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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, esta segunda-feira, sobre o sismo sentido esta madrugada. E por isso convidámos para estar conosco nas manhãs de 360, Aníbal Costa, especialista em engenharia sísmica. Este explicador é conduzido pelo Paulo Ferreira e pelo Bruno Vieira Amaral.

E parte do país acordou hoje com um sismo de magnitude 5,3 na escala de Richter, e cujo epicentro se localizou a cerca de 60 quilômetros a oeste de Sines. Aníbal Costa, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Em termos de intensidade e gravidade, como é que se pode classificar este sismo que teve, repito, 5,3 pontos de magnitude na escala de Richter?

Este sismo tem uma magnitude relativamente baixa ou moderada e sendo um sismo próximo, nós temos dois tipos de sismos em Portugal, os chamados sismos próximos. A maior parte das vezes até com epicentro em terra e quando tem epicentro em terra, esses sismos são relativamente danosos. Mesmo com esta magnitude, se o sismo fosse em terra e próximo de alguma localidade, poderia trazer alguns problemas, alguns danos a alguns edifícios. Neste caso, como foi um sismo no mar, com uma magnitude moderada e com uma profundidade local, o epicentro está lá a 19 quilômetros, o seu efeito é um efeito mais localizado, embora depois as ondas se façam propagar por todo o país. Eu moro em Ílhavo e senti. Não sabia que era um sismo, mas acordei porque senti o vidro a abanar. Achei estranho, mas na altura não refleti, entretanto passou e eu continuei a dormir. Mas é um sismo que se faz sentir, mas não tem magnitude suficiente para produzir danos. Se fosse um sismo afastado, normalmente com uma magnitude superior e pode chegar a 8,9, e normalmente a profundidade local fica entre 40 a 50 quilômetros, aí os seus efeitos são muito mais devastadores.

Um sismo da mesma intensidade, mas que fosse em terra poderia provocar muito mais estragos.

Poderia dar. Normalmente nós o risco sísmico associamos três fatores. Por um lado, o próprio sismo, por outro lado, a vulnerabilidade das construções, o fato de elas poderem ter pontos vulneráveis, e depois o que nós chamamos, no fundo, da presença de pessoas. A exposição. Quando temos pessoas ou temos casas. No fundo, quando o risco é elevado, é sinal que estes três fatores se conjugam, portanto temos um sismo próximo de construções e onde vivem pessoas. Por isso é que o risco sísmico em Lisboa é muito elevado, não é pelo fato do sismo, a magnitude do sismo se fazer sentir com muito efeito em Lisboa, mas sim pelo fato de ter muitas pessoas e muita construção.

E muita construção. E depois deste sismo, já houve várias réplicas de uma magnitude bastante inferior e que não foram sentidas pela população, mas é expectável que nos próximos dias haja maior atividade sísmica relacionada com esta ocorrência?

Em princípio, não. Não é normal. Muitas vezes, nas primeiras horas, às vezes aparece um sismo com uma magnitude parecida ou mais abaixo um pouquinho. Neste caso, as magnitudes são imperceptíveis, só pelos aparelhos é que é registada. E portanto, neste caso, não é normal que venha a aparecer nenhum sismo que venha a ser sentido novamente pelas pessoas. Não é expectável.

Aníbal Costa, o risco sísmico de Portugal é apontado por todos os especialistas, que dizem que é considerável ou elevado mesmo. Há medidas que se possam e devam ser tomadas para reduzir o impacto de um sismo mais grave?

O risco sísmico em Portugal é elevado e é um risco sísmico bastante perigoso, porque a distância temporal entre os sismos importantes em Portugal são cerca de 200 anos. Nós tivemos uma grande crise sísmica no século XIV, outra no século XVI, outra no século XVIII, portanto, mais ou menos 200 anos e portanto, estaria numa altura poder ter um outro evento sísmico muito importante. E como este espaço é muito grande, a memória das pessoas é curta e, no fundo, as pessoas esquecem-se e os próprios políticos esquecem-se da importância de ter uma construção segura. O que mata as pessoas não é o sismo, são os edifícios. E nós temos um parque edificado muito variado e ao longo dos anos, com muitas alterações em termos de sistemas estruturais, com vários tipos de construções, muitas delas vulneráveis ao sismo, e em Lisboa há os edifícios que nós chamamos edifícios em placa, que são edifícios muito perigosos, são edifícios que têm uma laje tão armada e essas lajes normalmente é que matam as pessoas. E nós temos um parque edificado com alguns problemas, vulnerável ao sismo.

Mas existem dados quanto ao número de edifícios nessas condições e ao número de pessoas que vivem nesses edifícios?

Sim, existe um trabalho da Maria Luísa Sousa, que é uma investigadora do LNEC, fez uma tese exatamente sobre o levantamento deste parque edificado e quantificou o número de edifícios. Por exemplo, na zona de Alvalade, em Lisboa, existem muitos desses tipos de edifícios Esse edifício e os diversos temas construtivos, isto não só em Lisboa como no resto do país, já há um levantamento sobre isso. E nos últimos anos tem se feito um grande trabalho. A SPEA, que é a Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica, eu também fui um dos presidentes dessa sociedade, desenvolveu ao longo dos últimos 40 anos um trabalho contínuo de investigação e levantamento desses dados e propôs, há mais de 20 anos, uma atuação programada de reforço das construções. Há muito parque edificado a ser reabilitado e reforçado, e isso tem sido feito com tempo e com dinheiro, e o dinheiro tem sido espaçado no tempo, para se poder fazer uma reabilitação e um reforço sério da maior parte dos edifícios. Esse trabalho foi proposto, é evidente que nunca chegou a ser feito. Ultimamente, no último ano, o próprio LNEC apresentou também um plano dessa natureza, com intervenções ao longo dos anos para se fazer o reforço dos edifícios. E neste momento, nós felizmente tivemos em 2019 a publicação dos dois decretos-leis, o 55 e o 302, que no fundo veio obrigar a fazer relatórios de avaliação de vulnerabilidade sísmica, os chamados RAVS, que, por exemplo, o município de Lisboa está a implementar em Lisboa até com muito rigor e com uma equipa muito forte e muito alargada de pessoas a intervir neste processo. Mas neste momento é obrigatório em todo o país fazer este relatório de avaliação de vulnerabilidade sísmica, para quando se vai intervir no edifício, as pessoas saberem se o seu edifício está preparado para um sismo ou não. Isso obriga depois a tomar medidas de reforço.

Mas existe algum plano de reforço desses edifícios mais antigos e mais vulneráveis?

Existe. A academia tem trabalhado neste momento. Há muitos anos atrás, era essencialmente o Laboratório Nacional de Engenharia Civil que trabalhava nessa área, desde 50 e pouco, 55, quando saiu o primeiro regulamento antissísmico. Mas nos últimos anos, todas as universidades, do norte ao sul do país, têm trabalhado bastante ao nível nacional e ao nível internacional. Nós somos uma equipa muito forte a nível mundial nessa área da engenharia sísmica e tem-se feito muito trabalho de investigação em todas as universidades e há, neste momento, muitas técnicas já desenvolvidas, experimentadas e testadas nos Açores. Na sequência do sismo de 1998 nos Açores, fizeram-se uma série de ensaios em casas que ficaram danificadas com o sismo e onde testaram várias soluções de reforço. Testadas em ambiente prático, com construções antigas, e onde se têm testado várias soluções, quer em laboratório, quer no local, para provar a eficiência das mesmas, e muitas delas têm sido usadas já em muitos edifícios.

Aníbal Costa, deixe-me só perguntar em relação às novas construções, se existe essa fiscalização, se são cumpridas essas normas, essas diretrizes.

Em relação às novas construções, nós temos, neste momento, uma regulamentação. Já tínhamos. A partir dos anos de 1983, com a saída da regulamentação nacional, tínhamos uma belíssima regulamentação antissísmica, que foi implementada a partir dos anos 80. É evidente que a implementação deste tipo de regulamentação demora sempre algum tempo a chegar à prática, a chegar à obra em si. Cerca de 10 anos é o que nós normalmente estimamos, até porque foi necessário, nessa altura, dar cursos de formação à maior parte dos engenheiros ao nível nacional, para ensinar como é que se havia de fazer e como é que se havia de pensar. Mas a partir dessa altura, nós passamos a ter uma das melhores regulamentações do mundo a nível de engenharia sísmica. Nesse momento, o Eurocódigo, uma regulamentação europeia, é obrigatório usar em toda a Europa e também em Portugal. Desde que quem está a projetar o projecte segundo os Eurocódigos e respeite a regulamentação que está em vigor, o edifício fica seguro. O problema disso está sempre até que ponto essa regulamentação é aplicada e até que ponto depois, na própria construção, são seguidos o que está previsto em projeto.

E sobre isso, Aníbal Costa, temos dados sobre isso. Uma coisa é nós termos as leis, os decretos e os planos feitos, outra coisa é depois aplicarmos na prática.

Pois era isso que eu estava a dizer. Uma coisa é nós fazermos os projetos, outra coisa é depois termos a certeza de ter aquilo aplicado. E o que se passa com o sismo, é que o sismo detecta todos os pontos fracos.

Há um problema depois de ele acontecer.

Exatamente. O sismo detecta esses pontos fracos e o edifício colapsa. Nós estivemos, por exemplo, em Los Angeles, na sequência do sismo de 1994, onde aí já há uma experiência acumulada de muitos anos, e quando estivemos lá na sequência do sismo, verificamos que muitos edifícios colapsaram e muitos deles até estavam bem projetados e bem dimensionados, depois há falhas pormenores. E isso é o suficiente para a maior parte dos edifícios caírem e caírem produzindo muitas vezes mortes.

Aníbal Costa, tendo em conta isso também e as informações que as estruturas dos edifícios nos podem dar, um sismo como o de hoje, por exemplo, com este nível de intensidade, pode dizer-nos alguma coisa sobre as estruturas? Isto é, o que é que os técnicos, agora os especialistas, e as pessoas, agora entidades, que têm responsabilidades sobre esta área, devem fazer hoje, na sequência deste sismo, para tentar apurar dados sobre eventual resistência de edifícios?

Devem fazer aquilo que nós temos recomendado e que já existem quer normas e uma Publicações sobre esse assunto, que é fazer o levantamento. Já existem grande parte das situações e fazerem, no fundo, o relatório de avaliação de vulnerabilidade sísmica. Ou seja, o relatório de avaliação de vulnerabilidade sísmica é obrigatório quando se está a proceder à execução de obras de reabilitação no edifício, desde que sejam cumpridos quatro requisitos. Mas o dono de obra tem sempre a particularidade e até muitas vezes a obrigação de exigir que se faça isso. Ou seja, eu, se for comprar um apartamento, gostava de saber até que ponto. Se, como dizem, ele é um edifício da classe A ou B para efeitos térmicos, por que não é feito? Nós temos lutado há muitos anos por isso, por que não é feita a mesma classificação para a resistência sísmica?

Mas esse tipo de classificação ainda não existe.

Correu várias vezes, mas ainda não conseguimos implementar no mercado.

Portanto, ninguém sabe a capacidade de resistência do edifício onde se encontra ou onde tem a casa, por exemplo.

Sim, mas a ideia do relatório de avaliação de vulnerabilidade sísmica passou a ser obrigatória desde 2022. Porque ele saiu em 2019, mas depois foi dado um tempo de três anos para fazer a transição entre a antiga regulamentação e essa nova. Este relatório de avaliação de vulnerabilidade sísmica tem exatamente essa função. Quer dizer, a gente, quando faz um relatório de avaliação de vulnerabilidade sísmica de um edifício, é para saber se ele está preparado ou não para resistir ao sismo. E, portanto, isso é uma medida que neste momento está implementada, é obrigatória, que muitas câmaras estão a seguir e estão a exigir em todo o país, nomeadamente, por exemplo, para escolas, tudo seja edifícios públicos, tudo que seja edifício, nós chamamos classe de importância três. Normalmente, os edifícios comuns de habitação são da classe de importância dois. Nós chamamos edifícios de classe de importância normal.

Então deixa eu me perguntar relativamente às infraestruturas críticas como pontes, barragens, agora estava a mencionar as escolas. Existem dados mais concretos sobre a resistência, a qualidade dessas construções?

Isso, neste momento, também é parte das câmaras que estão a fazê-lo. Nós temos recebido alguns pedidos para várias câmaras no país, onde se estão exatamente a pedir relatórios de avaliação de vulnerabilidade sísmica para as escolas, para poder reforçá-las. Mas isso devia ser obrigatório em todo o país, como devia ser obrigatório em todo o país para edifícios, portanto, hospitais, essencialmente hospitais. Nós ainda agora vimos este último hospital, foi preciso o Tribunal de Contas exigir que se fizesse o isolamento sísmico, que é uma medida que quando é prevista num projeto novo, é uma medida que não é onerosa para o custo do edifício, fica praticamente ao mesmo preço, em termos estruturais, o valor final, e devia ser obrigatório para todos os hospitais, porque o isolamento sísmico está aprovado em todo o mundo. Aliás, no Japão, praticamente todos os edifícios têm isolamento sísmico, por isso é que eles não têm grandes problemas, embora tenham sismos com magnitude muito elevada. E, portanto, é uma solução que resolve os problemas sísmicos de infraestruturas críticas e para as infraestruturas críticas, isso devia ser obrigatório. E devia ser obrigatório imposto por lei. E, portanto, neste momento, nem se percebe por que se ainda se constroem hospitais em Portugal sem isolamento sísmico. Neste último, foi preciso o Tribunal de Contas exigir que fosse implementado o isolamento sísmico, mas não devia ser o Tribunal de Contas, devia ser obrigatório. Todos os hospitais devem ter isolamento sísmico, porque é uma unidade que obrigatoriamente tem que estar a funcionar após um sismo.

Aníbal Costa, deixa eu me perguntar. Este tipo de sismo, desta intensidade, normalmente não provocam danos significativos nos edifícios, mas este sismo em particular pode ter provocado algum tipo de danos que necessite de avaliação em edifícios mais antigos, mais vulneráveis. É possível fazer essa avaliação no terreno?

Não, como eu disse, este tipo de sismo, sendo um sismo próximo, normalmente provoca mais danos em edifícios mais antigos, de alvenaria, de adobo, portanto, construções mais baixas, mas teria que ser um sismo com epicentro em terra e próximo destas construções. Neste caso, não acredito que tenha provocado dano nenhum, portanto não será necessário fazer essa avaliação. Agora, este sismo serve como um aviso e muitas vezes é um pronúncio de alguma coisa. Ou seja, é preciso que, pelo menos, ele desperte as consciências das entidades para que é preciso fazer algo, para que quando houver um sismo com uma magnitude mais elevada, nós não estejamos depois a lamentar o que se passou na sequência desse sismo. Portanto, isso serve como um aviso e é importante que estes avisos sejam tidos em conta e em devida consideração.

Aníbal Costa, especialista em engenharia sísmica, muito obrigado pela sua participação neste Explicador. Um bom dia e uma boa semana.

Obrigado. Bom dia.