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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, esta segunda-feira sobre a atual situação em Gaza e também a chegada dos ativistas portugueses a Portugal. É nossa convidada a eurodeputada Marta Temido.

E chegaram ontem a Portugal os quatro ativistas portugueses, incluindo a coordenadora do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, que estiveram detidos pelas forças israelitas. Alguns eurodeputados, ao longo deste período em que a flotilha humanitária se dirigiu para Gaza, manifestaram preocupação pelas tentativas de limitar a ação da flotilha. Marta Temido, bem-vinda a este Explicador, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Esta ação humanitária da flotilha foi importante para chamar a atenção para o problema de Gaza, atingiu os objetivos ou de alguma forma acaba por limitar também o alcance de outras tentativas de encontrar uma solução para o conflito?

Olá, bom dia, é um gosto estar na Rádio Observador e neste Explicador. Eu penso que aquilo que era a intenção desta missão, desta flotilha e dos vários participantes que arriscaram muito ao integrar este grupo, foi trazer mais uma vez para a opinião pública a necessidade de pressionar os poderes políticos no sentido de encontrar uma solução para a tragédia humanitária, que, vale a pena sublinhar neste momento, desde há dois anos, passam amanhã dois anos sobre os mortos e os raptos do Festival Nova, no sul de Israel, se tem abatido sobre Gaza como uma clara expressão de um excesso daquilo que é a resposta de Israel à defesa dos seus cidadãos que foram vitimados neste massacre que há dois anos aconteceu. E portanto, sim, todos imaginávamos que este fosse o fim da flotilha, que a flotilha não conseguisse entrar na Palestina e não conseguisse efetivamente entregar a ajuda humanitária que se propunha, mas sabíamos que as pessoas que integravam a flotilha corriam o risco de ser detidas, como foram, pelo governo de Israel, pelas Forças Armadas de Israel, e devolvidas aos seus países passando momentos de grande dificuldade e de humilhação, como foi atento nos vários testemunhos que ouvimos ao longo das últimas horas. O meu grupo político, os Socialistas e Democratas também tinham uma eurodeputada, a minha colega Annalisa Corrado, italiana, que regressou ontem a Roma e portanto, foi mais uma finalização daquilo que é preciso que os poderes políticos, designadamente as instituições europeias, mas também os governos dos vários Estados membros, façam no sentido de acompanhar o sentir dos cidadãos europeus sobre esta terrível situação, que é um genocídio que continua a acontecer em Gaza.

Marta Temido, deixe-me perguntar-lhe, tendo em conta também a forma como as forças israelitas tinham lidado com anteriores ações semelhantes a esta, se havia aqui o objetivo de levar ajuda humanitária a Gaza, ou se o objetivo era precisamente o de criar um facto político, um incidente político, de forma a chamar a atenção para o problema e se isso se coaduna de alguma forma com as estratégias que as instituições políticas europeias devem seguir.

As instituições políticas europeias tiveram uma fase inicial de um grande silêncio. Um grande silêncio é a melhor qualificação que posso utilizar, para não dizer indiferença, relativamente à questão de Gaza. Israel pode muito, o governo de Netanyahu pode muito e nós bem sabemos, e eu sei na primeira pessoa, que durante mais de um ano levámos o tema da necessidade de suspensão do acordo comercial ao Parlamento Europeu, sem que as instituições europeias se tenham desviado um milímetro daquilo que é a sua indiferença relativamente ao que se passava em Gaza. E foi a partir do momento em que a sociedade civil e os ativistas começaram a ter uma atitude mais presente nas ruas, aquilo que alguns consideram e carimbam como uma atitude panfletária, e que só tem de exato no qualificativo a circunstância de sim, ser uma atitude panfletária, não no sentido de pretender chamar a atenção sobre si próprios, mas chamar a atenção sobre um problema, que as instituições começaram a agir. Repare-se, foi também por pressão da sociedade civil que o governo português acabou por reconhecer o Estado da Palestina, que o governo francês, com todos os problemas que nós sabemos que estão a acontecer em França, Emmanuel Macron também de alguma forma, com uma atitude também preocupada com a sua própria sobrevivência política, se empenha na questão de Gaza. E, de facto, a sociedade civil tem que perceber, aquilo que ficou provado com estes casos é que tem voz, tem uma voz forte e essa voz pode ser ouvida. Portanto, eu não estava à espera de outro desfecho que não fosse este, de os ativistas serem devolvidos aos seus países de origem, depois de serem humilhados, naturalmente, depois de haver um arremesso de confrontação. A questão de Gaza e a questão da Do governo que está em Israel à frente dos destinos de Israel ficou mais uma vez exposta.

Marta Temido, entretanto há um plano de paz que começa hoje a ser negociado, apresentado por Donald Trump. A voz da Europa volta a estar um pouco ausente, agora numa fase mais construtiva, se quiser, de negociações de paz. Tem que ser assim ou a Europa está demasiado presa a um dos lados, em termos institucionais, para ser um parceiro neste tema?

A Europa não está demasiado presa a um dos lados institucionais de forma nenhuma, até porque, por alguma razão, todos aqueles que foram esforços feitos no Parlamento Europeu, e acredito também no Conselho Europeu, no sentido de se ter uma posição mais firme relativamente à questão de Israel e Gaza, não conseguiram avançar até agora. Nós temos Estados-membros e temos muitos eurodeputados e nós sabemos também na sociedade portuguesa, ouvimos ainda muito recentemente as declarações do ministro da Defesa Nacional, do ministro Manuel, nós também, e nunca nos podemos esquecer disso, tenha desta questão uma visão diametralmente oposta àquela que eu estava a defender e que é a minha. E portanto, não creio que a União Europeia esteja beliscada em relação a essa sua possibilidade de intervenção. Agora, relativamente ao plano Trump. O plano Trump é um plano imposto. É um plano que não ouviu as forças em presença. Nós percebemos bem que-

Quem é que deveria ter ouvido, Marta Temido? Quem é que não foi ouvido na preparação desse plano?

Nós não podemos dizer que haja exatamente um plano. Nós chamamos de plano, mas o que nós temos é um conjunto de 20 pontos que a administração Trump veio anunciar como sendo um plano de paz. E nós sabemos bem que Netanyahu concordou, ou por outra, anuiu, assentiu, porque não tinha alternativa naquele momento em que foi confrontado e porque sabe que no seio internacional está condenado a uma posição praticamente de pária e, portanto, só conta com os Estados Unidos. E por outro lado, sabemos bem que o Hamas apenas disse que estava de acordo com a discussão e com a entrega dos reféns. Todas as outras questões que fazem parte dos pontos do plano Trump estão agora a ser discutidas neste momento, no momento em que falamos, no Egito, com a intermediação do Catar e com a intermediação dos Estados Unidos. E nós já sabemos de momentos anteriores semelhantes a este. Isto não é deitar um balde de água fria sobre as esperanças de paz, é apenas ser realista. Sabemos que em momentos anteriores falaram mais alto, dignariamente, a pressão das outras partes do governo israelita. Portanto, vamos ver como evolui esta circunstância durante as próximas horas. Obviamente que, dizer-se que Gaza vai ser colocada sob um mandato de tecnocratas e apolíticos que serão coordenados pelo próprio Trump e por Tony Blair, não me parece que seja algo que corresponda ao direito à autodeterminação que têm os palestinianos e que têm a Autoridade Palestiniana.

Nem que fosse como uma solução intermédia, uma solução de transição?

A solução de transição tem que passar, na minha perspectiva, pelo envolvimento da Autoridade Palestiniana e, no médio prazo, pela realização urgentíssima de eleições na Autoridade Palestiniana para que a democracia seja também restaurada, porque por várias vicissitudes, designadamente o contexto também de agressão, essas eleições têm sido adiadas e nós não podemos ser exigentes apenas com um dos lados. Temos que ser exigentes com os dois lados e, portanto, a Palestina também precisa de se reencontrar e ter espaço para se redefinir como Estado. E portanto, penso que é inevitável e indispensável que a Palestina tenha voz nesta solução. Isso não afasta que se condene veementemente e se impeça a participação do Hamas. Mas análises recentes daquilo que é o sentir da população da Faixa de Gaza, também mostram, e nós temos tido muitas conversas, muitos contactos com pessoas da Cisjordânia, concretamente, que têm família em Gaza, e que nos dizem que a zanga de quem vive em Gaza com o Hamas é tão grande como a zanga de quem está em Israel com o Hamas, porque a população da Faixa de Gaza também sabe que foi o Hamas que conduziu à situação dramática, desesperada em que está hoje. Não nos esqueçamos agora que o Hamas foi bastante sustentado, apoiado por Israel quando isso lhe deu jeito.

Marta Temido, e institucionalmente a Europa pode ter ou deve ter algum papel neste processo para tentar a paz?

Neste momento, o papel mais útil que pode ter é o de acompanhar atentamente os esforços que estão a ser feitos no Egito, porque não há utilidade em a Europa querer aparecer no retrato só para aparecer no retrato. Para isso está lá o senhor Trump. Agora, eu penso que a Europa tem a obrigação de ter aqui uma voz, de estar preparada para usar a sua voz, neste momento ainda apenas observando, mas estando atento à necessidade de intervir para defender aquilo que é um equilíbrio da solução que está a ser tentada.

A Marta Temido há pouco falava do reconhecimento do Estado da Palestina, mas também referia as declarações do ministro da Defesa, que chegou a referir-se aos participantes nesta ação da flotilha como apoiantes de uma organização terrorista. O governo português tem estado bem nesta questão do conflito em Gaza e também em relação à flotilha humanitária, ou poderia ter feito mais? Vimos o governo espanhol muito mais interventivo. O governo português deveria ter seguido o exemplo do governo socialista de Pedro Sánchez?

O governo português apoiou, tanto quanto conseguimos perceber, os nossos quatro portugueses que estavam a bordo da flotilha e que precisaram de apoio. São inequívocas as afirmações que dizem que a diplomacia portuguesa foi incansável no apoio que deu a estas pessoas e daí não resulta nenhuma razão de crítica. Eu tive a oportunidade de cumprimentar nas redes sociais o reconhecimento do Estado da Palestina pelo governo português. Foi um reconhecimento tardio, foi um reconhecimento que se pôs demasiado sangue. Pena foi que outros governos, designadamente aquele a que eu pertenci, não tenham tido essa atitude antes. A história acontece quando acontece. Só podemos lamentar que isso não tenha sucedido antes. Neste momento, temos ministros como Nuno Melo, que têm vozes dissonantes, e eu diria que estão apenas focadas naquilo que é a criação de polarização da sociedade.

Acha que Nuno Melo se deveria ter demitido pelas declarações que fez? Houve quem tivesse exigido, em Portugal, a demissão do ministro.

Isso é uma questão que apenas ao senhor primeiro-ministro cabe avaliar se tem ou não condições para manter o ministro da Defesa quando ele faz as afirmações de polarização que faz. Mas nós sabemos qual é o contexto político em que vivemos e provavelmente as declarações do ministro Nuno Melo são úteis para uma determinada linha que também está neste momento mais silenciosa, mas existe. E não esquecer que o Parlamento Europeu aprovou uma resolução na sua última plenária, há 15 dias, sobre Gaza, e que ela foi votada contra pela eurodeputada que integra o CDS. Não há aqui propriamente uma surpresa.

Marta Temido, estamos, como sabe, em Portugal, na reta final de uma campanha eleitoral para as autárquicas. Acha que o PS tem condições para continuar a sair vitorioso, isto é, com o maior número de lideranças de câmaras?

Eu estou neste momento ainda em Portugal, exatamente para a participação na reta final da campanha. Só amanhã é que irei para Estrasburgo, para a última plenária deste mês. Estamos todos a trabalhar para recuperar a confiança dos portugueses face a últimos resultados eleitorais, ainda que seja muito importante referir que no poder local a situação é muito diferente daquela que é no governo, na medida em que os nossos autarcas têm sempre tido a confiança dos portugueses. E eu creio que há pelo menos duas razões pelas quais isso é assim: os resultados, os perfis das pessoas com que o Partido Socialista e nas várias coligações se apresenta em diversos pontos do nosso país, mas também a ambição que é reconhecida ao Partido Socialista em relação ao poder local. Não foi outra força política que avançou nos processos de centralização que foram feitos, designadamente no último governo de António Costa, e que transferiram para as autarquias competências nas áreas da educação, da saúde, do policiamento, e que percebeu desde sempre e apoiou desde sempre a ideia de que é em proximidade que os problemas se resolvem melhor. E portanto, acredito que os portugueses, apesar do contexto, e esse é um contexto muito difícil, que nós sentimos na Europa de uma forma muito clara, que é um contexto de polarização do discurso, um diálogo de ódio associado ao ódio e à culpabilização do outro, que as pessoas percebam que votar no próximo dia 12 não pode ser um ato de egoísmo. E o voto num partido de extrema-direita é um voto de egoísmo, porque é um voto de quem apenas quer destruir. Ora, quando nós votamos, na minha perspectiva, escolhemos o futuro não só para nós, mas também para toda a sociedade. E portanto, quando se vota numa solução que apenas quer destruir os outros, culpabilizar os outros, estamos a inutilizar um voto, porque é um voto que não traz nada. Esgota-se no momento em que é posto, em que se descarrega aquela energia negativa, sem que daí venha uma resposta, venha uma proposta de solução. São as forças democráticas que podem trazer essas propostas de solução, e eu acredito que as pessoas percebam isso. E se os próximos tempos exigirem que isso seja provado também no poder local, infelizmente escolhendo opções que se esgotam em respostas de ódio, teremos que fazer esse caminho.

Marta Temido chegou a ser apontada como possível candidata à Câmara de Lisboa, ainda durante a liderança de Pedro Nuno Santos. Acredita que Alexandra Leitão tem as condições para vencer a Câmara de Lisboa?

As sondagens dizem que sim Mais do que a minha opinião, é muito bom ver Alexandra Leitão com uma enorme energia. Hoje, aliás, teremos oportunidade de ter um comício em Lisboa, onde veremos certamente mais uma prova dessa energia, com toda a determinação, com toda a sua capacidade de não ceder ao populismo, de não politizar, ao contrário daquilo que tem sido dito, temas que são trágicos, mas de fazer um caminho de lucidez e um caminho de construção. E, portanto, creio que Alexandra Leitão é exatamente o oposto daquilo que é o engenheiro Carlos Moedas. É uma mulher absolutamente determinada em construir soluções e não em refugiar-se nas palavras e na autocompaixão, na autocomplacência, na desresponsabilização face àquilo que são circunstâncias da vida, que às vezes nos obrigam a assumir.

A Marta Temido venceu as eleições europeias, o PS ficou à frente do PSD. Acha que teria mais possibilidades de vencer em Lisboa do que a Alexandra Leitão?

Desculpem a franqueza, é um tema que não me interessa nada. O que interessa é dizer que Alexandra Leitão vai ser a próxima presidente da Câmara Municipal de Lisboa, porque eu acredito que os lisboetas, e isto são dados, têm demonstrado que os lisboetas perceberam. E eu sou lisboeta, eu vivo em Lisboa, vivo na freguesia de Arroios, e eu vi a minha cidade decair ao longo dos últimos quatro anos. Eu vi um presidente de câmara que qualquer problema foi tentando passá-lo ao próximo, que não ao mesmo. Ao governo, quando o governo era do Partido Socialista, aos presidentes de junta, quando o problema é dos lixos, aos governos anteriores da Câmara Municipal, quando tivemos a terrível tragédia do elevador. Isso não é nada. As pessoas querem quem resolva problemas, querem quem assuma responsabilidades e eu acredito que a Alexandra Leitão é a pessoa que traz este perfil para a câmara, além de trazer as melhores soluções técnicas.

Marta Temido, muito obrigado pela sua participação neste Explicador. Um bom dia e uma boa semana.

Bom dia. Obrigada. Bom trabalho. Obrigada.

Bom dia.