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Numa altura em que outra sigla entrou na campanha, a ADIL, entrevistamos neste explicador o deputado liberal e vice-presidente da Assembleia da República, Rodrigo Saraiva. Uma entrevista conduzida pela Judite França e pela Vanessa Cruz.
Muito bem-vinda à Rádio Observador, Rodrigo Saraiva. O PS tem dramatizado as consequências de um eventual entendimento entre a Aliança Democrática e a Iniciativa Liberal. É preciso transparência na estratégia dos partidos à direita? É preciso que a ADIL digam ao que vão, já?
Boa tarde, Vanessa, e também boa tarde à Judite. Transparência é uma exigência para todos os partidos. Nós estamos numa campanha eleitoral, estamos a caminho de umas eleições e todos os partidos ou as coligações que se apresentam a eleições devem com transparência dizer aquilo a que vêm, aquilo a que vão, como é que se apresentam. É o que a Iniciativa Liberal tem feito desde o início, apresenta as suas listas, apresenta as suas pessoas e apresenta também as suas ideias para o país, num programa eleitoral que está apresentado. E Rui Rocha, diariamente, quer na fase agora de campanha, como nos debates anteriores, tem dito o que a Iniciativa Liberal pretende. Pretende mais ambição para Portugal, pretende acelerar Portugal, pretende mais exigência na governação e as medidas da Iniciativa Liberal são muito conhecidas ao nível da fiscalidade, quer na baixa de impostos e na simplificação fiscal, quer numa mais liberdade de escolha, quer na saúde, quer na educação, quer num combate fortíssimo à burocracia, entre um outro vasto conjunto de propostas, porque temos um programa eleitoral vasto, que demonstra que a Iniciativa Liberal é um partido que critica, mas não é um partido de protesto, é um partido que está em Portugal para capacidade de governar Portugal, tem as ideias para governar Portugal, tem as pessoas para governar Portugal e queremos acelerar Portugal e que haja progresso e haja melhor vida para os portugueses.
E é um partido que é capaz de ceder perante as exigências de um parceiro de coligação?
Eu não sei se a expressão é uma questão de cedência. Quando em qualquer momento, duas ou três partes têm que sentar a uma mesa para chegar a um consenso ou a uma convergência e um caminho a seguir, tem que haver, como em qualquer processo de negociação, cedência de todas as partes e nesse momento se verá, dependendo também daquilo que é a força com que cada uma das partes chega ao momento em que se senta à mesa. E essa força é responsabilidade dos portugueses. A Iniciativa Liberal, aquilo que tem dito é que as pessoas que tiverem vontade de acelerar Portugal, de baixar impostos, trazer mais liberdade de escolha na saúde, têm que dar mais força à Iniciativa Liberal para quando depois do dia 18, nós tivermos que nos sentar à mesa com alguém, termos mais força para os impostos poderem mesmo baixar, para que o acesso à saúde melhore. É isso que Rui Rocha tem dito de uma forma muito transparente ao longo da campanha e ao longo da fase de debates.
O que se pode esperar no dia 19 de um entendimento entre AD e IL?
Se a Iniciativa Liberal tiver mais força, aquilo que em primeira instância os portugueses podem esperar é estabilidade, porque as campanhas eleitorais, as eleições, é algo que é essencial numa democracia, mas em democracia também é essencial a duração de mandatos. Aquilo que em Portugal o nosso sistema eleitoral prevê, o nosso sistema político prevê, é que os mandatos devem durar quatro anos. E aquilo que é nossa responsabilidade e que os portugueses podem esperar, é que durante quatro anos haverá estabilidade e haverá ambição e exigência, e haverá um acelerar de Portugal na vertente dos impostos, da saúde e da educação e até de políticas na habitação, que é talvez uma das principais crises que neste momento Portugal enfrenta.
E isso tudo com a Iniciativa Liberal no governo, só dessa forma é que pode acontecer. Rui Rocha tem, de resto, apontado alguns ministriáveis.
Rui Rocha também já falou, dependendo de outros cenários, de uma possível vertente de acordos de incidência parlamentar. A solução será responsabilidade dos portugueses. Se os portugueses derem mais força à Iniciativa Liberal, a nossa ambição terá também como resposta a responsabilidade de governarmos o país.
É culpa da Iniciativa Liberal que o CDS esteja a ser esquecido da equação depois de Montenegro ter dito que escolheria Rui Rocha para fazer uma dupla no vôlei pós-eleitoral, acrescento eu?
Não, são temas da AD. Nós quando falamos em AD, falamos dos partidos que integram a AD, mas se alguma coisa se passa dentro da AD, é a AD que tem que resolver, não é a Iniciativa Liberal que terá que pronunciar.
Mas para a Iniciativa Liberal não haverá qualquer problema de haver aqui um entendimento pós-eleitoral com o CDS, integrar um governo também com ministros do CDS?
Vamos fazer um exercício. Nem que seja por exclusão de partes, eu penso que é óbvio para todas as pessoas, para todos os portugueses, quais é que são os partidos com quem a Iniciativa Liberal, em sede parlamentar, se pode sentar para falar e com quem é que não se senta, relativamente a coincidência de visão e de propostas. E parece-me que nem que fosse por exclusão de partes, o PSD e o CDS são partidos com quem nós nos podemos sentar para desenhar propostas para o país, sendo que obviamente são partidos diferentes. Se não houvesse a necessidade de haver um partido com ideias liberais na política, na economia, em todas as áreas, a Iniciativa Liberal não teria surgido. Ainda estariam liberais integrados em outros partidos, mas havia esta necessidade. A Iniciativa Liberal é um partido diferente de todos os outros. Alguns, não há convergências possíveis, não é possível nós sentarmos à mesa com partidos, sejam eles de esquerda ou aqueles que se afirmam de direita, que têm uma visão em que o Estado é que controla e que dirige, em que querem mais despesa pública. Com esses nós não nos conseguimos sentar. Partidos que não têm essa visão tão vincada, nós podemos sentar e podemos trazer esses partidos para uma visão mais liberal, para uma visão em que se dá mais liberdade às pessoas para fazerem as suas escolhas na sua vida, no dia a dia, para uma visão em que se dá mais condições às empresas para prosperarem com menos impostos, com menos burocracia. Há partidos com quem é possível trazer para esta visão. Há outros que não, e com esses nós não nos sentaríamos para qualquer tipo de entendimento, como é óbvio
Questionado sobre a revelação feita no sábado pelo presidente da Iniciativa Liberal, Rui Rocha, sobre o convite do PSD para uma coligação pré-eleitoral, Luís Montenegro disse que não queria falar sobre mexericos políticos. É uma boa expressão?
É uma expressão com alguma piada. O que eu acho que é interessante é: vamos lá ver que notícia nós temos aqui. A notícia é que após a dissolução do Parlamento e após a queda do governo, houve dirigentes da AD e dirigentes da Iniciativa Liberal que tiveram conversas. Eu acho que esta é uma notícia que não surpreende ninguém. Isto foi uma questão perfeitamente normal, natural. Aconteceu, foi muito rápida. Acho que há aqui uma novidade. Não houve tanta pressão para a Iniciativa Liberal entrar numa coligação pré-eleitoral. E aqui não estou a falar só de responsáveis políticos, estou mesmo a falar naquilo que são os painéis de comentadores nas televisões. No ano passado, antes das eleições anteriores, a Iniciativa Liberal foi muito mais pressionada para entrar numa coligação pré-eleitoral do que este ano, porque este ano era óbvio que perante estes 11 meses, haveria claras diferenças de ambição entre a Iniciativa Liberal e a AD. A Iniciativa Liberal é mais exigente, é mais ambiciosa na baixa de impostos, na melhoria da saúde, nas políticas para habitação. E portanto, este ano essa pressão foi menor. Mas obviamente que não surpreende ninguém que, com toda a naturalidade, após a dissolução do Parlamento, tivesse existido algumas conversas entre pessoas da AD e da Iniciativa Liberal.
Mas Rui Rocha sentiu necessidade de fazer essa revelação de uma forma mais clara?
O Rui Rocha ainda hoje explicou que isso foi no contexto de algumas declarações de alguns responsáveis da AD, que parece que estavam esquecidos dessa situação. Foi só uma clarificação, porque tal como no início desta conversa que estamos aqui a ter, os partidos têm que ser transparentes com os portugueses. E perante algumas dúvidas, Rui Rocha esclareceu só, com toda a naturalidade, que essas situações tinham acontecido para que ninguém tenha qualquer tipo de amnésia.
Mas está a referir-se a que declarações em particular, e de quem?
Foi óbvio algumas declarações de Nuno Melo a falar de uma coligação só com duas partes, que não havia. Reparem, houve uma coincidência de uma expressão que Rui Rocha tem utilizado e que o Luís Montenegro também utilizou depois. Luís Montenegro citou Rui Rocha ao dizer que a coligação mais importante é a coligação com os portugueses. Isto demonstra alguma sintonia. Se outros não tiveram essa sintonia, foi preciso sintonizar com transparência. Rui Rocha só clarificou com toda a naturalidade que era óbvio que tinha havido algumas conversas. Mas sem drama nenhum. Eu penso que também a reação do Luís Montenegro, com uma expressão com alguma piada dos mexericos, pode não ser a mais feliz, mas também não confirma nem desmente e, portanto, com toda a naturalidade, ele também quis passar à frente.
Mas o facto de Luís Montenegro falar em mexericos e ao mesmo tempo não desmentir Rui Rocha acaba por ter aqui uma leitura política. Pode eventualmente até gastar as relações entre PSD e IL?
Não, uma questão de gastar ou de mimar, desculpe-se pela expressão, as relações entre partidos. A política, como os liberais costumam dizer, é um mercado muito concorrencial e é um mercado com produtos políticos, ofertas políticas bastante diferentes entre si. E como são diferentes, há dias em que podem convergir, há dias em que têm divergências e que fazem crítica uns e outros. Eu vejo isto com muita naturalidade e eu acho que não há desgaste da parte de ninguém. Aliás, durante esta legislatura, a Iniciativa Liberal e também Rui Rocha, que é o líder da Iniciativa Liberal, quando foi preciso, fomos muito críticos com o governo da AD. As relações não se desgastaram por isso, porque há momentos em que eles têm que ser criticados. Quando estão a cometer erros, quando estão a ser pouco ambiciosos, têm que ser criticados. E a Iniciativa Liberal critica, mas a Iniciativa Liberal também não é um partido que se limita a criticar e a protestar, apresenta soluções concretas para o país, demonstra aquilo que é a sua responsabilidade, e isso ficou muito patente quando foi o dia da votação da moção de confiança. Nós somos um partido responsável e acima de tudo o interesse dos portugueses. E todos os estudos de opinião a seguir vieram confirmar que o único partido que esteve sintonizado com os portugueses foi a Iniciativa Liberal. Os portugueses não queriam eleições agora, os portugueses não entendem porque é que vamos ter eleições agora e só a Iniciativa Liberal votou naquele dia nesse sentido. Mas esta foi a decisão da maioria dos partidos na Assembleia da República. Aqui estamos em eleições e a Iniciativa Liberal aqui está com as suas ideias, com as suas pessoas, com a sua visão, a dizer: é preciso mais ambição, é preciso exigência na governação e os portugueses sabem que podem contar com a responsabilidade da Iniciativa Liberal. Quanto mais força nos derem, mais Portugal vai acelerar.
A irritação de hoje de Luís Montenegro com uma pergunta sobre a Spinaviva, se estava ou não arrependido de se ter desvinculado da empresa mais tarde do que mais cedo, estando o líder da AD precisamente em espinho, tem algum cabimento esta irritação?
Nós já dissemos várias vezes que este assunto em torno da Spinaviva poderia ter sido resolvido rapidamente e na primeira hora pelo próprio Luís Montenegro, se tivesse esclarecido logo tudo. Há poucos dias alguém falava de uma expressão de que todas as explicações vieram a conta-gotas. E portanto, o Luís Montenegro, goste ou não goste, esteja irritado ou não esteja irritado, só se pode queixar de si próprio na gestão desta situação, porque se toda a informação, toda a clarificação tivesse chegado no primeiro momento, não teríamos nem sequer chegado a eleições.
Tendo em conta esta irritação, de algum modo, há aqui um desconforto crescente de Luís Montenegro em relação à comunicação social?
Já no passado houve algumas declarações que demonstraram essa irritação, mas para a Iniciativa Liberal a imprensa tem que fazer o seu trabalho. Nós sabemos que nem sempre vamos gostar daquilo que a comunicação social transmite, mas a comunicação social tem que ser livre para fazer o seu trabalho. Nós dizemos sempre a expressão quarto poder, que é atribuído à comunicação social, não é uma expressão Com pouco significado. Não, ela tem significado. Um Estado de direito tem os três poderes formais e tem o poder informal que é a comunicação social. Nós não vamos gostar sempre daquilo que sai na imprensa, que sai nos jornais, na televisão, nas rádios, nos sites, mas são as regras do jogo. A imprensa algumas vezes escreve umas coisas que nós gostamos, outras vezes escreve umas coisas que nós não gostamos.
Hoje houve uma altercação na campanha do PS entre um deputado do Chega e um militante da Juventude Socialista. Isto é prova de que a campanha está a ficar demasiado tensa?
Eu confesso que não estou a par disso. Vi só um título sobre isso, não sei o que se passou. É um facto que a política nos últimos anos, não só em Portugal, também acontece noutros países, está a ficar mais polarizada, com mais tensão, e portanto aos políticos exige-se responsabilidade. Há uma expressão que é o gelo nos pulsos, porque a política não pode ser algo onde cabe a violência.
Por falar em campanha tensa, teme que a Iniciativa Liberal seja alvo de outras ações nesta reta final, nesta última semana, como a daqueles jovens que atiraram pó verde a Rui Rocha?
Esperamos que não, nem na campanha da Iniciativa Liberal, nem em qualquer campanha político-partidária. A liberdade política é um bem essencial e as pessoas podem debater, podem discordar, escusam de passar alguns limites da urbanidade. Do dia de ontem, aquilo que depois até é mais chocante, é que Rui Rocha apercebeu-se daquela invasão do palco e dirigiu-se até aos jovens para falar com os jovens e disse-lhes: "Podemos falar no final". E isso não foi suficiente para aqueles jovens, e mesmo assim eles levavam o objetivo de lançar aquele pó, independentemente daquilo que Rui Rocha tivesse dito ou como tivesse agido. É uma infelicidade, e os jovens que lutam pelas causas ambientais, que é uma causa justa, têm que perceber que quando têm ações destas, recorda-se que não foi só agora Rui Rocha, já tinha sido Luís Montenegro, no passado Duarte Cordeiro. Os jovens têm que perceber que estas ações não contribuem em nada para as causas que eles supostamente estão a defender.
Rodrigo Saraiva, muito obrigada por ter vindo ao "Directo ao Assunto", aliás, ao explicador da tarde política. Até à próxima.
Muito obrigado e boa tarde.