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Começa agora o Explicador da Rádio Observador. António José Seguro admite a possibilidade de se candidatar à Presidência da República. Para falar do cenário para as presidenciais, convidamos para o Explicador desta sexta-feira Francisco Assis, eurodeputado eleito pelo PS, António Capucho, antigo conselheiro de Estado, fundador do PSD. A moderação deste Explicador está a cargo do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral. Muito bom dia, bem-vindos a este Explicador. O ex-líder socialista regressou ontem ao espaço público com uma entrevista dada à TVI e à CNN. António José Seguro disse que estava a ponderar uma candidatura a Belém. Francisco Assis, bom dia. Começando por si, pelo que ouviu ontem a António José Seguro, acha que ele está mesmo com vontade de entrar na corrida presidencial?

Em primeiro lugar, queria saudá-lo e queria muito particularmente saudar o doutor António Capucho, que fomos colegas como líderes parlamentares há muitos anos e já há uns tempos que não conversávamos e é uma das pessoas da vida política por quem tenho o maior dos respeitos. Em relação à entrevista do António Seguro ontem, eu não tive a oportunidade de ouvir essa entrevista, tenciono ouvi-la hoje. Há uma coisa que quero dizer desde já: se porventura o António José Seguro entender candidatar-se à Presidência da República, contará com o meu apoio.

Mesmo sem saber quem são os eventuais outros candidatos?

Sim, contará com o meu apoio, porque não é um apoio por eliminação, é um apoio por convicção, neste caso. Eu tenho uma longa relação de amizade e de companheirismo político com o António José Seguro. Nem sempre estivemos do mesmo lado. Fomos, aliás, adversários há uns anos da disputa pela liderança do Partido Socialista e na altura ele ganhou e eu perdi. Isso não impediu que pouco tempo depois nos tivéssemos reaproximado. Sendo ele secretário-geral do PS, convidou-me justamente para encabeçar a lista do partido para o Parlamento Europeu. Na sequência de uma crise interna, convidou-me também para integrar o Secretariado Nacional do Partido Socialista e trabalhamos juntos, e trabalhamos bem. E depois até mais tarde, quando ele foi de novo candidato a secretário-geral e dessa vez foi ele derrotado por António Costa, eu apoiei a candidatura de António José Seguro. Temos uma longa relação, portanto, de amizade, de companheirismo, conheço-o muitíssimo bem e julgo que ele tem, francamente, as características adequadas para o exercício da função de Presidente da República.

Mas esteve afastado da vida política nestes últimos 10 anos. Esteve em silêncio durante estes 10 anos. Mesmo assim, acha que será o candidato mais forte à esquerda?

Eu estou convencido disso. Estou convencido que é um fortíssimo candidato, não só à esquerda. Eu acho que é um candidato com uma capacidade de penetração eleitoral muito ampla à esquerda e no centro e até, provavelmente, nalguns setores do centro-direita. Sabemos porque é que ele esteve em silêncio durante estes 10 anos. Estar em silêncio não significa que não tenha acompanhado a vida política internacional e nacional, que não tenha desenvolvido um pensamento sobre os mais diversos assuntos. Ele saiu na sequência da crise política que foi criada no Partido Socialista, justamente depois dessas eleições para o Parlamento Europeu, que o PS ganhou, e alguns entenderam que o PS tinha ganho por pouco e então acharam por bem afastar o doutor António José Seguro da liderança do PS e conseguiram fazê-lo com o voto majoritário. Não está aqui em causa a legitimidade processual. Fizeram e ele optou por um caminho, que foi: "A partir do momento em que fui afastado da liderança do Partido Socialista nestes termos, devo permanecer em silêncio." Foi esse o raciocínio, creio eu, que ele fez. E permaneceu em silêncio durante estes anos todos. E agora regressa. É um homem, como ia dizer, e essas são as qualidades, é um homem ponderado, é um homem moderado, é um homem com conhecimento profundo da realidade nacional e da realidade internacional, que tem acompanhado as principais questões que se colocam e com uma capacidade de diálogo muito grande, quer à esquerda, quer à direita. Eu penso que as características dele se adequam absolutamente à função de Presidente da República. Por isso, reitero, sejam quem forem os outros candidatos, se o António José Seguro avançar, como parece estar a ponderar, para a Presidência da República, eu estarei a apoiá-lo.

Está aqui já o primeiro apoio. António Capucho, bom dia, bem-vindo também a este Explicador. António José Seguro, com o seu posicionamento mais ao centro, se quisermos, será o candidato, talvez à área socialista, que a direita mais deve temer?

Permita-me primeiro que agradeça ao doutor Francisco Assis as palavras amigas que aqui deixou e dizer que são recíprocas, ou seja, também eu tenho por ele uma enorme admiração e estima. Em relação à intervenção de ontem do doutor António José Seguro, que eu assisti, foi uma lufada de ar fresco que muito me entusiasmou, no sentido em que é alguém que foi desmistrado da liderança do Partido Socialista de uma forma que eu considero miserável e teve depois uma atitude, até hoje, fantástica. Ou seja, resolveu assumir um período de nojo, esteve afastado da vida política, da intervenção política durante 10 anos, entendeu agora, felizmente, digo eu, para a política portuguesa e para não apenas o Partido Socialista, mas para a democracia portuguesa, resolveu reaparecer e assumir uma intervenção política, admitindo a possibilidade de se candidatar à Presidência da República, o que seria, do meu ponto de vista, excelente para o país e ainda mais excelente para o Partido Socialista, porque, com franqueza, outros candidatos que tenho visto avançar, na opinião de destacados dirigentes socialistas, não têm, nem de perto nem de longe, as mesmas características positivas que ele tem para assumir este cargo. É um social-democrata do centro e, por isso, neste momento, ao assumir esta disponibilidade de comentar a política nacional na televisão, vai assumir um défice que ele tinha de notoriedade destes 10 anos de apagamento e passará a ter uma presença semanal junto dos eleitores, o que será extremamente importante para ele em termos eleitorais.

Precisamente nesse sentido, António Capucho, não será um candidato muito perigoso, se quiser, em termos eleitorais, obviamente, para a direita, com mais reais hipóteses de vencer Marques Mendes ou Paulo Portas ou Govêa e Melo, que se apresentem à direita?

Olha, em primeiro lugar, como não sou de direita, isso não me preocupa muito. Eu sou do centro, se quiser, do centro-esquerda, do Partido Social-Democrata.

Então, se quiser, desse espaço do PSD, vamos pôr as coisas assim.

Desculpe esta reação.

Não, fez bem em corrigir.

Não sou recetivo a esta tendência que há, neste momento, em considerar o Partido Social-Democrata um partido de direita. Está na direita do Parlamento, evidentemente que está. Está à direita do Partido Socialista, mas eu assumo como um homem do centro, se quiser, do centro-esquerda, um social-democrata. Bom, de qualquer maneira, à partida eu não sei quem serão os candidatos do PSD.

Então estaria disponível para apoiar António José Seguro? Para manifestar o apoio tal como fez Francisco Assis?

Eu apoiaria um candidato de todo partido. Olhe, nomeadamente apoiei a candidatura do doutor Francisco Assis ao Parlamento Europeu no seu tempo. Depende. Não sei quem é que avançará dentro do Partido Social-Democrata. Em princípio, será um candidato que terá o meu apoio, mas depende da personalidade que vier a avançar. Há muitos de quem se fala agora como putativos candidatos.

Já podemos falar desses nomes. Deixe-me só ouvir aqui o Francisco Assis a propósito desta disponibilidade de António José Seguro. Também já existe Mário Centeno. A direção do PS, Francisco Assis, vai ter aqui uma decisão difícil para saber a quem deve dar o apoio. Vai ficar também limitada por este impasse, porque António José Seguro, a anunciar a sua candidatura, não o fará imediatamente. Deveria a direção do PS também forçar um candidato a assumir-se, a chegar-se à frente?

Não, a direção do PS o que tem que fazer é aguardar. Os candidatos não são emanações das direções partidárias, mal seria se assim fosse. Um candidato à Presidência da República é resultado de uma vontade própria e autónoma. E a direção do Partido Socialista, o que tem que fazer é esperar. Não estamos ainda num período em que tenhamos que tomar decisões a toda a pressa, tem que esperar pela evolução da situação mais alguns meses. Certamente que quem está a ponderar ser candidato, dentro de algum tempo terá a decisão é ou não é. E esse será o tempo em que a direção do partido terá que se pronunciar.

Mas o partido pode ficar numa daquelas situações dividido entre dois candidatos e acabar por essa divisão custar as eleições?

O PS só ficou dividido entre dois candidatos quando verdadeiramente não tinha nenhum candidato. É até preciso dizermos isso, quando tinha um candidato e recusava esse candidato e promovia outros candidatos. O PS desvalorizou claramente a Presidência da República no ciclo político anterior. E por isso mesmo é que nunca apoiou claramente ninguém à Presidência da República.

Estava desfeito o PS com, por exemplo, o Marcelo Rebelo de Sousa? Era conveniente?

Não quero entrar agora aqui numa polêmica sobre o passado, um dia falarei sobre isso. Entendo que houve razões, sobretudo na última candidatura, de puro oportunismo político que levaram a que a direção do Partido Socialista apoiasse claramente a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa e ostracizasse a candidatura de Ana Gomes. Mas isso são águas passadas, não estou extremamente preocupado com esse assunto. Um dia falarei quando tivermos a oportunidade de avaliar esse período histórico. Mas a questão é esta: a direção do Partido Socialista não tinha candidatos porque lhes era conveniente. Na altura, era o raciocínio que faziam, lhes era conveniente não terem candidatos à Presidência da República. A meu ver, mal, muito mal. E percebeu-se mais tarde quão mau isso era. Neste momento, esta direção do Partido Socialista, que é uma direção completamente diferente sob vários pontos de vista, já deixou claro que vai apoiar um candidato a Presidente da República.

A questão é também saber se vai ficar à espera apenas dos candidatos.

Não, a direção não tem que ser ela própria a gerar um candidato, isso seria absurdo. Tem é que pronunciar-se claramente a partir de um dado momento. Imaginemos que o António Seguro, tal como espero que venha a suceder, e depois da declaração de ontem parece que é isso que vai suceder, que o António José Seguro apresenta dentro de alguns tempos a candidatura à Presidência da República. Feito isso, evidentemente que a direção do Partido Socialista está confrontada com uma situação nova. E aí, sim, terá que se pronunciar sobre o assunto. Recordo que Pedro Nuno Santos, numa entrevista recente, há um mês e meio, dois meses, fez uma declaração em que terá sido pela primeira vez que um dirigente no ativo do Partido Socialista fez uma declaração em que colocou a hipótese do António Seguro. Colocou outras, mas também colocou a hipótese do António José Seguro. Mas enfim, esse é outro momento e vamos esperar por ele. E eu não quero estar também a antecipar-me ao que vai ser a decisão da direção do Partido Socialista, que não integro. Mas o que me parece evidente é que vai haver uma posição clara, isso o próprio Pedro Nuno Santos anunciou no Congresso. Vai haver uma posição clara. O Pedro Nuno Santos é um homem que tem esta característica que eu muito valorizo: não se esconde, não opta pelo calculismo primário no tratamento dos mais diversos assuntos, toma posições claras, umas vezes concordamos, outras vezes não concordamos, mas tem esse mérito de tomar posições claras sobre os mais diversos assuntos. Estou certo que a direção do PS Vai apoiar um candidato presidencial forte e francamente espero duas coisas: que António José Seguro se apresente na altura própria como candidato e que a seguir a direção do PS apoie a candidatura, que o Partido Socialista apoie a candidatura. Aliás, o que tenho notado, devo dizer, visto agora aquele exercício matinal que todos fazemos, que é ver as mensagens que nos chegaram durante a noite nos nossos telemóveis, eu vi, tenho aqui centenas de mensagens de militantes do Partido Socialista que manifestam o seu contentamento por esta declaração do António José Seguro. Portanto, começo a perceber que me parece haver no PS um grande contentamento.

Uma vaga de fundo, como se costuma dizer.

Acredito que tal venha mesmo a surgir. Não quero estar a antecipar, não a vou promover, como é evidente, mas acredito que isso possa acontecer.

António Capucho, e como é à direita ou, se quiser, começando no espaço social-democrata em que se inclui Marques Mendes, depois mais à direita, Paulo Portas, Gouveia e Melo, como é que olha para os nomes que se vão perfilando mais à direita?

Eu não vou pronunciar-me sobre nomes neste momento, porque é extremamente desagradável para com essas pessoas, com muitas delas tenho relações de amizade. Eu direi simplesmente o seguinte: nas eleições presidenciais não há disciplina partidária, ou seja, cada um vota naquilo que muito bem entender. Por outro lado, devo dizer o seguinte: no último congresso, eu que apoiei e apoio, não fui no congresso que o elegeu, mas estou a apoiar a orientação política definida pelo líder do PSD, doutor Luís Montenegro, definida no último congresso. Mas há um ponto que eu discordo, portanto, foi uma exceção à regra, concordo inteiramente com a orientação estratégica que ele definiu, mas houve ali um ponto em que não me pareceu correto, que diz que necessariamente o candidato a apoiar pelo PSD será necessariamente um militante do PSD. Claro que eu rejubilaria, como já disse, e já agora vou falar no nome, que o candidato que o PSD viesse a apoiar fosse uma mulher social-democrata, militante do PSD, e falei na altura na doutora Lina Bessa, que já disse: "Não, muito obrigada, não estou disponível." Por isso é que eu falo o nome dela, porque ela já disse que não estava disponível. Não falarei noutros que se sabe que são putativos candidatos, como o doutor Marques Mendes ou o senhor almirante, enfim, outros que possam aparecer.

Mas será importante o PSD ter um candidato da sua área política, mesmo que não seja militante do partido?

Claro. E isso pra mim é o essencial, com o qual o PSD se possa identificar no sentido ideológico e que possa dar garantias de ser alguém que vai cumprir o mandato de uma forma equilibrada e de uma forma patriótica. Se me perguntar se de fato o doutor Seguro reúne estas condições, claro que reúne, isso é evidente. Mas poderá haver outro que, a par da candidatura dele, possa também merecer da nossa parte, da parte do PSD, igual adjetivação.

Quase no fim deste Explicador. Francisco Assis, não resistimos telegraficamente a fazer-lhe esta pergunta, se é que a posso fazer. António José Seguro disse ontem que nos últimos tempos tem falado com algumas pessoas, até que no fundo ligado também à sua possível candidatura a Belém. Tem falado com António José Seguro sobre essas questões?

Estive com ele no verão. Encontrei pessoalmente no verão e falamos de tudo, duas pessoas que estão na vida política, que são amigas, que têm um percurso comum há muito tempo, naturalmente que falam de tudo e obviamente também falamos desse assunto.

Muito bem. Obrigado a ambos, Francisco Assis, António Capucho, pela presença neste Explicador. Bom dia, boa sexta-feira, bom fim de semana. Obrigado.

Muito obrigado igualmente.