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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Nesta edição das manhãs 360 de fim de semana, falamos sobre a segunda volta das eleições presidenciais que se realiza hoje em vários pontos do país. Para isso convidamos para estar conosco dois autarcas das zonas mais afetadas pelo mau tempo e que vão hoje a votos. Destaque para Alcácer do Sal e Arruda dos Vinhos. A moderação deste Explicador é do João Gama. Alcácer do Sal e Arruda dos Vinhos, dois dos municípios que hoje vão a votos por causa do mau tempo. Temos conosco Clarice Campos, é presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, a quem desejo desde já muito bom dia. Clarice Campos, bem-vinda à Rádio Observador. Chegou a dizer que no domingo passado era impossível realizar eleições em Alcácer do Sal e quem estava sentado num gabinete não fazia a mínima ideia das dificuldades que o Conselho atravessava. Passada uma semana, pergunto, Clarice Campos, hoje já há condições para realizar estas eleições?

Bom dia. Exatamente, nós não temos neste momento nenhuma zona inundada na parte baixa da cidade. Desde ontem que continuamos os trabalhos de limpeza dos diferentes estabelecimentos comerciais, das casas particulares. Continuam hoje com a ajuda de muita gente, muitos voluntários aos quais agradeço a solidariedade e o apoio que nos têm emprestado, voluntários de Alcácer e de todas as partes do país que têm vindo durante o fim de semana para nos ajudar mais uma vez. Agora nós temos condições completamente diferentes desde a semana passada, para dizer que na semana passada toda a zona marginal estava inundada. Nós nem conseguíamos aceder ao local onde tínhamos os boletins de voto e tínhamos várias aldeias isoladas. Era impraticável conseguir deslocar, como fazemos hoje com os nossos transportes, com os nossos funcionários, fazer todo um circuito de transportes para levar as populações às mesas de voto. Relembro que estamos perante o segundo maior conselho do país e isto exige uma logística em termos de transporte municipal para levar os eleitores e mesmo os agentes das mesas de voto aos diferentes locais e há oito dias era impensável.

Ainda assim, hoje já com esse cenário mais otimista que a Clarice Campos nos está a descrever, o transporte dos eleitores tem que ser feito por parte da Câmara Municipal?

Sim, é algo que fazemos habitualmente. Mas, por exemplo, nós tivemos que concentrar as mesas de voto da cidade todas na escola preparatória, na Escola Pedro Nunes, porque os serviços onde habitualmente eram feitos ou foram afetados pelas inundações ou estão ao serviço com outras valências neste momento, também relacionado com as inundações. E por isso tivemos que concentrar as mesas de voto todas aqui na parte mais alta da cidade, na Escola Pedro Nunes, e isso faz com que o número de transportes e o número de autocarros para fazer esse transporte tenha aumentado. Salientar ainda que temos uma aldeia, a aldeia de Vale de Guize, que continua isolada, e colocámos um barco, porque é a única forma de vir votar, mas não quisemos deixar de permitir que quem queira, sabemos que vai ser difícil, mas quem queira exercer o direito que lhe assiste de votar, o possa fazer. Nós temos um barco em permanência e numa colaboração com a Marinha, temos um barco em permanência para trazer essas pessoas da aldeia de Vale de Guize para o Arejo, onde temos a mesa de voto para permitir que possam votar.

E dadas estas dificuldades que a Clarice Campos acaba de descrever, é esperada uma elevada abstenção hoje em Alcácer do Sal. Para um eleitor de Alcácer do Sal, as eleições são de alguma forma secundárias face a tudo o que aconteceu.

Olha, não tenho sentido isso. Acabei de sair aqui da Escola Pedro Nunes, onde temos sete mesas de voto a funcionar e a afluência tem sido boa, considerando as circunstâncias. Vou agora percorrer o Conselho para também me inteirar da forma como estão a decorrer as eleições nas restantes mesas do Conselho, mas aqui onde estão concentradas todas as mesas da cidade, repito, as pessoas estão a correr às mesas, estão a exercer o seu direito. Nós ao longo da semana fomos também apelando para que isso acontecesse. Vamos aguardar pelo encerramento das urnas.

Clarice Campos, deixe-me perguntar-lhe sobre a reconstrução do município. Neste momento, Alcácer do Sal está a sentir apoio do governo? Há muito trabalho a fazer para regressar a uma certa normalidade.

Eu tenho referido sempre isso. Nesta fase, até hoje, que estamos a falar de cerca de 18 dias que fomos afetados pelas chuvas e pelas inundações, ao longo destes 18 dias nós tivemos um trabalho e um apoio muito grande de todas as entidades, nomeadamente do governo. Todas as entidades envolvidas, Proteção Civil, bombeiros, o nosso subcomando regional, os nossos trabalhadores. Tivemos aqui um trabalho, voluntários, como já tinha referido, um trabalho enorme. E por parte do governo, nós também sentimos esse apoio. Qualquer telefonema que fizéssemos, tivemos aqui vários secretários de Estado, o senhor primeiro-ministro esteve aqui e a senhora ministra do Ambiente, que foi uma peça fundamental também para nos ajudar no reforço, para levar ao senhor ministro a importância que fosse declarado o estado de calamidade. Nós temos tido aqui um apoio muito grande nesta componente de proteger e de nos ajudar para que nós chegássemos até hoje sem ter qualquer vítima a lamentar. Nós temos muitos danos materiais, mas não temos pessoais. Tivemos aqui um apoio das Forças Armadas, da Marinha, toda a gente a suportar-nos e a apoiar-nos, obviamente mobilizados também pelo governo. Outra coisa que eu separo é a fase da reconstrução. E eu tive a oportunidade de dizer ao senhor primeiro-ministro que na fase da reconstrução, aquilo que está neste momento divulgado e que está disponível para os particulares e para as empresas, é pouco, é irrisório. Como eu já disse, não serve para recuperar tudo aquilo que ficou devastado. Não serve para recuperar as habitações que ficaram quase totalmente ou uma grande parte danificadas e não serve para reabilitar rapidamente os estabelecimentos comerciais, as clínicas, todos os estabelecimentos que ficaram aqui danificados e a maior parte deles, e falo dos alojamentos locais, da restauração, da hotelaria. Estas pessoas precisam rapidamente de voltar a trabalhar, para rapidamente voltar a entrar dinheiro e rapidamente poderem cumprir também esta sua função, porque nós vamos entrar numa época em que temos muita procura e se estas pessoas não estiverem prontas para corresponder e para receber quem nos visita e mesmo as nossas pessoas locais, não vão conseguir reerguer-se mais, porque não têm como.

Clarisse Campos, antes de chamar à conversa Carlos Alves, presidente da Câmara Municipal da Arruda dos Vinhos, queria só perguntar-lhe, hoje termina a situação de calamidade em perto de 60 municípios. Para Alcácer do Sal, acredita que esse estado de exceção devesse ser estendido?

Neste momento, acho que o que nos interessa agora, esta fase que importava estarmos em estado de calamidade, julgo que da nossa parte a ser estendido apenas se tivermos apoios diferenciados e que é isso que eu tenho defendido. Mas neste momento, aquilo que nós queremos é recuperar e que o governo olhe para todos nós, não só do nosso concelho, mas todos os afetados, e perceba que importa que as pessoas recebam um apoio a fundo perdido, porque ninguém dos pequenos comerciantes, e não estou a falar de grandes empresas, mas dos pequenos comerciantes, das pequenas empresas, uma grande maioria não tem seguro e outros também não têm hipótese de ir à banca endividarem-se, ainda que com taxas de juros mais baixas. E depois, permita-me só para concluir, falar dos municípios. Nós temos vários edifícios municipais completamente destruídos. Nós temos estradas municipais completamente destruídas. Precisamos mesmo que exista um pacote financeiro negociado para as autarquias para que nos possamos reabilitar. De outra forma, nós não vamos conseguir atender às necessidades dos munícipes e ao mesmo tempo reabilitar tudo aquilo que ficou destruído.

Clarisse Campos.

É fundamental que se pense nisto.

Muito obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador nesta edição do Explicador. Chamo à conversa Carlos Alves, é presidente da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos. Carlos Alves, muito bom dia. Como encara esta ida a votos da população de Arruda dos Vinhos? Há condições, neste momento, para a maioria dos moradores irem hoje às urnas?

Sim, estamos numa situação de maior tranquilidade e também digo mesmo de paz social, em que as pessoas estão com outra disponibilidade até para exercer esta obrigação de cidadania, que é votar. Neste momento, temos também um circuito de viaturas para fazer face àquilo que são algumas contingências. Também temos vindo a apostar naquilo que é transformar o nosso concelho, deixar de ser uma ilha e voltar a ser transitável. Portanto, a afluência, eventualmente, não temos dados que ainda é muito cedo, poderá ser um pouquinho afetada, mas aproveito a vossa oportunidade também para deixar aqui um apelo para toda a população votar. Fizemos muitos sacrifícios, as condições não eram as melhores e tivemos que ter essa obrigação pela segurança da população de adiar as eleições, mas hoje estão reunidas as condições e faço aqui esse apelo utilizando a Rádio Observador também para fazer esse apelo para as pessoas estarem presentes e dizerem sim, dizerem presente em nome de Arruda, em nome de todos nós, para votarem.

Estava a fazer esse apelo ao voto e também disse que ainda é muito cedo para haver dados sobre a abstenção. Ainda assim, Carlos Alves, podemos dizer que dadas as dificuldades e tudo o que aconteceu em Arruda dos Vinhos nas últimas semanas, para um eleitor de Arruda dos Vinhos, as eleições serão de alguma forma secundárias e isso pode levar a uma abstenção maior do que eleições noutros pontos do país?

Eu estou no pavilhão multiuso, onde temos oito mesas de voto, e o que eu posso dizer é que está a haver uma adesão muito boa, muito significativa. Portanto, as pessoas estão a aderir. Houve muita compreensão e solidariedade por parte dos munícipes de perceber o que levou a esta decisão. Eu quero crer que vai haver uma boa adesão, independentemente de existir já um resultado que é conhecido, mas os arrudenses são democratas e vão dizer certamente sim a este apelo que eu próprio lhes fiz, que era para virem votar.

Carlos Alves pediu várias vezes que o município de Arruda dos Vinhos fosse abrangido pela situação de calamidade, um apelo que fez semana passada ao lado do secretário-geral do Partido Socialista. Certo é que a situação termina hoje em perto de 60 municípios. O Carlos Alves chegou a ter uma resposta do governo a este apelo?

Não, que é algo que me deixa estupefacto. Numa situação que é de calamidade instalada, o Conselho de Arruda dos Vinhos não tem uma situação de calamidade, nem mesmo de contingência. E isso é algo que me deixa intranquilo. Tenho a garantia do senhor secretário de Estado Silvério Regalado que o enquadramento jurídico de Arruda não vai ser penalizador relativamente àquilo que são as medidas que já estão em cima da mesa, mas não vejo isso plasmado, nomeadamente no decreto-lei mais recente, nem tudo aquilo que tem sido feito do ponto de vista do governo central, até porque no nosso caso de Arruda, a tempestade Cristina foi bastante impactante, mas no nosso caso foi em crescendo com a depressão Leonardo, Marta e todos esses fenómenos anormais que foram fazendo do Conselho de Arruda um caso em que houve um somatório que foi constantemente a agravar, faz com que tenhamos cerca de quatro dezenas de vias completamente ou intransitáveis e cortadas na totalidade ou a ser monitorizadas, mais de seis dezenas de desalojados e um rasto de destruição que é de calamidade. Eu não consigo perceber, a população está muito revoltada também, porque não se percebe e temem por aquilo que é todo este conjunto de medidas que começam a ser desenvolvidas, que ponham em causa aquilo que é os nossos empresários, que estão a ter graves problemas também, nomeadamente no escoamento dos seus produtos, porque as vias estão completamente intransitáveis e que não veem uma solução à vista, porque aquilo que é prometido e aquilo que é concretizado, materializado e visível, não é coincidente.

É um sentimento de abandono que eu ouço na voz de Carlos Alves?

Não sei se é um sentimento de abandono, mas é um sentimento de que, embora seja visível todo este estado de calamidade, bate contra uma parede e que não tem essa concretização que é da mais elementar justiça. Temos muitos municípios, muitos conselhos afetados, mas Arruda também tem aqui um rasto de destruição de muitos milhões de euros, que um orçamento de 22 milhões, que é o orçamento municipal, não consegue fazer face. Há a necessidade de termos aqui uma intervenção forte por parte do governo central a tratar de forma igualitária, equitativa, aquilo que é uma situação, repito, de calamidade, em que nem esse estatuto de contingência nós temos e muito menos o de calamidade. Neste momento, o que nós temos em Portugal são dois pelotões, um de municípios que têm ou que tiveram esse estado de calamidade e outro pelotão que não foi sequer abrangido. Isso deixa algum mal-estar, deixa alguma intranquilidade na sociedade civil, no tecido empresarial, nos agricultores. O nosso topônimo é logo a primeira pista, somos Arruda dos Vinhos, eu tenho visitado empresas, tenho visitado produtores vitivinícolas e as suas vinhas estão muito danificadas. Há aqui esse rasto de destruição e de calamidade que é muito oneroso para todos estes empresários. Nós já estamos no terreno da parte municipal, da parte da autarquia, a fazer face àquilo que são alguns troços de via que nós conseguimos intervir por intermédio de empresas. Mas essa é a nossa ação direta. O que eu peço é a ação do governo central, que é fundamental para se fazer face a uma situação que, repito, é de calamidade e que não vem sendo reconhecida.

Carlos Alves, muito obrigado por estes minutos que esteve para estar conosco à conversa na Rádio Observador. Uma continuação de bom trabalho. O Explicador regressa na segunda-feira. Obrigado.