Uma das novidades das últimas semanas em Portugal tem sido o aparecimento na narrativa mediática da possibilidade de um bloco central, ou de uma espécie de sucedâneo mais informal. Primeiro, um grupo de empresários e antigos ministros de governos de Cavaco Silva e António Guterres (entre eles José Roquette, Daniel Bessa, Miguel Cadilhe e Silva Peneda) lançou a questão num manifesto, apelando a que PS e PSD iniciem negociações para um acordo de médio e longo prazo para além dos ciclos eleitorais. Os insignes signatários, a fina flor do pensamento tecnocrático indígena, defendem reformas estruturais (sistema eleitoral, descentralização, justiça, educação, fiscalidade, etc., etc.), as quais, advogam eles, exigiriam duas ou três legislaturas pejadas pelo bem maior do politiquês nacional — a famigerada estabilidade.

Depois, num plenário de militantes socialistas em Ovar, foi a vez de Carlos César admitir a possibilidade, isto se o Chega vencesse eleições legislativas, para um entendimento tipo bloco central como “alternativa derradeira” visando impedir a  “extrema-direita” de chegar ao poder. Ao mesmo tempo, defendeu uma “obrigação recíproca” entre PS e PSD: se um dos dois vencer eleições, o outro deve assegurar condições de governabilidade longe do Chega, ou seja do lado de dentro do cordão sanitário. No fundo, é a reformulação por outros termos da tese das linhas encarnadas e do “não é não”. César deixou ainda claro que não defende coligações governamentais de bloco central em circunstâncias normais: naturalmente, o poder é para o PS, o dever de apoiar é para o PSD.

No dia seguinte, foi a vez de José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, aparecer a rejeitar explicitamente a ideia de bloco central. Primeiro, nas Conferências do Estoril, depois numa entrevista à TSF/JN, afirmou o estimável candidato a primeiro-ministro que “não é desejável um bloco central” já que é “importante para a democracia que haja uma alternativa clara entre os dois principais partidos democráticos portugueses”, entenda-se o PS e o PSD. Terá razão. Mas, e atente-se na adversativa, não deixou de seguir Carlos César, pedindo também “reciprocidade” ao PSD: ou seja, se o PS vencer eleições futuras e ficar sem maioria absoluta, o PSD que permita a formação e governação de um executivo socialista.

Dias antes, quem também falou do tema foi o célebre crítico gastronómico Isaltino de Morais. Na Grande Entrevista da RTP, com a agitação popular campista espalhada pelos centros das cidades portuguesas em pano de fundo, defendeu Isaltino que “o PS e o PSD têm de se entender em muitas matérias”, sendo a habitação uma delas. Avisou também que, se nada mudar, dada a incapacidade dos dois partidos para apresentar reformas, André Ventura poderá chegar a primeiro-ministro. Em alternativa ao sucesso desse entendimento PSD-PS, Isaltino defendeu ainda a criação de um novo partido de centro “moderado”, dizendo que “o centro está livre e precisa de ser ocupado”. Magnânimo, admite ajudar a tal desiderato, mas nunca a ser o líder de tal nobilíssimo projecto político.

Em suma? A solução está, come se percebe, ao centro. Ora, de tudo isto, sobressaem algumas ideias que são importantes. Desde logo, Luís Montenegro e a sua governação só podem estar de parabéns: foi preciso muito talento político para conseguir, em apenas dois anos e meio, transformar o PS de um partido esfrangalhado, que acabara de ficar atrás do Chega, numa alternativa de governo para sequer ser levada a sério. Pior, tão séria alternativa é agora o PS que, além de liderar sondagens, já consegue focar a discussão política em torno, não das políticas que propõe que justificariam trocar a AD pelo PS na governação do país, mas, atente-se na arte do spin mediático, na forma como a AD, ou o PSD (não são coisas muito diferentes), deverão apoiar um governo PS: quer através de pactos de médio e longo prazo ou, em alternativa, apenas viabilizando “responsavelmente” governos e orçamentos socialistas.

A doutrina centrista, claro está, faz sempre o seu caminho, em particular quando interessa ao PS. E, se há doutrina que serve os interesses do PS é precisamente a de limitar moral e eticamente as possibilidades políticas dos adversários àquelas que garantem aquilo que o PS mais gosta e sabe fazer: ocupar o poleiro do poder para continuar gerindo, devagar e devagarinho, no pleno cumprimento da promíscua interpretação daquilo que imagina como sendo o interesse nacional, o inexorável e angustiante declínio social, económico e político de Portugal — tal como na maior parte dos últimos 30 anos.

Em resumo, a narrativa que congrega a discussão do comentariado e dos bem-pensantes varia, mas sempre no sentido do mesmo beneficiário: quando o PS corria o risco de perder o poder e saltava à vista a probabilidade do PSD (ou AD) formar governo, a grande questão era a obrigação ética e moral do PSD em respeitar as linhas vermelhas e aceitar que não poderia fazer qualquer tipo de acordo com o Chega; quando é a vez do PSD arriscar-se a perder as eleições, e o PS a ganhá-las, a grande questão continua a ser a obrigação ética e moral do PSD, apenas que desta feita para viabilizar a hipotética governação socialista. É a vidinha do costume.

Convenientemente, de fora ficam em regime de permanência todas as outras possibilidades de estratégia e acção políticas, indignas, impensáveis, inaceitáveis para o PSD, mas que, quando necessárias, naturalmente, em nome do tal perverso interesse nacional socialista, o PS não se coibiu de implementar. Afinal, por que razão se há-de permitir à direita aquilo que se permite à esquerda? Fica o mistério.

Ainda assim, a responsabilidade política por esta limitação estratégica na qual a direita, em particular o PSD, se vê enredado não deixa de ser responsabilidade do próprio PSD, em particular do seu líder. Afinal, seja por inabilidade comunicacional, fraqueza face à pressão, ou simples falta de visão, foi Montenegro que se enfiou por vontade própria, e com orgulho moralista, no colete de forças do qual agora não consegue sair.

Uma outra ideia sai do manifesto pelo entendimento central. Curiosamente, aparece poucas semanas depois de Passos Coelho ter vindo a terreiro anunciar que, em caso de necessidade, bem como havendo oportunidade, saberia bem o que fazer com o cargo de primeiro-ministro. Primeiro, é certo, em sintonia com o desiderato dos “manifestantes” ex-governamentais, advogando a necessidade absoluta de um grande número de reformas; depois, mais relevante, procurando na Assembleia da República condições de governabilidade capazes de implementar essas mesmas reformas. Para Passos as coisas são claras: as reformas que todos parecem desejar não são possíveis de implementar com o PS.

Ora, este entendimento de que é forçoso aproveitar a possibilidade de uma maioria à direita do PS, no caso com IL e Chega (em particular o Chega que é quem tem mais peso), ou seja, ao arrepio dos socialistas, reflecte uma noção, não apenas verdadeira hoje, mas que se tem empiricamente verificado como fundamental ao longo da história da democracia portuguesa nos momentos em que foi possível reformar alguma coisa: assim foi com Sá Carneiro e a AD original, tal como Cavaco e as suas maiorias absolutas, ou Passos e a PAF.

O PS é o partido mais anti-reformador de Portugal. Não é novidade, sempre assim foi. Daí, que dificilmente se compreenda como tão veteranas e venerandas figuras que de forma tão veemente desejam ver as tão propaladas reformas estruturais aplicadas em Portugal não tenham ainda percebido essa evidência. Mais estranho ainda será que, perante a possibilidade real de alguém com provas dadas (Passo Coelho) aparecer em cena com disponibilidade para gerar as condições políticas para implementar essas mesmas reformas, venham agora esses iluminados espíritos propor o único caminho que garante que nada de verdadeiramente reformador algum dia se fará.

O erro é, portanto, de base e, ao que parece, muitos no PSD, de tempos a tempos, tendem, inocentemente, a cair na esparrela. Assim foi em 83 com o bloco central original onde, igualmente para salvação da pátria e da democracia, a coligação com o PS acabou a gerar o espaço para o PRD obter praticamente 18% nas Legislativas de 85. Assim também foi durante a presidência de Rui Rio de onde, com um discurso curiosamente muito parecido com o deste manifesto apologista do entendimento PSD-PS, aliado à teimosia de colocar o PSD de forma contra-natura ao centro (esquerda), acabou por sair um Chega. Assim foi também com Montenegro com o seu “não é não” que pôs esse mesmo Chega já acima dos 25%.

A moral da história é simples: se o manifesto pelo centrão deseja o fortalecimento do Chega e acabar por levar Ventura a São Bento, então a estratégia que propõe, apesar de ineficaz para reformar o país, será bem-sucedida. Basta, aliás, olhar para a Alemanha (AfD), a França (Le Pen) e onde mais a estratégia do cordão sanitário contra a alegada “extrema-direita” foi seguida. Na actual liderança do PSD, infelizmente, e ao contrário de Passos, poucos parecem compreender esta realidade. Naturalmente, não apenas Ventura agradece como o PS também.

A ilusão de que o PSD conseguiria ocupar o centro e, sem Norte, navegando as oportunidades, sobreviver no poder, distribuindo jogo ora para a esquerda ora para a direita, é filha de todos estes equívocos e, por estes dias, tem-se revelado muito cara para o PSD, bem como proveitosa para o PS (e Chega). Não admira. No mundo real, apesar da histeria futeboleira característica do país, nem a política portuguesa se resume a um simples jogo da bola, nem Montenegro tem os talentos de número 10, nem o PSD é o PS.