algum tempo que o normal, e parece-me que o natural, é que o Partido Socialista tenha um congresso para debater o seu futuro e os seus objetivos estratégicos. A verdade é que não o fez há quatro meses e neste momento encontra-se a quatro meses das eleições presidenciais. Não me parece que haja nenhuma urgência no momento em que o partido terá que encarar umas novas eleições. Deve fazê-lo com tempo, ou seja, as notícias que vínhamos ouvindo e os debates a que fomos assistindo nas últimas semanas acerca da erosão estrutural do PS, da morte do PS, do caminho para a irrelevância do PS, todas elas se revelaram ora desejos infundados, ora notícias manifestamente exageradas. E, portanto, aquilo que sabemos é que o Partido Socialista é, e os resultados ontem comprovam-no, a alternativa de governo. Precisa de objetivos estratégicos e de uma estratégia para recuperar a sua posição e a confiança dos portugueses para poder voltar a ser governo de Portugal. E portanto, o congresso deve ser feito. Sim, senhor, é fundamental que esse debate exista, mas no seu tempo e sem pressa. Não me parece mesmo que tenhamos nenhuma pressa. O Partido Socialista, além de tudo isso, precisa de muita paciência.

Obrigado, Pedro Costa. Obrigado por ter estado aqui na tarde em direto da Rádio Observador, membro do Secretariado Nacional do PS.